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  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 12 de jun
  • 7 min de leitura

Atualizado: 13 de jun


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Belford Roxo pulsa em cada batida do álbum Queda Livre, de Caxtrinho.

É impossível ouvir e não se sentir atravessado pelas esquinas esburacadas, pelo barulho da feira, pelo som das obras e das Makitas que o artista fez questão de registrar no disco. Caxtrinho não compôs apenas um álbum; ele desenhou a cidade com acordes tortos, ruídos cotidianos e vozes de quem, como ele, insiste em ficar.


“Eu nasci em Belford Roxo, sou cria de Bel. Não tem como fugir, não dá, irmão”, ele me disse com a segurança de quem já entendeu que o amor pelo território é complexo, atravessado por dores e memórias. É um amor que exige luta, ressignificação e uma boa dose de teimosia para continuar dizendo: “é daqui que eu sou”.


Rafael Meliga / Divulgação
Rafael Meliga / Divulgação

Queda Livre é, antes de tudo, um exercício de liberdade. Como ele mesmo contou, o disco nasceu do improviso: “A gente tocava do zero, sem ler nada, sem saber porra nenhuma, e foi saindo”. Esse mergulho no imprevisível moldou o som que oscila entre a crônica, o manifesto e a provocação.



Em faixas como "Branca de Trança" e "Papagaio", Caxtrinho cutuca, sem medo, as tensões raciais e sociais que ele observa desde a infância. "Não dá pra fingir que a gente nunca viu uma branca de trança por aí. É um ataque? É. Mas é um ataque a todos os brancos em geral", ele me disse, com um sorriso no canto da boca e a certeza de quem está escrevendo sua história com a própria caneta.


O álbum carrega participações de nomes como Ana Frango Elétrico, Negro Leo e Vovô Bebê — parcerias que nasceram do acaso, da rua, da troca sincera entre artistas que se reconheceram. "O disco foi feito no amor, quem participou foi porque gostava da música e quis somar", ele relembra. Talvez essa seja a magia de Queda Livre: ele não foi milimetricamente calculado para agradar.



Ele aconteceu, no tempo da vida real, no improviso das amizades, na fé de que a simplicidade também é potência.

Caxtrinho enxerga Belford Roxo como um lugar de protagonismo. "A gente pode ser a primeira geração de várias coisas aqui. O tempo inteiro tentam dizer que a gente não tem, que a gente não é. Mas a gente é. E tem muito. Tem uma geração Belford Roxo vindo aí", ele avisa. E é difícil duvidar. As referências ao Centro Cultural Donana, as memórias da quadra da Inocentes de Belford Roxo, os encontros com a Orquestra Popular Barracão — tudo aponta para um território que, apesar dos estigmas, ferve de talento e invenção.


Queda Livre não é apenas sobre a queda. É sobre o voo. É sobre não aceitar que a felicidade esteja condicionada ao CEP.

Capa do álbum ‘Queda livre’, de Caxtrinho — Foto: Obra de Arjan Martins em foto de Pedro Agilson
Capa do álbum ‘Queda livre’, de Caxtrinho — Foto: Obra de Arjan Martins em foto de Pedro Agilson

"O acesso à felicidade não é negado pelo território, pelo contrário, é isso que complementa a gente", ele disse. E talvez seja exatamente isso que a música de Caxtrinho faz: nos lembra que é possível viver com intensidade mesmo quando o mundo parece querer nos derrubar.


Perguntei a ele o que é ser da Baixada Fluminense. Ele pensou, sorriu e respondeu com a calma de quem já entendeu seu papel: "Ser da Baixada é ocupar uma responsabilidade de propagar afeto. É ser um ativista Baixada Afetivo."


E é isso. No fim das contas, Queda Livre é um disco que te puxa para dentro da cidade, que te joga na pista esburacada, que te faz caminhar junto, tropeçando e seguindo, como quem sabe que cair também é uma forma de voar.


provocações e encontros


Mas Queda Livre é também o retrato de um método: improvisar, experimentar, criar no caos. "Tocar do zero, tocar sem amarras", disse Caxtrinho, como quem descreve não só o processo musical, mas a própria vida. Ele nunca quis, inicialmente, ser a voz do disco. "Eu queria só ser um compositor, deixar que outras pessoas cantassem minhas músicas." Mas o álbum puxou ele para o centro da cena, e ele aceitou o chamado.


