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Em entrevista exclusiva ao Pivete, para a Revista Menó, o rapper fala sobre seu novo álbum, a influência dos animes e videogames em sua formação, a liberdade criativa de artistas negros e periféricos e a importância de construir uma arte que dialogue com as próximas gerações.

Quem disse que o rap precisa falar apenas da realidade que conhecemos? E quem determinou que artistas negros e periféricos devem limitar suas produções às narrativas de violência, pobreza e sofrimento?



A periferia também imagina, inventa personagens, constrói universos e sonha com futuros que ainda não existem. Talvez seja justamente nessa capacidade de imaginar outras possibilidades que esteja uma das maiores forças da nossa arte.


O rapper e produtor niLL parece compreender muito bem esse caminho. Entre referências aos videogames, mangás, animes e à cultura hip-hop, o artista construiu uma identidade musical que não se contenta em apenas contar histórias. Ele também cria os mundos onde essas histórias acontecem.



Seu novo álbum, Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo, lançado em 22 de setembro de 2026, dá continuidade a esse processo. Com 13 faixas, o projeto expande o universo de Maestro, apresentado em 2023, e introduz Mountalk, um personagem fascinado por super-heróis que, mesmo sem possuir poderes, acaba embarcando em uma viagem por diferentes períodos da humanidade.


O trabalho reúne participações de Clara Lima, Alt Niss, Maui, Fleezus e Callister, entre outros colaboradores. Com direção artística e musical do próprio niLL, responsável pela produção de dez faixas, o disco representa mais um passo na construção de uma obra que ultrapassa os limites da música.



Mas foi justamente para além do lançamento que nossa conversa caminhou.

Durante quase quarenta minutos, troquei uma ideia com niLL sobre criação artística, infância, desigualdade, responsabilidade social e o futuro.


E, entre tantos assuntos, uma questão permaneceu atravessando o diálogo: qual é o papel da imaginação na construção de uma realidade diferente daquela que nos foi apresentada?


A periferia também tem o direito de imaginar


Existe uma expectativa bastante limitada sobre aquilo que artistas negros e periféricos devem produzir. Muitas vezes, parece que nossas histórias precisam necessariamente apresentar a violência que sofremos, as dificuldades que enfrentamos ou as ausências que marcaram nossas trajetórias.


Não que essas narrativas sejam menos importantes. Pelo contrário, contar nossas próprias histórias é também disputar a memória de um país que insiste em nos apagar. O problema começa quando a sociedade transforma nossas dores na única linguagem que considera legítima para representar nossas experiências.



Durante a entrevista, provoquei niLL justamente sobre essa questão. Queria compreender como ele enxergava a liberdade de imaginar outros mundos, criar fantasias e construir narrativas que não estivessem exclusivamente presas às representações mais explícitas da desigualdade.



A resposta revelou uma preocupação que atravessa boa parte de seu trabalho: a formação das próximas gerações.


"Eu vejo que a gente precisa achar uma maneira de conversar com as crianças, principalmente. A gente precisa achar uma maneira de conversar com os jovens, que a minha maior preocupação acho que é essa, conversar com essa galera nova, com essa próxima geração, que a chance de mudar as coisas daqui pra frente vai ser eles, né?"

Para niLL, a fantasia não representa necessariamente uma fuga da realidade. Ela pode ser justamente uma maneira de aproximar o público de questões que, apresentadas diretamente, talvez não despertassem o mesmo interesse.



Em Maestro, por exemplo, uma cidade fictícia é marcada por uma divisão evidente entre riqueza e pobreza. O cenário não nasceu apenas da imaginação. Foi inspirado em uma experiência do artista durante uma viagem a Teresina, quando observou o contraste entre ruas bem estruturadas e áreas próximas marcadas pela precariedade.


Aquela imagem permaneceu em sua memória e acabou incorporada à construção de seu universo.


É interessante pensar nisso. Afinal, quantas vezes precisamos criar outros mundos para conseguir explicar o nosso?



O rap sempre foi uma ferramenta poderosa de denúncia, mas também precisa continuar sendo um espaço de experimentação. Uma criança negra pode se reconhecer em uma música sobre racismo, mas também pode encontrar referências em um personagem fantástico, em um herói ou em uma história que permita imaginar possibilidades para além das limitações impostas pelo lugar onde nasceu.


A periferia não precisa abandonar sua realidade para produzir fantasia. Ela pode transformar essa realidade em matéria para criar aquilo que ainda não existe.



Entre videogames, animes e a infância


A relação de niLL com a cultura pop começou muito antes de seus personagens ganharem vida nas capas dos discos.


Durante a conversa, perguntei sobre a influência dos animes, videogames e quadrinhos em sua formação. Durante muito tempo, esses elementos não eram associados à imagem tradicional do hip-hop, embora fizessem parte da infância e da juventude de muitos daqueles que cresceram ouvindo rap.



Ao recordar esse período, niLL falou sobre sua mãe e o esforço que ela fazia para proporcionar experiências que, naquele momento, talvez parecessem apenas entretenimento.


