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Tem algo que a brisa do mar não conta nos cartões-postais: quem faz o Rio brilhar não é o sol do Arpoador, é o suor da Baixada. Quem molda o estilo que hoje estampa vitrines é o corpo que ontem foi barrado no shopping. Quem dita o presente é quem sempre foi empurrado para o rodapé da história.


E é nesse vaivém entre o ano 2000 e 2025 que vitin nos convida a caminhar. Da beira da praia ao beco, da lembrança ao clique, do asfalto à laje. O ensaio que ele dirigiu não é só sobre estética. É sobre o rastro. É sobre a ferida. É sobre desejo. É sobre sobrevivência.


“Nós, da favela, fazemos o Rio”, ele disse, de peito aberto e lente atenta. E faz mesmo. Faz na batida do bonde, na pose dos cria, na escolha do look, no enquadro da câmera, na dança com o tempo. Faz com o que tem, com o que sobra, com o que resiste. Porque criar do nada é coisa antiga pra quem sempre viveu com pouco. Só que agora a favela não quer só criar — quer assinar, decidir, dirigir, faturar.


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O ensaio começa antes da lente. Começa no corre, no convite informal que vira projeto, no grupo que se junta no zap. Começa quando vitin — fotógrafo, historiador, artista e cria — pisa com os pés descalços no Arpoador, mas com o pensamento lá nos becos que atravessou pra chegar até aqui.


A pergunta era simples: “Qual o recorte desse ensaio?”

Mas a resposta veio como manifesto:


“Nós fazemos o Rio. Fazemos para além da subserviência, para além da coadjuvância. Esse projeto é sobre mostrar isso: que sem a favela, a Zona Sul não seria o que é.”

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O nome do ensaio podia muito bem ser esse: Fazedores do Rio. Mas, na real, Da Favela ao Mainstream dá conta do movimento — da correria que é fazer arte vindo da favela. Cada clique já carrega a assinatura coletiva de quem atravessa o trem da SuperVia com uma ideia na mochila, o olhar atento e a disposição de transformar a ausência de recurso em potência criativa.


2000: entre o Arpoador e Belford Roxo, a estética do agora


O ano 2000 aparece ali como trilha sonora de infância: nos bonés Lacoste, nas camisas falsificadas da Uruguaiana e no rádio de pilha da tia. Já 2025 chega com urgência — com a certeza de que ainda estamos no meio da travessia.


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“O sentimento que me move é esse: fazer do presente uma encruzilhada onde passado e futuro se cruzam, e onde a favela segue criando, resistindo e se impondo como centro.”

E nesse cruzamento de tempos e territórios, a fotografia vira portal. Um grito visual. Um respiro. vitin não fotografa só com técnica — ele fotografa com o corpo, com a escuta, com o compromisso de deslocar olhares.


“Na minha fotografia, busco visibilizar e potencializar vozes, pra que esses sujeitos se reconheçam como protagonistas importantes dentro da narrativa nacional. E que não fiquem presos a um olhar estigmatizado. A gente não é só margem. A gente é margem e centro.”

“A favela faz o Rio”: mas e quando o mercado olha pra isso tudo com sede? O que ele leva? O que ele deixa?


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Para vitin, a estética da favela é vendida, mas a dor que a constrói não entra no pacote. O mercado higieniza, corta as bordas, bota glitter no sofrimento, transforma potência em pano de fundo para storytelling publicitário. Tudo muito bonitinho, desde que não confronte. Desde que siga cabendo. Desde que seja “cool” — mas não politicamente inconveniente. E é aí que o artista periférico vira só mais um nome com erro de digitação numa ficha técnica de grife.


De um lado, o mercado, com suas promessas de visibilidade e de “representatividade” em campanhas multicoloridas. Do outro, o dilema se impõe: entre ser visto e ser consumido, qual é o limite?


“É muito complexo. Mesmo com pouco tempo nesse meio, percebo uma constante apropriação do hype da periferia como escada. Depois que serve, você vira só um nome escrito errado numa ficha técnica da Rabanne.”