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As participações do disco aconteceram no fluxo, sem roteiro. "Chegava no estúdio, a pessoa ouvia o som e gravava. Não tinha linha escrita pra ninguém."

Assim, nasceram encontros improváveis: shows pequenos, como aquele em São Paulo para apenas três pessoas — uma delas, Kiko Dinucci —, e outros em bares cariocas, que aproximaram nomes como Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Ana Frango Elétrico. Foi no improviso que a rede se formou.


"Esse disco foi feito todinho no amor. Quem participou, participou porque gostava da música", ele disse. A força de Queda Livre está aí: ele nunca foi um projeto estrategicamente pensado.


Rafael Meliga / Divulgação
Rafael Meliga / Divulgação

Foi um disco que nasceu da urgência, da rua, das trocas honestas, da necessidade de registrar um tempo, um território e um sentimento.

Algumas músicas vieram carregadas de provocações. "Eu tava numa fase muito sem amor. Então eu criava personagens para falar o que talvez eu não falaria diretamente." Mas ele não se arrepende. "Se fosse hoje, talvez eu escreveria diferente. Mas essas músicas precisavam ser ditas." E elas foram ditas com a coragem de quem sabe que não está buscando agradar — está buscando ser verdadeiro.


O próprio título, Queda Livre, sintetiza esse processo: cair como quem se joga, como quem aposta no caminho sem garantia de onde vai dar. "É sobre tocar livre, viver livre, pensar livre", disse Caxtrinho.


A Geração Belford Roxo


Ser de Belford Roxo é ser atravessado por histórias que, muitas vezes, o Brasil prefere ignorar.

Rafael Meliga / Divulgação
Rafael Meliga / Divulgação

Quando pergunto sobre a cidade, Caxtrinho fala sem romantização: "Desde que sou criança, a mensagem que ouço sobre o lugar onde moro é negativa. Meus amigos sempre diziam que a vida só começa quando você sai daqui. E eu sinceramente não estou disposto a sair desse lugar."


Entre os bairros, becos e centros culturais, pulsa uma cena que Caxtrinho chama de "Geração Belford Roxo Artística". Uma geração que está construindo, do seu jeito, o futuro cultural da cidade. "Posso te contar de primeira uns 15 artistas daqui que fazem trabalhos sensacionais. Eu já ouso dizer que é uma geração mesmo", afirma com a segurança de quem vê o movimento acontecer todos os dias. Não é só música, é resistência, é presença.


Ele me contou sobre amigos que eram artistas e que, por falta de oportunidades, tiveram que assumir outras profissões. Mas o olhar de Caxtrinho é certeiro: "Mesmo assim, continuam artistas. Eles não deixaram de ser."



É esse tipo de visão que transforma Belford Roxo num território vivo, onde a arte acontece na esquina, na feira, na obra — e também no improviso.

Os espaços de fortalecimento da cena, como o Centro Cultural Donana, aparecem como faróis nesse caminho. "É um espaço que dá uma força gigantesca pra quem quer acessar o público daqui. E o público mais difícil de alcançar é justamente o próprio Belforroxense", ele analisa. Talvez porque por muito tempo foi ensinado à população que as melhores coisas estão do lado de fora.


Talvez porque a educação ainda não alcançou tudo o que pode, como ele mesmo observa com lucidez.


Caxtrinho não é só um músico. É um agente de memória. "A vontade de falar de Bel, de propagar o nome de Bel numa perspectiva positiva, é uma luta. Temos que disputar o nosso lugar no meio de um Estado que tem Copacabana, Madureira, Cabo Frio... Como a gente compete com isso? Com identidade. Com música. Com registros."


E é assim que ele faz: registrando. Trocando. Conectando. Ele entende que estar na Baixada é também carregar um dever: "É ser propagador de afeto. É ocupar uma responsabilidade política na história desse país."


Rafael Meliga / Divulgação
Rafael Meliga / Divulgação

Essa consciência atravessa o trabalho de Caxtrinho, que sabe que ser cria da Baixada é muito mais do que um CEP. É resistir. É criar. É transformar o desdém em poesia. É improvisar na vida como improvisa no palco — com coragem, com ginga, e com amor.


