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Foi no fim de um dia puxado. Corpo moído, mente pesada, e eu, enfim, no meu momento mais íntimo: o banho. Banho quente, daqueles que a gente não sabe se limpa ou se afoga. Saí do banheiro, descalço, chão molhado — e foi. Escorreguei.


A vida, às vezes, decide dar um grito na gente em silêncio. Caí pelado, nu de tudo, inclusive de orgulho. Não bati a cabeça, mas quase. O braço e a perna fizeram o milagre da vez. No chão, com o frio da cerâmica me abraçando, eu não me senti só ferido. Me senti frágil.

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Fiquei ali, imóvel. Pensando. Não pelo susto, mas porque alguma coisa dentro de mim caiu junto. Pensei em mim, pensei na morte, pensei na logística da minha ausência. Quem ia perceber? Em quanto tempo? E se não percebessem? Imagina: quase cem quilos de corpo favelado, carregado por bombeiros, manchete em nota curta, velório improvisado, e eu indo embora sem avisar. Justo eu, que gosto tanto de falar.


A real é que tem dor que não se explica. E tem pensamento que não cabe num papo. A gente sente com o corpo, mas sofre com a alma. E quando a alma dói, mano, nem travesseiro ajuda.


Na cama, dolorido e sem sono, pensei no feijão da minha vó, no abraço da minha mãe, na bronca do meu pai que, no fundo, sempre foi cuidado disfarçado. 
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Pensei na minha irmã e nas besteiras que a gente inventava pra brigar. No meu cachorro que latia como se a minha volta fosse milagre. No Sérgio, no Thiago, no Iéti, no Matheus, no Medeiros, na Mari, nos que não cabem nessa linha, mas que cabem demais no peito. Lembrei até do morro que eu subia, dos busão lotado, do vai e vem entre Belford Roxo, Caxias, Niterói. Um corre danado que eu jurei nunca mais querer — mas que hoje, confesso, dá saudade.


Só que a saudade não é vontade de voltar. É só memória querendo colo. E a gente aprende que tem passado que pesa, mas também sustenta. É isso que me faz seguir: saber que não tô só. Que mesmo longe, tem gente que é casa.


Tem dia que levantar da cama é um ato político. Tem dia que só existir já é resistência. E tem dia que não dá. Que o sorriso não vem, que a força falha, que a saudade vira nó. E tudo bem. Cansaço de alma não se cura com cochilo. Ele se cura com escuta, com afeto, com aquele abraço que diz “tamo junto”.

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Não quero ser herói de ninguém. Mal consigo ser meu próprio alívio. Quero só existir sem ter que explicar o porquê do silêncio. Só isso. Um momento de paz entre um corre e outro. Um tempo onde não precise vestir a armadura. Porque por mais que eu segure a onda, às vezes a maré é grande demais.


A queda foi rápida, mas o que caiu dentro de mim ainda tá se levantando devagar. No fim, eu só escorreguei. Mas ali, no chão, eu caí em mim.


E é foda reconhecer que mesmo forte, a gente cansa.


Mas cansa, sim. E precisa de colo.


Nem que seja o da palavra.


 
 
 

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No escuro, uma vela: o caminho de Castiçal em Loop Hero – Vol. 1

Tem artista que nasce no palco. Tem artista que nasce no corre. Castiçal nasceu no breu.


Mas não qualquer breu. Um breu cheio de som, cheio de mundo, cheio de encruzilhada. Tipo aqueles breus de quando falta luz na Baixada e, mesmo assim, alguém puxa o violão no quintal, outro improvisa uma rima no batente, outro acende vela e bota fé no dia seguinte. Foi desse caldo que veio Loop Hero Vol. 1 - EP — disco que Castiçal lançou no braço, no peito, na unha e na solitude.


“Cria de São João de Meriti, Agostinho Porto, Coelho da Rocha. Vivia ali aquele perrengue todo que você já imagina”, ele diz logo no início da nossa conversa.

E é nessas que a gente já se reconhece: Baixada com Baixada se entende no olhar, se escuta no sotaque, se fortalece na escuta.