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E o mercado, quando se interessa, higieniza. Despolitiza. Transforma vivência em estética, favela em figurino. A miséria ganha filtro. A dor vira storytelling vendável.


Ser visto é uma coisa. Ser consumido é outra. No corre de se afirmar enquanto artista e sobreviver enquanto sujeito, vitin enfrenta a balança entre a correria e a criação que alimenta o espírito. Ele é fotógrafo, mas também é pesquisador de História, pensador da sua própria quebrada, ponte entre tempos e territórios. E é nessa ponte que ele encontra os seus — a galera que fortalece, colabora, acredita e vive a arte como um gesto coletivo.


“O mercado acentua a beleza de tudo que possa ser comercializado — inclusive corpos, sobretudo os nossos. Empacotam a favela, desde que não confrontem. Mas o que incomoda mesmo são as celas simbólicas: a gente tá solto, mas segue preso.”

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2025: um futuro onde artistas periféricos não precisem escolher entre sobrevivência e autenticidade


Quando perguntado se dá pra imaginar um futuro onde artistas periféricos não precisem escolher entre sobrevivência e autenticidade, vitin responde com a maturidade de quem já cansou de esperar por milagres de edital:


“Talvez a gente não esteja vivo pra ver esse dia. Mas estamos vivos pra construir o caminho até lá.”


vitin não aceita essas grades invisíveis. Quando pensa e constrói um projeto, é com os seus. Ele repete como quem faz oração:


“Minha arte é pra gente viva, não pra gente morta. Ser visto é ser vivido pelos seus. Por quem se reconhece, se espelha e acredita no seu trampo.”


Por isso, convocou amigos artistas da Baixada pra construir junto. Gente como Marlon Souza (@marlonfilmz), Nyx Domingues (@lanuitestbell), João Pedro Moraes (@joaopedromoraees), Anna Beatriz Maia (@annabmaia), Lylyan Marcella Cruz (lylyanmarcella), Kauan Folly (@thatsmekakau), Beatriz Tobias (@biaibiab) e Gabriele Costa (@dabomb_mesmo). Uma rede que segura, inspira e fortalece.


“Essa galera me lembra que a arte é viva. E que nossa autenticidade é o que há de mais valioso.”


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E talvez seja isso. O futuro começa quando a gente se reconhece. Quando se junta. Quando recusa a lógica de que a favela é só cenário. Porque, se é pra falar de moda, de arte, de beleza, que seja com os nomes certos, com os créditos devidos, com a voz de quem sempre esteve criando — mesmo quando ninguém via.


Porque, no fim das contas, o Rio continua lindo. Mas só porque a favela nunca deixou de fazer ele ser.


Mas viver de arte ainda é luxo para poucos.


O corre é duplo: o criativo e o sobrevivente. 

vitin sente isso na pele:


“Sou pesquisador em História, e levo essa reflexão pra dentro da fotografia também. Viver da arte exige aprovação — é preciso ser consumido ou, no mínimo, conhecido. E isso machuca.”

Ainda assim, ele escolhe os projetos que o fazem respirar como criativo. Mesmo fora da carteira assinada, evita os bicos que sufocam. Quer trampo que permita criar, não que o transforma em peça de engrenagem. E confessa:


“É muito complexo manter a autenticidade numa sociedade que idolatra influenciadores fúteis, que endeusam bebês de famosas brancas enquanto tem uma galera preta e periférica querendo viver de arte e não consegue.”

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A pergunta final é quase uma utopia: dá pra imaginar um futuro em que artistas periféricos não precisem escolher entre autenticidade e sobrevivência?


“A gente pode imaginar tudo, mas talvez não esteja vivo pra ver. O que podemos fazer é colaborar com artistas independentes, fortalecer uma rede. Porque quem depende da arte pra se ver como sujeito histórico não pode ser deixado pra trás.”

