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Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda. Paulo Freire, Pedagogia da indignação: cartas pedagógicas e outros escritos. 

Tornar a educação para a democracia mais plural e inclusiva exige, antes de tudo, reconhecer que as escolas não existem num vácuo. Elas são atravessadas por desigualdades históricas que se expressam em dados, em silêncios e, sobretudo, em ausências. Uma dessas ausências tem nome - desvalorização dos professores.


A atual greve das trabalhadoras e trabalhadores da educação em Alagoas, que já dura mais de 20 dias, é expressão desse descaso. Em plena luta por direitos básicos - como reajuste salarial, estrutura digna nas escolas, combate ao assédio e valorização profissional - os educadores são silenciados por uma grande mídia aliada ao governo, punidos com multas e criminalizados por exercer seu direito à greve. 


O Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (SINTEAL) denuncia que não há diálogo efetivo, que o governo não cumpriu promessas anteriores e segue ignorando as reivindicações da categoria.


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Isso não é um caso isolado - é parte de um apagão nacional na educação. E não se trata apenas de cortes orçamentários ou má gestão - é um projeto. Um projeto que não vê a educação como direito, mas como gasto; que transforma professor em número e escola em índice; que enxerga os trabalhadores da educação como obstáculos e não como protagonistas da transformação social.


Por isso, não adianta construir avaliações nacionais, implementar Base Curricular ou impor metas para o IDEB se não houver valorização real dos profissionais da educação. Nenhuma prova consegue mensurar o impacto de um professor motivado, respeitado e bem pago na formação cidadã de um estudante. Nenhum currículo plural se sustenta se quem o aplica está esgotado, doente, desvalorizado.


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Uma educação democrática começa na valorização de quem ensina.


Começa ao reconhecer que a escola não se faz sozinha - ela é feita por gente, por vínculos, por compromisso com o futuro. É necessário garantir condições dignas de trabalho, salários justos, escuta ativa e participação nas decisões pedagógicas e políticas.


Ao lado disso, seguimos acreditando que a educação plural se constrói reconhecendo a diversidade de saberes e sujeitos presentes na escola - estudantes pretos, indígenas, periféricos, LGBTQIAPN+, com deficiência, de comunidades tradicionais. 



Esses corpos, historicamente vistos como problema, são produtores de cultura, conhecimento e resistência. E educar para a democracia é garantir que eles se vejam no conteúdo, no livro, no professor e na sala de aula.

A recente aprovação da Lei nº 12.479 no Espírito Santo escancara mais uma vez como a educação tem sido alvo de projetos autoritários que tentam mascarar desigualdades estruturais com discursos moralistas.


A nova lei garante aos pais o direito de vetar a participação de seus filhos em atividades pedagógicas que tratem de gênero, diversidade sexual ou igualdade de gênero, em escolas públicas e privadas. Isso é, na prática, uma censura institucionalizada que impede que a escola cumpra seu papel social de formar cidadãos críticos, conscientes e respeitosos com as diferenças


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Essa lei se sustenta na mesma base frágil da chamada “ideologia de gênero” – uma invenção criada para assustar, dividir e confundir. 

Ninguém muda o sexo de ninguém dentro da escola. O que se faz é educar para o respeito. Falar de desigualdade entre homens e mulheres é reconhecer que as trabalhadoras ganham menos, sofrem mais com o desemprego e são sobrecarregadas com os cuidados do lar. 


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Falar de diversidade é afirmar que todos os sujeitos – LGBTQIA+, negros, indígenas, mulheres, pessoas com deficiência – devem ter seus direitos e suas vivências respeitadas dentro e fora da escola.

Ao proibir esse debate, a nova lei transforma a educação em um campo de batalha onde o que está em jogo é a possibilidade de formar uma sociedade mais justa e plural. E mais: ela desresponsabiliza o Estado diante das violências sofridas diariamente por estudantes que não se encaixam no padrão imposto. 


