Ahhh… O Natal, esta época do ano tão marcante no “Ocidente” com todos os seus elementos: os gorros, a neve, os pinheiros, os biscoitos típicos, o papai noel escravizando elfos, jingle bells, tudo o que não se vê pela região intertropical e calorenta do globo terrestre.
Com a colonização, o softpower e o capitalismo esses elementos penetram nas nossas práticas culturais e nos moldam, no entanto, não somos passivos nesse processo, nós nos apropriamos dessa “tradição” (inventada no final do século XIX) e a ressignificamos e a reculturalizamos.
Os memes que são descongelados somente nessa festividade voltam serem apropriados e alterados.
Estamos na era do Remix; afinal, todo símbolo cultural é passível de ser realocado, montado, colado, adaptado, remixado com um uma facilidade ímpar.
O que Poze, Mc Jéssica do Escadão, Meninas dançando Créu, Mariah Carey, Frozen Fiction, Diogo Defante, Gravezaum Stronda, Pabllo Vittar e Mc Teteu têm em comum? Numa rápida olhada, nada. Mas ao apurar-se com mais rigor, nota-se como eles despontam o fenômeno natalino.
A começar com nossa diva icônica, Mariah Carey, que ressurge com sua música "All I Want for Christmas is You". Esse single é quase completamente descartado por aqui e ficamos apenas com seu climax loopado e sendo constantemente transformado.
Quando observamos o país Rio de Janeiro, notamos como esse marco icônico da cultura pop é apropriado e reculturalizado. Um vídeo antigo com qualidade duvidosa de meninas dançando Créu se transforma em um meme sazonal com sua versão natalina de Mariah Carey. Nada mais que um palimpsesto, o vídeo original tem seu áudio raspado para ser sobreposto com outro.
Seguindo com a influência de nossa diva, temos Mc Poze cantando um cover de All I Want for Christmas is You. Há de se notar que isso foi feito por IA, mas a pedidos de alguém que teve a brilhante ideia de associar o funkeiro/trapper com o pop numa fabricação de um novo imaginário natalino.
"Jingle Bells", essa expressão em inglês que ninguém sabe exatamente o que significa, mas que aparece em dezenas de músicas natalinas é apropriada por aqui. Podemos começar com a Pabllo Vittar protagonizando o meme que só é lembrado nessas festividades.
Trazendo pro funk carioca, temos a Mc Jéssica do Escadão, autora da linda melodia matinal Hoje o "Dia tá Lindo, Bom Dia, com seu single Dingo Bell" que traz um funk putaria mobilizando a festividade e o gênero musical.
E por falar em putaria, como esquecer o Mc Teteu com o seu Jingle Bell icônico que marca as festas há anos?
O imaginário natalino das periferias do país começa a ser pautado por remixes, palimpsestos, paródias, releituras e com presentes para todos os gostos. A demonstração suprema da remixagem que forma nosso imaginário dessa festividade é a versão funk sampleada da melodia de jingle bells do Gravezaum Stronda 2k23 que rende muitos vídeos de passinho e é trilha de muitos reels e vídeos curtos pela internet.
E sem esquecer do símbolo principal do natal, o Papai Noel, trago o episódio de natal de Frozen Fiction. Nele, Papai Noel sofre um acidente em seu trenó e cai na quebrada de Frozen Lerigou que se vê obrigada a ajudá-lo a entregar seus presentes e salvar o Natal. Eles passam por vários lugares, são enquadrados, passam altas aventuras, enquanto o trenó está no concerto. Um ícone máximo da apropriação cultural.
O natal, por mais que surja num contexto específico, é engendrado pela colonização, ele é também tomado e transformado, sendo ressignificado e adaptado. Pra finalizar, relembro o meme atemporal.
Só a antropofagia nos une. Nunca fomos cathechisados.
Fizemos Christo nascer na Bahia. Fizemos foi Carnaval.
A alegria é a prova dos nove
Oswald de Andrade, 1928
Parte I
Um dos eventos mais celebrados ao redor do mundo, o Natal mobiliza uma constelação de imagens e sentimentos. Reunião, conciliação, esperança, dádiva … muitos são os símbolos que atravessam o formato padrão de filmes, músicas e peças teatrais que pretendem expressar o denominado “espírito natalino”. Não é isso que vemos em Bem Vindo ao Natal, mixtape de Raffa Moreira lançada no ano de 2016.