Arte por Jorge Polo
Arte por Jorge Polo

O EP não é só um disco. É um rito. É o som de quem passou anos lapidando verso na cabine de uma usina de asfalto. Rimando no meio da madrugada. Sampleando barulho de chocalho, berimbau, delay e voz rouca. É um manifesto de um artista que entendeu que, se não existe estrutura, a gente constrói com o que tem. Se não tem luz, a gente vira vela.


“Esse EP foi um divisor de águas. Primeira vez que eu fiz tudo: compus, produzi, mixei, masterizei, lancei. Fiz na raça. Eu sou péssimo em rede social, nunca fui de ficar promovendo muito. Mas esse projeto precisava sair. Era um grito preso há muito tempo.”

E saiu. Saiu bonito. Saiu torto. Saiu real.


 o som do impossível


As músicas do Loop Hero não se parecem entre si, mas todas têm uma coisa em comum: elas parecem contigo. Quando tu tá em paz. Quando tu tá puto. Quando tu tá perdido. Quando tu tá com saudade. Elas são espelho. E são quebra-cabeça.


“Eu sempre quis fazer um hip hop que não soasse tudo igual. Tentar outras formas de rimar. Tipo rimar a segunda palavra com a última, a terceira com a primeira. Quebrar tudo. Rimando sem boombap. Usando a batida como se fosse um instrumento vivo.”

É um som que exige escuta. Que não te leva pela mão. Ele te larga no mundo e diz: sente aí. E é justamente por isso que toca tanto. Porque não entrega tudo. Sugere. Provoca. Cutuca.


“Tudo que eu escrevo, eu quero que a pessoa sinta o que ela quiser sentir. Tem coisa que eu sei o que quero dizer, mas não digo. Deixo no ar. Pra não quebrar o encanto.”

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E encanta mesmo. Porque não é só rima. É existência. É o cara que estudou escola esotérica, leu Krishnamurti, viveu casado por dez anos, se divorciou e encontrou na solitude não um vazio, mas um lugar de criação.


“Eu vivia a solidão. Depois ela virou solitude. Comecei a me sentir em paz comigo mesmo. E isso virou música. Eu não conseguia compor do lado da minha ex. Não por ela. Mas porque eu precisava de silêncio pra experimentar, pra errar, pra testar métrica. Cada um tem seu jeito."

Castiçal encontrou o dele.


beat, brisa e Baixada


É impossível escutar Castiçal e não pensar no território. Mas também é impossível limitar ele à uma extensão de terra.


Ele é a Baixada na base. Mas também é a montanha, a estrada, o silêncio do mato, a brisa da solitude. É berimbau com delay. É jazz sem partitura. É rap que não quer ser hype. É som de quem sobreviveu.


“A Baixada foi escola, mané. Me ensinou a perceber o outro, a me virar. Eu cresci vendo meu amigo ser traficante, o outro ladrão, o outro vender droga. E fui salvo pela arte. O violão me salvou.”

E mesmo quando saiu da Baixada, a Baixada não saiu dele. Ribeirão Preto, Itirapina, Santa Catarina — todos esses lugares ele carregou no bolso. Mas foi com os dois pés fincados no barro da vivência que ele construiu esse EP.


“Eu rimava dentro da cabine da usina. Porque em casa não dava tempo. Lavava roupa, fazia comida. Então, no trampo, quando dava um respiro, eu puxava o caderno. Comecei a fazer os beats ali também. Aprendi a tocar os loops no controlador MIDI, como se fosse guitarra. É tudo no feeling.”

O resultado é um som cru, quente, vivo. Tem raiva, tem fé, tem reflexão, tem festa.


castiçal é luz


E por que Castiçal?


“A ideia do nome é essa. Levar luz pras pessoas. Pode ser insight, pode ser poesia, pode ser dor. Mas é luz. É o que eu tento fazer com a música.”

Além do nome, tem referência ao som do Cassiano, à literatura esotérica, à vivência com psilocibina e meditação. Tem o sagrado e o profano, tudo junto. Um som que não se dobra ao algoritmo. Que não se resume em release. Que não cabe numa bio de Instagram.


