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Em conversa com a Revista Menó, o rapper carioca TOKIODK comenta sobre a recepção positiva do seu último lançamento, INFRAÇÃO (1º ATO), além de revelar alguns spoilers sobre os próximos passos de sua trajetória: a construção de um Álbum – com o título ainda não divulgado – dividido em 3 ATOS que juntos compõem um único conceito.


INFRAÇÃO (1º ATO) funciona como ponto de partida de uma Trilogia Discográfica. O primeiro movimento de uma obra pensada em continuidade, formando uma Storytelling onde cada capítulo amplia o significado do anterior. Ao final do projeto, vemos que o Primeiro Ato não encerra a história narrada, apenas define o tom do que ainda está por vir.


Dentre os tópicos que surgiram no fluxo da entrevista, os paralelos entre a trajetória do artista, o seu estilo estético e o universo do futebol foram um tema recorrente em nosso diálogo.


“É como se eu fosse um jogador da várzea tentando virar profissional.” - TOKIODK


Talvez não seja exagero afirmar que a música NEM ERA PRA EU TÁ AQUI possa fazer parte da “trilha sonora” da Copa do Mundo de 2026: se não a oficial, ao menos a das ruas.


A faixa, presente no Primeiro Ato da Trilogia de TOKIODK, se tornou um viral no mundo do Futebol. E não apenas no cenário brasileiro.


O perfil oficial do Chelsea publicou um vídeo com imagens de Kanté – que irá jogar a Copa pela seleção francesa – desfilando em campo ao som de TOKIODK. Aliás, há um certo simbolismo nesse acontecimento: o clube foi fundado em Londres (1905), cidade que viria a ser reconhecida como local onde nasceu o Grime, estilo musical urbano que influenciou TOKIODK no início de sua carreira artística.



“O Grime foi uma parada que me introduziu no Rap (fora o Boom Bap). E eu sempre fui apaixonado pela cultura londrina no meio do Rap (...). O falecido WC apresentou ao coletivo Covil da Bruxa toda essa cultura, tá ligado? E através do coletivo tive esse conhecimento. Então, a Covil da Bruxa acho que foi uma das maiores influências para mim. E a gente sempre priorizou fazer umas linhas que tivessem a ver com o jogador de forma criativa. (...) Então, assim, sempre foi esse lance mesmo de ser apaixonado por futebol desde criança, o sonho de ser jogador de futebol também sempre existiu. E aí juntou a criatividade com as referências e a cultura do Grime.”


Nascido na Baixada Fluminense/RJ, TOKIODK afirma que se reconhece mais como um “cigano”. Um nômade que morou em diversos lugares pelo Rio de Janeiro: São João de Meriti, Nova Iguaçu, Cabuçu, Rocinha… No transcorrer da conversa, meio que de improviso, uma percepção compartilhada apareceu como fio condutor: a semelhança da trajetória de artistas que vieram do underground com jogadores de futebol que vieram de periferias.


“A carreira de um rapper, hoje, se compara muito com a de um jogador de futebol, tá ligado? Inclusive, tem muitos moleques, muita criança que cresce querendo ser rapper hoje em dia mais do que ser jogador de futebol. (...) É muito louco isso, porque o jogo vira muito rápido no mundo da música.”

Fotos: ASFOTOSDEJOAO
Fotos: ASFOTOSDEJOAO

Em suas primeiras produções musicais, TOKIODK já parecia confiar em um Rumo ao Estrelato. Mas sonhos podem ser ciclos viciosos, heranças malditas que parecem nos impor os mesmos trilhos: exaustivos, frustrantes e com incessantes correções de rotas. Principalmente para quem deseja ser maior do que as muralhas que colocaram ao nosso redor.


