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Por Pivete



Conheci o trabalho de Vírus Carinhoso por Carta aos Ancestrais. Primeiro veio o visual, depois a música, depois os conceitos. Tinha muita coisa ali que conversa diretamente com o que a gente busca registrar na Menó: memória, identidade, território, negritude, arte e as maneiras que a gente encontra para continuar.


Quando a gente sentou para trocar ideia, comecei de onde sempre gosto de começar. Antes do lançamento, antes do disco, antes dos números, quem é o artista e de onde vem sua música?

Vírus é cria do Subúrbio Ferroviário de Salvador e sua relação com a arte começa cedo, principalmente pela influência dos irmãos.


“Eu sou filho mais novo, de uma mãe solteira, e a influência musical e artística que eu tive sempre foram meus irmãos. Eles faziam teatro na adolescência, aí eu entrei no teatro também, na infância, que foi a primeira linguagem artística que eu comecei a fazer.”

Na adolescência, o caminho chega nas batalhas de rima.


“Tinha uns amigos meus que já batalhavam e eu sempre fiquei naquela, tipo, pô, quero também fazer isso. Até o momento que eu tive coragem, fui, batalhei, tomei gosto.”

Depois veio a poesia.


“Eu escrevi a minha primeira poesia já tarde, tinha 17 anos quando escrevi. Comecei a trabalhar esse lance da poesia na rua, de slam, de batalha de poesia também, de recitar. Meio que juntei a linguagem do teatro, que eu já fazia, com o rolê da poesia e comecei a interpretar meus poemas nos lugares que davam.”

Essa mistura foi parar na música quando ele criou, ao lado de outros jovens de Salvador, o coletivo Roupa Suja.


“Foi quando eu gravei a minha primeira música. Peguei o meu primeiro poema e coloquei em uma base de rap, em um boom bap, e entendi que a minha poesia também poderia se encaixar nesse lugar musicalmente. Desde então comecei a elaborar cada vez mais a minha poesia para a música. Também comecei a experimentar minha voz no canto e comecei a estudar produção musical.”

Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Só que falar de Vírus sem falar de território deixa metade da história de fora.

Quando perguntei como foi crescer no Subúrbio Ferroviário, ele chamou o lugar de uma faca de dois gumes.


“O Subúrbio Ferroviário é aquela onda, aquela faca de dois gumes. Porque é um território muito privilegiado geograficamente. É perto de uma praia, é um lugar bem tropical, bem massa de se viver. Na minha infância eu ia pra praia sozinho. Minha mãe ficava bolada, mas isso era sempre um lugar de escape.”

Mas a mesma infância também foi atravessada pela violência.


“O lugar onde eu morava era praticamente em frente à biqueira. Então o pesar da vivência do subúrbio é esse, o que a violência meio que faz com a gente.”

Ainda assim, quando ele fala sobre o território, não resume sua história a isso.


“A minha raiz tá lá de qualquer forma. Morar no subúrbio foi o que me proporcionou, inclusive, fazer teatro. Foi onde eu comecei a fazer teatro, no Centro Cultural Plataforma. Então é um lugar muito rico culturalmente também.”

E uma das primeiras memórias de palco também está ali.


“A minha primeira apresentação foi nesse centro cultural e eu lembro muito da sensação de ver minha mãe na plateia, me assistindo. Então o subúrbio me proporcionou esse tipo de coisa também, para além da violência que a gente sabe que existe em territórios periféricos.”

A família aparece o tempo inteiro na conversa.


Quando fala da mãe, Vírus lembra que ela sempre apoiou a arte porque entendia que, dentro daquele contexto, ser artista poderia ser uma possibilidade de existência.


“Minha mãe sempre foi uma pessoa que me apoiou bastante. Ela sempre me engajou bastante em relação à arte. Porque eu entendi que dentro do contexto da região onde a gente morava, eu ser artista era a melhor condição de existência que eu poderia ter.”

A arte também aparecia nos irmãos.