"Mano, eu enchi o saco da minha mãe, mano. Nossa! [...] pra me dar videogame. Nossa, pra me comprar um jogo de Dragon Ball. Nossa, eu enchi o saco dela."

A lembrança veio acompanhada do reconhecimento de que sua mãe, mesmo enfrentando dificuldades financeiras, encontrava maneiras de realizar aqueles desejos.



O que poderia parecer apenas um jogo acabou se tornando parte fundamental de sua formação.


"Acho que esse foi uma válvula de escape. E acabou virando meio que uma luz do fim do túnel também, mano."

A declaração diz muito sobre o papel que a cultura pode desempenhar na vida de uma criança.


Nem sempre conseguimos dimensionar o impacto de um videogame, de um livro ou de um desenho animado na construção de nossas referências. Muitas vezes, é justamente nesses encontros aparentemente simples que começamos a imaginar aquilo que gostaríamos de fazer quando crescemos.


Para niLL, a relação com essas obras também amadureceu. Com o passar dos anos, percebeu que as histórias carregavam reflexões sobre a existência, a sociedade e os comportamentos humanos.


O que antes era apenas diversão passou a ser também uma maneira de compreender o mundo.



Hoje, essa influência aparece diretamente em sua produção artística. A faixa Vamos Pro Mar, por exemplo, homenageia Monkey D. Luffy, protagonista de One Piece. Já Mais Alto busca reproduzir a atmosfera das aberturas de animes dos anos 1980.



As referências não aparecem como simples elementos decorativos. Elas fazem parte da linguagem que niLL desenvolveu para contar suas próprias histórias.


Afinal, o que faz de alguém um herói?


Um dos elementos mais interessantes de Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo é justamente seu novo protagonista.


Mountalk é um admirador de super-heróis, mas não possui os poderes extraordinários que normalmente associamos a essas figuras. Ainda assim, sua trajetória será marcada por situações que exigem escolhas, atitudes e posicionamentos.


Durante a entrevista, perguntei a niLL o que significava ser um herói.


"Cara, para mim, esse sentido de você ser um herói não chega nem no âmbito dos poderes, né? Eu acho que ele chega mais na esfera da atitude, da vontade, né, mano? De você olhar alguma coisa que não está certa e você falar: pô, eu legitimamente vejo que não está certo, então eu vou fazer algo por isso, tá ligado?"

Talvez essa seja uma das reflexões mais bonitas do álbum.


Estamos acostumados a reconhecer o heroísmo nas grandes conquistas, nos personagens extraordinários e nas figuras que parecem capazes de resolver problemas impossíveis.


Mas existe também o heroísmo cotidiano.


Ele aparece nas pessoas que enfrentam injustiças, que se responsabilizam por transformar alguma coisa ao seu redor e que encontram coragem para agir mesmo sem possuir grandes recursos.


É nesse sentido que o novo protagonista de niLL se aproxima das pessoas comuns.



O artista também leva essa discussão para a faixa Guia do Herói, que aborda a importância de reconhecer a própria capacidade de transformação, sem necessariamente esperar que outra pessoa apareça para resolver nossos problemas.


No fim das contas, talvez não seja preciso viajar no tempo ou possuir superpoderes para mudar alguma coisa. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente reconhecer que determinada realidade não deveria continuar como está.


Quando a música já não é suficiente para contar uma história


O novo trabalho também representa um avanço na maneira como niLL organiza sua produção artística.


Desde seus projetos anteriores, o rapper vem construindo personagens e elementos visuais que dialogam entre si. Com o desenvolvimento de Maestro, essa proposta ganhou uma dimensão ainda maior, especialmente com a criação de um mangá que reúne diferentes figuras de seu universo.


Na entrevista, niLL explicou que o projeto começou a ganhar forma após uma conversa com Lucas, seu editor, que sugeriu desenvolver uma história em quadrinhos a partir do personagem Maestro.


A proposta acabou crescendo. Em vez de trabalhar com apenas um personagem, o artista decidiu conectar diferentes criações e desenvolver um universo compartilhado.


O processo começou em 2024, com o lançamento do mangá em janeiro de 2026.


A mudança não foi apenas estética. Para niLL, a nova linguagem permite desenvolver assuntos que nem sempre encontram espaço dentro das limitações de uma composição musical.


"Tem algumas coisas que gostaria muito de falar no rap, mas só que é muito complexo e não dá para falar, porque não dá tempo. [...] É melhor utilizar outra plataforma. E aí dentro do mangá vai dar para fazer isso, sabe?"

A decisão revela uma compreensão interessante sobre as possibilidades da arte.


Nem toda história precisa terminar quando a música acaba. Algumas ideias pedem imagens, outras precisam de personagens, diálogos ou narrativas mais longas.



Criar também é resistir à lógica do descartável


Além da construção narrativa, Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo apresenta mudanças importantes na sonoridade de niLL.


O artista destaca a presença de instrumentos gravados em estúdio, uma experiência que descreveu como especial para sua trajetória. O álbum reúne contribuições de músicos como Luiz Skin, Thiago Ticana e Mbeattz, além de produtores convidados.


Embora tenha assumido grande parte da produção e direção musical, niLL reconhece a importância das pessoas que colaboram com seus projetos.