Queda Livre não é só o nome de um álbum. É um convite a pular — e, no meio da queda, aprender que a gente já estava voando faz tempo.

“QUEDA LIVRE” foi realizado através da Lei de Incentivo à Cultura do Ministério da Cultura, Governo Federal e está disponível em todas as plataformas de música digital.


Ficha técnica:

CAXTRINHO - QUEDA LIVRE (QTV067, 2024)

1 - Cria de Bel (Caxtrinho)

2 - Branca de Trança (Xuxuvevo/Caxtrinho)

3 - Papagaio (Caxtrinho)

4 - Brankkkos feat. Negro Leo (Caxtrinho)

5 - Desastre na Pista (Pedro Oleare/Caxtrinho)

6 - Queda Livre (Kau/Caxtrinho)

7 - Vó Jura (Caxtrinho)

8 - Samba Errado (Romulo Fróes/Caxtrinho)

9 - Merecedores feat. Tori e Bruno Schiavo (Kau)

10 - Rolé na B2 (Caxtrinho)

Caxtrinho - voz, violão, samples (7, 10), coro (2)

Eduardo Manso - guitarra (1, 3, 4, 6, 7, 9, 10), sampler (2, 5, 7, 9, 10), Rhodes (1, 4), sintetizador (1, 10), escaleta (3), harmônio (6)

João Lourenço - baixo

Phill Fernandes - bateria

Vovô Bebê - guitarra (1, 3, 4, 5, 7, 8), flauta (6)

Participações:

Ana Frango Elétrico - coro (2), piano (9), voz (9)

Bruno Schiavo - voz (9)

Kau - cavaquinho (1, 7, 8), percussão (4, 5), cuíca (4)

Marcos Campello - guitarra (2), trompete (9)

Negro Leo - voz (3, 4)

Pablo Carvalho - percussão (1, 2, 7, 9)

Paulinho Bicolor - cuíca (1, 4, 10)

Renato Godoy - sintetizadores (4)

Thomas Harres - percussão (3, 6, 10)

Thomás Jagoda - Rhodes (3, 5)

Tori - coro (2), voz (9)

Xuxuvevo - coro (2), voz (5)

Produzido por Eduardo Manso e Vovô Bebê

Gravado por Renato Godoy, Vovô Bebê e Eduardo Manso nos estúdios Rockit! 304 e Primatas.

Mixado e masterizado por Renato Godoy no Grajahu

Programação visual/Design Lucas Pires

Fotografia da obra: Pedro Agilson

Fotos: Rafael Meliga

Texto do encarte: Thaís Regina

Assessoria de Imprensa: Build Up Media

Gerente de Recursos Incentivados: Bz Soluções Criativas

Produção geral: Mariana Mansur, Bruna Lamego e Bernardo Oliveira

Realização: Lei de Incentivo à Cultura, Ministério da Cultura, Governo Federal

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Paulo Eduardo era um jovem franzino de 16 anos e 1 metro e 82, que daria um excelente zagueiro — mas preferiu ser atacante.


Goleador nato, feito Pelé e Jardel no auge. Ninguém gostava de ser zagueiro lá no bairro.

Estava prestes a completar 17 anos quando despertou o interesse de alguns cartolas italianos. Seu futuro seria a divisão de base da Fiorentina ou do modesto Torino.


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Paulo chegava todos os dias em casa, onde sua mãe — mulher guerreira, viúva, uma leoa por seu filho — o esperava com suculentos bolinhos de chuva e aquele café fresquinho, que, se você não for astuto, queima até a língua.


Vivia sempre a sorrir, como na canção de Cartola. Era a alegria daquela família humilde; todos o recebiam como se fosse um ídolo da jovem guarda.


Assim seguia a rotina da vida de Paulo Eduardo.

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O ano era 2005. Três anos após o penta, e a sensação do momento era a chuteira Total 90 da Nike, usada por craques como Ronaldinho Gaúcho, Zidane e Kaká.


A ambição de Paulo em ter a famigerada chuteira era tanta que faltou a mais de oito jogos do time no sábado para fazer frete na feira, carregando as compras das madames e, assim, juntar uns trocados para comprar sua companheira. Mas, como todos sabem, não é fácil juntar grana.


