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A última vez que escrevi sobre a prisão de MCs foi quando Cabelinho e Maneirinho foram intimados a depor na Cidade da Polícia, no Rio de Janeiro.


Quatro anos se passaram, e, lamentavelmente, sigo podendo começar este texto quase do mesmo jeito.
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Reproduzindo o texto anterior, seria algo assim: na manhã de 29 de maio de 2025, a cena musical brasileira despertou em meio a uma nova onda de indignação nas redes sociais. Artistas do funk, como ORUAM, MC Maneirinho e Major RD – apoiados por rappers, atores e influenciadores negros – reagiam com revolta à prisão de MC Poze do Rodo.


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Imagens da cobertura midiática se espalharam rapidamente: Poze, sem camisa, descalço, algemado e com a cabeça forçada para baixo por policiais que o escoltavam, era abordado por repórteres em busca de uma declaração.


Diante da pergunta “o que você tem a dizer, Poze?”, ele respondeu com aquilo que deveria ser óbvio: “Falar assim? Como que eu falo assim, tia?”

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Essa não é a primeira vez que Poze do Rodo é alvo de investigações por suposta apologia ao crime.

Em 2019, foi detido durante um show em Mato Grosso; em 2020 acusado também por associação ao tráfico por cantar em um baile funk; e, em 2023, foi investigado no âmbito da Operação Rifa Limpa. Embora já tenha dito que não goste de falar disso em público, quando foi absolvido, Poze publicou uma breve mensagem nas redes sociais agradecendo a decisão e comentando que havia superado seu maior medo: ser preso.


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Agora, mais uma vez, a acusação parece repetir um enredo conhecido: segundo relatos da mídia, Poze teria cantado músicas que fazem referência ao Comando Vermelho durante um baile funk onde havia pessoas armadas, conforme indicam vídeos que circularam nas redes. O caso remete a prisões anteriores de MCs e reforça o que muitos artistas já denunciaram como uma perseguição sistemática a Poze e outros cantores do gênero.


O gênero em questão é o funk proibidão, conhecido por retratar a realidade do tráfico de drogas nas favelas. O baile funk, por sua vez, é o espaço onde esses proibidões são performados, muitas vezes fora dos circuitos convencionais de distribuição musical, como as plataformas de streaming.


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Nesse contexto, aprendem códigos, linguagens e comportamentos, o que inclui músicas, que podem ou não ser reproduzidos publicamente naquele espaço, sendo caso de vida ou morte.

A rapper Duquesa traduziu bem essa tensão ao apagar uma trend no TikTok com sua música “Fuso”, tentando se esquivar de possíveis acusações de apologia após perceber que os gestos promovidos no vídeo podiam ser associados, em certos contextos, a facções criminosas.


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Se sinais, gírias e letras são constantemente mobilizados para reafirmar diferentes identidades, socialmente legitimadas ou não, a pergunta que venho tentando responder é: afinal, como o direito penal brasileiro define – e, principalmente, contra quem escolhe aplicar – a noção de apologia ao crime quando o que está em jogo são as músicas?


MÚSICA E IDENTIDADE: O QUE É APOLOGIA?


“Arranca a cabeça e deixa pendurada. É a Rotam patrulhando a noite inteira. Pena de morte à moda brasileira!”

Quando a letra destacada acima foi cantada, homens fortemente armados estavam presentes, acompanhados de autoridades locais. Não se trata de um caso isolado: basta uma rápida busca nos principais jornais ou nas redes sociais para encontrar outros exemplos de celebrações marcadas por músicas de teor violento.


A justificativa usada para a prisão de MC Poze poderia se aplicar perfeitamente a essas outras celebrações, pois como afirmou a Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), trechos como o destacado acima “incitam confrontos armados entre grupos rivais, o que frequentemente resulta em vítimas inocentes” e “extrapolam os limites constitucionais da liberdade de expressão e artística, configurando crimes graves de apologia ao crime”.