A conversa também passou pela indústria musical e pela necessidade de preservar a identidade artística em um mercado marcado pela velocidade dos lançamentos.


Ao recordar a produção de Manual para Não Desaparecer, trabalho colaborativo com Rodrigo Ogi, discutimos como a inteligência artificial e as músicas produzidas para alcançar resultados imediatos provocam questionamentos sobre o futuro da criação.



Para niLL, existe algo que não deveria ser perdido nesse processo.


"O bagulho, o que separa o ser humano da máquina é o sentimento, velho. A gente poder fazer bagulho bom, a gente poder errar, a gente poder desafinar, tá ligado? É isso que separa, sabe?"

Sua reflexão coloca em discussão uma característica fundamental da produção artística: a humanidade presente nas imperfeições.


Em um mercado que frequentemente valoriza números, tendências e resultados rápidos, niLL demonstra interesse em desenvolver obras que possam ser revisitadas e compreendidas de diferentes maneiras ao longo do tempo.


Talvez por isso sua discografia funcione como uma construção contínua, na qual personagens, experiências e referências anteriores reaparecem sob novas perspectivas.


O artista, a política e a responsabilidade com seu tempo


A entrevista também tomou um caminho político.


Ao comentar a recepção do novo álbum, niLL revelou que decidiu diminuir temporariamente sua divulgação em razão do cenário eleitoral brasileiro.



O artista demonstrou preocupação com a polarização política e com a circulação de informações equivocadas, especialmente entre os jovens.


Segundo ele, diante da situação do país, continuar promovendo seu trabalho como se nada estivesse acontecendo não parecia fazer sentido.


"Então acho que é o momento da gente tentar conversar, conversar sobre o país."

A declaração ajuda a compreender como niLL enxerga sua posição enquanto artista.


Sua preocupação não está limitada ao alcance de suas músicas ou ao crescimento de sua carreira. Existe também um interesse em participar das discussões que atravessam a sociedade.



Durante a conversa, o rapper contou que procura manter uma relação próxima com seus ouvintes e que não deseja ser colocado em uma posição distante das pessoas que acompanham seu trabalho.


Ao refletir sobre sua trajetória e sobre os artistas mais jovens que passaram a utilizá-lo como referência, falou sobre a importância de continuar sendo acessível.


"Então, a gente faz parte do povo, mano. A gente tá ali no meio do povo, tá ligado?"

Essa compreensão aproxima sua visão artística de uma tradição histórica do próprio hip-hop, que nasceu das experiências coletivas e da necessidade de produzir cultura a partir de territórios frequentemente excluídos dos grandes espaços de circulação.


A arte pode alcançar lugares distantes, mas isso não significa que o artista precise se afastar de suas origens.


Que mundo queremos encontrar no futuro?


Para encerrar nossa conversa, resolvi trazer o tema central do álbum para uma reflexão sobre a vida real.



Se niLL pudesse deixar uma mensagem para sua versão do futuro, o que diria? E, principalmente, que mundo gostaria de encontrar quando chegasse lá?


Depois de conversarmos sobre heróis, viagens no tempo, desigualdade e transformação social, sua resposta não poderia ser mais significativa.


"Cara, eu espero encontrar um mundo que as pessoas estejam comendo o quanto elas quiserem, assim, sem se preocupar com nada [...] Mas eu gostaria de encontrar um mundo que fosse balanceado, né, mano? Que não tivesse pessoas com um milhão e pessoas com zero."

O artista também expressou o desejo de encontrar um planeta onde ainda fosse possível respirar livremente e onde as guerras tivessem chegado ao fim.


Aos 33 anos, niLL reconhece que sua geração cresceu atravessada por diferentes formas de conflito, sejam elas sociais, políticas ou territoriais.



E talvez por isso seu desejo para o futuro seja, antes de qualquer outra coisa, encontrar um momento de tranquilidade.


"A gente precisa do momento de paz. Depois dessa chuva aí, a gente precisa de sol."

É interessante perceber como uma conversa que começou com personagens fantásticos termina com desejos tão concretos.


No fundo, talvez seja exatamente essa a força da imaginação.


Podemos construir castelos, viajar por diferentes períodos da humanidade, inventar robôs e personagens extraordinários. Mas, quando pensamos no futuro que realmente queremos, continuamos falando sobre questões fundamentais: comida, dignidade, liberdade e paz.


A obra de niLL nos lembra que imaginar outros mundos não significa abandonar aquele em que vivemos.


Pelo contrário, pode ser uma maneira de compreender suas contradições e reconhecer que a realidade não precisa permanecer como está.


Porque, antes de transformar o mundo, alguém precisa acreditar que ele pode ser diferente. E a periferia, meu parceiro, nunca deixou de imaginar.




 

Mais do que uma entrevista de rotina, um acerto de contas com o tempo: como Raru superou as limitações, a depressão e o descrédito para se consolidar como um produtor de mão cheia no rap nacional.


Quando estamos conversando com uma figura que temos noção de seu trabalho, seja qual meio for, é natural que a abordagem seja padrão seguindo o roteiro. No entanto, minha relação com Raru não se resume a um contato passageiro, o mesmo me viu na época de MC e fez parte da minha trajetória.