Como falar em democracia nas escolas se negamos o direito de existir plenamente a tantos corpos?


Essa estratégia tem um objetivo maior: desviar o foco das verdadeiras causas da crise educacional. Enquanto nos fazem discutir se é "certo ou errado" falar de gênero, a realidade é que faltam professores, faltam recursos, falta valorização. A greve em Alagoas é reflexo disso. E essa mesma lógica que censura o debate de gênero é a que implementa ensino à distância precário, desmonta a carreira docente, promove privatizações e impõe metas desumanas.


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Não é possível falar em educação democrática se não podemos discutir as formas de opressão que estruturam a sociedade. A escola não pode ser neutra diante da injustiça. Ela precisa ser um espaço de escuta, acolhimento e transformação. É justamente falando sobre gênero, sexualidade, raça e classe que protegemos nossas crianças e jovens da violência e da exclusão.


A ideologia de gênero não existe. O que existe é um projeto de silenciamento.E contra isso, precisamos defender uma educação que ensine a pensar, a respeitar, a conviver. 

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Uma educação que não apague, mas revele. 

Que não proíba, mas escute. 

Que não exclua, mas abrace. 

E, acima de tudo, que forme sujeitos livres,

conscientes e preparados para transformar o mundo.


Frente a esse cenário, é impossível ignorar a relação entre a greve da educação em Alagoas e a aprovação da Lei 12.479 no Espírito Santo.


Em estados diferentes, mas sob a mesma lógica: de um lado, professores são perseguidos por reivindicar condições básicas de trabalho e respeito; de outro, legislações tentam calar o debate sobre gênero, diversidade e igualdade nas escolas.


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É o mesmo projeto que tenta nos sufocar – um projeto que censura, precariza e silencia. Que finge se preocupar com as famílias, mas vira as costas para a violência, o preconceito e a exclusão vividos diariamente por tantas crianças e adolescentes dentro da escola.


Que se diz defensor da moral, mas abandona professores sem reajuste, sem estrutura e sem reconhecimento.

Não há como defender uma educação plural e inclusiva sem estar ao lado de quem a constrói, com afeto e resistência, todos os dias. Porque falar de democracia na escola exige falar de salário digno, de liberdade pedagógica, de pluralidade de vozes e corpos.


Neste momento, estou do lado das trabalhadoras e trabalhadores da educação de Alagoas, que seguem em greve, mesmo diante da criminalização e do silêncio institucional.


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Eles mostram ao Brasil o que é lutar por uma escola pública viva, combativa e transformadora.

Reafirmo o compromisso com uma educação que enfrente as desigualdades, que valorize quem ensina, que acolha quem aprende, e que se mantenha inegociavelmente ao lado da liberdade.

Repito com força: sem professor valorizado, não há educação.


Sem debate de gênero, não há respeito.

Sem diversidade, não há democracia.

A luta de vocês é exemplo – e é semente. 

Que floresça em todos os estados.

Estamos juntos.




 
 
 
  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 25 de jul
  • 8 min de leitura
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Quando penso nas revoltas que aconteceram no Brasil, vejo um povo que, de todas as formas, buscou sua liberdade - muitas vezes apostando na fraternidade, fortalecendo-se como iguais diante de um sistema que prosperou justamente na nossa divisão. 


É aquela máxima, né? Dividir para conquistar.

Ao ler o texto Diário de um Intelectual do Terceiro Mundo: A Revolta do Contestado, de Douglas Barros, no Blog da Boitempo, confirmei um sentimento que sempre me acompanha durante as pesquisas que faço para construir minhas aulas. Estou justamente tratando dessas conjurações e revoltas com minha turma do oitavo ano e, a cada leitura, me deparo com uma mesma inquietação: no fim das contas, os inimigos muitas vezes somos nós mesmos.


Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. Esta e as demais fotos desta galeria são do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra
Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. Esta e as demais fotos desta galeria são do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra

Hoje, mesmo de forma menos reativa, seguimos na resistência - agora com mais acesso a manifestos, poemas e registros. 


Quando vejo a postagem do Renato Freitas, deputado estadual em Curitiba, sobre os Caiado - essa família que enriqueceu com o sangue de milhares de pessoas escravizadas, violentadas, mortas - entendo o ciclo. Construíram um império que permanece há centenas de anos, mesmo diante de denúncias, documentos e memórias. Oligopólios latifundiários. Monopólios que impedem a igualdade.



Quem tem direito à terra? Quem tem direito ao que sua força de trabalho produz? Quanto é preciso ceder para usufruir do próprio esforço e tempo? As discussões sobre imposto, exploração e arbitrariedade permanecem. Quando será que a próxima bomba vai explodir? E as mudanças climáticas?


Essa terra que não para de esquentar... a solução se dissolve. 

Quanto tempo ainda temos?


Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO
Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO

Vejo essas revoltas e sinto a ausência de um coletivo. O neoliberalismo faz isso: individualiza, isola, cria representações irreais que só representam a si mesmas. E as torcidas, os fanatismos, viram melodia. A batida é a violência - que encontra um leque de possibilidades para se expressar em sociedades cada vez mais distópicas. A naturalização do caos custa caro. 


E a elite que lucra com a dor só gera mais dor, mais ódio, mais rancor...

Estar em sala de aula me coloca em contato com uma geração que se vê à frente, que pensa saber de tudo, porque tem acesso a tudo. Mas esse “todo” nunca fez parte do projeto deles, uma falsa totalidade, a parcela a que temos direito é pequena, ilusória. Hoje, a mão de obra já não se divide entre barata ou especializada: surgem os descartáveis. Jovens jogados em lugares cada vez mais difíceis de sair.


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Ir ao Rio de Janeiro é ver a encarnação viva de um Brasil que deveria ser antigo. Quanto mais mergulho nas vivências, mais entendo como chegamos até aqui: uma elite gananciosa e covarde, que engana, explora, descarta. Que nos associou - historicamente - a estigmas e defeitos que dizem mais sobre eles do que sobre nós. Uma cidade que, em sua gema, só se importa com o cifrão. Tudo para o turismo. O pouco que sobra é parcelado para o povão. 


Andando pelas ruas que não são limpas desde a Reforma Pereira Passos. Procurei banheiros e não achei. Os poucos que vi, tive que pagar. Aos poucos, entendi as consequências. O cheiro de merda no ar - o mesmo cheiro da família real que veio fugida de Portugal correndo porque o baixinho francês prometeu matar. Covardes. Como vemos no filme da Carlota Joaquina. Olho ao redor e acho graça, tantos monumentos a supostos heróis, tentando vender uma história que nunca existiu.


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Os verdadeiros heróis foram mortos buscando liberdade. Em suas revoltas, conjurando, iluminados. Gente com uma força que brota mesmo nas piores condições. Se fôssemos os vencedores, talvez não estivéssemos nessa situação. 


Mas a história tem dessas coisas. 

E outras também - como a de ainda estar sendo escrita.


Família de sertanejos se rende às forças oficiais em Canoinhas (SC), em 1915
Família de sertanejos se rende às forças oficiais em Canoinhas (SC), em 1915


E foi nessa escrita truncada que apagaram a Guerra do Contestado.


"O problema da desigualdade no Brasil se manifesta de forma radical na concentração fundiária, que deu origem a oligopólios latifundiários e a uma expropriação predatória do solo." – Douglas Barros, em Diário de um intelectual do Terceiro Mundo: a Revolta do Contestado, publicado no Blog da Boitempo.

Um povo inteiro jogado no limbo da história porque ousou sonhar com uma terra que fosse, de verdade, sua. Porque não era só disputa de limite entre Paraná e Santa Catarina - era o latifúndio com sede de progresso, e o povo com fome - de entre tantas coisas - paz. Era a ferrovia rasgando o chão dos outros como se ali não houvesse vida. Como se a mata, os rios, os corpos fossem meros obstáculos.