Eis a ambiguidade central do tema: o trecho destacado, se não contivesse a palavra “Rotam”, poderia facilmente ser associado a uma facção criminosa. Mas, na verdade, trata-se de uma canção interpretada durante um evento oficial em comemoração aos 13 anos do Batalhão de Polícia Tática (BPOT), no estado do Pará, com a presença do governador Helder Barbalho. Neste caso, curiosamente, ninguém foi acusado de apologia ao crime.


A ambiguidade sobre o que configura apologia ao crime é pouco problematizada no direito brasileiro e costuma depender da percepção subjetiva de quem julga. Um experimento da literatura criminológica norte-americana ajuda a ilustrar a problemática desse viés subjetivo: nos EUA, letras de gangsta rap são frequentemente utilizadas em processos criminais.


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Em 1996, a psicóloga Carrie Fried apresentou a 118 participantes brancos a mesma letra da música folk “Bad Man’s Blunder”, do Kingston Trio, variando apenas o gênero atribuído: folk, country ou rap. Os participantes avaliaram a letra como muito mais ofensiva e incitadora de violência quando acreditavam se tratar de rap.


Nos anos seguintes, as replicações do estudo sempre indicaram resultados semelhantes, motivo pelo qual esse tipo de distorção – em que o gênero musical, e por extensão a raça e o contexto social do artista, pesam mais que o conteúdo – levou a Califórnia, em 2023, a proibir o uso de letras musicais como prova em processos penais.



O uso da música como afirmação de identidade e forma de posicionamento político ou social não é novidade, e aparece em diferentes contextos ao longo do tempo. Ainda nos anos 1980, Bezerra da Silva já era acusado de fazer apologia ao crime por suas letras, embora deixasse claro que estava apenas “resgatando a voz do morro”.


Nas décadas seguintes, tanto MV Bill quanto os integrantes do Planet Hemp também enfrentaram investigações por apologia ao retratar a realidade das periferias urbanas, fato que se repetiu no início dos anos 2000 com os funkeiros Smith, Tikão, Didô e Frank. Por outro lado, músicas que exaltam práticas ilegais cometidas por agentes do Estado raramente enfrentam a mesma reação.


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Além do já citado caso da Rotam, circularam recentemente nas redes sociais vídeos de policiais militares, dentro de quartéis, cantando músicas que glorificam a violência do Massacre do Carandiru, com trechos como: “lá só tinha lixo, a escória, na moral; foi dado pista quente para derrubar geral; bomba, facada, tiro e granada.”


Também têm ganhado destaque os chamados “funks das milícias”, vinculados a grupos paramilitares na Zona Oeste do Rio de Janeiro. Diferente dos casos envolvendo artistas como Poze, essas últimas músicas raramente resultam em investigações e punições.


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No caso da prisão, em 2010, do MC Smith, por exemplo, restou que o judiciário atuasse como uma espécie de encarnação do bem combatendo o mal. À época, Eduardo Backer (2013) analisou o discurso jurídico apontando que, desde o processo inquisitorial, delegados defendem que as letras das músicas e as opiniões dos artistas são praticamente a mesma coisa.


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No processo penal, os acusados aparecem apenas como figuras distantes, tratadas na terceira pessoa, servindo para confirmar as ideias pré-concebidas dos agentes do sistema sobre os fatos em julgamento: a violência que incita a música. Talvez, se não se tratasse de um gangsta rap – traçando aqui aquele nosso paralelo com os Estados Unidos – a interpretação fosse diferente. Fala-se sobre os funkeiros como se suas vozes fossem dispensáveis, já que tudo que se precisa saber estaria contido nas músicas.


É o “bem”, o judiciário, enfrentando o “mal”: o MC levado descalço e sem camisa para a delegacia, tratado como um criminoso perigoso por causa de suas letras e performances, como se representasse uma ameaça real no trajeto entre sua casa e o distrito policial.