Uma história de mais de uma década: esse é o tempo que conheço o produtor/beatmaker e tive o privilégio de ser um dos primeiros a conhecer o talento dele.



O Acorda Pedrinho de hoje não é apenas especial por ser mais uma entrevista feita com cuidado, é uma conversa que parece que foi de anos sendo colocada em dia. Ele foi um dos poucos que viram o jeito que eu fazia minhas rimas.


Não só isso, o próprio me revelou com exclusividade como ele lida com a vida fora do QG da VB Studios, e me fez pensar sobre o sentido de se fazer música.


Seu início foi igual ao de muitos entusiastas dentro do Hip-hop durante os anos 2010: fascinado pela arte do improviso, o freestyle nas rodas de rima. Tal feito abriu uma porta na sua vida, virou uma chave significativa dentro dele.


A cultura Hip-Hop é frequentemente descrita como um espaço de encontros transformadores, e a trajetória de Raru é a síntese perfeita dessa essência.



O jovem produtor e beatmaker de 28 anos, filho de migrantes nordestinos e nascido no Rio de Janeiro, constrói hoje uma das assinaturas sonoras mais sólidas e autênticas da cena independente. 

A busca pela identidade e a troca da rima pelo beat


O primeiro contato com a arte aconteceu nas ruas e nas tradicionais rodas de rima — passando por pontos cruciais como Bonsucesso, Olaria e Ilha do Governador. Foi nesse ambiente de improviso que surgiu seu nome artístico. 


[Pedro]: Como você começou nesse lance da cultura mesmo e porque o teu vulgo é Raru? [Raru]: O vulgo veio das batalhas. Precisava botar um vulgo pra gente botar nosso nome nas batalhas […] até que um dia o Fabio — Fabio Muniz, hoje mora lá em São Paulo —, me mandou: ‘pô, por que tu não bota Raru, mano?’. Eu comecei a me identificar com esse nome por ser diferente não só na pronúncia, mas como sentido de ser raro. Até hoje me vejo assim, quando eu estou criando alguma coisa, em questão de personalidade também, vi que tinha sentido pra mim diante de quem sou, de tudo que eu passei. 

O nome logo encontrou ressonância imediata em sua própria personalidade: não apenas soava diferente, mas traduzia o sentimento de ter ideias singulares e uma visão de mundo fora do lugar-comum.


No entanto, o calor e a pressão do microfone nas batalhas não eram onde Raru se sentia pleno. Ele mesmo reconhece que o nervosismo e a facilidade de errar sob a vista de todos tornavam o palco da rima desconfortável. 


[Pedro]: Eu queria entender de verdade: quando é que tu percebeu que você se dava melhor na área de produção mesmo? Quando tu descobriu que o teu lance era fazer beat, produzir pessoas, e fechar músicas?  [Raru]: Eu nunca fui bom em batalha, nunca fui bom na rima ali, me sentia muito nervoso e tal. […] Na batalha é muito mais fácil você errar do que você acertar, tá ligado? Pelo menos pra mim sempre foi esse o caso. Então ali produzindo eu via mais valor, né. E, pô, gratificante pra caralho também quando alguém canta no meu beat, fala que o beat é bom, fala que as vozes tão boas. Então eu me conheci ali, mano.

Curioso por informática e tecnologia desde cedo, área na qual chegou a fazer cursos, encontrou diante do computador o seu verdadeiro refúgio de criação. Ao começar a estruturar instrumentais, gravar e equalizar vozes, viu o retorno positivo imediato das pessoas que o ouviam. 



O estúdio caseiro tornou-se seu laboratório; a produção musical, sua vocação definitiva.


[Raru]: Eu sempre fui meio nerd assim de computador, já fiz cursos de informática e tal. […] A produção musical sempre foi muito mais relevante para mim, muito mais fácil em questão de motivação, eu conseguia fazer em casa.  

A profissionalização e o fortalecimento com a VB Studios


O caminho do autodidatismo aos contratos profissionais exigiu dedicação contínua — um período de quase dez anos que Raru compara ao tempo e à dedicação de uma verdadeira faculdade.



Depois de disponibilizar trabalhos embrionários em plataformas como o SoundCloud por volta de 2015 e circular nos bastidores e shows de artistas como a rapper e mc Nabrisa, sua virada de chave no mercado se consolidou ao integrar o time da VB Studios.


[Raru]: Produzindo, criando beat, já são 9, 10 anos. É mais que o tempo de uma faculdade. Todo o tempo que a gente leva estudando, se dedicando, de alguma forma tem que ter retorno, né mano? Hoje em dia até o relógio é movido a dinheiro.

No estúdio liderado por Vicente (VB), Raru encontrou não apenas uma cartela ampliada de artistas de peso, mas uma família criativa.


Ao lado de nomes como Dekah, Renato Sheik (CortesiaDaCasa), Daniel Luz, Wlind, Serour (Agnes Nunes) e Horta (Tahor), ele passou a respirar produção em tempo integral, vivendo rotinas intensas de gravação e elevando o nível de entrega técnica e artística da produtora.