Milícia armada (vaqueanos) protege serraria de ataques, em Três Barras (SC)
Milícia armada (vaqueanos) protege serraria de ataques, em Três Barras (SC)

Vejo um povo tratado como entrave ao progresso: caboclos, mestiços, pretos, indígenas, desviantes, famintos - os que resistem a um projeto de embranquecimento. Um povo que precisou criar suas próprias estratégias, forjar suas armas, firmar pactos entre si para persistir. Porque diante de tanto genocídio, não há como limpar o que nunca foi sujeira.


Em certos momentos, só há luz no divino: no monge José Maria, rezando e curando, e o povo acreditando - porque até ali só havia motivos para desacreditar. Às vezes, é só a fé que sustenta o que a lei destrói.


Mas fé preta, fé pobre, fé sertaneja... assusta. Antônio Conselheiro que o diga.


A única foto conhecida de Antônio Conselheiro, místico rebelde e líder espiritual do arraial de Canudos (1893-1897), Bahia, Brasil. Foto tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército.
A única foto conhecida de Antônio Conselheiro, místico rebelde e líder espiritual do arraial de Canudos (1893-1897), Bahia, Brasil. Foto tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército.

Chamaram de fanatismo. De monarquismo. De loucura. Como sempre chamam quando o povo se organiza fora da lógica deles. Só que ali tinha mais que fé - tinha organização. Tinha memória. Tinha gente montando reduto, fazendo reza, formando Cidade Santa. Tinha mulher no comando, criança em vigília, caboclo erguendo arma e palavra.


E aí o Estado veio com tudo. Com regimento, com exército, com massacre. Assim como em Canudos. 


O Contestado durou de 1912 a 1916. E, nesse tempo, o Brasil matou o que viu pela frente. Jogaram bomba em vila de palha, invadiram terreiros, queimaram documentos, enterraram a história - mas ela se manteve viva na oralidade.


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Era a República mostrando sua cara - e ela era branca, militar e vendida ao capital estrangeiro.

O progresso vinha de trem, mas quem ficou no caminho virou poeira.


Chamaram de Guerra, mas foi chacina. No Irani, mataram o monge. Em Taquaruçu, bombardearam a população inteira. Em Caraguatá, foi tifo, bala e luto. Na fase do “açougue”, cortaram gente como gado. E o pior: ninguém se responsabilizou. O decreto de anistia veio em 1918.Como se fosse possível apagar tudo com uma caneta.


Seguidores de Antônio Conselheiro
Seguidores de Antônio Conselheiro

Mas a memória não morre assim.


“⁠Onde há poder há resistência” - Michel Foucault em História da sexualidade I: a vontade de saber.

O Brasil nasceu em revolta. E sobreviveu se contorcendo.


Antes do monge e das Cidades Santas, teve os Malês em 1835,em Salvador, escrevendo revolução em árabe, com a cabeça erguida, lutando por liberdade religiosa, por dignidade preta, por um outro mundo. Foram mortos - mas deixaram o exemplo.


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Teve também a Cabanagem, lá no Grão-Pará. Povo pobre, indígena, mestiço, caboclo, cansado do poder vindo de longe, erguendo arma contra o Império. Tomaram Belém, fizeram governo popular, mas foram massacrados depois. Estima-se que morreram mais de 30 mil - quase 30% da população local. E tudo o que restou foi o silêncio.


O combustível do progresso brasileiro foi - e ainda é - o sangue das minorias.

Minorias que só se tornaram minoria por causa da chacina institucional que atravessa séculos e permanece até hoje. Mudam os nomes, mudam os discursos, mas os atores são os mesmos - os donos da terra, os donos do dinheiro, os donos da bala.