“Eu via o olho do meu irmão brilhar quando ele tava apresentando uma peça. Eu via o olho do meu irmão brilhar quando ele tava fazendo um grafite. Ver a arte transformando a vida dessas pessoas que estavam em volta de mim me fez perceber também como ela me afeta.”

E completa:


“A forma que eu escolho as palavras pra escrever uma poesia, tudo isso tá vinculado ao poder da arte na minha vida.”

É daí que a conversa chega no tal “gênero Vírus”.


Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Eu tinha visto ele definir sua música assim e perguntei se os gêneros tradicionais já não davam conta de explicar o que estava fazendo.


“Desde quando eu comecei a fazer música eu sempre tive uma dificuldade de nomenclatura. De enquadrar em nomenclatura. Ah, eu faço rap, faço trap, faço isso, faço aquilo. Eu sempre fui tipo, mano, não, eu quero fazer música, só que eu quero me experienciar na música.”

Karkara, segundo ele, leva essa ideia adiante.


“Esse disco mesmo que eu tô fazendo agora é um retrato fiel disso. Tem uma música que tem um violão que parece um flamenco, enquanto tem uma música que é um pagodão.”

Mas então o que faz tudo isso continuar sendo Vírus?


“É como eu interpreto a música dentro desse ritmo. É uma coisa muito característica minha. Eu consigo fazer com que o gênero se transforme ao meu jeito.”

Ele dá o exemplo.


“Eu vou fazer um piseiro aqui, mas esse piseiro vai ter a cara de Vírus. Não vai ser um piseiro clássico, tradicional. Vai ser uma coisa que eu vou fazer no piseiro. O que vai ser essa coisa? Fica aberto à minha criatividade.”

E resume:


“A minha música não tá em um lugar só, não tá apenas em um gênero. A forma que eu interpreto a música dentro desse gênero é o que vai dar a identidade da música.”

Só que Carta aos Ancestrais leva essa identidade para um lugar ainda mais íntimo.



A música atravessa luto, nascimento, paternidade e memória.


Quando perguntei como uma experiência pessoal daquele tamanho se transforma em música, a resposta veio rápida.


“Rapaz, é um processo necessário. Tinha que ir pra algum lugar isso, sabe? Tinha que ser canalizado de alguma forma. E a poesia, a música, é esse lugar pra mim.”

Ele continua.

“Canalizar esse tipo de sentimento que muitas vezes nem eu consigo elaborar em fala. Se fosse pra conversar sobre, muitas das vezes eu me perco entre as palavras. Mas a música tem esse lugar pra mim.”

Carta aos Ancestrais também não nasceu de uma vez.


“É uma música que nasceu em um intervalo de tempo muito longo, o que não é comum comigo. Eu comecei a escrever quando meu filho ainda tava na barriga, ainda na experiência do luto. Só depois que ele nasceu, quando ele fez um ano, um ano e pouco, eu escrevi a segunda parte, que é dedicada a ele.”

Para Vírus, a faixa também explica sua própria relação com o fazer artístico.


“É muito sobre a minha vivência, muito sobre o que eu passei, muito sobre o que eu senti. Mas é uma coisa coletiva também, porque o luto é uma coisa inerente a todo mundo.”

É quando uma experiência particular deixa de pertencer somente a quem escreveu.


“Todo mundo nesse exato momento está vivendo um luto. Que seja de uma situação, de uma pessoa, de um lugar. Trazer esse assunto pra minha música é uma tentativa de deixar minhas reflexões sobre isso públicas, para que outras pessoas que estejam vivenciando coisas parecidas consigam se identificar.”

Ele define o processo como transformação.


“Parte de um processo de dor também. De um processo de transformação. De ressignificação dessa dor.”

Esse processo não termina em Carta aos Ancestrais.


Na verdade, ele atravessa todo Karkara.


“O próprio disco Karkara nasceu dessa inquietação, dessa necessidade de falar sobre esse luto do meu irmão. Meu irmão morreu em 2020. Em 2021 eu comecei a pensar o Karkara.”