“Minha intenção não é alcançar números. É tocar alguém. Se for uma pessoa só, já valeu.”

E valeu. Porque esse EP toca. Não como quem bate, mas como quem acorda.


Castiçal não é o herói da história. E nem quer ser. Ele é só mais um que teve que ir embora da sua área para sobreviver. E nesse caminho, acendeu uma vela. Depois outra. Depois outra.


O Loop Hero é isso. Um som que te olha no olho, mas sem te dizer o que fazer. Um disco que não quer te agradar, mas te provocar. Que não se prende a gênero, nem a fórmula. Um disco que vive no entre — entre a guitarra e a rima, entre o asfalto e a mata, entre o silêncio e o grito.




Castiçal e o próximo passo no abismo


Tem gente que rabisca. Tem gente que escreve. E tem gente que rasura o caderno inteiro, arranca a folha e começa do zero. Tabula Rasa é isso: o som do zero depois do fim. É Castiçal riscando tudo pra poder se ouvir de novo. E eu, pivete curioso, já me encostei nesse corre também.


“Já tenho um outro disco praticamente pronto. Chama Tabula Rasa. É outra pegada”, ele me disse no meio da entrevista, como quem solta uma bomba no meio da brisa.

E é isso mesmo: depois de Loop Hero, que já era uma guinada, Tabula Rasa é pulo sem rede, mergulho em silêncio, parede branca antes da próxima cor.


Não é só um novo EP. É um novo corpo. “São quatro faixas minhas, três de um parceiro da Pavuna, o m.u.t.a 93. E eu rimei tudo. É outro momento. Outra parada.”

Se Loop Hero era feito de fragmentos, colagens, loops soltos na madrugada, Tabula Rasa já nasce mais firme. Ainda tem a vibe mística, os samplers tortos, as rimas não lineares. Mas agora o chão treme diferente. Tem mais técnica, mais apuro, mais sangue na borda da faca. A solitude já não é mais abrigo. É laboratório.


E eu, que não sou bobo nem nada, já escutei esse novo som e posso garantir: o Castiçal tem munição pra mais uns três discos por aí.


“Esse processo todo de vivência da solitude... eu vivi as duas paradas. Primeiro a solidão. Depois virou autoconhecimento. Estudei escola esotérica, religião, budismo, hinduísmo. E larguei tudo. Fiquei comigo mesmo. E agora tô transpondo tudo isso em música.”

No meio do mato, em Gaspar (SC), longe da Baixada, longe do barulho, Castiçal se cercou de árvore, de tempo e de som. Riscou a lousa da vida e se escreveu de novo. E a música, mais uma vez, foi ferramenta, foi fé, foi fio.


“Comecei a estudar técnica, beat, flow, métrica, mix, sample. Tô aprendendo a colocar mais peso nos beats. Esse próximo disco tem outra direção. Mais maturidade. Mais nitidez. Tem rima, tem experimento, tem sopro de trompete, delay, reverb, mas tem soco também.”

E o nome? Tabula Rasa não veio à toa. É o conceito filosófico de quem decide renascer. Sem plano, sem script, só com o que tem dentro.


“Eu terminei o Loop Hero e me separei. E parece que foi junto. Uma coisa se lavando na outra. E agora o som novo vem assim: limpo. Mas não limpo de polido — limpo de verdade. Tipo quando tu limpa a casa toda e deita no chão pra respirar.”

Enquanto falava, Castiçal também dizia o que não queria dizer. Porque é isso: o som dele não se explica. E Tabula Rasa vem nessa toada. Um disco de silêncio cheio de som. Um disco que não tenta convencer ninguém — só convida.


“Tem uma faixa chamada Santa Armadura do Espírito. É o tipo de som que parece mantra, parece oração, mas também parece protesto. Não tem um formato certo. É o que for.”

Talvez Tabula Rasa seja isso: o que for. Porque nem sempre a arte precisa chegar com rótulo. Às vezes ela vem como vento, como sopro, como página em branco. E é na escuta que a gente escreve junto.


