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Iago Menezes aka Visualbypivete


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Penso em um dia buscar saber um pouco mais sobre minhas raízes. Ser negro é um processo contínuo de esquecimento. Me encontro aqui, não sei de onde vim, quem sou, quem posso ser e quem serei. Não tenho nem um sobrenome para começar, uma pista sequer. Tenho que lutar para não me encontrar como uma árvore oca, seca, pronta para desabar. Temos que nos apegar às raízes, mesmo que desconhecemos a sua profundidade.


“O Marinheiro das Montanhas” (2021) é um documentário bastante íntimo do diretor cearense Karim Aïnouz, que curiosamente tive o primeiro contato nas linhas do rapper também cearense Don L e seus álbuns “Roteiro Pra Aïnouz, Vol. 3 e 2”, uma trilogia que começou em 2017 com o lançamento do terceiro volume. O rapper, ao falar do porquê de homenagear o diretor que é seu conterrâneo de Fortaleza, explica que a trilogia é uma observação do Brasil, que também fala de si, de suas experiências, mas buscando sempre a dialética entre o concreto e o abstrato. Um álbum que fala sobre ideias, que projeta ideais, mas que sempre reflete a partir das mãos e dos pés do povo.


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Assista na Globo Play: https://globoplay.globo.com/v/12066479/


Uma busca pelas suas origens, uma carta para sua falecida mãe e uma investigação e resgate à memória do pai. Karim, em uma película poética, nos leva em uma busca por uma parte de suas raízes que se originam na Argélia, tendo as Montanhas Atlas em Kabylia como a base da árvore, que o fez atravessar o Mar Mediterrâneo.


No volume dois do seu "Roteiro pra Aïnouz", Don L traça a “trilha sonora da revolução brasileira”, seguindo um contexto linear histórico que lembra nosso querido velhinho vermelho, e não, não é o Papai Noel. O rapper faz o marxismo de cada dia e não busca só falar do mundo que vê, mas pensa no além, busca a sua transformação. Somos convocados para sua guerrilha, levados pelos tempos históricos, entre a colonização, a contemporaneidade e o futuro revolucionário.



O nosso documentarista cearense, que atravessa o globo em busca de suas raízes argelinas em seu poema cinematográfico, não se prende somente ao presente. Ele investiga o passado, reflete sobre o presente e idealiza o futuro, se vê ali através de pessoas que parecem tanto com ele, que carregam o seu sangue, mas também tantas barreiras os separam.


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São diversas histórias até que chegue a nossa. São gerações, um tempo que não para, e um destino que traça e escreve novos capítulos de um enredo baseado no acaso. Mas não é tão simples assim; somos nós e nossos iguais que, através de suas idealizações e ações, interferem diretamente no passado, presente e futuro. Alguns só reafirmam a tragédia, outros buscam a salvação.



Em suas jornadas pela Argélia, Aïnouz encontra diversos jovens argelinos em seu caminho. Em sua maioria, eles têm poucas perspectivas de futuro, muitos buscando escapar de seu país de origem. Esse desejo de fuga é algo que, no final das contas, o próprio diretor também compartilha, temendo ficar demasiadamente preso ao passado. Um povo que travou uma intensa luta pela liberdade contra a colonização francesa agora se vê ouvindo, de seu próprio futuro, a frase: "preferiria que a França nunca tivesse deixado o país". Jovens que tiveram sua cultura totalmente "afrancesada", são abandonados pelo colonizador e impedidos de viver na França que os forçou a assimilar também uma identidade francesa.



Karim, com uma câmera digital na mão e uma voz em off, mostra que o passado tem que ser observado com cautela; não podemos esquecer do presente e menosprezar o futuro. Don L, com suas rimas, apresenta um Brasil em suas diversas dimensões, mostra a doença, mas também busca a cura.


“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social que lhe determina a consciência.” (MARX, 1974, p. 136)"



 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 27 de out. de 2023
  • 2 min de leitura

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Derxan lançou a mixtape "Eu Mermo" (2023) pela Pineapple Storm Records e está sensacional. Penso na frase "eu mermo" como uma afirmação, um atestado de identidade. "Eu sou isso mesmo e sei que vocês vão me renegar, tentar me matar."


Cantando suas vivências em uma estética periférica, com um flow contundente, ele dá rosto para aqueles que vivem à margem da sociedade e encontram no crime, na arte ou no futebol as poucas oportunidades de sair dessa situação.


Derxan, “o próprio”, é diferente daqueles que oprimem, mas semelhante à maioria da juventude periférica que luta diariamente contra a violência de uma elite e de um Estado que não os aceita.


Suas letras são cirúrgicas, violentas, incisivas e diretas. Suas rimas fluem sobre as batidas de Ávila, Pedro Apoema, Babidi, R.Muñoz e Gshao como rajadas cortando o céu, narrando suas vivências, medos, desejos e seu ódio.



Derxan é ousado, com seu “reflexo de bolinha”, fumando um “balão” na laje de alguma casa em uma das muitas favelas do Rio. O audiovisual do projeto também está incrível, com direção do ACEITOTUDONORMAL que criou uma estética que enriqueceu muito a experiência da mixtape.


Derxan em suas músicas expressa seu ódio em relação à polícia, um sentimento compartilhado por muitos jovens negros favelados que sofrem diariamente a perseguição dos policiais. A revolta que sente daqueles que só oferecem temor e preconceito.