Só que o projeto mudou muito de lá pra cá.


“A primeira versão dele era uma versão totalmente triste. Medonha de triste, de melancolia.”

Aos poucos, Vírus percebeu que não queria continuar reproduzindo o mesmo estado.


“Eu entendi que não era isso. Não era isso que eu queria. Fui pensando, reformulando, reformulando. Aí meu filho nasceu dentro desse processo.”

O resultado ainda é um trabalho pesado.


“É um disco ainda denso. É um disco que não é fácil de digerir. Eu tenho essa noção. Mas isso precisava sair por algum lugar, por algum canal. E esse disco foi o lugar que eu encontrei de jogar isso para o mundo.”

A chegada de Joia também mudou a maneira como Vírus passou a entender ancestralidade.


Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Ele conta que uma conversa antes do nascimento do filho ficou marcada.


“Ele falou exatamente isso pra mim, que quando a criança nasce é um ancestral que volta pra gente.”

A ideia ajudou a construir a própria faixa.


“Essa conversa foi o que me fez pensar a ancestralidade, que me fez pensar Carta aos Ancestrais também. E me trouxe essa noção de que a ancestralidade é um processo contínuo.”

Não é só olhar para trás.


“Não é um processo que tá no passado apenas. A ancestralidade tá existindo agora. Joia é um ancestral que voltou. Eu sou um ancestral que voltou. Eu sou um ancestral que vou também.”

A paternidade também mexeu com o tempo de Vírus.


“A paternidade me veio muito pra esse lugar de assentamento. De falar, calma, respira fundo. O tempo das coisas é o tempo das coisas. Não adianta sofrer pelo tempo.”

Depois ele manda uma frase simples, mas que fica.


“É trabalhar com ele. É ser amigo dele. Não jogar contra o tempo.”

E existe ainda uma coincidência que atravessa toda essa história.


Vírus, Joia e Scank, seu irmão falecido, nasceram no mesmo dia.


“Eu, o Scank, meu irmão que faleceu, e Joia, meu filho, nascemos no mesmo dia. Isso foi uma coisa que eu fiquei tipo, tem alguma coisa acontecendo aqui que eu não tenho discernimento pra descobrir o que é. Isso não pode ser só coincidência.”

Depois do nascimento, outras prioridades simplesmente diminuíram.


“Tudo deixou de ser prioridade pra mim. Só Joia foi prioridade. Eu tô voltando a ter as outras prioridades da minha carreira agora. Mas esse primeiro ano dele foi praticamente só ele.”

Quando Carta aos Ancestrais ganha os tambores do Aguidavi do Jêje, tudo isso fica ainda mais evidente.


Vírus já tinha produzido uma primeira versão da música com Silas Barreto, com uma célula de percussão. Depois surgiu a possibilidade de convidar o grupo.


Só que a importância da participação vai muito além do arranjo.


“O Aguidavi do Jêje pra mim é uma referência máxima de trabalho comunitário. De trabalho de base. E de ancestralidade também. De ancestralidade em vida.”

Ele cita ainda a atuação social do grupo.


“Eles têm um projeto social, têm uma escola, dão aula pras crianças, têm oficina de percussão. Pra mim, estar junto com eles representa muito do posicionamento que eu quero pra minha carreira.”

E aí ele fala de maneira ainda mais direta sobre para quem quer fazer música.


“Eu não quero fazer música pra boy branco. Não quero fazer música pra boate. Eu quero fazer música pra base, mano. Pra galera, pra quem precisa escutar. Essa é a minha ânsia.”

Estar ao lado do Aguidavi, para ele, foi realizar um sonho.


“Foi um sonho realizado. Papo de sonho realizado mesmo.”

E musicalmente a presença dos tambores também mudou a faixa.


“Quando eles entram com os tambores na faixa, a faixa cresce de uma forma absurda. Se transformou. Pra mim foi grandioso.”

Esse lugar do tambor também aponta para onde Vírus quer levar sua estética.