Proprietário de latifúndio do Nordeste no fim do século 19 (imagem: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)
Proprietário de latifúndio do Nordeste no fim do século 19 (imagem: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)

O que antes era repressão a caboclos insurgentes, hoje se veste de operação policial nas favelas. O que antes queimava terreiros no meio do mato, agora destrói casas de axé nas periferias. O que antes expulsava à força para abrir estrada de ferro, hoje empurra com gentrificação, despejo, remoção. O que antes rasgava mapas com fronteiras de sangue, hoje traça cercas invisíveis que separam quem pode viver de quem só sobrevive.


E no centro dessa engrenagem, sempre o mesmo motor: a vida das gentes consideradas descartáveis. Pretos, indígenas, quilombolas, camponeses, ribeirinhos, povo de santo, travestis, pobres, desviantes - os que nunca couberam no projeto de nação desenhado pelos senhores da ordem. Uma ordem que exige sacrifício e, não por acaso, sempre oferece os mesmos corpos no altar do progresso.


Lei agrária de 1850 impediu acesso de ex-escravos à terra (foto: Projeto Monumenta)
Lei agrária de 1850 impediu acesso de ex-escravos à terra (foto: Projeto Monumenta)

E ainda têm a audácia de chamar isso de civilização.


"Uma civilização que se mostra incapaz de resolver os problemas que suscita é uma civilização decadente. Uma civilização que escolhe fechar os olhos aos seus problemas mais cruciais é uma civilização enferma. Uma civilização que usa seus princípios para enganar, que os torna instrumentos de duplicidade é uma civilização moribunda." – Aimé Césaire, em Discurso sobre o Colonialismo (Discours sur le colonialisme, 1950)

Mas a história está de pé, 

nos olhos de quem lembra, 

nos cantos de quem reza, 

nos punhos de quem luta.


Grandes propriedades rurais em São Paulo e Pernambuco no fim do Império (imagens: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)
Grandes propriedades rurais em São Paulo e Pernambuco no fim do Império (imagens: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)

Essa é a memória do Contestado. E de tantos outros territórios em disputa - não por terra, mas por dignidade. Porque progresso sem justiça é só mais uma palavra bonita a serviço da violência.


A Balaiada, no Maranhão, explodiu contra o latifúndio e a fome. Com balaio na cabeça e faca na mão, homens e mulheres disseram não. E foram chamados de baderneiros. Porque quando o povo levanta, os donos do poder tremem -e quando tremem, atiram.



Teve Canudos, com Antônio Conselheiro, e teve Palmares antes de tudo. Teve Sabinada, Revolta de Beckman, Revolta de Vila Rica, Revolta dos Búzios, Confederação do Equador, Revolta dos Alfaiates...Daria pra encher livros, mas preferiram esvaziar páginas. Falaram de ordem, de bandeira, de independência -mas se esqueceram de dizer que liberdade, por aqui, sempre foi coisa que o povo teve que arrancar na unha.


Cada uma dessas revoltas era também um aviso: esse país não é estável. Esse país nunca aceitou calado. Esse país nasceu de um conflito entre o que impuseram e o que se sonhou.



E se hoje parece que está tudo quieto, é porque a panela ainda não ferveu de novo.


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Ainda há quem conteste. Ainda há quem não aceite morar na margem do que nunca foi nosso por escolha.


E eu fico pensando - o que mudou, de lá pra cá?

Hoje o trem é outro. O trilho é algoritmo, a expulsão é mais burocrática, a bala é mais precisa. Mas a lógica é a mesma: modernização sem povo, progresso sem justiça, Estado sem alma. Ainda tem cidade vendida à multinacional. Ainda tem caboclo sendo expulso da beira do rio porque o rio virou propriedade. Ainda tem floresta tombando pra virar lucro. E ainda tem silêncio. Silêncio imposto, patrocinado, curricular.