[Raru]: Quando eu entrei ali para o VB Studios comecei a ter uma cartela de artistas maior. […] É uma rapaziada muito boa, talentosa, que me motiva sempre. Sempre que eu piso lá esqueço os problemas. A vibe é lá em cima, bem animada, todo mundo pro trabalho, geral sonhando junto.

“Ascensão” e a quebra de paradigmas com o rock


Foi dentro da produtora que Raru assumiu papel central no projeto Ascensão, iniciativa concebida para alavancar os talentos da casa e dar visibilidade consistente à cena underground.


Lançando trabalhos em ritmo frequente, o projeto alcançou um marco histórico através da faixa colaborativa gravada com as rappers Jenario e Abaddie, unindo a base do trap com a energia crua e acelerada do rock.


[Pedro]: Foi ali que tu conheceu as meninas ou você já conhecia elas antes?  [Raru]: Mano, eu conheci as mina lá, mano. VB fez a ponte e só me chamou pra produzir. "Raru, hoje tem sessão, a gente vai fazer aqui uma música da Ascensão com duas minas que tão chegando aí, tão querendo fazer uma pegada mais rock." E aí eu conheci elas lá na sessão, nós já fizemos a música lá, e foi isso. O primeiro contato foi esse.

O que começou como uma sessão espontânea no estúdio — que emocionou a equipe logo nas primeiras audições — tornou-se um fenômeno de público: a faixa ultrapassou a marca de 1 milhão de reproduções em apenas um mês.


[Raru]: Quando a gente fez esse primeiro contato lá com elas, que a gente produziu a música do zero, que elas foram embora do estúdio, eu e o VB ficamos ouvindo a música lá em loop, um papo de dez vezes assim. A gente quase chorou lá um com o outro, mano. De tão bom que aquilo já tava. Mas a gente não sabia que ia tomar essa proporção que tomou hoje em dia, tá ligado? 

Acostumado a pensar sua arte dentro dos limites tradicionais Raru viu uma prova cabal de sua versatilidade e capacidade de inovar sem perder a sensibilidade das ruas.


[Raru]: Eu nunca me imaginei bombando, estourando com... imaginei com trap, um R&B. Não esperava que o rock ia abrir mares para mim. Claro que é um rock-trap, mas a estética é rock. 

Filosofia, entrega e superação


[Raru]: A música me curou da depressão, me curou de momentos ruins. Me fez chorar também, com certeza, e hoje em dia eu vejo como uma porta para poder mudar não só a minha vida, como a da minha família e de amigos. É o que eu mais me entrego: estudo, mantenho a disciplina e corro atrás, dou a vida. 

Para além de métricas e números, o ofício da produção é tratado por Raru como uma missão de vida.



Sem esconder os momentos difíceis de sua caminhada — as contas atrasadas, a fome, as dúvidas e as batalhas contra a depressão —, ele credita à arte a sua cura e a sua força motriz para mudar a realidade de sua família e comunidade.


[Raru]: No começo foi difícil pra caralho. Já chorei muito por estar sozinho em casa, com conta atrasada, com fome às vezes, tendo que criar alguma coisa e não conseguir por limitações. […] Criar é libertador, renova. Eu esqueço o problema, sou muito mais feliz porque tô caminhando pra onde eu quero estar.

Com uma postura focada no trabalho e avessa ao ruído passageiro das redes sociais, Raru define a produção não como uma fórmula técnica quadrada, mas como a capacidade de tocar com honestidade e leveza.


[Raru]: Eu sou low profile, não fico de patifaria na internet: dou a cara para postar trabalho e sumo. […] Eu sinto que consigo tirar outras pessoas de momentos difíceis com a música. Muitos artistas fazem músicas fodas, mas acham que a música é algo robotizado, quadrado. Música não tem regra: é você passar o sentimento para outra pessoa.

Entre a disciplina de estúdio e a sensibilidade de quem sabe ouvir o artista, ele se consolida, faixa a faixa, como um produtor de mão cheia: alguém que transforma vivência em música e faz do próprio nome uma realidade no rap nacional.

 

No fim das contas, a caminhada de Raru não é apenas sobre timbragem perfeita, métricas de streaming ou acordes bem encaixados; é sobre a recusa diária em virar apenas mais um número em um sistema que já desenhou o seu fracasso.


Preto e cria da periferia, ele sabe exatamente o peso de encarar um caminho onde tudo parecia conspirar para dar errado — inclusive as risadas e o deboche de quem duvidava quando ele ainda dava os primeiros passos num computador velho.


[Raru]: Tenho 28 anos, sou filho de nordestino, meu pai e minha mãe vieram do interior da Bahia. […] Tinha tudo para dar errado, até hoje tem tudo para dar errado na nossa vida. No final de tudo a gente é estatística, mas eu, como Raru, tento fazer diferente, tento furar a bolha.

Mas, em vez de se apequenar diante do descrédito, transformou cada riso alheio e cada porta fechada no combustível que alimenta o seu estúdio e a sua disciplina.



Ao honrar sua ancestralidade e subverter as probabilidades, Raru prova que furar a bolha não é sorte, é entrega de alma.