“Esse lugar do experimental, do tambor, é o lugar onde eu miro pra minha estética sonora.”

A ancestralidade atravessa até a construção visual de Karkara.


Vírus já vinha pesquisando os símbolos adinkra desde o trabalho Sankofa.


“Fiz uma performance, fiz um curta metragem, rodei um show do Sankofa. E aí eu quis adotar esses símbolos pro disco.”

Cada música passa a conversar com um símbolo, enquanto a estética do projeto encontra outra referência importante da história de Vírus, a rua.


“A minha estética também vem muito da rua. Vem muito do grafite, da pichação. Desde criança, aqui em Salvador, a gente tem um alfabeto específico que é o letrado baiano.”

Foi novamente um irmão que abriu esse caminho.


“Desde criança eu já sabia ler isso na rua por conta do meu irmão. Aprendi a fazer também. Na adolescência comecei a pichar.”

Para o disco, ele decidiu aproximar essas duas linguagens.


“Minha sacada foi fazer uma interseção, uma mistura entre os adinkras e esses símbolos do letrado baiano. São símbolos que representam um povo, representam um local e representam uma filosofia.”

Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Daí também aparece o conceito de Karkara.


O disco terá 12 músicas e trabalha com os adinkras como parte da identidade conceitual. Vírus cria ainda um ideograma próprio para representar uma ideia central do projeto, que ele chama de “adeus ao karma”.


“A onda do disco é a criação de um ideograma que representa adeus ao karma.”

E explica o que está tentando deixar para trás.


“É meio que nessa intenção de dar adeus a tudo isso. A esse processo de dor que eu vivi, a esse processo de incerteza, essas mazelas que o povo preto já passa em si.”
“A onda conceitual do disco é meio que adeus a tudo isso.”

Só que Karkara também marca uma mudança prática na forma como Vírus consegue produzir.

O disco conta com patrocínio da Natura Musical e, para um artista que construiu parte importante da carreira de forma independente, isso significa ter acesso a estruturas que antes não estavam disponíveis.


“É um disco novo pra mim em relação à produção. É um disco que tá tendo patrocínio da Natura Musical. Então já começa por aí, de ter recurso pra fazer. Ter esse recurso é uma coisa atípica.”

Ele fala das mudanças pequenas que acabam fazendo uma diferença enorme.


“Nesse disco eu tive uma preparadora vocal, que é uma coisa que eu nunca tive e nunca nem pensei em me preocupar. A diferença que isso fez na minha voz, na gravação da voz, foi mil anos à frente.”

Também há estúdio, instrumentos e gravações orgânicas.


“Estou gravando baixo acústico, gravando percussão orgânica. Então tá sendo uma experiência totalmente nova pra mim.”

A liberdade, porém, continua sendo central.


“Eu entendi que o disco que eu estava fazendo era o que eu queria fazer. Então falei, velho, vou fazer o que eu quero mesmo.”

Ele decidiu não construir o trabalho pensando primeiro no resultado.


“Me desprendi de ‘será que vai bater?’. Falei, vou fazer aqui o que eu quero, o que eu acredito que eu gosto. E o que vier disso é resultado, é consequência.”

Essa discussão aparece de novo quando entramos no assunto da independência.

Vírus atualmente segue independente e fala sem romantizar o corre.


“Quem é independente tem que fazer tudo. Tem que meter as caras em tudo. É difícil porque muitas vezes a gente não vai conseguir fazer tudo. A gente precisa de outras pessoas, precisa de pessoas com conhecimentos específicos pra cada coisa.”

Ao mesmo tempo, ele percebe uma valorização crescente da estética independente e underground.


“Até os artistas que são mainstream querem ser independentes agora. Querem ser underground. Há uma tendência de valorização desses artistas.”

Mas tem uma diferença entre valorizar a estética e fazer o dinheiro chegar.


“Em paralelo a isso, a grana ainda não gira na mão dessa galera. Da gente, no caso.”

O patrocínio de Karkara também não caiu do céu.