Raffa Moreira. Capa da Bem Vindo Natal Mixtape.
O rapper guarulhense “profana” a imagem natalina tradicional, invertendo valores e embaralhando sentidos normalizados em diferentes dimensões. “Não vou perdoar ninguém porque é Natal”, insurge o artista já na primeira linha da faixa-título, provocando uma quebra de expectativas. Seu discursivo rompe com possíveis conciliações, performando uma agressividade contra seus haters, além de misturar elementos do estilo Trap com o sample da orquestra In the Hall of the Mountain King (1875). O resultado foi o estranhamento de um público ainda não familiarizado com essa nova sonoridade híbrida no circuito musical brasileiro.
Atualmente (quase uma década depois) a estética do Trap é predominante na indústria cultural. Naquele momento, porém, a produção artística do Raffa foi taxada como meme, principalmente após sua participação polêmica no projeto Poetas no Topo 2 (2017) e o lançamento de uma sequência de músicas que dobravam a aposta em um estilo experimental. A “Odisseia Raffa Moreira” foi analisada de maneira brilhante pelo canal Quadro em Branco, em duas partes que acompanham desde as inúmeras mixtapes gravadas de modo independente até a trajetória de ascensão do autodenominado criador do Trap brasileiro.
É engraçado olhar para trás e ver que minha intuição sobre a potência criativa desse artista “maldito” não estava tão equivocada assim. Entretanto, meu objetivo aqui não é conferir legitimidade ou qualquer outra pretensão similar. Aliás, nem mesmo é preciso. O Raffa sempre se autoafirmou em suas músicas: “Disseram que eu não faria sucesso/ E eu pensando como ser mais estético” (10K É Pouco Eu Sei, 2018).
Entre os sujeitos que compõem o circuito do Rap nacional, ainda existe uma certa rejeição ao Trap: rotulado como uma mera “cópia de gringo”, desprovido de reflexão crítica e desvirtuado de uma suposta essência do Hip Hop. Postura essa que parece guardar algumas semelhanças em relação ao Funk carioca. Todavia, acredito que o estilo estético do Raffa Moreira — e do Hip Hop como um todo, vale dizer — possa ser caracterizado como uma antropofagia cultural. Um ato que devora as influências estrangeiras, transformando os símbolos absorvidos para criar um fazer artístico novo e particular.
Esse traço antropofágico, percebido na extensa discografia de Raffa Moreira, se manifesta especialmente na forma que o imaginário natalino é apropriado na Bem Vindo Natal Mixtape. Se na faixa-título há um certo deboche, irreverência e agressividade, podemos identificar no percurso da obra a inversão de elementos que retomam um “espírito do Natal”, porém ressignificado e atualizado conforme o cenário singular construído.
VICE. Eles amam o Thug, mas desprezam o Raffa Moreira. Foto: Jardiel Carvalho.
A representação do Natal, fruto do processo histórico de colonização cultural e religiosa, geralmente evoca as idealizações de harmonia (invisibilizando os conflitos sociais) e prosperidade (indissociável do consumismo da sociabilidade capitalista). Nesse contexto, com contradições e limitações, o reconhecimento subjetivo por meio do consumo produz um ruído na hierarquização racial. Esses cenários são narrados sobretudo nas faixas De Fato (part. Nill) e Toca, Black & Trança (part. Klyn, Imob Zind e Blackout IMOB). Se os shoppings aparecem como espaços privilegiados para o fluxo de mercadorias que apossam o “espírito natalino”, os guardinhas representam a tensão entre a ascensão social de sujeitos marginalizados e a vigilância de corpos negros.