Este sentimento fica explícito em DISCURSO DO GRAMMY, a primeira faixa após a Intro do projeto:


“Eu sonho muito pra quem nasceu na zona de guerra/ aonde sobreviver era o esporte favorito” - DISCURSO DO GRAMMY - TOKIODK, 2026


Quem ouve as faixas DISCURSO DO GRAMMY e NEM ERA PRA EU TÁ AQUI, em um primeiro momento, pode perceber uma fé inabalável do rapper. Não meramente em conquistas financeiras, mas sobretudo por meio de mensagens que expressam gratidão e confiança diante de tudo que precisou superar /infringir/ para ocupar lugares que anos atrás pareciam improváveis.


“Esse disco novo foi uma reanimação total da minha carreira.”

Porém, às vezes o pódio pode encobrir os desafios do percurso: a pressão para atender às expectativas do público; trazer sonoridades diferentes; inovar esteticamente. Os dilemas, internos e externos, atravessam a obra INFRAÇÃO (1º ATO), formando uma narrativa marcada pelo processo de reflexão do rapper sobre sua própria trajetória.


“Teve muito esse lance de eu ter que voltar ao início, de olhar para o que eu era, do que eu sonhava, do que eu almejava, para poder escrever sobre a dor que muita gente ainda carrega, tá ligado? Então esse disco fala muito sobre isso: é como se fosse um jogador. Uma pessoa ali tentando vencer na vida e passando por todas as dificuldades mais absurdas e mesmo assim não desistindo, persistindo, tendo fé.”

Fotos: ASFOTOSDEJOAO
Fotos: ASFOTOSDEJOAO

Depois do álbum de estreia ANTI-HERÓI (2022), que TOKIODK considera um ponto de virada em sua carreira, e do TESTEMUNHAS DE TOKIODK (2024), vemos no Primeiro Ato da Trilogia um esforço para retomar sua vivência. Olhar sua caminhada para continuar acreditando no que ainda está por vir, reconhecendo os erros e acertos enquanto potência para seguir em frente.


“Eu acho que o meu segundo disco, que é o Testemunhas de TOKIODK, eu quis me adaptar à indústria, tá ligado? Eu quis fazer com que as minhas músicas virassem mainstreams falando sobre o que os mainstreams falavam. (...) O Infração Primeiro Ato é muito sobre eu voltar a ser o que eu era mesmo e foda-se tudo, tá ligado? (...) Esse é meu jeito, é o que eu vou fazer. Essa é minha identidade. (...) Eu peguei esse resgate não só do Anti-Herói, mas também do início da minha carreira e coloquei nesse álbum novo.”

Mas afinal, o que significa essa “Infração” vista no Primeiro Ato? Por enquanto não saberemos totalmente. TOKIODK nos revela que os 3 Atos estão entrelaçados em uma narrativa comum, cujo sentido será construído gradualmente até o lançamento do último disco da Trilogia.



O rapper, entretanto, parece indicar que essa Infração segue pelo menos em duas direções. Ao mesmo tempo que retorna ao passado de Anti-Herói do underground – rememorando sua vivência, como se estivesse em uma sessão de terapia –, também há uma projeção para o futuro. Um “foda-se à Indústria”, como vemos na música KEN CARSON, mas também o direcionamento para uma VIDA SIMPLES, como vemos na faixa que encerra o disco e marca a transição para o 2º ATO.


Um amadurecimento necessário para manter uma lírica autêntica, mas também um desenvolvimento musical para se expressar através de outras sonoridades possíveis.


“Eu nunca acreditei muito que sou um cara que nasceu para fazer música. Sempre fui um cara esforçado, tá ligado? Eu botei na minha cabeça que eu ia fazer isso acontecer, sabe? (...) Eu olho para trás, minha evolução, sei lá... Quando eu comecei, para hoje, é muito bizarra. A minha evolução de 2022 para cá é muito bizarra. (...) O Infração, o Primeiro Ato, se você reparar, tem músicas muito mais maduras em relação ao que eu já fiz. (...) Eu tô amadurecendo a minha sonoridade, me tornando um pouco melhor musicalmente, tá ligado? Cada dia que passa, a gente vai evoluindo. Sabendo como me expressar melhor na minha música. (...) Então, uma infração é muito esse lance de ser o TOKIODK, mesmo no Primeiro Ato. Só que de forma mais madura musicalmente.”