E assim, no vai e vem das ondas do Arpoador, entre uma pose e outra, entre um clique e um desabafo, o projeto vira algo maior: vira documento, vira resistência, vira espelho. Não um espelho distorcido pelo consumo, mas um espelho que devolve a imagem real da favela criadora, potente, coletiva.


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vitin e seus crias seguem ali, entre os becos e as pedras, dizendo sem pedir licença:


Nós por nós. E o resto, que corra atrás.



 
 
 

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Tem quem atravessa décadas como quem atravessa uma rua movimentada: desviando dos carros que vêm na contramão da dignidade, buscando fôlego entre um atropelo e outro, com os pés fincados no asfalto quente das bordas urbanas. Gente que aprendeu a caminhar mesmo quando não havia calçada. Adriano Dias é uma dessas figuras que não se encaixam nas vitrines do ativismo ou nos roteiros já prontos da militância domesticada. Ele vem de um tempo e de um lugar onde ser politizado não era escolha acadêmica — era questão de sobrevivência.


Ainda nos anos 1980, enquanto a redemocratização era celebrada em salas climatizadas e manchetes de jornal, Adriano aprendia nas ruas que a repressão não termina quando mudam os governos, mas quando se desmontam os mecanismos cotidianos que naturalizam o abandono. Foi pela música — mais especificamente pelo punk e pelo metal — que ele entrou em contato com uma pedagogia crua da desigualdade. Descobriu que acordes podem denunciar tanto quanto relatórios e que um refrão pode doer mais que uma manchete.


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Só que Adriano nunca ficou no grito. O que marca sua trajetória é a construção paciente de uma rede que liga cultura, comunicação e cidadania — não como palavras soltas em um edital, mas como práticas concretas de resistência. Da ComCausa ao Portal C3, do Rock ComCausa à banda Desordem SA, passando pela dolorosa criação do projeto Crianças com Direitos, sua atuação é movida por algo que parece cada vez mais raro: coerência entre o que se vive e o que se diz.



Essa entrevista de Pedro Santos com Adriano Dias é um convite para mergulhar num percurso que não se explica apenas por boas intenções. É preciso entender a política como prática cotidiana, a arte como arma carregada de afeto e a comunicação como ferramenta de mobilização. Ao longo da conversa, não se espere o lugar comum da superação individual. O que se revela aqui é a tessitura coletiva de alguém que nunca aceitou a indiferença como resposta e que fez da sua própria dor um instrumento de cuidado com o outro.


No tempo das verdades pasteurizadas e das lutas performadas, ouvir Adriano Dias é um lembrete de que a radicalidade está, muitas vezes, na escuta atenta, na presença comprometida e na recusa em abandonar quem mais precisa. Ele não atua apesar das feridas — atua a partir delas. Porque, no fim, o que move sua luta não é o desejo de protagonismo, mas a urgência de que ninguém seja deixado para trás.


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Vi que você atua em várias iniciativas. Queria saber, de início, como você consegue se articular dentro de tudo isso.


O que me ajuda a seguir em meio a tantas questões é saber que todas essas iniciativas estão unidas por um propósito comum. Dentro das nossas limitações, busco contribuir para a transformação pessoal e coletiva. Estou nessa caminhada desde os anos 1980, de formas diferentes a cada etapa da vida, moldado pela maturidade, pela experiência e pelas reflexões que a idade traz — com muitos acertos, mas também com erros. Então compreendi que as lutas não são compartimentos isolados. Quando percebemos isso, torna-se mais natural transitar entre temas, contextos, lugares e pessoas, porque eles não se anulam, se somam. Encaro isso como uma responsabilidade, um compromisso que faz parte da minha história de vida pois quando a causa se torna parte da sua identidade, você não apenas organiza tarefas: você vive aquilo. É essa relação entre a luta e o afeto que que acho me move, que dá sentido à vida e ao que escolho fazer.


Me parece que você tem a Rock ComCausa há um bom tempo em atividade. Como que chegou a ideia de fazer a página?