Chegando cansado de mais um sábado de sol e labuta, viu Tony — o sex symbol do bairro.

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Com apenas 17 anos, já pilotava uma Twister e desfilava pela orla da Gil Veloso de Honda Civic, rodeado de raparigas. Todos viam, mas ninguém sabia de onde vinham os bens.


Tony observava Paulo suando para conquistar suas belas chuteiras, e o convidou a seguir um caminho mais fácil:


Fita boa e rápida — assalto ao McDonald's da Av. Champagnat.

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Pensativo, Paulo aceitou. Achou que seria tão fácil quanto fazer um gol.


Mas nada saiu conforme pensou. Ao adentrar o estabelecimento, havia lá um PM à paisana. E não foi outra.


Seu sonho acabou. Sua bola foi furada.

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Hoje, sua mãe chora ao ver o comercial da maldita chuteira que um dia fez os olhos de seu filho brilharem.


Se Paulo soubesse que quem joga é o pé, e não a chuteira, não teria sentido o peso da ostentação...


 
 
 
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Quantas vezes você já amou — e, dessas, quantas foram verdadeiras?


Eu sei: você descreveria mil sintomas diferentes, contaria histórias, relembraria momentos. Ocultaria talvez os ruins, ou enfatizaria? Mas o que importa é que algo existe aí. Será que isso, por si só, já é prova de que você amou?


Quando penso no meu corpo como território, quando me reconheço como um ser político — consciente de que meus atos são agentes transformadores da minha história e de tantas outras — percebo o quanto o desejo é poderoso. Ele move instituições. Ele desestabiliza estruturas.


Depois do meu último término, decidi ler bell hooks.

E isso reconfigurou minha vida. Sem falsa modéstia: entender o amor além de um sentimento — como uma ética de vida — realmente mudou tudo. O amor condiciona nosso modo de viver. É um diacrítico importante: entre a apatia e o enfrentamento das desigualdades, entre a miséria e a empatia; da idolatria de ditadores carismáticos ao fanatismo, possessividade, nacionalismos extremos e genocídios em massa. O que chamamos de amor é, muitas vezes, máscara para outras coisas. Ou ausência de si mesmo.


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Demorei para entender que eu também podia ser alguém digno de receber amor — e, mais ainda, digno de retribuir. Eu não sou aquele desenho que me fizeram. Não sou a caricatura que vi na televisão. Quando volto a Beatriz Nascimento, quando escuto Luedji Luna, penso em Um Mar Pra Cada Um. Nesse mundo, o bom mesmo é estar debaixo d’água. Que a maré me leve, às vezes, para a faixa de areia. Mas que não demore a me buscar de volta. Ao nosso oceano.


Na falta de dinheiro para comprar livros novos, volto aos antigos. Tudo sobre o amor é a bola da vez. Antes, reli O Negro Visto por Ele Mesmo, de Beatriz. Como dialogam! Só quando o povo negro se reconhece é que percebe que é digno de amar e ser amado. Amor como ato político. Como dizia hooks: o pessoal não é pessoal — é político.


Nossas relações, escolhas e posturas implicam em ações e transformações no mundo. Somos acolhidos ou rechaçados por conta de quem somos e de como amamos. Você pode ser amado na favela e na pista, mas pela estrutura, será sempre o inimigo. Amor não é fraqueza nem irracionalidade. É coragem. É projeto. Também é potência: anuncia a possibilidade de rompermos o ciclo da dor e da violência.


Caminhar rumo a uma sociedade amorosa é, talvez, nosso maior desafio revolucionário.

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Aprendi a gostar mais da minha companhia. 


Ainda que nos fins de semana venha aquela vontade louca de estar junto, já não me coloco tanto mais no fluxo. Me permito estar onde quero estar.

Racismo, sexismo, homofobia, imperialismo e exploração — tudo isso também se atravessa no amor. Quem pode amar quem? Quem tem o direito de desejar? Quem é alvo desse desejo? E com que consequências? Com quais remédios? São tantos corpos em disputa nessa cidade. Tantas batalhas. Tantas delimitações, indivíduos tentando definir as fronteiras do meu ser. Quando é que vou poder simplesmente ser? Quando terei o direito a esse amor que foi sequestrado por você?