Em INFRAÇÃO - 1º ATO vemos TOKIODK alcançar tudo isso. Na verdade, até mais do que havia imaginado. E o sucesso pode ser observado em seus shows lotados em eventos e festivais por todo o Brasil. Durante a entrevista, eu lembro de um show que ele fez em Nova Iguaçu, por volta de 2021/22, onde tinha cerca de 10 pessoas (eu era uma delas). Desde aquela época, os shows já eram um dos pontos fortes do rapper carioca, e hoje são ainda mais. E é desse contato com o público, com seus fãs, que surgiram suas “testemunhas”:


“A parte que eu mais gosto do meu trabalho, sem dúvidas, é o show, tá ligado? Eu me conecto com os fãs ali (...). Eu gosto muito de ter essa conexão com o meu público. Daí que vem o lance das testemunhas. Acho que a minha visão sempre foi conquistar pessoas. Sempre valorizei muito cada um. E eu sempre brinquei no lance de testemunha pela questão de estar acompanhando ali mesmo, tá ligado? Meu crescimento. Eles estão testemunhando isso.”

No decorrer da entrevista, TOKIODK não escondeu a ansiedade para o lançamento do 2º ATO da Trilogia. Entre a expectativa externa, gerada pelo público sempre exigente do Rap, e a autocobrança do artista, cuja vontade de superar os limites está registrada em suas próprias letras, o Segundo Ato promete mergulhar em camadas mais profundas na consulta com a Dona Valquíria (terapeuta que conversa com o rapper na faixa introdutória do 1º Ato).


Fotos: ASFOTOSDEJOAO
Fotos: ASFOTOSDEJOAO

“É uma pressão muito louca que a gente carrega. Por exemplo, eu tô louco com o Segundo Ato, tá ligado? Do meu disco. Porque a gente subiu muito a régua no primeiro. Eu não esperava, mano, de coração. Não esperava que tivesse esse resultado no Primeiro Ato. Eu achava que o conjunto da obra ia ser algo que ia repercutir. (...)


Eu meio que resgatei o TOKIODK do início, resgatei meu lado mais humano, as minhas dificuldades e coloquei nesse disco. E eu acho que [o segundo ato] ainda tá mais absurdo em relação a fraquezas, em relação à exposição, tá ligado? Eu tinha meio que perdido um pouco isso. O dinheiro me fez mal. O poder, independente da proporção, me fez mal em certo ponto.”

Apesar de não revelar os nomes nem as datas de lançamento dos discos da Trilogia, TOKIODK nos antecipou que o 2º ATO deve sair nos próximos meses, provavelmente após o término da Copa do Mundo. Porém, sob uma condição: que suas testemunhas o pressionem como se fosse a Final da Liberta!



 

Os tempos atuais não são para o amor.


Não temos tempo para o amor. Não temos tempo de amor.


Criolo, se não existia amor em SP, hoje aparentemente não existe amor em lugar nenhum...



No mês dos namorados e da comunidade LGBTQIAPN+, o amor continua uma incógnita para muitos, e não somente sobre relações amorosas entre namorados, onde, na maioria das vezes a carência se confunde com o que se espera do afeto, e a dependência se torna o elo entre as conexões.


Não falo somente do “do amor entre homem, filho e mulher. A única verdade universal que mantém a fé”. Falo também do amor entre pessoas do mesmo sexo, das diversas formas de amor.


Sobre o amor da mãe com seus filhos, com a família, do amor que se constrói com amizades, e do amor que tentamos construir com as pessoas que conhecemos em nossa jornada.