Foi a música que salvou minha vida, mais especificamente o metal e o punk. Foi através do punk rock, nos anos 80, que descobri o que eram as desigualdades sociais, a diferença de classes, a repressão, a ditadura. Com o metal, conheci figuras históricas, mitologias e diversas culturas e hoje, embora eu estude história como um hobby, continuo aprendendo com letras das bandas. Um exemplo é a canção Paiol em Chamas, da banda de metal Armahda, que narra a explosão do depósito de munições em Deodoro, ocorrida em 1958. Outro é a música Matapacos, da banda punk Skorno, da Baixada Fluminense, que conheci em um show no Gato Negro Pub. Que descobri a história de um cão chileno que se tornou símbolo dos protestos populares no Chile, em 2011. Ai o Rock ComCausa surgiu como uma extensão natural da atuação da ComCausa na promoção dos direitos, na defesa da vida... só que com guitarra, baixo e bateria ao fundo. A vontade é usar a força da música como ferramenta de reflexão, diálogo, resistência e transformação de mentalidades. Com ela, surgiu também o desejo de atuar de forma mais direta nesse segmento cultural que, apesar de tantos avanços, ainda é frequentemente marginalizado.

Hoje, é também um projeto cultural da ComCausa, que busca contribuir com a cena através da comunicação, de parcerias com bandas e eventos, da articulação com espaços, além da promoção de campanhas específicas como Rock ComCausa e Cidadania, Dirija Como uma Mulher, entre outras. É uma forma de conectar cultura com cidadania e também uma maneira de retribuir à cultura que me formou como pessoa e como militante. Um som que nos uniu há mais de 40 anos. Porque não é só música, trata-se de transformar o barulho em voz.


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Um fato que é interessante em trazer aqui é que você canta em uma banda de punk, que é a Desordem SA. Comenta um pouco sobre a banda e sua trajetória nela.


Lá nos anos 80, tive uma banda chamada FDK – Fora de Kontrole com K. Depois, em 1992, tive uma passagem rápida pela Gangrena Gasosa. Cheguei a tocar num show no Garage, junto com o Chorão, que na época era o vocal da banda. Também montei uma banda de death metal chamada Convulsion, mas depois de 1993 larguei essa vida de ter banda.


Em 2018, estava numa audiência pública na Alerj e reencontrei o Luiz, que conheci no movimento punk do Jabour (Zona Oeste do Rio), no fim dos anos 80. A gente se reencontrou, bateu um papo de bar com o Chorão, que também estava há um tempão afastado da música, e aí surgiu a ideia de uma banda pra regravar sons punk dos anos 80. Então o Luiz chamou o Ricardo, que tá com a gente até hoje na guitarra. E eu convidei o André Drack para a batera e o Adriano Cavalo para o baixo. Em 2019, fizemos uns ensaios e até abrimos shows comemorativos dos 40 anos do Cólera e dos 20 anos do Cara de Porco. Mas aí veio a pandemia e demos uma pausa... era todo mundo “grupo de rico”, só punk-idoso e roqueirosauro como diz o meu filho!!! 

Retomamos em 2022 e, no Estúdio Lux, em Nova Iguaçu, começamos a regravar músicas da banda Desordeiros, com quem eu já tinha ajudado como roadie em alguns shows nos anos 80 — aquele trabalho que a gente faz feliz, só pra não pagar ingresso.



Em 2023, lançamos oito faixas. Nesse meio tempo de gravação, o Django da DF, da banda Juventude Perdida, colaborou gravando algumas linhas de baixo e vocais. Depois, ele trouxe o Leandro para assumir a bateria. Já em 2024, gravamos a versão semi-grind de "Descanse em Paz", para a coletânea Blast No Porão – Grindcore Tribute To Ratos de Porão, lançada pela gravadora portuguesa The Hills Are Dead Records. Já em 2025, por conta de compromissos profissionais, o Django precisou se afastar. Foi então que entrou o Felipe, que hoje segura o baixo e também contribui nos vocais.