Ser negro e manter uma estética periférica é como colocar um alvo nas costas. As letras de Derxan carregam toda essa constante luta pela sobrevivência. Seu som é um grito de muitos que são esquecidos e marginalizados, um ódio de revolta, com toda a sagacidade dos crias.


Fotos: @_nataliaelmor e @vevemilk


Com participações de Sant, Pior Versão de Mim, Big Bllakk e MG CDD, o artista exalta o cria, o favelado, que convive com a violência diária carioca, com o caos de uma cidade que para muitos se resume apenas ao cartão postal. Um jovem que tem ódio do sistema, tem ódio da polícia e mais empatia com os "trafica", pois são seus antigos amigos de escola. Ele sabe pouco do Estado, que se mantém ausente, mas sabe bastante da firma, pois eles sim estão presentes.



"Los Pollos" com Sant, "Maçã" e "Menorzao" com Pior Versão de Mim são minhas preferidas. Mas a mixtape inteira é sensacional, e considero um dos melhores lançamentos deste ano. Tenha fé em Deus e ouça Derxan.




 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 19 de out. de 2023
  • 3 min de leitura

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Djonga lançou o seu mais novo álbum, "Inocente Demotape" (2023), com uma identidade visual que faz referência à capa do segundo e mais famoso LP da cantora norte-americana Minnie Riperton (1947 – 1979), "Perfect Angel" (1974). Diferentemente dos álbuns anteriores do mineiro Gustavo, seu mais recente lançamento, "Inocente", foge das temáticas mais sensíveis que o rapper normalmente aborda em suas músicas. Aqui, um dos maiores expoentes do rap nacional fala sobre amor, sexo, luxo, desejo... Tudo com doses de "inocência". Ver esse lado mais leve do Djonga me surpreendeu. É importante falar sobre outras coisas; sempre é bom falar de amor.


Não que a revolta não esteja presente na "Demotape". Na última música do EP, "Camarote", Djonga fala sobre ostentação, luxo, sedução, mas também aborda sentimentos como saudades, ódio e frustração por ter perdido um amigo de infância. Até quando falamos de amor, não conseguimos fugir do ódio plantado pela injustiça contra os nossos. A música é assim; ser um artista é assim. Não é apenas um simples produto; existe sentimento e uma bagagem que influenciam diretamente nas músicas.


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Sejamos justos, não é a primeira vez que o nosso mineirinho fala sobre amor. Uma das minhas músicas preferidas de "Love Songs" é "Amr Sinto Falta da Nssa ksa" do álbum "Histórias da Minha Área" (2020) de Djonga. Embalado por um sampler finíssimo, o rapper expõe seu íntimo, despeja seus medos e anseios, e principalmente, seu desejo de voltar para casa para reencontrar sua amada. É como um toque de Tim Maia para encerrar o álbum com chave de ouro. Há também "Leal" do álbum "Ladrão" (2019), que fala de amor e lealdade e possui mais de 100 milhões de streams somente no Spotify. Além disso, temos "Poesia Acústica", "Solto" de "Menino que Queria Ser Deus" (2018), "Penumbra" de "O Dono do Lugar" (2022) e "Dá pra Ser?" de "Nu" (2021). Djonga pode até falar pouco sobre o amor, mas quando fala, dá verdadeiras lições.


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Em "Inocente Demotape" (2023), o nosso mineirinho preferido conta com a ajuda de Mc Cabelinho, Veigh, Iza Sabino, Laura Sette, Tz da Coronel e Lisboa para falar sobre sexo, amor e desejo. A primeira faixa do álbum, "5 da Manhã", que conta com um audiovisual incrível disponível no YouTube, é um deleite para os ouvidos. Djonga narra em ordem cronológica sua rotina agitada de artista, que termina com uma sensação de "continuação".



"Valeu a Batalha" é outro som que mostra a versatilidade do artista mineiro, que fala sobre o limiar frágil entre amor e carência. Mesmo que nada sério tenha acontecido, aquela paixão valeu a pena. Nem tudo tem que ser eterno.

"Da Lua" com Veigh é muito envolvente. Este álbum está repleto de músicas para ouvir enquanto se está com alguém especial. O refrão cantado por Lisboa tem uma vibe única que se encaixa perfeitamente com as palavras de Djonga sobre amor e sexo, sem esquecer as particularidades da vida de um homem negro rico. "Se eu compro flores para as mulheres que gosto, imagine o que faço para as mulheres que amo."


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"Coração Gelado" é a música para os “putos românticos intensos”, que às vezes caem nas armadilhas do amor. Na fluidez dos relacionamentos contemporâneos, que versam com a velocidade das redes e a escassez do tempo. Tz da Coronel, como sempre, surpreende com seu flow e versos, encaixando o contexto do "putão" de forma impressionante.


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"Das Amantes Freestyle" e "Depois da Meia Noite", esta última com a participação de MC Cabelinho, também são ótimas. "Fumaça" é uma das minhas preferidas; pessoalmente, escutei este álbum dezenas de vezes desde o lançamento. "Fumaça sobe, ela desce, eu traço um plano." Djonga surpreendeu; esta "demotape" é um espetáculo, e espero que, a partir dessa experiência, ele continue entregando mais diversidade em suas músicas. Quem ganha é o rap nacional.



Ouça "Inocente Demotape" (2023) em todas as plataformas digitais!


 
 
 
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