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Ainda que esteja evidente a seletividade penal na definição de quem comete apologia ao crime por meio de músicas, a crítica aqui não é uma defesa pela punição universal: prender quem canta é uma resposta demagógica, que tenta oferecer soluções simplistas para um problema estrutural, mascarado pela retórica do bem contra o mal.


Mesmo medidas como proibir agentes do Estado de cantar essas músicas não enfrentam a raiz da questão, que está na formação policial, no imaginário social e nas políticas neoliberais de um Estado punitivo. O problema do sistema de justiça (e do próprio Direito) não se limita às interpretações subjetivas da lei de apologia, mas ao fato de que ele opera como agente ativo na reprodução das desigualdades.


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Em outras palavras, o direito brasileiro não falha ao aplicar a lei, pois ele funciona exatamente como foi concebido: com instituições moldadas para flexibilizar o princípio da legalidade sempre que isso for conveniente aos interesses da classe senhorial. Nesse sentido, a apologia não é apenas interpretada de forma desigual. Ela é, em sua essência, instrumento de manutenção dessa desigualdade.


Talvez, por ora, nos caiba apenas afirmar e defender que o MC Poze não deveria estar preso. Se suas músicas são ou não apropriadas e utilizadas para reafirmar uma identidade territorial, legal ou não, este não é motivo suficiente para sua prisão.


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O “eu lírico” existe também no funk, assim como existe em outras expressões musicais que abordam a violência urbana sem sofrer o mesmo peso do estigma racial e social que recai sobre Poze. A polícia mata todos os dias, sob legítima defesa ou não, mas cantar sobre essa violência não carrega o mesmo efeito jurídico e social.


Em nenhuma dessas situações o problema – a violência urbana – é atacado em sua raiz, e talvez isso se explique pelo fato de que nunca houve real intenção de enfrentá-lo como tal.

O que parece importar, afinal, é a fabricação de inimigos visíveis, de “bandidos” identificáveis, cuja prisão seja politicamente útil e viável para o Estado: é mais fácil vender a ideia de que se está resolvendo a crise da segurança pública prendendo o MC do que encarar as estruturas de poder que de fato sustentam e lucram com a engrenagem do crime: empresários, políticos e outros agentes que jamais seriam escoltados algemados, sem camisa, descalços e com a cabeça forçada para baixo.


Referências Bibliográficas

ARAIBI, Reyna. Every Rhyme I Write": Rap Music as Evidence in Criminal Trials. Ariz. L. Rev., v. 62, p. 805, 2020.
PEREIRA, Eduardo Baker Valls. Ensaio por uma criminologia perspectivista. 2013. 154 f. Dissertação (Mestrado em Direito Civil Constitucional; Direito da Cidade; Direito Internacional e Integração Econômica; Direi) - Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.
SILVA, Emerson Luã Ferreira da. “Bezerra da Silva é o pai do proibidão”: crimes de apologia e a criminalização do funk carioca. 2023. 144 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2023.

 
 
 
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“Nós não temos que esperar para ser notados, mano. Tem coisa que a gente tem que invadir mesmo. Fazer.” Raduan, Praias de Minas

Quem nasce no miolo do vetor norte da Grande BH já nasce sabendo que vai ter que inventar um caminho. E Praias de Minas é isso: um grupo que mais parece atalho sonoro entre o Minas e o mar — mesmo que o mar seja só metáfora.


Formado por Febá e Raduan, o grupo lança som desde 2019, mas em 2024 bateu diferente com o EP "Regras do Sítio", um compilado de cinco faixas que mais parece temporada de série. Tem começo, meio, fim e aquele gostinho de “rolê que você queria ter vivido”. Agora o EP também virou pocket show, gravado no quintal de casa e lançado no YouTube com apoio da Lei Paulo Gustavo.


“É tipo tiny desk, mas com churrasco”, resume Raduan.


E foi desse jeito, sem gravadora, sem play de TikTok, sem moldura de centro, que os mano foram fazendo barulho. Barulho íntimo, diga-se. Aquela contradição que Minas sabe bem guardar: sutil, mas profundo. Como eles dizem, não é sobre ostentar, é sobre evidenciar.