No mais, a banda funciona como aquele grupo de amigos que se junta no fim de semana pra jogar bola, com direito a uniforme, chuteira e tudo mais — só que, no nosso caso, é o punk rock. A gente ensaia, faz show quando dá, e isso preenche a gente e seguimos no espírito do punk, naquela ideia do “faça você mesmo” e “que qualquer um pode fazer”. Agora estamos compondo som autoral. Depois de mais de 30 anos, voltei a escrever letras, e os outros também estão somando nessa criação. 


Na sua opinião, o que é mais importante na hora de promover ações como as que você realiza no Crianças com Direitos e na própria ComCausa?


O mais importante é não encararmos nossa atuação como um exercício teórico ou distante. Não basta repetir conceitos, é preciso viver a realidade concreta e estar ao lado de quem convive diariamente com o sofrimento. Precisamos de empatia, da capacidade de olhar para o outro com respeito e escuta genuína. E às vezes vai além disso: é necessário sentir na pele. Eu sou uma dessas pessoas que sentiram, e ainda sentem, essas dores, mas que escolheram em cuidado e acolhimento para com o outro.


Foi assim surgiu o Crianças com Direitos, nascido do momento mais difícil da minha vida: quando meu filho foi vítima de uma tentativa sistemática de alienação parental, com ações coordenadas da genitora, de seus familiares, de namorados dela e até de integrantes de uma organização que ela integra e que atua dentro de uma prefeitura. Uma prática cruel, perversa e covarde, promovida por quem deveria proteger o filho, e que tentou romper o vínculo mais sagrado que existe: o afeto familiar de uma criança. 


Já tinha alguma experiência, através da ComCausa, lidando com violações de direitos de crianças e adolescentes, mas foi a partir da minha própria história que compreendi que o que meu filho enfrentou é apenas um entre tantos casos de violência sistêmica que atingem crianças todos os dias. Posteriormente, ao acompanhar casos como o do menino Henry Borel, filho de Leniel, percebi com ainda mais clareza o quanto a postura de uma genitora pode ultrapassar todos os limites uma crueldade covarde e destrutivo movida por interesses como poder ou dinheiro. Uma situação semelhante se repetiu no caso da bebê Maria Sofia, neta da dona Romilda, morta de forma brutal pelo padrasto, com a anuência da mãe e diante da total negligência do Estado. Com o tempo, essa experiência pessoal se transformou em compromisso institucional. 


Desde então, tentamos construir e fortalecer uma proposta com capacidade de denunciar e transformar. Esse é o sentido do Crianças com Direitos: contribuir para que nenhuma criança passe por essas violências e que nenhuma família seja deixada para trás diante do abandono e da injustiça. Ainda nos falta estrutura, mas em breve a teremos para agir com mais contundência.


Quanto a ComCausa, pra mim é uma extensão do que sou, do que acredito e do que me move todos os dias. É uma ferramenta, como um esquadro, um compasso, um malhete ou um cinzel: instrumentos que não ficam guardados, mas que podemos dividir, colocamos nas mãos de quem quer construir junto, com afeto e propósito. E não se trata apenas de criar projetos ou lançar campanhas. É estar junto das pessoas quando tudo parece desabar. É chegar com presença real, com escuta verdadeira, com coragem de sentir a dor do outro como se fosse nossa. É transformar essa dor em acolhimento, em mobilização e, principalmente, em transformação. E se, de um lado, tudo isso é sobre estar presente nos momentos difíceis, do outro, é também sobre fazer com que as situações de violência, abandono e violações não se repitam. É romper com ciclos perversos, construir caminhos, proteger os mais vulneráveis antes que o sofrimento os alcance. É agir antes da dor, cuidar antes da ferida, lutar para que nenhuma história precise ser marcada pela violência ou pelo silêncio.



Entendo que você não se restringe na arte e na política de modo direto, sendo também editor do Portal C3.