“Eu já tinha escrito pra Natura quatro vezes antes. E aí essa vez eu passei.”

A resposta dele pra isso é bem de quem já conhece a pista.


“É não desistir mesmo. É botar a cara a tapa sempre. Sempre, sempre, sempre. Que uma hora vai.”

Mesmo com toda essa caminhada individual, Vírus insiste que nenhum trabalho independente acontece sozinho.


“Todo trabalho independente tem essa coletividade que faz acontecer. Todos esses meus trabalhos anteriores, visuais e tudo mais, são trabalhos coletivos. Colando com gente foda, que gosta também do meu trabalho. Você tem uma ideia aí, eu tenho uma ideia de cá, vamos juntar as forças pra realizar.”

E talvez isso também explique a Carta aos Ancestrais.


Uma música que nasce de uma história muito particular, mas vai encontrando outras pessoas, outros tambores, outras memórias.


Perto do fim da conversa, perguntei uma coisa que pra mim talvez seja uma das perguntas mais importantes de toda entrevista.


Daqui a 20 anos, quando Joia escutar Carta aos Ancestrais, o que Vírus gostaria que ele entendesse sobre o homem que seu pai era quando escreveu aquilo?


Vírus riu.


“Ele pode achar uma coisa muito brega. Tipo, meu Deus, meu pai fez um disco sobre mim. Uma coisa bem cringe.”

Ou pode ser o contrário.


“Ele pode ter uma coisa com orgulho também. Tipo, velho, olha isso aqui. Eu tinha um ano e olha o que meu pai fez.”

No final, ele sabe que não tem como decidir o que o filho vai sentir.


“O futuro a gente não consegue mensurar.”

Mas imagina uma cena simples.


Alguém pergunta a Joia qual é sua música preferida. Ele cita os artistas de sua própria geração e, talvez depois de pensar um pouco, lembre.


“Ah, tem essa aqui que meu pai fez também. Isso pra mim.”

Acho que é aí que Carta aos Ancestrais fecha o ciclo.


Uma carta para quem veio antes.


Uma música feita enquanto se aprende a conviver com quem partiu.


Uma música escrita para um filho que acabou de chegar.


E talvez uma memória deixada para um futuro que Vírus sabe que não controla.


Karkara vem depois.


Experimental, misturado, denso e, nas palavras do próprio Vírus:

“É a minha cara. Quem conhece sabe. Quem tá ligado, tá ligado.”

 
Todo 7 de setembro o Brasil repete a mesma imagem. Um homem branco, montado num cavalo, levanta uma espada perto de um rio e, de repente, parece que a liberdade começa ali. É uma história bonita, simples, fácil de decorar. Talvez por isso tenha sobrevivido tanto. 

O problema é que a liberdade nunca funcionou assim por aqui.


Muito antes do grito chegar ao Ipiranga, já tinha gente gritando por liberdade nesse território. Gente que não ganhou quadro, monumento, feriado ou avenida com o próprio nome. Gente que ganhou forca, cadeia, perseguição e esquecimento. Em 1798, quase vinte e cinco anos antes da independência oficial, a Revolta dos Búzios já colocava em circulação ideias de independência, república, igualdade e fim da escravidão. Ali estavam homens negros, pobres, soldados, alfaiates, trabalhadores, libertos e escravizados imaginando outro país possível. Lucas Dantas, Manuel Faustino, João de Deus e Luís Gonzaga foram executados. A independência deles não ganhou desfile. Ganhou condenação.


Talvez seja esse o problema quando contamos a história do Brasil apenas pelas datas escolhidas pelo próprio poder. A gente começa sempre quando eles chegam. Nunca quando nós começamos a lutar.

A luta dos negros ao longo da história. A busca por pertencimento depois do sequestro. Os que sobraram da invasão. As memórias soterradas pelo colono. Sonhos imperialistas, violência, eugenia e outras teorias criadas para justificar a selvageria de quem se diz civilizado. A história oficial tem uma habilidade impressionante para transformar conquista popular em bondade de gente poderosa. Foi assim com a independência. Foi assim com a abolição. Parece que sempre existe alguém da elite chegando no último capítulo para assinar um papel e receber os créditos por uma luta que começou muito antes.