“É o som do mar em qualquer lugar, tá ligado?” — Raduan, Praias de Minas

Para Febá e Raduan, o mar é estado de espírito. É memória de rolê, é quintal com piscina de plástico, é beat atravessando a cerca viva da vizinha.


📷: @abouts.k
📷: @abouts.k

É nesse lugar — entre o imaginado e o concreto, entre a margem e o centro — que nasceu o grupo Praias de Minas, vindo direto da zona de sombra da RMBH, onde a cidade se dilui, onde as regras do jogo são outras.


Eles rimam, produzem, editam vídeo, fecham o corre. Fazem música, mas sem se enquadrar no anseios do mercado. É o som de quem constrói estética com o que tem, não com o que mandam ter.


"O nome é manifesto, mano"


📷: @abouts.k
📷: @abouts.k

Raduan entra logo cortando:


“A gente queria fazer um bagulho bem memorável, tá ligado? E vendo essa ideia de evidenciar um bagulho nosso mesmo… Praias de Minas. Tipo assim: não falta nada pra nós.”

Pra quem não entendeu o recado, Febá completa:


“No mar de genericismo, a gente tá tentando fazer uma parada um pouco mais autêntica, que tem mais a nossa cara.”
📷: @abouts.k
📷: @abouts.k

São José da Lapa é o berço do grupo. Uma dessas cidades coladas em BH que o mapa não dá muita atenção. Mas é ali, com microfone na mão e beat no fone, que Praias de Minas tá criando um som difícil de classificar.


“Os manos ficam confusos. Não é trap, não é boom bap. Só que os mano só têm essas duas referências. No nosso EP mesmo, cê ouve reggaeton, ouve influência de house, funk, Jersey Club... Tudo que a gente escuta aqui. Isso é regionalidade também, tá ligado?”, manda Raduan.

Começo de quintal, processo de fé



Quando se conheceram, não tinha nome, nem grupo, nem plano.


“Eu tinha 18, ele 17. A gente tava começando a vida adulta, e começando a rimar também. Tava reaprendendo o mundo, tá ligado?”, conta Raduan.

O encontro foi no detalhe, tipo quem tropeça no próprio destino.


“Nós colou trocando ideia sobre o álbum Damn, do Kendrick Lamar, sobre um som específico. Aí eu percebi que o algoritmo dele era igual ao meu. Era isso. Conexão.” — Febá


E com o tempo, essa conexão virou processo. Um processo de fé e paciência — que vai além da parceria entre os dois. Exemplo disso é o rapper baiano Matchola, que já saiu em uma resenha aqui na Menó e participa do EP na faixa Pesque e Pague.


“Às vezes ele (Febá) me manda um beat já com as pausas certas, sabendo onde vou mudar o flow. Às vezes eu mando um refrão e ele mexe numa parte da letra. Não tem fórmula, mas tem sintonia.” — Raduan

Uma dupla que se sustenta no corre.


“Tem dia que você tá batido, amassado. Aí o outro puxa. Vamo fazer. Vamo lançar. Vamo continuar. Isso salva.” — Raduan


“Eu já fiz beat que ele odiou. Ele já escreveu verso que eu cortei. Mas a gente se entende. Se não bateu pros dois, não sai.” — Febá

E talvez seja isso que mantém a chama: não é só som. É aliança. É amizade que vira projeto. É projeto que vira linguagem.


No eixo da margem


Eles vêm do vetor norte, mas já passaram por outros cantos. Raduan morou em Melo Viana em Esmeraldas e Contagem. Febá nasceu e foi criado em São José da Lapa.


“Aqui o tempo é outro. A gente aprende a esperar. E aprende a fazer com o que tem. Cê gasta uma hora só pra ir num rolê em BH, fora a volta. Então tudo tem que ser pensado. Medido. Com intenção.” — Febá


“Tipo assim, fazer um show é uma guerra. Porque não tem casa de show pra nós. As que tinham tão fechando. Então o que a gente fez? Organizamos o nosso, mano. No sítio mesmo. Com van, com os de fé. É isso.” — Raduan

Esse é o cenário de onde nasce o som do Praias de Minas: território sem glamour, mas com verdade.