Como já mencionei, uma das raízes da ComCausa está lá nos anos 1980, e uma de suas origens foi o fanzine Consciência Nacional. Era uma publicação datilografada, montada com fotos e xerocada, que abordava principalmente a cena musical punk, mas também trazia reflexões políticas em um sentido mais amplo. Já nos anos 1990, essa experiência evoluiu para o Jornal Alternativo, que ainda preservava o espírito dos fanzines.


No início dos anos 2000, nasceu o Jornal da ComCausa, que não tinha como foco apenas divulgar nossas ações, mas principalmente dar voz a pessoas e grupos que promovem os direitos humanos, especialmente na Baixada Fluminense. Essa trajetória de comunicação engajada se transformou em um programa próprio: Comunicando ComCausa, reconhecido pelo Ministério da Cultura como Ponto de Cultura, depois como Pontão de Cultura, e premiado como Mídia Livre.


Foi dessa caminhada que surgiu o Portal C3, hoje uma das nossas principais ferramentas para dar visibilidade tanto a boas práticas quanto a denúncias de violações de direitos, sempre buscando coerência e uma escuta sensível. O nome “C3” vem de Comunicando ComCausa, mas também remete à essência do nosso trabalho: Cultura, Comunicação e Cidadania, pilares da nossa atuação.


Hoje, atuo como editor do portal, que segue como um dos nossos principais canais de expressão e incidência. Também criamos o site redeDH.org.br, integrado ao nosso domínio principal, comcausa.org.br, que complementa essa missão de informar, articular e transformar.

O Portal C3 é, acima de tudo, uma extensão da nossa luta. Sua proposta editorial sempre foi dar visibilidade ao que raramente ganha espaço na mídia tradicional. É uma ferramenta de denúncia, sim — mas também de celebração das resistências, das belezas periféricas e das construções coletivas. O jornalismo que praticamos é posicionado e buscamos ser responsáveis. Entendemos a comunicação como instrumento de promoção e exigibilidade de direitos, que escolhe um lado: o lado da vida, da justiça, da memória e da dignidade.

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Qual é o maior desafio de fazer uma imprensa com o posicionamento que é presente nesse jornal?


A gente escolheu caminhar com quem quase nunca é ouvido — com as periferias que resistem todos os dias, com as mães que transformam luto em luta, com as culturas que florescem mesmo quando tentam silenciá-las, com os territórios sociais que seguem vivos, mesmo diante do abandono. Essa escolha tem um preço. Não só financeiro, mas também emocional e político. Assumir uma comunicação que toma partido pela vida e pelos direitos humanos significa se colocar contra o silêncio conveniente. Significa incomodar — porque dar nome aos responsáveis, denunciar negligências do Estado ou amplificar as vozes apagadas é romper com o que se espera de uma imprensa “neutra”. E incomodar tem consequências: parcerias que se retraem, ameaças veladas ou explícitas, tentativas de deslegitimar nosso trabalho. Mas seguimos — porque sabemos a quem servimos.


Um dos maiores desafios é resistir ao apagamento. E mesmo com recursos escassos, mantemos a constância e a qualidade. Somos uma equipe pequena, mas carregamos um compromisso imenso: fazer jornalismo com memória, com profundidade e com os pés fincados no chão. Esse chão, aliás, é o mesmo onde brotam as pequenas grandes ações que realmente transformam. Porque o que a gente faz não é só sobre grandes denúncias ou temas estruturais — é também sobre registrar e fortalecer os gestos simples de cuidado, solidariedade e resistência que nascem todos os dias nas bordas, nos becos, nas vielas. É sobre aquela mulher que organiza uma roda de conversa com as vizinhas, sobre o jovem que pinta um muro com uma mensagem de paz, sobre o grupo que arrecada alimentos e entrega com dignidade.