Já quase arrumei briga, o segurança tá me olhando, é foda/ Eu sei, porque eu sou preto (Bem Vindo Natal Mixtape. Faixa: De Fato)
A noite de ontem foi foda, mano, vou falar/ Colei no shopping, tinha uns kit, mano, pra pagar (...) De touca, black, trança/ Foda-se se olhou desconfiado (...) Vim pra comprar o estoque, espelho, balcão e a modelo/ Eu tenho dinheiro, segurança seguindo, eu não tô entendendo (Bem Vindo Natal Mixtape. Faixa: Toca, Black & Trança)
Permeado por ambivalências, ao mesmo tempo em que ad libs aparecem ao longo das músicas como estratégia de divulgação da sua marca de moda / Fernvndx Clothing, nego! /, Raffa Moreira também estipula princípios que vão além de reivindicações individualistas. Tampouco se satisfaz com uma subordinação aos padrões estéticos vigentes à época, o que talvez facilitaria um sucesso artístico e financeiro mais rápido.
Eu vi cê falando que os gringo faz e o Raffa não pode/ Na internet fala, ao vivo cê treme/ Eu li seu comentário falando que o som é uma bosta/ Eu juro, mano, que eu quis matar você/ Tentando colocar FERNVNDX Clothing e os negros na moda/ Fazendo o mundo pros meus filhos mais foda/ Tornando o mundo pros preto menor foda/ Cê acha mesmo que essa porra é só droga? (Bem Vindo Natal Mixtape. Faixa: 777)
A fé de Raffa Moreira chega realmente a ser mágica. Mesmo antes da Pineapple e todas as polêmicas que o tornaram viral, seu estilo artístico já demostrava uma potência que excede as violências raciais vivenciadas no cotidiano periférico. No lugar de uma harmonia concedida como dádiva, o conflito emerge a partir das margens de Guarulhos. Isso fica evidente nas colaborações presentes no projeto: os vínculos estabelecidos com artistas da cena local tensionam espaços interditados, viabilizando a insurgência de vozes reprimidas pelo consenso dominante.
No Natal em Guarulhos há uma verdadeira congregação, um ambiente familiar entrelaçado nas ruas. De uma maneira excêntrica, desconexa e que em um primeiro momento parece não haver relação com a temática da Mixtape, surge um estilo próprio para expressar vivências em comum. Um processo de subversão que joga entre o sagrado e profano, a ordem e o caos, a seriedade da denúncia e a alegria do cômico.
O Raffa é foda? Talvez. Os caras acharam engraçado. O fato é que o Raffa não parou. Guarulhos Trap City se consolidou e renovou a vitalidade estética, ética e política da cultura Hip Hop, em uma reunião nada harmônica. E assim, em meio a essa hibridez e autenticidade que caracteriza o Rap, a Bem Vindo NatalMixtape constrói uma imagem natalina peculiar, porém compartilhada. Um ato que devora idealizações e costumes rígidos para expressar situações vivenciadas concretamente. Antropofagia e sincretismo como estratégias de resistência coletiva: invocação de forças capazes de inventar e transformar as codificações vigentes. E provavelmente isso seja o mais próximo da pluralidade de formas de celebrar o Natal nas periferias brasileiras.
Parte II
Firmeza total, mais um ano se passando/ Graças a Deus a gente tá com saúde aí, morô?/ Muita coletividade na quebrada, dinheiro no bolso/ Sem miséria, e é nóis/ Vamos brindar o dia de hoje/ Que o amanhã só pertence a Deus, a vida é loka. (Racionais MC’s. Faixa: Vida Loka, Pt. 2)
Todos os meus manos sabem que o Racionais é influência na rua e na vida. (Raffa Moreira. Faixa: MJ).
Difícil contar o número de mixtapes que o Raffa Moreira produziu entre os anos de 2016 e 2017. Dentre elas, o projeto RockstarMixtape (2016) ocupa um lugar especial nesse período frenético de produções: cada faixa transborda experimentos estéticos e sonoros, além de trazer temas que voltariam a aparecer meses depois na Bem Vindo Natal Mixtape.
Se o estilo Trap — e o Raffa, em particular — costuma ser acusado de não se preocupar com o conteúdo lírico das letras, esse não parece ser o caso da Rockstar Mixtape:“Eu tô tipo em Guarulhos e vocês na Vila Madalena” (Rockstar, faixa-título); “Incentivando os mais novos a nunca deixar de acreditar em si” (Rockstar, faixa Indo); “Nego, eu sou mais que dinheiro/ Nego, essa porra é minha vida” (Rockstar, faixa Aff).