Dom Pedro aparece às margens do Ipiranga. Isabel aparece com uma pena na mão. E o povo desaparece.



A discussão apresentada no texto “República e abolição: história sem povo?”, da Fundação Perseu Abramo, ajuda a desmontar justamente essa narrativa. Quando a história é contada apenas pelas decisões das elites, os grandes processos políticos parecem acontecer sem participação popular. Como se o povo estivesse sempre assistindo. Como se negros, indígenas, trabalhadores, libertos, escravizados, homens e mulheres pobres fossem apenas cenário. Não eram.


O próprio 7 de setembro fica pequeno quando a gente olha para o que aconteceu depois dele. Portugal não ouviu o grito do Ipiranga e simplesmente arrumou as malas. Na Bahia, a guerra continuou. Negros, indígenas, libertos, escravizados, pescadores, trabalhadores pobres, homens e mulheres participaram dos conflitos contra as tropas portuguesas até 1823. Entre essas memórias aparece Maria Felipa, mulher negra de Itaparica, pescadora, ganhadeira, lembrada pela resistência contra os portugueses. Essa imagem me interessa muito mais. Não o príncipe em cima do cavalo, mas uma mulher preta na beira do mar. Talvez porque eu consiga enxergar melhor o Brasil nela.



Vejo as vozes e o que sobrou delas. Fela, Lumumba, Davis, Mandela, King, Malcolm, Gonzalez, Abdias, Huey, Sankara, Baldwin, Fanon, entre tantos outros. Entre o que existiu e o que lembramos, são muitos os que pagaram por desafiar o colono. Ainda assim, sua resistência abriu margem para liberdades possíveis. Quando leio esses livros que falam de nós, escritos por nós, quando assisto aos documentários que contam um pouco do que fomos, percebo que, mesmo com tudo desfavorável, criamos, lutamos, sobrevivemos.


No Brasil também foi assim. Nas tentativas de revolução, nas insurreições, nas revoltas de quem só tinha a força, nas tentativas de preservar uma identidade, tudo isso se tornou nosso. Palmares, Búzios, Malês, Balaiada, quilombos espalhados pelo país, fugas, sabotagens, revoltas, compra de alforrias, ações judiciais, imprensa, associações. A liberdade nunca chegou para a população negra como presente. Foi arrancada pedaço por pedaço.

E continuou sendo arrancada depois de 1822, porque talvez essa seja a pergunta que o 7 de setembro deveria provocar de verdade. Independência para quem?



O Brasil rompeu politicamente com Portugal enquanto milhões de pessoas continuavam sendo tratadas como propriedade. Isso não é um detalhe na história da independência. É uma das suas maiores contradições. Um país que se declarou livre enquanto mantinha gente acorrentada. Foram justamente essas pessoas, escravizadas, libertas e seus descendentes, que continuaram tensionando os limites dessa palavra chamada liberdade.


Décadas depois, Luís Gama transformaria a própria vida em enfrentamento direto à escravidão. Homem negro, nascido livre e vendido ilegalmente como escravizado pelo próprio pai, recuperou sua liberdade e passou a atuar nos tribunais, na imprensa e na campanha abolicionista. Ao lado dele estavam José do Patrocínio, André Rebouças, Ferreira de Menezes, Vicente de Souza e tantos outros homens e mulheres negros que fizeram da luta abolicionista uma batalha pública. A abolição não começou em 13 de maio de 1888. Ali foi colocada uma assinatura. A luta já estava acontecendo havia muito tempo.



Estava nos quilombos, nas fugas coletivas, na recusa ao trabalho, nos processos judiciais, nas campanhas públicas, na imprensa abolicionista, nas associações, nas pessoas que escondiam fugitivos, arrecadavam dinheiro para alforrias ou simplesmente decidiam que ninguém mais seria dono de seus corpos. Depois colocaram uma princesa no centro da história.