Como desenvolver minha capacidade de amar em um mundo que adota a diferença como filosofia, o ódio como norma, o patriarcado como estrutura?

Será que é só desejo — pelo seu corpo, seu olhar? Ou é porque gosto de te escutar? Seus lábios movendo, sua língua cortante chicoteando poderosos e medíocres. Será que é sua potência, sua desenvoltura, sua gostosura? Será que amar é simplesmente um jogo de perde e ganha? Uma hierarquia da qual preciso me proteger para não cair em servidão?


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Eu só sei que o amor é uma ferramenta poderosa de libertação.


E ele alimenta outra ferramenta que nos foi tirada desde o sequestro: a autoestima. Essa mesma que os europeus roubaram junto com as nossas riquezas — porque ela não combina com a suposta superioridade que querem nos vender. Mas é essa autoestima que nos sustenta. Mesmo ferida, ela se manifesta em corpos tão ricos quanto fortes. O amor — o nosso amor — é revolucionário.


Nosso, porque sobreviver individualmente já é resistência, mas é na coletividade que somos potência.

Tudo sobre o amor: novas perspectivas mostra como somos ensinados, desde a infância, a ter ideias equivocadas sobre o amor. E como nossa sociedade ignora o fato de que precisamos aprender a amar. Achamos que nascemos sabendo, mas hooks nos lembra: o amor não está dado. É construção. É ação. Exige definição. Exige prática.

Luedji Luna – Um Mar Pra Cada Um (2025): Quarto álbum de estúdio, lançado em 26 de maio de 2025. Navega por desejos, cura emocional e autonomia afetiva, encerrando uma trilogia iniciada com "Um Corpo no Mundo" (2017) e seguida por "Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água"(2020). Capa assinada por Guile Farias, com fotografia e pesquisa científica de Álvaro Migotto
Luedji Luna – Um Mar Pra Cada Um (2025): Quarto álbum de estúdio, lançado em 26 de maio de 2025. Navega por desejos, cura emocional e autonomia afetiva, encerrando uma trilogia iniciada com "Um Corpo no Mundo" (2017) e seguida por "Bom Mesmo É Estar Debaixo D’Água"(2020). Capa assinada por Guile Farias, com fotografia e pesquisa científica de Álvaro Migotto

Quando ouço o último álbum da Luedji, Um Mar Pra Cada Um, com seus instrumentais e profundidades — de quem já viveu debaixo d’água — sinto que o tema não é só relação interpessoal, nem um sentimento misterioso. É código. Conduta. Relação de poder. Suposições baseadas em estereótipos. Corpos políticos. Limites do ser. A dificuldade de compreender o outro. Seus gestos, olhares, silêncios. E isso é essencial quando nos comprometemos a compartilhar a intimidade.


Muitos ainda acreditam que amar é transformar dois em um. Mas talvez a mágica seja perceber que são dois. Com individualidades, tempos e questões. Talvez a parada seja se encontrar — mesmo estando no outro. 


Um mar pra cada um, sem se curvar às marés alheias.
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Você já se perguntou a dificuldade de uma mulher negra amar?


E as violências que ela sofreu, disfarçadas de afeto? Eu não conheço a dor da carne, mas já vi cicatrizes visíveis e invisíveis demais. Homens que nunca aprenderam o que é amor — ou confundiram com posse e violência.


Naquela casa, poucas vezes vi beijos. Menos ainda, palavras bonitas. Talvez nunca vi nada que me fizesse acreditar naquele relacionamento. Era mais reclamação do que amor. E um saudosismo barato de uma época que talvez nunca tenha existido.


Olha esses dois. Eles não se amam. São meus espelhos, mas espelhos trincados — como os seus, como os de todo mundo. É um ciclo. Quem não me ensinou a amar, também não aprendeu. Na verdade, recebeu tudo, menos amor. De um mundo que, em nenhum momento, buscou simplesmente nos amar.



Meus pais não se amaram?