Mas, como amar sem tempo?


Não temos tempo para nos amar, bell hooks, então como amar os outros?


“Ame os outros como a si mesmo”.


Também não me amo, e não tenho tempo para me amar.


Clareza, justiça, honestidade, compromisso, espiritualidade, valores, ganância, comunidade, reciprocidade, romance, perda, cura e destino. bell hooks decide separar seu livro “Tudo sobre o amor: novas perspectivas” em 13 capítulos, nos oferecendo formas de presenciar e interpretar o amor.


Sem romantização, sem pensar em amor somente como algo a ser projetado por nós desde crianças através de telas e histórias, principalmente para o público alvo feminino.


Um dos capítulos que mais conversa com os dias de hoje é o compromisso. Quando pensamos em compromisso, talvez pensemos logo em compromisso social, contrato entre duas pessoas, que decidem se unir por um propósito: o amor.


Mas o compromisso é aqui com nós mesmos. O amor-próprio. Para além do egoísmo, do narcisismo, o amor-próprio é ainda uma outra incógnita dentro da descoberta de outra em uma longa equação.


“A autoaceitação é difícil para muitos de nós. Há uma voz interna que julga constantemente, primeiro nós mesmos e então os outros. Essa voz gosta de indulgência de uma crítica negativa sem fim. Como aprendemos a acreditar que a negatividade é mais realista, ela parece mais real do que qualquer voz positiva. Uma vez que começamos a substituir o pensamento negativo pelo positivo, fica claro que, longe de ser realista, o pensamento negativo é totalmente incapacitante. Quando somos positivos, não só aceitamos e afirmamos quem somos, mas também somos capazes de afirmar e aceitar os outros.” (hooks, 2021).

A tentativa de se amar, de ter responsabilidade consigo mesmo, reflete diretamente naquilo que podemos aceitar ou não como amor. Com a autoestima, vem o posicionamento, e a autoafirmação, que, quando exercida por mulheres através da verbalização de suas vontade, posicionamentos, e outros, é lida como uma ameaça.


A escritora e ativista bell hooks — Foto: Divulgação
A escritora e ativista bell hooks — Foto: Divulgação

A autoestima não é somente construída pelo que é visível e pelo que se vê, por roupas legais, um corpo aceitável e padrão, mas também, pela vontade de escolher a si mesmo em ambientes em que poucos acreditam em você.


Expor os pensamentos, verbalizar vontades e pontos de vista, ser assertiva, e, acima de tudo, lutar pelo que se quer, soa como desafios para muitas pessoas, principalmente para mulheres.


Construir essa aceitação de quem se é para se expor, é também construir autoestima intelectual, e saber que, muitos não querem te ouvir, saber quem você é, com o que você colabora, quais ações você pretende fazer em prol do seu futuro, ou da comunidade.



Amor é sobre respeito. Essa é uma certeza. E amor próprio é viver com o propósito de saber quem se é no mundo, e viver (ou tentar sobreviver) com um propósito.

Em sua escrita sobre o compromisso consigo mesma, bell hooks traz o desafio de construirmos um propósito com a necessidade do desenvolvimento profissional, algo que, para muitos, principalmente no Brasil, se tem muitas barreiras, ainda mais quando levamos em conta questões de raça, gênero, orientação sexual, e outros.


Muitos não têm liberdade de escolha, e é preciso agarrar-se ao que tem para a sobrevivência, mesmo que este espaço mine sua autoestima de todas as formas.


Trabalhar com o que não se gosta, ou em um ambiente que não permite o crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional/acadêmico, vai deteriorando as possibilidades de aprimoramento da autoestima intelectual, e confiança em si mesmo. Portanto, a necessidade de se escolher é fundamental para o propósito consigo mesmo.


E escolher-se não é sobre jogar tudo para o alto, é sobre compreender que nossas escolhas determinam também onde podemos chegar e quem somos, e que ser subestimado pode servir como gás para o nosso desenvolvimento.