Sítio como território, beat como memória



O EP nasceu no quintal, e virou o audiovisual “ao vivo” mais íntimo da cena. O plano era claro:


“Vamos usar o que a gente tem aqui. Isso atribui valor pros nossos. Pra quem faz com o que tem. Tipo assim, os moleque daqui também pode.” — Raduan


E isso inclui o cenário, a direção de arte, os convidados. Nada de gravar com cenário de Pinterest ou modelo de produtora.


“É sobre trazer os pontos específicos da nossa vivência pra tornar o bagulho mais pé no chão. Porque tipo assim, o cara na rua tromba nós de palio, não de Ferrari”, brinca.

Febá não alivia na real:


“Essa é a nossa vibe. Festa em casa. Tudo no processo foi muito caseiro, tipo... eu comigo mesmo fazendo o beat, o Matheus (Raduan) sozinho na letra, depois a gente junta.”

Mais que som, é uma cena: a casa, a laje, o quintal, à mesa, os amigos.


“A gente sempre quis fazer mais do que só música. Contar história, dar rosto pro som. E fazer com o que tem. O clipe de “Pelas” foi gravado na casa da minha vó. Deu trabalho pra ela depois. Mas era pra encapsular isso: nossa vibe caseira.” — Febá


“Tudo nós que faz. Eu edito os vídeos. Faço os cortes, as transições. Porque é isso também: se nem você se importa com o visual do seu som, por que alguém se importaria o suficiente pra dar play?” — Raduan

E mesmo sendo simples, é poderoso. Porque tem intenção. Tem memória.


“Eu lembro dos DVD da feirinha, dos clipes que marcavam. A gente quer fazer isso também. Criar espaço na memória das pessoas. Mesmo sem estúdio caro, sem produtora famosa.” — Raduan

“Essas regras já tão ditas, sacramentadas”


“Regras do Sítio” é título e síntese. Um EP sobre um rolê que não precisa de legenda.


“As regras são vividas. Tipo assim, mano… cada faixa é uma sensação que acontece na resenha. Começa na vibe, vai subindo a onda, aí vem as brisa torta, a nóia, a paixão mal resolvida… são as regras que tão ali, sacou?” — Raduan


A gente foge da hipérbole. Não tem Ferrari, não tem putaria gratuita. Tem nóis mesmo. Tipo... a DR na resenha, o olho vermelho, o parceiro que sumiu no meio da festa. As coisas que acontecem, tá ligado?”, diz Febá.

Cada faixa, uma maré


O EP tem 5 faixas, cada uma com uma vibe, um estado mental. Mas todas costuram uma narrativa comum: a festa como metáfora da vida periférica.


“A gente pensou como uma resenha mesmo. Começa com Pelas, que é o clima alto astral. Depois vem Dragão Negro, mais paranoico, mais introspectivo. Pesque e Pague é a paixão meio errada, meio quente. Aí vem Fogo de Rolê, que é tipo... o baque. E por fim, Vai Chover, que é o fim da festa.” — Raduan

As cinco faixas seguem esse fluxo:


  1. Pelas: festa, celebração, refrão chiclete.

  2. Dragão Negro de Olhos Vermelhos: paranoia, introspecção.

  3. Pesque e Pague (com Matchola): paixão bruta, vulnerável.



“São experiências que acontecem. Não é regra escrita, mas vai acontecer. Cê vai pirar, cê vai se perder, vai olhar estranho pra um mano, vai bater nóia. E vai amar também. E vai chover.” — Febá

  1. Fogo de Rolê Comigo: tensão e lição.

  2. Vai Chover: o fim da festa — mas com esperança.


“Tem que ser real. Eu escrevo puxando de coisas que vivi, mas de um jeito que quem ouve também consegue abstrair o que precisa. É mais sobre o sentimento do que sobre o fato.” — Raduan



Sobre política, rap e não se render à IA


E como não poderia ser diferente, falamos um pouco de política também — não a de palanque, mas a que atravessa o corpo, o som e a vida cotidiana. Política como existência. Como gesto.