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Por isso, quando entro em sala, eu conto. Mesmo que o livro não traga, eu conto.Mesmo que a apostila pule, eu volto. Porque se eles tentam enterrar, a gente planta.


Planta aula, planta texto, planta debate. Planta pergunta: quem escreve a história que a gente aprende? Quem decide o que é revolta e o que é "desordem"? Quem são os fanáticos e quem são os heróis?


E aí, no meio de tudo isso, vejo um aluno me perguntar: “Professor, o Brasil já venceu alguma guerra?”

E eu, com tudo entalado na garganta, digo: "Não. Mas já resistiu a muitas. E continua."


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Porque enquanto existir injustiça, vai existir revolta.

Enquanto existir esquecimento, vai existir quem lembre.

Enquanto existir opressão, vai existir quem conteste.


E é isso que todas essas revoltas me ensinou.

E é isso que nossa revolta  continua dizendo.


Pra quem tiver ouvido.

Pra quem tiver coragem.

Pra quem ainda acredita.


Minha luta é ensinar,

na persistência de nunca deixar de resistir.





 
 
 
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Há 50 mil anos, o mundo era povoado por muitas humanidades.

Não é metáfora. É fato científico.


Durante séculos, a ciência foi sequestrada para servir ao império. Categorias como “raça” e “civilização” foram usadas para justificar dominação, escravidão e genocídio. Mas a própria ciência, quando se liberta da colonialidade, nos ajuda a recontar a história. Este texto é um convite a lembrar que nunca fomos um só tipo de humano - e que a ideia de uma humanidade superior é uma invenção feita à força de sangue e apagamento.

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Enquanto os Homo sapiens caçavam e migravam pela África, pela Europa e pelos desertos da Ásia, outras espécies humanas também caminhavam sobre a Terra. Os Neandertais resistiam ao frio europeu. Os Denisovanos cruzavam as montanhas da Sibéria. Os pequenos Homo floresiensis viviam em cavernas na ilha de Flores, na Indonésia. Nas Filipinas, o Homo luzonensis deixava pistas de sua existência, quase como um sussurro que só agora conseguimos ouvir.


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Todas essas espécies humanas viveram ao mesmo tempo.


Por milênios, compartilharam o planeta, o fogo, as cavernas, o silêncio das noites. E, algumas vezes, mais do que isso: compartilharam o próprio sangue. Cruzaram entre si, se encontraram, deixaram descendência. A prova disso vive dentro de nós: pessoas asiáticas e europeias carregam traços genéticos de Neandertais. Povos da Oceania e do Sudeste Asiático trazem Denisovanos no DNA. O Homo sapiens -  essa espécie que se espalhou por todos os cantos -não chegou sozinho.


Ele se misturou.

Ele aprendeu.

Ele foi muitos.


A ideia de uma única humanidade pura e superior? Uma farsa moderna.

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A biologia não reconhece raças humanas. A ciência genética mostra que a diferença entre duas pessoas negras pode ser maior do que entre uma negra e uma branca. A cor da pele, aliás, é só uma resposta ao sol. Mais melanina sob o calor africano; menos sob os céus nublados da Europa.


A cor da pele é adaptação. Não é hierarquia.


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O mito da raça foi uma ferramenta de dominação


A raça não foi descoberta - foi inventada.

E não pela ciência, mas pela guerra. Não nasceu de uma curiosidade pelo outro, mas de um desejo de controle.


Antes do tráfico transatlântico de africanos, não existia “raça negra” como identidade biológica inferior. Havia povos, etnias, culturas complexas com nomes próprios: iorubás, bantos, jejes, haussás, ashantis, entre tantos outros.


Mas quando os navios negreiros cruzaram o Atlântico, tudo isso foi reduzido a uma categoria única, desumanizante: negro.


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Não como cor de pele, mas como condição social de coisa a ser explorada.