É curioso como quase sempre existe um branco para receber os créditos no final.


Eles se expressaram. Seguiram com línguas afiadas, mãos calejadas e olhos fixos no objetivo de ser vistos como seres dignos, respeitados em relação de igualdade. O outro, sempre tão heroico, vilaniza quem o questiona. Para eles, os fins justificam os meios que idealizaram e executaram. Higienizaram povos inteiros porque se diziam puros.


Tudo que foge do branco é sujeira, inclusive o verde de uma floresta.


Negar que, em tantos momentos da história, a maldade teve uma cor, um propósito, um deus, um valor, uma bandeira, um clamor, o apoio de povos, o sorriso de inocentes e a conveniência dos justos é não perceber como o bem e o mal se confundem e se mascaram nos discursos.


Tudo depende da perspectiva.

Qual é a sua?


A deles foi não aceitar ser o vilão de uma história da qual eram, nitidamente, vítimas. Não ser conivente com uma sociedade que justifica seu ódio na revolta de quem já nasce sendo alvo de sua violência. Se distinguir, se afastar do olhar do colonizador na busca da própria identidade. Construir, através das ações, pontes para que outras identidades, já envenenadas por um olhar branco, possam renascer como um novo amanhã.



Talvez seja por isso que disputar memória seja tão importante. Porque quem controla os heróis de um país também controla aquilo que esse país entende como possibilidade. Se ensinam desde pequeno que a independência foi dada por um príncipe, você aprende que transformação vem de cima. Se ensinam que a escravidão acabou pela bondade de uma princesa, você aprende que direito é favor. Se escondem os quilombos, as revoltas, os abolicionistas negros, as mulheres negras que lutaram, os trabalhadores que pegaram em armas, os que escreveram, conspiraram, fugiram e organizaram, você cresce acreditando que o povo sempre assistiu à história acontecer.


Não assistiu.

Fez.


Somos o que somos por conta de quem fomos no passado. Uma só ancestralidade, uma infinidade de potencialidades. Seus sonhos movem os meus. Eu sou vocês. Compartilho o sonho de ser alguém diferente de quem ousou me fazer acreditar que eu sou. Sou diferente de quem sempre se colocou como o diferente. Não quero sua salvação nem seu clamor. Quero ser eu, o máximo possível. E, sendo assim, estou sendo nós.



As supostas humanidades foram categorizadas, colocadas em uma ordem hierárquica, tudo carimbado, assinado, datado. Transformaram isso em ciência, ou tentaram. Racializaram, debateram suas teorias publicamente. Foi política de Estado. Depois disseram que estavam nos civilizando. A mesma civilização que sequestrou, escravizou, invadiu, estuprou e matou. Depois escreveu os livros dizendo que nos deu liberdade.


Por pouco não conseguiram o que queriam.

Ou conseguiram?


Talvez celebrar independência hoje seja justamente tomar essa palavra deles. Olhar para o 7 de setembro e lembrar que o Brasil não começou a desejar liberdade naquele dia e muito menos terminou de conquistá la nele. Sete de setembro é uma data. A independência é uma disputa muito maior. Está em 1798, quando homens negros foram mortos por imaginar uma Bahia livre, republicana e sem escravidão. Está em 1823, quando o povo da Bahia continuou lutando contra as tropas portuguesas. Está nos quilombos, nas revoltas, em Luís Gama entrando nos tribunais, nos abolicionistas negros fazendo circular outra ideia de país, em cada pessoa escravizada que fugiu antes que alguém decretasse sua liberdade.



Porque ninguém espera uma caneta quando a própria vida está em jogo.

Me banho no que me resta, que é quem ainda resiste. Preservo a memória daqueles que resistiram, dos meus iguais que pereceram na luta por nossas liberdades, pelo direito de viver nossos sonhos, imprevisíveis como o mar. Em sua força e grandeza, resistiremos a mais um amanhecer.