“Rap é político por essência. Porque ele vem da margem, do aperto, da necessidade. Mas não é só na letra. Viver também é político. Amar, fazer festa, rir com os seus, isso também é resistência.” — Raduan


Pergunto se o rap precisa ser útil, se precisa sempre carregar discurso. A resposta vem afiada.


“Rap é político porque ele é um reflexo da classe trabalhadora. Desde o começo. Mas eu não acho que é dever do artista fazer som panfletário, não. Fazer churrasco com os amigos também é político.” — Raduan

“A gente não precisa criar ficção, tá ligado? Só de tá aqui, rimando sobre nós mesmo, já é resistência.” — Febá


A conversa rendeu ainda sobre os desafios de fazer arte independente num país que exige tudo e oferece pouco.


“Hoje em dia, só o som não segura. Qualquer um baixa um beat, grava no celular e posta. Isso é massa, democratiza. Mas se você quer fazer um trampo consistente, que dure, tem que ter esforço. Tem que ter intenção.” — Febá

E nesse meio, também falamos sobre inteligência artificial, hype, modismo, algoritmos...


“Se você precisa de IA pra escrever música, talvez você nem devesse escrever música. No rap, principalmente, o barato tem que vir de dentro. É pessoal. É história. É bagagem.” — Raduan


“Na produção, até uso IA pra uma coisa ou outra. Pra isolar vocal, testar uns cortes. Mas criação é outra fita. Não tem como terceirizar sentimento.” — Febá

“Hoje o algoritmo engole tudo que não segue o padrão. Mas a gente não vai ser moldado. A gente cria com o que sente. Não é IA que vai escrever por mim.” — Raduan

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Indústria, eixo e as estéticas do silêncio


É nesse clima que o papo mergulha mais fundo nas ausências — no que se cria longe dos holofotes, e por isso mesmo com mais força.


“Minas exporta queijo, comida, coisa segura. Mas não exporta a cultura jovem da margem, tá ligado? Porque ninguém quer ver. Porque não põe dinheiro no bolso de quem manda. Mas aqui tem, pô. Tem MC Papo, tem cena eletrônica forte, tem funk nosso, tem batalha. Mas não tem backing.” — Raduan


“É por isso que os mano ficam tentando parecer com SP, com o Rio. Porque é o que funciona. Mas a gente quer forçar outro caminho. Fazer com a nossa cara, no nosso ritmo.” — Febá

É nesse silêncio forçado — da indústria, das curadorias, das plataformas — que Praias de Minas arma seu barulho. Com a câmera na mão, a batida no fone, e o território no verso.


No fim das contas, é isso: não tem mar. Mas tem onda.


“Nós passou muito tempo querendo. Querendo fazer. Querendo viver. Querendo chegar lá. E agora nós tá fazendo.” — Raduan


“E se não quiserem ouvir, foda-se. A gente já tá ouvindo um ao outro.” — Febá

O som de Praias de Minas não vem pra preencher espaço de ninguém. Vem pra abrir espaço novo. E se o centro não quiser escutar, o recado já tá dado: a onda vem do interior, e vem forte. 


Final de resenha, começo de outra



Hoje, sete meses depois do EP, o grupo grava o pocket ao vivo, retoma o fogo e reacende o que ficou.


“Essas músicas sobreviveram ao tempo. Então a gente também sobrevive.” — Febá


“Se os cara não vão dar espaço, a gente cria. Se o centro não ouve, a gente grita do quintal. Até ouvirem.” — Raduan

 
 
 

Atualizado: 11 de jul.

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Com um pouco de delay, trago-lhes considerações sobre o evento que ocorreu dia 23 de Maio: a mesa Baixada Viva, Boombap Vive, promovida pelo projeto Poéticas de Cria.