[Raru]: Não é porque você é preto, veio da favela, não tem o estudo completo, que você não vai conseguir. O mundo é de todo mundo. […] Qualquer risada de deboche, qualquer palavra mínima que seja contra o seu sonho, serve para você ser forte e tirar motivação. Foi isso que eu fiz e é isso que faço até hoje.

Ele nos lembra, em cada batida que estremece as caixas de som, de uma verdade simples e urgente: o mundo não pertence aos privilégios, pertence a quem não aceita desistir.


E para quem ousa sonhar contra tudo e contra todos, seu nome deixa de ser apenas um vulgo para se tornar um lembrete vivo de que vencer também é possível.



 

Atualizado: 21 de out.


O rapper e produtor musical IKU THE KID trocou uma ideia com a Revista Menó sobre política, religiosidade, sexualidade e todas as guerras – internas e externas – que transbordam o álbum Olorogun (2026), o seu mais recente projeto, já disponível nas plataformas digitais.


“Jovem demais para perder para mim mesmo; velho demais para perder…”

Mata/Esfora, Olorogun - IKU THE KID


Olorogun é uma oração que nos convida para uma jornada de revolta, vingança e autoafirmação.



Transitando entre sagrado e profano, o álbum expressa uma experimentação estética que não teme em mergulhar no caos: uma peregrinação até as profundezas dos “pecados” e transgressões mais inconfessáveis, para então, logo em seguida, se elevar para além das expectativas e regramentos moralizantes.


O rapper de 23 anos, cria da Baixada Fluminense, faz das contradições uma força para constantes transformações, reinvenções e tudo o mais que há entre-isso, indicando um movimento que se assemelha ao próprio processo artístico registrado nas faixas de Olorogun.


O processo criativo de Olorogun foi uma das paradas mais loucas que eu já vivi, porque tento trazer bastante situações do cotidiano. (...) Por isso queria que o Olorogun tivesse essa parada de ser um álbum até que meio cansativo. Uma forma de [expressar] como se experimenta a guerra… A guerra de acordar cedo para ir trampar; a guerra de perder amigos no meio da sua trajetória; a guerra que você tem dentro da sua própria cabeça, tá ligado?

Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

Em Olorogun – nome que se refere ao ritual do Candomblé que encena uma guerra simbólica – IKU THE KID veste as máscaras da persona “Guilhotina” como uma alternativa para dizer alguns dos traumas e dilemas que vêm vivenciando nos últimos anos, tais como o processo de transição de gênero, a perda de amizades, conflitos familiares, entre outros, sem precisar necessariamente expor esses sofrimentos em primeira pessoa.


Eu passei por muitas coisas. Então, tipo, eu meio que decidi fazer esse personagem, essa personalidade, que é o Guilhotina. É tudo que passei em uma amálgama de desgraça e muitas vezes glória. (...) A parada da Guilhotina, na verdade, foi muito simples. Foi muito natural. Eu tinha pensado em trazer na construção do álbum – seja na lírica, contexto ou construção mesmo – uma forma mais terceirizada. Eu não queria falar, tipo: ‘eu fiz isso’, ‘eu fiz aquilo’ ou ‘eu sofri isso’ de uma forma que às vezes é pesada, porque tem muita coisa real. Acho que o ponto crucial e primordial do Olorogun é ser um bagulho real. É um monte de merda que eu tava vivenciando e transformei em música. Então, a Guilhotina foi só uma personalidade que encaixei ali para, sei lá… não assumir que eu sofri, tá ligado? (...) Guilhotina é meio que o bode expiatório dessa parada.

Assim, através da criação desse alter ego que guia as narrativas que compõem o álbum, o rapper carioca convoca o ouvinte para as suas guerras internas e externas.


Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

Uma expedição que explora a angústia existencial da sensação de estranhamento e distanciamento em relação às convenções sociais, ao mesmo tempo em que representa uma insurgência e profanação da normatividade imposta na reprodução de violências sistêmicas – um manifesto contra as múltiplas injustiças do cotidiano (de gênero, raça, classe, sexualidade, etc..).


IKU apresenta Olorogun como um de seus trabalhos mais intimistas. Porém, permanece um traço que perpassa toda a sua discografia: a sua religiosidade, manifestada a partir de uma religião matriz afro-diaspórica, assim como a resistência diante de atos de intolerância religiosa e o confronto contra as “políticas religiosas” dominantes.


A minha arte, o meu rap, os meus bagulhos é um reflexo das coisas que eu vivo, tá ligado? Com certeza isso daí vai estar entrelaçado. Eu nasci feito. Quando minha mãe fez santo, ela estava grávida de mim. Então eu nasci para a espiritualidade. Eu vivo para a minha espiritualidade. Então não tem como. Se faço o meu bagulho de verdade, falando da realidade do que vivo, eu tenho que falar disso de qualquer forma.

Criado no Candomblé, já que a mãe fez santo durante a gestação, IKU THE KID integra sua espiritualidade ao próprio fazer artístico, em mais uma guerra que enfrenta desde os preconceitos escolares da época de infância.