Por isso, a autoestima e amor próprio servem como fonte onde a chuva são nossos pensamentos e propósitos, onde trabalhamos em nós mesmos, para aprender a reagir a forma como os outros nos leem e nos desrespeitam.


Parece papo de coach, mas, se não nos apegarmos a isso, a que mais podemos nos apegar?


“A certa altura de uma carreira profissional muito heterogênea, trabalhei como cozinheira numa casa noturna. Eu odiava o barulho e a fumaça. No entanto, trabalhar à noite me deixava livre para escrever durante o dia, para fazer o trabalho que eu realmente queria fazer. Cada experiência aprimorava o valor da outra. Meu emprego noturno me ajudou a aproveitar a tranquila serenidade do meu dia e apreciar o tempo sozinha, tão essencial para a escrita”. (hooks, 2021).

Ter bom gosto é escolher-se. Desejar a si mesmo o melhor, e compreender que mesmo que com diversas barreiras estruturais, podemos e devemos nos escolher, e com inteligência.


É preciso saber que o amor próprio é mais fácil para alguns que para outros, devido a diversos tipos de privilégios, e aqui, deixo explícito sobre a autoestima intelectual que é diretamente afetada pelo profissional.


Afinal, é mais fácil amar a si mesmo quando não se mata diversos leões por dia.


Referências:


HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2021

 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 11 de jun.
  • 4 min de leitura


Xari e Primo falam um do outro como quem fala de um parceiro de caminhada. Não existe aquela história romantizada de dois artistas que entraram num estúdio e saíram de lá com um projeto pronto. Antes de Azul, existiu uma amizade. Uma troca de ideias. Uma identificação que aconteceu antes mesmo da música.


Os dois se conheceram num grupo de produtores e artistas. Começaram conversando sobre rap, referências, beats e sobre a forma como enxergavam a própria cultura hip-hop. Quando perceberam, a parceria já estava acontecendo.


"Ele que me chamou no privado e falou: 'Mano, nossas ideias batem. Vamos trocar um contato pra quem sabe lá na frente trabalhar junto'. E foi literalmente do começo até agora bem natural, tá ligado? Nasceu só. Aconteceu mesmo."

O interessante é que a relação entre os dois não parece construída apenas em torno da produção musical. Existe uma visão compartilhada sobre o que o rap pode ser.



Durante a conversa, os dois voltam diversas vezes para as mesmas referências. BK. Cacife. Black Alien. Os discos que marcaram a adolescência de uma geração inteira. Os álbuns que eram feitos para serem ouvidos do começo ao fim.


"E sem tirar também que nossas referências, mano, é igual. Sempre foi igual. O que nós cresceu ouvindo. O Cacife, o próprio BK no Néctar. Eu tenho muita influência do rap carioca. Cresci ouvindo Black Alien. Então muitas referências que eu tenho são da área de vocês."

Essa conexão ajuda a entender o caminho que Azul escolhe seguir.


Num cenário em que boa parte da música é produzida para o consumo imediato, o EP parece interessado justamente no contrário. Existe uma preocupação com narrativa, com atmosfera e principalmente com permanência.


Quando o assunto chega à sonoridade do projeto, os dois falam de uma vontade de retornar para algumas das bases que os fizeram amar o rap.


"Eu gosto muito de boom bap, tá ligado? E a gente tá numa safra boa de uma galera que tá trabalhando mais com sample. Tentando voltar um pouquinho mais pras origens. Fugir dessa parada que acabou virando o principal."


Não é uma rejeição ao presente.


Também não é uma nostalgia vazia.


O que aparece ali é uma tentativa de recuperar certas experiências de escuta que parecem cada vez mais raras.


Escutar um disco inteiro.


Voltar para ele.


Descobrir detalhes.


Perceber referências escondidas.