Nosso desafio também é não ceder à lógica das redes que priorizam o engajamento superficial. A gente escolheu comunicar com escuta, com responsabilidade. E isso significa ir contra a pressa e contra o espetáculo da dor. A gente não transforma sofrimento em conteúdo — a gente transforma em mobilização. Mas talvez o mais difícil — e mais necessário — seja continuar fazendo tudo isso com o coração aberto. Falar de injustiça todos os dias machuca. Escutar, de verdade, o sofrimento do outro, deixa marcas. Mas são essas marcas que nos lembram por que seguimos.


Porque comunicar, pra gente, não é só uma função — é um compromisso com quem resiste. Uma imprensa comprometida com o povo é ferramenta de mudança real. E mesmo quando parece que ninguém está ouvindo, a gente continua. Porque cada palavra dita com verdade, cada história contada com afeto, cada denúncia feita com coragem... pode acender uma luz onde tudo parecia escuro. 


Pra encerrar essa conversa, mande um salve pra quem quiser aqui, ou se quiser, deixe um recado.


Quero deixar um salve cheio de amor e gratidão a todas e todos que constroem essa caminhada ao meu lado. Gente que está comigo nas rodas de conversa nos bares, nos palcos onde o rock ainda grita, nos salões de mármore do poder, mas, principalmente, nas trincheiras silenciosas do dia a dia.


São pessoas que seguem acreditando que é possível transformar o mundo com coragem e afeto — e isso já as torna parte viva dessa história. Porque empatia não se aprende em livros: ela nasce do encontro, do chão batido da vida, do olhar firme que acolhe, do abraço que chega na hora certa, sem precisar ser chamado.


Promover os direitos humanos é, acima de tudo, um ato de amor, de defesa da vida. É amar o outro, mesmo sem conhecê-lo e sem esperar reconhecimento. É saber que ninguém deveria caminhar só. É ter coragem de permanecer presente, de ouvir com o coração, de proteger com firmeza e seguir em frente, mesmo quando tudo parece querer nos calar. 


 
 
 
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Saiu o catálogo da exposição Migração Circular e tá tudo, simplesmente, absurdo de lindo.

Lindo como foi ver com os próprios olhos cada obra, cada detalhe, cada fragmento de corpo e memória semeado ali por Guilherme Brasil e Valentim Faria. Dois artistas que não tão só expondo trabalho — tão expondo coragem, travessia, saudade e reinvenção.


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As Migrações são muitas: de cidade, de afeto, de pele, de tempo. São circulares porque nada se perde. Tudo volta, tudo se reimagina. Guilherme e Valentim são desses que transformam o peso da migração em matéria-prima, que entendem que o corpo negro não é bagagem, é território. E mesmo quando o mundo diz “não é lugar pra você”, eles chegam e plantam.


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Cada escultura, cada linha traçada, cada instalação é um ensaio de cura, um resgate da criança que tiveram que enterrar cedo demais, mas que agora voltam a tocar — mesmo molhada de mar, mesmo assombrada de silêncio.


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E é de uma sensibilidade gigante ver artistas tão potentes falarem do medo. Medo de não serem recebidos, medo do julgamento, medo dos pactos narcísicos que regem o mundo da arte. Mas quem ousa duvidar da força deles, só prova o quanto essa estrutura precisa cair. Porque a arte deles é flecha, é ferida aberta, é denúncia e é abraço. Tudo junto. Tudo agora.


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E no meio dessa maré de sentimentos, tive a honra de escrever também. Saiu no catálogo o meu texto “Maré de Mim”, uma partilha sentida sobre corpo, retorno e raiz. Escrevi com as águas nos olhos, com as lembranças dos meus e com o desejo de que a arte seja sempre esse lugar de retomada — pra mim, pra eles, pra todos nós.


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Agradeço de coração ao Valentim por me chamar pra estar junto nesse projeto tão bonito e necessário. Que esse catálogo viaje o mundo, e que mais gente se permita mergulhar nessa circularidade que a gente carrega no corpo e no nome.



“Quero mergulhar nas minhas raízes até que a água me engula.

E quando voltar à tona, não ser mais um corpo perdido,

mas um corpo possível.”

— Maré de Mim

(Pivete)




 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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