Talvez nem tenham me amado. Será que algumas situações tão dolorosas podem coexistir com o amor? Eu sempre fui a criança tímida. Fui violentado ainda novo. Abracei pouco. Tinha receio até de andar sem camisa, com medo de novos toques. Com uma ansiedade paralisante, uma culpa devastadora, uma vida já tão dura.


Eles não sabem o que é amar — seja nas suposições da minha avó, de que a gente deveria ter apanhado mais, seja nas brigas dos meus pais, seja na reprodução desses gestos por mim e minha irmã. Mas mesmo que não seja o amor que desejo, foi o que eles tiveram. E o ato de tentar, minimamente, em certos momentos, ressignificar o que já estava incrustado em nossas vidas — o gesto de criar um ser que, em algum momento, se colocou à disposição de romper esse ciclo — já é uma forma de amor.


Amar, às vezes, é um ato de tentativa, mesmo quando inconsciente.
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A primeira vez que convivi com uma família que praticava o amor foi com uma branca, no Sul do Brasil. E ela me amou. Eu senti. Foi aí que entendi: minha luta não é contra indivíduos — é contra estruturas.


Às vezes, fico em choque com seres tão cínicos, que matam, exploram, apagam — ou só reforçam, todos os dias — sistemas de desigualdade e exclusão contra povos específicos. E, na revolta dos mesmos, fingem não entender. Quem bate esquece. Mas quem apanha, não. Corpos tão violentados vão se revoltar. O sonho do oprimido é ser opressor. E o amor se esbarra no ódio, com a mesma intensidade.


Talvez, amar — em nossa sociedade — seja mesmo um privilégio.

Como se eu tivesse que reinventar o amor só porque ele não cabe na sua caixinha, na sua fórmula personalizada, na sua realidade. Amor tem contexto. Não confunda as coisas. O que se vende por aí é produto. Pare de banalizar. Cuidado ao nomear. Amor não é só química, mágica ou uma força invisível. Não é só feriado, data comemorativa ou jargão publicitário.


Amor é ação. É prática. É uma escolha. Em toda sua diversidade de significados, exerça-o.
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Diga a verdade para mim: quem eu sou nessa festa? Quem eu sou para você?


Aprendemos a mentir. A omitir. Vivemos em uma sociedade em que a mentira gera lucro. Já estamos na era da pós verdade. A mentira virou ferramenta de sedução, de dominação. Você quer me monopolizar. Quer que eu seja seu. Mas você nem é seu. Você nem se tem. Sua mentira criou um outro que não é você. Seja verdadeiro. Sei que não aprendeu isso nos seus cursos, diplomas ou cargos. Mas seja verdadeiro. Sua mãe não teve tempo para te ensinar. Seu pai talvez até tenha ensinado o contrário: que é bom inventar.


A infidelidade do lar, homens que vivem mentiras que não disfarçam a fraqueza, apenas a escancaram.

Tenho um compromisso com o amor. Especialmente com o amor-próprio. Alguns questionam minha positividade, minha busca por outros caminhos, minha tentativa de escapar da dor — mesmo que rápida, mesmo que provisória. Mas eu assumo esse compromisso como uma ferramenta positiva, transformadora. Seja dentro ou fora da sala de aula, quero estar em ambientes que, mesmo com todas as dificuldades, me permitam amar.


Amar minha prática. Minha entrega. Minha história.
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Aceito o fardo dessa forma de vida. 


Mas que eu tenha, ao menos, a liberdade de sonhar, idealizar, criar e executar. Quero ter o direito de me amar e de exaltar minhas partes boas — sem ter que me submeter a você, sem ser confundido com egoísmo ou egocentrismo.


Não sou eu que estou exigindo algo de ti — é você que tem medo do que vê em mim.

Entre livros, músicas, experiências, curvas e olhares, construo um amor que é político. Teorizo porque sinto. Sento nesta cadeira, coloco a mão sobre o teclado e escrevo. Um caminho rumo a uma sociedade mais amorosa. Que não se interrompam mais vidas como a de Beatriz Nascimento. Que se leiam mais mulheres negras como bell hooks. Que a música de Luedji Luna continue inspirando uma forma de amar sem tanto egoísmo, sem tanta posse.


Porque o amor é uma ação.

E toda ação, quando feita com consciência, é política.

E toda política que nasce do amor…

é coletiva.



 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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