Sem deixar de inovar na forma em que se expressa, muitos são os trechos da obra que convidam os ouvintes a pensarem e sentirem. Talvez o exemplo mais notável seja a música Print na Briga, que expõe um verso de extrema sensibilidade:
Moleque de fora vê/ Diz que eu sou foda e não sabe por quê/ Se espelha no corre, pergunta do beat/ Falou que é pesado quando eu grito "Uh!"/ Se ele soubesse, eu tive depressão/ Eu vi Deus na minha frente, ele falou comigo: "Não se mata, filho, vou te fazer grande/ Cê é o mais foda deles, cê não tá sozinho" (Rockstar Mixtape. Faixa: Print na Briga)
Vale ressaltar, ainda, outra estratégia de divulgação utilizada pelo artista de Guarulhos. Se em Poetas no Topo 2 há uma autorreferencia que passou relativamente despercebida / “Você devia ouvir a Rockstar!” /, essa atitude se assemelha ao verso final de outra faixa, onde, após narrar uma cena em que sabia que tomaria um enquadro pelo seu Swag, Raffa rompe com um certo formato padrão e anuncia a data do seu próximo trabalho:
Dia primeiro de dezembro Bem-vindo Natal Mixtape (Rockstar Mixtape. Faixa: 28 Swag)
No dia primeiro de dezembro, agora de 2023, era lançada a Bem Vindo Natal Mixtape 2, continuando o projeto depois de sete anos da primeira parte. Nesse intervalo, músicas e clipes com produções cada vez mais “estéticas” substituíram o ritmo acelerado das mixtapes. Longe das tretas que marcaram o início de sua trajetória e reabilitado como um dos pioneiros do Trap brasileiro, Raffa passou a figurar nos principais festivais de Rap, chegando a receber elogios de Zeca Camargo pelo seu single Golpe (2021).
Apesar de não pretender fazer uma análise exaustiva, não poderia deixar de mencionar essa continuação por alguns motivos. Como visto na primeira parte da Mixtape, a tensão racial se manifesta no cenário de perseguição dos guardinhas nos Shoppings, reforçando uma expectativa de reconhecimento social através do consumo. Todavia, na parte dois há a formulação de outro discurso, cujo ponto alto, sem dúvida, vemos na música LLLK (Long Live LK): faixa em homenagem ao jovem artista LK Metralha (20 anos), assassinado pela Polícia Militar de São Paulo em 2023.
Raffa Moreira. Capa da Bem Vindo Natal Mixtape 2.
Lukinha foi um entre vários rappers de Guarulhos que já fizeram colaboração com o Raffa (Drip de Quebrada, 2021). Se os vínculos com artistas locais da cena de Guarulhos sempre estiveram presentes na trajetória de Raffa Moreira como estratégia/ética de ascensão coletiva, a faixa LLLK, por outro lado, revela a violência nas periferias em seu estado mais brutal.
O moleque mais mil grau da quebrada/ Vivia a vida a milhão com os parceiro e com os D pé na porta/ Não chamo de inconsequência/ Mundo tá globalizado e te oferta um estilo de vida que é caro/ Só pra você ter ciência: todos cria da favela amava o Lukinha/ Desde as criança até os mais velho/ Vai fazer falta no baile, vai fazer falta nos clipe'/ Eu 'tô guardando seu copo/ Deus consola a dona Shirley (Amém) (Bem Vindo Natal 2. Faixa: LLLK)
Em entrevista ao portal G1, Dona Shirley (mãe de Lukinha) não mede palavras para denunciar a política de extermínio conduzida pelo Estado: “A polícia tem que parar de achar que favelado é alvo. Que pode ir atirando sem perguntar nada antes”. Foi o seu segundo filho assassinado, ambos com a idade 20 anos. Rafael, irmão de Lukinha, foi encontrado morto em 2020 (segundo testemunhas, depois de ser abordado por policiais militares).
Lucas Nascimento e Rafael Nascimento: irmãos mortos pela polícia aos 20 anos de idade. — Foto: Reprodução/Instagram
Talvez por isso, na última faixa, em vez do não vou perdoar ninguém porque é Natal, o que vemos é uma apologia à solidariedade fraterna, contextualizada a partir da experiência periférica de Guarulhos. Ou melhor, na perspectiva de alguém que trilhou um caminho permeado por conflitos e tragédias, mas que parece não querer se render à repetição do mesmo. Afinal, para quem (sobre)vive no atrito, qualquer pretexto é um bom motivo para renovar a esperança em um amanhã melhor.