Talvez esse seja o nosso verdadeiro grito de independência. Não o de quem levantou uma espada, mas o de quem nunca aceitou a corrente.



 
A Rede Utopia é um projeto de pré-vestibular comunitário gratuito que atua há mais de 8 anos em territórios populares da Baixada Fluminense e da Região Metropolitana do Rio de Janeiro.

 


Criado e coordenado pelo CIEPS, começou como um grupo de estudo de ex-alunos do CIEP 175 José Lins do Rego, localizado no Parque José Bonifácio, São João de Meriti - RJ. Hoje, como pré-vestibular comunitário, o projeto já atendeu mais de 8 mil participantes ao longo de sua trajetória, com mais de 5 unidades espalhadas por escolas públicas e espaços comunitários.

 


Mais do que preparar para o ENEM e vestibulares, a Utopia é um espaço de acolhimento, formação política, troca de saberes e construção de futuros possíveis. Com o princípio de quem ensina aprende. E quem aprende, transforma…



Desse modo, é uma ação coletiva popular e, portanto, como um movimento social, construiu a possibilidade de transformar o trabalho de educação popular, através do ensino pré-vestibular, em uma forma de ação político-cultural e articulação popular.

 


A Baixada Fluminense é um território marcado pela profunda desigualdade socioterritorial, caracterizada por municípios com os menores rendimentos do Estado, dependência econômica da capital, déficits severos de saneamento e longos deslocamentos diários para os grandes “centros” que afetam a qualidade de vida de milhões de trabalhadores.


Porém, através da formação crítica pela educação popular e agitação cultural, torna-se capaz a construção e intensificação das redes de resistência e solidariedade.


 

A maioria dos professores são moradores da Baixada Fluminense que ajudam a construir um movimento popular, desse modo, valorizando a cultura e mostrando a história do nosso território para os estudantes.


Eu, por exemplo, fui ex-aluno da Rede Utopia, tive acesso à Universidade Pública, cursando História na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro - Instituto Multidisciplinar, localizado em Nova Iguaçu, o qual mudou minha perspectiva e como eu me relacionava com o Município de São João de Meriti.

 


Dessa forma, valorizando o território que passou João Cândido, rico em cultura e berço de Serginho Meriti, voltei ao projeto como Professor/Coordenador. Agora era minha vez de construir esse diálogo com os estudantes e redescobrir constantemente o nosso lugar.

 

 

 O Contexto e a Atuação nos Municípios

 

O projeto tem atuação nos territórios de Nova Iguaçu, São João de Meriti e Japeri. Assim, percebe-se que projetos como a Rede Utopia e demais iniciativas de pré-vestibulares populares intervêm em uma região de profunda bagagem de resistência e busca por direitos.



Em Nova Iguaçu, que é o núcleo de formação da "Baixada Histórica", a educação popular canaliza a mesma força política dos antigos movimentos de bairros que, ao longo do século XX, lutaram pelo direito à infraestrutura e à cidade.


Em São João de Meriti, um território densamente povoado e historicamente marcado pela negligência do Estado em serviços básicos, o acesso à educação crítica e comunitária funciona como uma resposta autônoma e contínua da sociedade civil contra a marginalização.



Da mesma forma, em Japeri, cidade que carrega as marcas de intensas lutas populares do passado, a promoção de pré-vestibulares públicos e comunitários representa a nova fronteira de disputa por cidadania, dignidade e pertencimento da juventude local.


A atuação do pré-vestibular e de seus educadores ocorre de maneira totalmente orgânica e enraizada nas dinâmicas dessas três cidades, traduzindo para o presente a essência de mobilização destacada nos documentos compartilhados.



A Rede Utopia comprova que a verdadeira transformação da Baixada Fluminense passa por criar um imaginário social mais democrático, transformando a histórica exclusão territorial em potência intelectual para que a juventude ocupe, definitivamente, os espaços universitários.

 

 

 

 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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