Criar uma relação mais profunda com a obra.


"Eu gostaria que as pessoas prestassem atenção mais na questão emocional da parada. Não ouvissem música só por ouvir numa playlist. Eu acho que esse EP foi feito pra você ouvir ele completo uma vez, duas vezes, três vezes. Tentar captar todos os detalhes que a gente botou. Pescar os samples que o Primo fez. Buscar as referências que a gente cita."

Talvez seja justamente por isso que o nome do projeto carregue tanto peso.



Azul não é apenas um título.


É quase uma chave de leitura.


Ao longo da entrevista, a ideia de dualidade aparece o tempo inteiro. Céu e mar. Calmaria e tempestade. Paz e caos. Silêncio e ruído.


Quando pergunto sobre isso, a resposta vem naturalmente.


"A primeira coisa que as pessoas pensam quando pensam nessa cor geralmente é o mar ou o céu. E são duas coisas que trazem muita dualidade. A calmaria e a tempestade."

O conceito atravessa o disco inteiro.


Não como uma teoria.


Mas como uma observação da própria vida.


"Eu faço uma coisa desse jeito, mas também faço uma coisa desse jeito. Ao mesmo tempo que eu posso me revoltar com as coisas, eu posso encontrar uma clareza em meio dessa confusão toda. Cada música fala de um aspecto. Ao mesmo tempo que a gente quer tranquilidade, a gente também quer doideira. Ao mesmo tempo que a gente quer o caos, a gente também quer tranquilidade em meio ao caos."


Talvez seja essa a principal força de Azul.


Ele não tenta escolher um lado.


Não tenta oferecer respostas definitivas.


O disco parece mais interessado em aceitar que as contradições existem.


Que a mesma pessoa pode carregar revolta e serenidade.


Que a mesma experiência pode ser lida de formas diferentes.


Que o mar pode refrescar e afogar.


"Ele não é só maleável, tá ligado? Se você pular de uma certa altura nele é tipo chão. Então você pode observar a mesma situação de vários ângulos diferentes."


A partir daí a conversa começa a tocar num tema que parece atravessar todo o projeto: a arte como forma de equilíbrio.


Não equilíbrio como ausência de conflito.


Mas equilíbrio como tentativa de compreensão.



Como uma maneira de organizar sentimentos.


De transformar experiências em alguma coisa compartilhável.


Quando pergunto o que eles esperam que as pessoas levem do EP, a resposta passa longe de números ou estatísticas.


"Eu quero que elas entendam o processo da criação. Que não é só sentar lá e fazer qualquer coisa. É ouvir uma coisa, sentir o que ela diz, sentir o sentimento dela e transmitir isso de outro jeito."

Primo complementa a ideia olhando para o próprio papel dentro do projeto.


"O storytelling não tem que acontecer só com o MC. O produtor em si tem que contar a história também. Não é só colocar a caixa e o bumbo no lugar certo. Eu tentei trazer uma história do começo ao fim só com o beat."

É uma visão que ajuda a entender por que Azul soa tão orgânico.


Os beats não aparecem apenas como acompanhamento.


Eles também narram.


Também criam ambiente.


Também contam história.


No fim da conversa, os dois acabam chegando num tema que talvez resuma tudo o que foi dito antes: memória.


A vontade de fazer algo que permaneça.


Algo que sobreviva à velocidade absurda do presente.


"Eu quero muito fazer uma parada pra ficar. Você ouve agora. Depois ouve de novo. Daqui a cinco anos você fala: 'Pô, vou botar aquele som que eu gosto'."

Porque, no fundo, Azul parece falar exatamente sobre isso.


Sobre amizade.


Sobre construção.


Sobre o rap como espaço de encontro.


Sobre encontrar alguma calma sem precisar negar o caos.


E sobre a possibilidade de transformar um momento da vida em algo capaz de continuar existindo quando todo o resto já tiver passado.



 
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