Eu vou ligar pra aquele velho camarada que infelizmente houve um atrito/ Treta boba sem sentido/ A vida é tão curta pra guardar rancor/ Especialmente em dezembro/ Mês de festas, natal e ano novo/ Próximo ano tudo de novo (Bem Vinda Natal Mixtape 2. Faixa: Véspera de Natal)
Pode ser que a segunda parte do projeto natalino do Raffa Moreira não entre para a história do Rap nacional. Eu mesmo só conheci enquanto escrevia a primeira parte deste ensaio. E a Bem Vindo Natal 2, talvez, nem tenha esse horizonte como objetivo. Se não inova no estilo — comparado a fase vanguardista —, traz em seu conteúdo uma expressão mais consolidada. A obra aparece como um presente. Uma lembrança para os que acompanharam a caminhada e uma homenagem para os amigos que se foram. Coletividade na quebrada, um brinde ao ano que se foi e fé ao que virá: todos os manos sabem que o Racionais é influência na rua e na vida.
Pivete só tinha visto o Papai Noel uma vez, digo, uma pessoa fantasiada. Mas ele viu, lá no Shopping Grande Rio, o único shopping da Baixada Fluminense naquela época. Ficou conhecido como um lugar em que todo mundo que você via era conhecido, o tempo todo.
O pai do pivete trabalhava no shopping. De alguma forma, a inocência desse pequeno ser o fez acreditar que, por usar terno, seu pai tinha algum papel de importância naquele estabelecimento, o que, com o decorrer do tempo, entendeu que não.
Sentado em uma cadeira exageradamente natalina, com duas mulheres ao seu redor vestidas de duendes, que estavam arduamente tentando controlar aquela multidão de crianças, estava lá o Papai Noel, ouvindo desejos, mentindo para algumas crianças, que, como o pivete, aparentemente não mereciam tamanha benevolência do bom velhinho.
Mas tinham crianças que recebiam os presentes que pediam. Elas estavam lá, o pivete reconhecia, sentia talvez, não sabia dizer. Era algo que o deixava estranho, pois uns tinham tanto e outros tão pouco.
Sua mãe, inocente, questiona nosso protagonista se ele gostaria de tirar uma foto com aquele homem de barba ridiculamente postiça.
“Mãe, podemos ir para casa? Não tô me sentindo bem.”
Ao lembrar da casa, pivete lembra do seu computador, que tinha ganhado recentemente por conta de uma política do governo Lula que barateou alguns computadores de empresas brasileiras. Pivete lembrava do nome: Computador para Todos. Pode parecer banal, mas ter um PC, para quem sempre foi rato de lan house, servia como fuga dos olhares, das ofensas, do sentimento de sempre ser o outro.
Aquele computador, mesmo sem internet, com sistema operacional Linux… Pivete tinha um objetivo claro: ir na feirinha da Pavuna e comprar o Windows pirata, tacar uns jogos. Mas ele estava ali no shopping, cumprindo o rito da sua família de proporcionar momentos de amor e carinho em tempos de consumo e exploração.
Sua mãe, uma mulher parda, que tinha acabado de terminar um supletivo e conseguido finalmente realizar o sonho de ser técnica de enfermagem, podendo proporcionar algum alívio à falta que essa criança, como ela, teve durante todos esses anos, ao ver seu filho declinar e se encolher entre suas pernas, quase chorando, se questionou se não havia algum problema com aquela criança.
A irmã do pivete, diferente dele, tirou foto, pediu presente e ganhou. Pivete sabia o que ele queria, mesmo que nunca soubesse bem o que queria. Terminou o dia com uma sensação estranha. Era caro demais aquele jogo. Sua irmã já ia para o segundo presente, uma Melissa. A loja fedia a plástico e euforia.
“Não compraremos nenhum jogo, ainda mais nesse valor. Você já passa muito tempo em frente ao computador, tem que sair para a rua, viver.”
Entre casquinhas de sorvete e tentativas de pensar alternativas para o seu frustrado presente, acabou indo para casa com algumas roupas que sua mãe escolheu. Pivete só queria crescer, ser alguém. Parece que criança só tem que obedecer, se iludir com uma mentira. A partir dali, o Natal se explicitou como farsa.
