- Rosola

- há 2 dias
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Limítrofe, a primeira exposição individual da artista Brenda Cantanhede, abriu dia 15 de novembro no Atelier Sanitário, Rua Pedro Ernesto, 56 (Gamboa), com curadoria de Bruna Costa. Essa é a última semana para visitar a exposição.
Sua programação conta com visitas guiadas, ativações com o Coletivo Corena¹, e uma surpresa para o encerramento, que vai ser dia 28/11. Estive na abertura e compartilho o relato sobre a experiência, trazendo um pouco da minha vivência como amiga da artista.
Brenda me chamou atenção desde o primeiro momento que a conheci por ser uma pessoa interessada no aqui-e-agora. Observei ela recusando todos os lugares que achava que não deveria caber, muitas vezes de forma solitária e corajosa.

Ela queria saber o que existia de mais sofisticado, queria saber o que os poderosos estavam fazendo; de certa forma existia um desejo de se apropriar, e subverter.
Ela mesma subvertia constantemente seu próprio destino, buscava sempre enxergar por todos os pontos de vista. Parecia saber fazer a mágica de ir além de si mesma.

Desenvolvia a técnica ao seu máximo, e não satisfeita jogava tudo fora e ia atrás do conceito. Isso assustava. Quando ela, depois de se apropriar extensivamente das técnicas de pintura mais refinadas da história da arte ocidental, diz que quer ser musicista, eu entro em choque.
Não entendo o motivo, me preocupo. Mas ela sentia que não precisava eliminar nenhuma parte de si nesse processo: toda página virada é parte constitutiva desse todo. Hoje não me assusto mais, quando vejo sua primeira individual: ouvindo seus ruídos, junto com as fotografias, colagens, assemblages², pinturas, videoartes, instalações.
Era impossível prever o próximo passo dessa artista em pleno desenvolvimento, e era preciso coragem para sustentar isso. O tema da sua individual não poderia ser outro.
Uma exposição que é sobre tensionar limites. Mas, que limites nos restam? No capitalismo contemporâneo a tecnologia evoluiu ao ponto de monetizar até mesmo nosso tempo de ócio: escolhemos o tempo inteiro por livre e espontânea vontade rolar o feed do Instagram.
Até mesmo quando descansamos não deixamos de contribuir com a receita da META, dona da plataforma. Contribuímos passivos com o desenvolvimento dos algoritmos, e mesmo conscientes disso não conseguimos impor limites — afinal, é o meio mais eficaz de se comunicar com as pessoas que amamos, de obter conhecimento sobre nosso entorno, e buscar cultura.
É o que organiza a vida social hoje. Somos seres humanos com cada vez menos recursos para lidar com nossa existência, bombardeados por um fluxo interminável de imagens, massa de informação que deforma.
Temos uma quantidade exacerbada de informações acumuladas, mas somos pobres em dar sentido a isso. Historicamente a arte e a religião cumpriam esse papel, hoje podemos ousar dizer que as telas substituíram ambas de uma só vez.
Vivemos uma crise profunda na subjetividade humana, a partir dessa massa de informações que mistura tudo. Mas mistura tudo mesmo? Voltando à pergunta: quais limites nos restam?
Limites Culturais, Artísticos e Políticos.
VERMELHO
Cor quente. É cor pulsante na sua exposição, conectando vários trabalhos. É cor que suscita ação, vitalidade em direção da criação de algo inédito, o projeto de negação do que está dado.

Assim está exposto o paradigma de nosso tempo no trabalho da Brenda. Na frente de um elegante pano vermelho que jorra até o chão, uma televisão de tubo antiga passa sua videoarte “BANCADA BBB”, termo usado para se referir à bancada armamentista, bancada ruralista e bancada evangélica do Congresso Nacional do Brasil.

Misturando de forma caótica imagens familiares dos acontecimentos políticos do Brasil em 2023, a artista se apropria das tecnologias de controle midiático para ironizar sua própria artificialidade: usando uma peruca loira, encarna uma personagem espalhafatosa.
A gula com a qual ela devora um clássico podrão somos literalmente nós, quando estamos compulsivamente pulando vídeos em busca de mais, ou compartilhando aquela fake news com o grupo da família.
É um comentário sobre qual cultura visual forma a bancada e aqueles que se identificam com suas posturas. A videoarte permeia a exposição inteira devido a sua sonoridade em loop, nos remetendo à uma catedral gótica.
Brenda chama a atenção para o papel espiritual da música como ritual, contaminando impressões do todo, como uma infecção.
Às vezes funciona como ruído irritante, persistente, em outros momentos como ruído branco, preenchendo e acalmando a atmosfera, nos organizando existencialmente.
Algo semelhante acontece quando ficamos presos no mesmo Reels ou TikTok, rodando em looping, uma espécie de mantra que aprisiona. Os limites estão sendo novamente testados: entre a paciência e a contemplação. A ambiguidade é uma tensão constante.

Ainda sob o comando dessa sonoridade, somos absorvidos na série “Não é Pintura”. Aqui vemos uma profusão de experimentações — assemblages, sempre contendo o gestual típico da pintura, misturados com objetos que poderíamos encontrar na Uruguaiana.
Brenda transmuta esses objetos comerciais do universo pop brasileiro em expressão da sua subjetividade, deixando até mesmo uma declaração de amor aparecer na parede da galeria. A disposição expositiva da série remete a lógica dos antigos salões do século XIX, como exemplo clássico os Salões Oficiais da Academia de Belas Artes em Paris.
O ambiente saturado de obras que antes refletia uma necessidade de mostrar o máximo possível de trabalhos (e também uma competição entre artistas por reconhecimento) agora parece local adequado para temas diversos da artista se encontrarem.