Enquanto isso, os invasores europeus se nomearam “brancos”, “civilizados”, “superiores”. Esse binarismo racial serviu para justificar a escravidão, o colonialismo e o extermínio. A raça virou uma máquina ideológica para organizar a desigualdade, legitimar a pilhagem, silenciar a resistência.


Ao classificar povos inteiros como “primitivos”, “atrasados” ou “sem alma”, o colonialismo autorizou o roubo de terras, a imposição de línguas, a destruição de culturas e a conversão forçada.



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Tudo isso sob o discurso de “progresso” e “missão civilizatória”.

O racismo científico - com suas medições de crânios, hierarquias evolutivas e zoologias humanas - não foi apenas pseudociência. Foi tecnologia de dominação. Foi a intelectualização do genocídio.


Até mesmo Darwin, cuja teoria da evolução é revolucionária, foi distorcido. Criaram a farsa do “darwinismo social” para dizer que os mais “aptos” deveriam governar os menos “aptos” - como se a exploração fosse uma lei natural. Como se o racismo fosse biologia e não política.


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A pseudociência do racismo também encontrou seus apóstolos de jaleco.


Cesare Lombroso, o “pai da criminologia moderna”, dizia que era possível reconhecer o criminoso nato pela forma do crânio, pela largura do nariz, pela cor da pele - pela aparência.


Sua teoria era simples e monstruosa: algumas pessoas já nasciam más. E essas pessoas, quase sempre, se pareciam com os negros.

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O Brasil foi o laboratório perfeito para essa ideologia doentia. Depois da abolição da escravidão, não veio reparação, mas perseguição. A liberdade virou uma espécie de liberdade vigiada.


As elites brancas passaram a temer a presença de milhões de pessoas negras fora das senzalas.

E então surgiu a proposta explícita: criar um código penal específico para ex-escravizados, como se eles precisassem de leis próprias para serem contidos.


Ser negro virou sinônimo de suspeito.


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A vadiagem virou crime. O batuque virou perturbação. A religião virou feitiçaria. A cultura negra foi tratada como ameaça à ordem pública.


Enquanto isso, a branquitude se escondia por trás da neutralidade. Os mesmos que herdaram terras, bancos, escolas e sobrenomes fingiam que a igualdade já tinha chegado, enquanto o Estado construía cadeias onde antes havia senzalas.


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Mas a criminalização nunca foi só jurídica. Ela sempre foi estética e simbólica. Nossos corpos são lidos como perigo. Nossas vozes, como afronta. Nossos passos, como ameaça.


A cultura negra - da capoeira ao candomblé, do samba ao funk - sempre foi perseguida, abafada, proibida.


Cito, Aimé Césaire:


“Minha boca será a boca dos infortúnios que não têm boca; minha voz será a liberdade dos que se curvam no cárcere do desespero.” | My mouth shall be the mouth of those calamities that have no mouth, my voice the freedom of those who break down in the prison holes of despair.


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Mas não era só o batuque ou o corpo preto que assustava.


Era a memória do levante. A lembrança da espada. A elite brasileira vivia sob o fantasma de um passado que insistia em não se calar.

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Eles lembravam da Revolta dos Malês, quando negros islamizados tomaram as ruas de Salvador em 1835 com uma disciplina que desmentia todos os estigmas. Era alfabetização em árabe, era articulação tática, era fé em Allah e faca na mão. Não era desordem - era projeto.


E lembravam ainda mais, com pavor disfarçado de civilização, da Revolução do Haiti: a primeira e única revolta de escravizados do mundo que venceu. Venceu os franceses, venceu Napoleão. Venceu a lógica da escravidão.


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Aquela pequena ilha no Caribe virou o pesadelo das casas-grandes das Américas. A ideia de que negros poderiam se levantar, se organizar e se libertar não cabia no mundo que os brancos queriam manter. E o que é uma ideia perigosa senão uma ameaça ao império?


Por isso, o Iluminismo, que prometia liberdade, igualdade e fraternidade, também foi usado com freio.