Pivete não gostou da roupa que recebeu. Não podia mexer no PC - era na sala -, sua mãe não permitiria em meio às festividades natalinas. Pivete odeia o Papai Noel. Ele viu aqueles pisca-piscas, eram bonitos, ele não conseguia negar que havia um apelo naquele vermelho e branco.
Olhou a mesa posta, o horário. Já estava perto da ceia. Lá em casa, meia-noite. Pivete estava com fome. No meio, a música tinha a imagem muda da televisão, que o seduzia em meio a tanta gente e informação. Ele sempre foi introvertido. Alguns chamavam de sonso, outros de tímido.
Pivete só queria ser invisível. Sempre se sentia meio sozinho, poucos amigos.
Pivete odeia o Natal.
Quando ele teve que se mudar de São João de Meriti para Belford Roxo, começou a se sentir mais sozinho ainda. Seus amigos estavam lá, não aqui. Ele morava na última casa do morro. A sorte é que ainda estudava na mesma escola, então a própria escola se tornou seu lugar de preferência, e ele ia de um morro para o outro, todos os dias da semana, para encontrar seus iguais.
Desde que, em uma aula de história, conheceu Zumbi e Dandara e sua luta por liberdade, entendeu o que eram os quilombos. Passou a ver seu território como um. Era um dos poucos lugares em que se sentia pertencente. Sentia falta de morar em São João, de seus amigos. Sabia que iria passar boa parte das férias sozinho. Ao terminar a aula e ter que se despedir dos amigos, sentia aquele mesmo sentimento estranho.
Olhou em volta: os temas natalinos, os pisca-piscas. Eles brilhavam em sintonia. O Natal ilumina as ruas turvas da Baixada Fluminense. Nos bares, já se comemora a trégua de fim de ano. Quem continuou de pé em meio às porradas do capital, agradeça e o alimente. Tenha piedade de nós no ano que vem. Senhor colono, não invada meu quilombo, não me domestique com seu sadismo.
Ele já tinha desacreditado totalmente que existia um velho de barba branca que carregava uma sacola vermelha cheia de presentes, saindo por aí para distribuir em seu trenó mágico. No mínimo, ia acabar incomodando o tráfico, o único poder presente naquele buraco onde Pivete morava - ou se escondia, em Belford Roxo.
“Sorte dele que vermelho é uma cor aceita por aqui” - pensou Pivete. Mas logo se ligou que dificilmente aquele velho conseguiria subir o morro.
“Nem pensar. Não quero você se juntando com esse tipo de gente. Esse dinheiro sujo que financia isso é o mesmo que promove a violência que oprime a gente, meu filho”.
Talvez fosse isso que a mãe do nosso pivete quisesse dizer quando apenas gritou e o impediu de ir pegar doces e brinquedos que os traficantes do bairro estavam distribuindo.
Pivete sabia que a mãe jamais deixaria. Ele até inventou uma desculpa qualquer, disse que ia buscar não sei o quê em não sei onde. Mas a coroa já era esperta. Tem que ser, para criar um jovem negro na Baixada Fluminense. O medo não é só o de sair de casa, é o de que as balas que ele encontre sejam outras - dessas que também são geralmente distribuídas de graça por aí, principalmente aqui na Baixada.
Já convicto de que só ganharia algum presente se os pais resolvessem dar, percebeu que sua vida, mesmo ainda curta, não tinha muito espaço para imaginação. Se cobriu do real. Agradeceu pela rabanada molhadinha, ligou a TV para ver tudo o que lhe faltava. O lúdico emanava da tela.
Pivete tem que aceitar o seu destino: o Papai Noel não vai visitar você.
E agradecer por não ser um dos presenteados pelo São Nicolau Estatal, que distribui balas por aí. Pivete, talvez seu presente seja sobreviver, diferente de outras crianças que encontram a suposta violência legítima do Estado.
As telas não mostram a verdade, elas enganam. Em alguns momentos, que bom que enganam: mascaram a falta, alimentam o tédio, confundem o ódio. Pivete sabe que, da alegoria às marionetes, a mão que conduz os fios se oculta através do poder.