Todavia, mesmo enquanto reafirma a benevolência do divino, o rapper não deixa de direcionar críticas severas à igreja e à política cristã como órgãos políticos associados a genocídios históricos, fazendo assim uma distinção entre fé e instituições políticas.


Eu falo de uma forma muito crítica à política cristã. Não contra a fé, porque é muito diferente você pregar a benevolência, a filosofia de Jesus… A igreja é política. Então a gente precisa criticar a igreja como um órgão político. Acho que minhas críticas vêm daí. Mas a benevolência de Deus é linda mano.

Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

A religiosidade, a negritude e a crítica social são temas compartilhados com outros dois artistas que compõem o coletivo Slasher Gang: D$ Luqi (Canto Feio) e Yung Exu (Espiritual Gangster), ambos retomam a parceria de longa data com IKU THE KID, agora em Olorogun, nove meses após o lançamento do álbum protagonizado pelo trio da #slaxxergang – Black Lamen (2025). 


Esse álbum conjunto funciona, nas palavras de IKU, como uma denúncia contra as instituições políticas, a pobreza e o racismo estrutural, mas também como uma valorização das vivências das matrizes religiosas africanas.

O Black Lamen, eu diria que seria uma denúncia e um enriquecimento da nossa cultura. Como pessoas pretas e de religião de matriz africana também, tá ligado?

No decorrer da entrevista, após IKU explicar o conceito de guerra transmitido no seu álbum recém-lançado, eu comento que a faixa Mania – uma das minhas preferidas – sintetizava bem o espírito do disco. Podemos separar essa música em três partes.


O primeiro ato, com o discurso/desabafo do artista, prenuncia as oscilações maníaco-depressivas.


Uma dualidade entre momentos de (auto)destruição e (auto)afirmação que impulsiona o desenvolvimento da narrativa.


Sempre depois de pensar que tá tudo acabado Tipo, se jogar numa depredação própria terrível [...] Parece que é aí que acorda um bagulho doido dentro de mim Que eu posso tudo e que sofrer pelas tristezas é só uma opção ruim, tá ligado? Nós sempre foi ensinado a lidar com tudo e nunca chorar [...] E essas besteiras que parecem encrustadas na criação de várias pessoa Só atrapalha você de saber o quão bom é estar vulnerável às vezes, tá ligado? Ninguém faz nada se tiver confortável o tempo todo – Mania, IKU THE KID

No segundo ato, com versos agressivos rimados em um cenário sombrio, a persona Guilhotina revela as ruínas e o caos que habitam em si.


As contradições presentes na construção de sua própria imagem, em sua forma de compreender e ser no mundo, a qual se encontra em confronto com o constante questionamento alheio.


Uma insaciável inquisição que busca enquadrar, classificar, etiquetar, identificar… enfim, nos colocar em caixas pré-determinadas pela normatividade hegemônica, reduzindo e petrificando as possibilidades de experimentar outros estilos de vida.

Tá tudo um caos e minhas juntas tão doendo Já faz dias que eu não dou um sorriso, mas isso é o de menos [...] Minha relação com a coroa tá uma merda Tipo, eu só faço merda ou ela que não consegue me entender? Como explico que não quero mais ser homem Porque a maldade do homem que me fez me odiar tanto igual você? – Mania, IKU THE KID

Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

Por último, em um esforço para superar os conflitos que lhe assombram, a melancolia e o ressentimento dão lugar ao seu “episódio de mania”.


Essa transição é marcada não só pela virada no beat, mas também por apresentar um outro ponto de vista em sua composição lírica: a força da esperança reluz para além do cansaço da sobrevivência cotidiana, expressando tanto a celebração de suas conquistas (passadas e porvir) quanto a solidariedade com aqueles que persistem na correria – nem que pela raiva.


É só um episódio de mania… [Transição] Vai ser obrigado a me ver vencendo Fazendo duas vezes mais que a renda da tua família É que ser esquisito hoje me dá dinheiro Mas antes só dava dor e eu chorava escondida […] Hoje tá um dia lindo, céu tá limpo Tudo que tu precisa vai buscar e trazer pra quem você ama Nem que seja pela raiva, levanta e muda tudo Tipo algo que te traga esperança Episódios de mania onde É impossível existir algo fora da minha conquista. – Mania, IKU THE KID

Além disso, ao empregar uma alternância entre pronomes masculino e feminino (“... chorava escondida”), a potência dessa expressividade político-estética tensiona os binarismos que ditam as normas que nos disciplinam, forçando-os até o limiar de sua saturação.


Os traços de negatividade e impulso de morte (Tânatos) que emergem das faixas de Olorogun, portanto, talvez possam ser reinterpretados como o motor para um momento necessário: a destruição das antigas máscaras e adereços para que, enfim, torne-se possível o surgimento do novo – a alegria de vislumbrar outro horizonte, outra perspectiva, outra maneira de ser para além do conformismo de uma vida controlada pela mesmice da normalidade.



Essa transição “maníaco-depressiva” aparece em outra música do álbum: Canto Feio, faixa que conta com a participação de D$ Luqi – rapper da Slasher Gang que recentemente também concedeu uma entrevista à Revista Menó [confira aqui].