Para mediar a mesa, foi chamado o artista de rua, universitário, militante por direitos humanos, morador de Belford Roxo, Caio Reis.


E os convidados, 3 Mc’s originais da Baixada.


Braga, também conhecido como Sujeira Poetizada, de Nova Iguaçu; DoisBxD e RARO, ambos de São João de Meriti.


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Com o elenco posicionado, iniciou-se o espetáculo.

Caio trouxe diversas questões. Iniciou o debate falando da História da Hidra de Iguaçu, um quilombo que resistiu durante décadas. O apelido gentilmente dado pelas forças imperiais, Hidra, faz referência à criatura mitológica que, ao ter sua cabeça cortada, outras duas nasciam no lugar, trazendo a ideia de resiliência dos quilombos da região, atual território da Baixada Fluminense.


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Baixada é Potência. Ela Vive e segue Resistindo às agressões programadas do Estado Burguês.

Quando jovens negros da Baixada, educadores populares, graduados e pós-graduados na Rua e no Hip-Hop, falam na Universidade, eles estão ocupando um espaço que lhes foi históricamente negado, estão pondo a Epistemologia em tensão e estão sobretudo vivos, falando e sendo escutados.


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RARO foi o primeiro convidado a falar.


Abordou como a união das pessoas é o que promove o corre; a coletividade é fator chave para a vivência na Baixada e para o Hip-hop.


“Boombap é Resistência”

Para ele, Boombap não é apenas um subgênero do Rap, é o Rap puro, é um Pilar da Cultura Hip-Hop, porque Hip-hop é Questionar, é fazer barulho, é Lutar.



Mas como se luta quando não se tem o básico? RARO trouxe a problemática de, por questões financeiras, muitos artistas terem de abrir mão do Hip-Hop para conseguirem o mínimo para sobreviver. Ao mesmo tempo que o Rap é uma forma de dar sentido à vida de pessoas que nada têm.


Com isso, RARO tangencia uma contradição fundamental, o Estado ataca o território o pauperizando e as únicas formas de resistir e dar sentidos à vida são rotineiramente perseguidas pelo próprio Estado. O que será que o Estado espera dessas pessoas?


Talvez a perseguição do Estado tenha a ver com o fato de o Rap não ser “só entretenimento, mas uma necessidade de falar, de se fazer ser ouvido”.

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Depois disso, veio a fala de DoisBxd, um artista que abriu mão de muita coisa pelo Hip-Hop, pelo Boombap. Esse é seu “Estilo de Vida”, está “à flor da pele” e está em sua vida.


Boombap é Vida.

É o que move DoisBe na sua jornada pelo Rio.



Com esse movimento de entrega, ele passou a viver nomadicamente em função do Hip-hop.

O Boombap também é “melhor pra pensar na vida que psicólogo”


Aqui, os aspectos catárticos (conceito aristotélico de catarsis) do Boombap foram trazidos à tona.


Boombap é Vida. Boombap é Cura.


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“Sou um ex-presidiário, preto, pobre, favelado, tenho até a 7ª série e tô aqui de tornozeleira eletrônica dando aula de hip-hop numa Universidade”

Seu périplo continua e cada vez mais espaços serão ocupados por ele.


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E por fim Braga, ou Sujeira Poetizada, trouxe algumas reflexões sobre o seu fazer artístico.


“A Arte é algo abstrato”.


Ao se deparar com sua música, o ouvinte deve-se permitir entender. Quando a compreensão não chega, talvez seja melhor ouvir com mais atenção em outro momento e se conectar.


O Rap chama para a vida.

Acorda para a realidade.


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Três clipes foram passados na mesa:



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Três obras do Boombap contemporâneo do Rio de Janeiro. Três pedradas distintas que fazer reverberar todo o peso que o rap tem para os seus artistas. Três obras de arte.


As análises de cada uma sairão em breve, devido à sua grande densidade.



 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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