“TERRA, TERRITÓRIO, TERRA” traz o debate da luta pela terra no Brasil, coexistindo no imaginário da artista, junto com referências à Mondrian, velas derretidas, e materiais típicos do universo carnavalesco do Rio de Janeiro.
Aqui o tempo todo os limites são atravessados, entre o particular e o universal, o subjetivo e o objetivo. É curioso pensar a coexistência desse trabalho com a pintura “Vó Paulina”, que está imerso na tradição da pintura figurativa e suscita uma mensagem política clara.
Parecem trabalhos que poderiam ser de pessoas diferentes, ou de épocas diferentes, mas sob o eixo conceitual de Limítrofe comunicam claramente sua proposta: ir para além das categorias burguesas de arte.
A artista está presente, com sua subjetividade e sua luta política, ultrapassando o individualismo, mas sem negar que tudo o que tocamos está contaminado de sujeito. Porém, Brenda também não estava satisfeita em somente refletir as questões de nosso tempo.
Era preciso ir além, novamente. A partir da importância que a imagem adquire na nossa comunicação, poderia a arte provocar fissuras entre o velho e o novo? Diante dessa aparente profusão de conteúdos, há uma ilusão de escolha.
Não há escolha se estamos presos no velho. Artistas estão sempre revisitando a história da arte. Os modos de produção hegemônicos aprofundam a lógica capitalista. Como descobrir o que pode ser diferente do que vemos todo dia?
AZUL
Cor fria. Aparece mais tímida, mas espirituosa e equilibra os trabalhos, criando uma dinâmica quente-frio na exposição. É a cor que suscita o sonho coletivo, revolucionário. A consciência coletiva que precisa escolher se transformar.
Atravessando limites entre videoarte e instalação, temos “SUSPENDER O CÉU”, trabalho que representa o que Brenda enxergou como vital para imaginar novos mundos: o retorno ao sonho.
O novo é fruto do processo dialético entre concreto (VERMELHO) e abstrato (AZUL), em fricção de movimento na constituição de um novo concreto. Não é uma mera redução do vermelho ao azul, mas opostos que se desenvolvem lado a lado, continuamente.
Ação na prática e utopia no horizonte. Objetividade política e posicionamento, ação; e o imaginar subjetivo, sonhar o diferente. Como suspender o céu, se já parece que estamos suspensos nele? Poderia ser uma referência ao método dialético, a negação da negação — mas são os saberes dos povos originários, que fazem parte da história da artista.
Ailton Krenak, professor e ativista indígena, usa o termo “suspender o céu” para se referenciar um estado cultural e existencial de suspensão perante a crise iminente entre humanos e natureza, onde cantar e dançar é resistência.
Limítrofe é, portanto, estar no limite, na fronteira das contradições. Estar entre duas zonas diferentes, estados diferentes. Caminhar entre elas. É zona de fricção para o sujeito ensaiar sua própria transformação, e do mundo também.
A exposição contou com a participação do Coletivo Corena, do qual a artista faz parte, e encerra dia 28/11, com uma visita guiada às 11 horas e um show à noite do grupo THEBRENDAS, onde Brenda desenvolve suas composições musicais. Será a celebração de lançamento do primeiro single do grupo, “slowcor.e”, gravado e masterizado pelo Francisco Patetucci.

THEBRENDAS é um coletivo que existe desde 2023 voltado para a produção de eventos e apresentações sonoras, trazendo a prática da performance como elemento-chave para a cena de apresentações de música alternativa no Rio de Janeiro.

Transitando entre noise, jazz, rock, e experimental, o grupo aborda temas como fascismo cibernético e os limites da tecnologia. Se apresenta normalmente em espaços de música independentes e exposições artísticas.
Convido todos a conhecer a exposição e o trabalho musical do coletivo, em uma noite propícia para a arte expandida ser um gesto poético e político. Música, política e arte na rua, na Gamboa, no Rio de Janeiro!
Notas:
¹ Coletivo Corena: O Corena (Coletivo Cultural Renato Nathan) é um coletivo político democrático-revolucionário, baseado em princípios marxistas. Tem como foco a atividade política através da cultura, buscando despertar a consciência política revolucionária da juventude e das camadas de intelectuais, organizando o diálogo entre classes intelectualizadas e classe operária. O objetivo do coletivo questionar a antiga divisão entre trabalho intelectual e trabalho prático, contradição fundante da divisão social do trabalho, ainda essencial para o funcionamento da máquina capitalista. Renato Nathan Gonçalves Pereira foi um dirigente camponês, conhecido como “Professor Renato”, assassinado em abril de 2012, em Jacinópolis/Rondônia. Ele apoiava a LCP (Liga dos Camponeses Pobres) e dedicou sua vida à luta no campo, organizando escolas populares e alfabetizando dezenas de jovens e adultos.
² Assemblage: Assemblage ou assemblagem é um termo francês que foi trazido à arte por Jean Dubuffet em 1953. É usado para definir colagens com objetos e materiais tridimensionais. A assemblage é baseada no princípio que todo e qualquer material pode ser incorporado a uma obra de arte, criando um novo conjunto sem que esta perca o seu sentido original. É uma junção de elementos em um conjunto maior, onde sempre é possível identificar que cada peça é compatível e considerada obra.
Fontes:

