Os versos da dupla se intercalam como uma simbiose, um organismo de naturezas diferentes (talvez nem tanto assim), onde a harmonia acontece pela revolta em comum.


[Verso 1: IKU THE KID] Foda-se Freud ou Lacan, Klein/ Como que conserta algo que não existe mais? Papo de maluco, maldade a si mesmo/ Eu tô me corroendo, mas eu quero mais Mais violência para com si mesmo/ Quero dizer sobre as mudanças Quero dizer que isso é um saco (...) [Transição] Nós merecemos a vida… [Verso 2: D$ Luqi] No meu espelho eu achei um inimigo/ Um menor fraco, bem antigo Aquele que só queria uma chance na vida e se contentaria com isso Nunca mais nós vai ter que comer resto/ Porque na minha mesa agora tem fartura [...] Eu vou morrer sendo mais um menor/ Que saiu da Baixada e agora não tem freio Nunca se esqueça da onde eu vim/ Eu sou sobrevivente, eu vim do canto feio – Canto Feio, IKU THE KID ft. D$ Luqi

Dando continuidade à nossa conversa, IKU THE KID relaciona o contexto da música Mania com a experiência pessoal do seu processo de transição de gênero. A Guilhotina faz da sua vulnerabilidade uma fonte de criatividade.


E, aqui, o conceito de guerra permanece operando como um eixo que orienta os movimentos da obra.


Sobre a questão da transição: eu me assumi recentemente como uma pessoa trans. E isso na comunidade de Rap, tá ligado? No underground brasileiro, onde tem um monte de homofóbico, LGBTfóbico pra caralho, racista… E isso acaba entrando no conceito de guerra também. Uma guerra que as pessoas transpassam para poder ocupar espaços, até mesmo num ambiente de trabalho. Sem trabalho não tem como sobreviver. Como é que essa pessoa vai fazer? Isso é uma guerra ainda, tá ligado? E esse bagulho também refletiu muito na minha postura; nas coisas que compartilho; nos livros que leio na minha vida. É uma transição. Acaba que você renasce para ser outro tipo de pessoa. Uma pessoa boa, né mano? A gente tem que aprender a respeitar os outros também.

Se a cena cultural do Rap (e a sociedade brasileira em geral) continua sendo atravessada por diversos tipos de preconceitos, somando-se a isso a crescente onda reacionária em escala global, em contrapartida, as batalhas travadas por IKU THE KID para ocupar espaços em ambientes hegemonicamente heteronormativos representam uma possibilidade de gerar ruídos e rasuras em uma sociedade predominantemente conservadora.


Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

Um lembrete de que o fluxo da diferenciação – o ato produtivo que permite uma abertura para a afirmação de nossa diferença e singularidade – precede qualquer tentativa de rotular e fixar uma imagem idealizada sobre como deveríamos ser.


O que pode ser resumido no conceito muito bonito de liberdade, em seu sentido mais pleno, como nos lembra IKU:


E sempre foi isso na verdade. O Rap sempre foi um espaço para todas as pessoas. Só que aí a masculinidade, tudo que envolve dinheiro e como você tem que parecer para os outros, destruiu uma ideologia, um conceito muito bonito que era o da liberdade. O Rap pregou muito isso, né mano?

Mesmo fora dos grandes holofotes do mainstream, o rapper da Slasher Gang formou uma comunidade que parece se identificar com a estética e a composição poética de sua vasta produção artística.


Como diz IKU, tanto na faixa Mania quanto em um trecho da entrevista, ser esquisito (queer) hoje dá dinheiro. Porém, na verdade, acredito que seja algo mais potente que uma mera identificação.


O que de fato parece religar, por um lado, o artista – desenraizado e, mesmo na angústia, em busca de novas formas de experimentação – e, por outro, o público – cada vez mais fragmentado nas dinâmicas de interação digital – seria justamente a sensação compartilhada da relação de estranhamento consigo mesmo e com a mesmice do mundo.


Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)
Foto por: Matheus Sanches (@digolzinho)

IKU THE KID, mesmo estando sempre se reinventando e fugindo de rótulos fáceis, demonstra uma capacidade para mobilizar afetos de grupos distintos em torno de elementos dissonantes: não uma identidade imutável e absoluta, mas a própria diferença enquanto possibilidade de se reinventar incessantemente. Vestir outras máscaras, outras roupagens, por mais estranho que os outros possam considerar…


E essa inquietação artística – “mais um episódio de mania”, como diz IKU – reaparece ao final da entrevista, quando o rapper nos revela que está trabalhando em um novo álbum, inclusive já tendo escolhido o título. DPP: Dopamina Para Perturbados.


Embora ainda não haja previsões sobre a data de lançamento ou eventuais colaborações, ao menos podemos antecipar uma constante na curta (e extensa) trajetória profissional do rapper carioca: provavelmente será mais um ato de profanação, isto é, uma inversão das hierarquias sociais estratificadas (religiosidades, sexualidades, etc.).


Emergindo, portanto, um horizonte no qual a transformação não aparece como resolução definitiva dos conflitos – sejam internos ou externos –, mas como um desdobramento do próprio processo criativo.




 
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