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As luzes eram seletivas. A liberdade era para alguns. A razão, para os mesmos de sempre. Mas a fagulha acendeu - e muitos pretos acenderam junto. E essa chama nunca mais se apagou.


Só que o medo branco não ficou parado. Virou política pública.


No Brasil, o projeto era explícito, se não dava pra expulsar os negros, era preciso "diluí-los". Assim nasceu o mito do embranquecimento, a crença de que, com o tempo e o sangue, o país se tornaria branco.


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Uma eugenia tropical. Uma distopia pintada com tintas científicas.


Vieram os incentivos à imigração europeia. Veio o discurso de que “melhorava a raça”. Veio a exclusão dos negros das políticas de cidadania, trabalho qualificado, escola, terra. Veio o esquecimento forçado.


E tudo isso foi feito com carimbo oficial.

O Estado quis apagar a população negra do futuro. Não conseguiu. Mas nos deixou sequelas que até hoje carregamos nos ombros, nas estatísticas e nas ausências.


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E como se não bastasse os Malês, o Haiti e a força da ancestralidade negra em marcha, teve também a Revolta dos Alfaiates, ou dos Búzios, em 1798, na Bahia. Inspirados pelas ideias do Iluminismo e pela Revolução Francesa, homens negros, pardos e livres sonharam com uma república igualitária, onde "todos seriam iguais sem distinção de cor ou posição".


Era um levante de trabalhadores urbanos, soldados, artesãos, com maioria negra - que ousaram pensar o Brasil com fim da escravidão, salários dignos e democracia racial. 


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O sonho deles era perigoso. Tão perigoso que o Estado logo tratou de matar os líderes e apagar suas ideias. Mas não conseguiram apagar a semente.


Porque a ideia de liberdade nunca mais voltou pro tronco.

E, no entanto, o mito da superioridade racial construiu impérios, justificou genocídios, desenhou fronteiras que ainda hoje matam.


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Mas esse mito desmorona diante da verdade ancestral: somos misturados desde sempre. Viemos de cruzamentos, de migrações, de trocas.


A diversidade não é erro, é origem.

A biologia não reconhece raças humanas.

Mas o colonialismo, sim.


Como escreveu Frantz Fanon:

O colonialismo não é uma máquina pensante, não é um corpo dotado de razão. É a violência em seu estado natural, e só se curva diante de uma violência maior.”

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O que chamamos hoje de "humano" não nasceu pronto.


Foi fabricado por muitas mãos, muitos corpos, muitos tempos. Se hoje estamos aqui, é porque fomos capazes de conviver com a diferença e aprender com ela.

Antes de sermos únicos, fomos muitos. Antes da supremacia, havia convivência, mistura, diversidade, cruzamento. É hora de lembrar que o ser humano é uma invenção feita de encontros. E que a ideia de superioridade racial é uma mentira bem contada, armada com navios, canhões e mãos brancas.


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Não somos um erro da natureza nem um projeto inacabado da Europa. Somos herdeiros de muitas humanidades, somos prova viva de que a pluralidade é potência - e a pureza, uma ficção perigosa.


Então, quando alguém disser que existe uma humanidade superior, lembre: antes de sermos únicos, fomos muitos.


E talvez a nossa força esteja justamente nisso: em não sermos uma coisa só.



Fontes Bibliográficas

  • ALMEIDA, Silvio. Racismo estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.
  • CARVALHO, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
  • FANON, Frantz. Os condenados da terra. Tradução de José Laurênio de Melo. São Paulo: Civilização Brasileira, 1968.
  • GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
  • HASENBALG, Carlos. Discriminação e desigualdades raciais no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1979.
  • MUNANGA, Kabengele. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil: identidade nacional versus identidade negra. Petrópolis: Vozes, 1999.
  • NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Perspectiva, 1978.
  • SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil – 1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.
  • SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017


 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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