Castiçal não quer ser guru, nem profeta. Quer ser artista. Quer ser mais livre. Quer fazer som com quem sente, não com quem performa. E Tabula Rasa é essa entrega. 


E eu, que ouvi todo o projeto, posso dizer: tem faísca. Tem risco. Tem verso. E tem fogo novo chegando.

Se no Loop Hero ele acendeu vela, agora é como se tivesse soprado o pavio. E deixado o escuro vir. Porque pra recomeçar, às vezes, a gente precisa se apagar por completo.


Então segura. Respira. E quando o disco sair, escuta com calma. Porque Tabula Rasa não é só som. É um novo começo.

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E por fim, Castiçal me disse assim:


“Esse disco aí   Loop Hero Vol. 1  é como se eu estivesse abrindo um novo caminho. Pra mim, como artista. Como homem. Como alguém que não quer mais esperar autorização pra ser o que já é.”

E se tem uma coisa que a gente aprende com a obra de Castiçal, é isso: não espera. Acende tua vela. Faz teu som. Escreve tua história. Porque enquanto a indústria vende luz artificial, tem gente como Castiçal iluminando seu próprio caminho.


Pra encerrar, Castiçal fez questão de agradecer quem fortaleceu na caminhada — gente que colou de verdade nos momentos-chave, seja no som, na vida ou na lida. O salve vai pra Rodrigo Valério, Renan Medeiros, Jorge Polo e Cristiana Cruz. Cada um, à sua maneira, foi vela acesa nesse processo.


 
 
 

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O funk não começou a ser perseguido hoje. Sua criminalização faz parte de uma longa história de silenciamentos, repressões e estigmas contra manifestações culturais que nascem nas periferias do Brasil.


Antes do funk, o samba era caso de polícia — seus músicos eram presos, seus instrumentos apreendidos. O rap foi (e ainda é) enquadrado como apologia ao crime. Durante a ditadura, a MPB de protesto foi censurada, artistas exilados, discos proibidos. O alvo nunca foi só a melodia — era (e ainda é) o que ela representa: vozes dissonantes vindas de corpos negros e pobres.


MC Poze do Rodo, nome artístico de Marlon Brandon Coelho Couto Silva, é um dos artistas mais ouvidos do Brasil, com mais de 6,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify . Nascido na Comunidade do Rodo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele emergiu como uma voz autêntica do funk carioca, retratando em suas letras a realidade das favelas.
MC Poze do Rodo, nome artístico de Marlon Brandon Coelho Couto Silva, é um dos artistas mais ouvidos do Brasil, com mais de 6,8 milhões de ouvintes mensais no Spotify . Nascido na Comunidade do Rodo, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, ele emergiu como uma voz autêntica do funk carioca, retratando em suas letras a realidade das favelas.
Essa repressão escancara o quanto o sistema teme a arte que nasce da dor, da ausência de direitos e da resistência cotidiana.

Funk, samba, rap: todos seguem o mesmo percurso de perseguição porque expõem o que muita gente prefere fingir que não existe — um Brasil que resiste mesmo quando é negado.


A prisão de MC Poze do Rodo, em maio de 2025, é mais um episódio dessa engrenagem. Preso em casa, de forma desproporcional e humilhante, com câmeras já posicionadas esperando o “espetáculo”, ele foi acusado de “apologia ao crime” e tratado como inimigo público.


O desembargador Peterson Barroso mandou soltar MC Poze do Rodo, preso por suspeita de associação ao tráfico. Ele considerou a prisão desproporcional, sem provas concretas, e criticou a forma humilhante como o funkeiro foi detido.
O desembargador Peterson Barroso mandou soltar MC Poze do Rodo, preso por suspeita de associação ao tráfico. Ele considerou a prisão desproporcional, sem provas concretas, e criticou a forma humilhante como o funkeiro foi detido.

A decisão do desembargador Peterson Barroso, que concedeu habeas corpus dias depois, denunciou a seletividade da ação policial e a teatralidade jurídica que expôs o artista como alvo preferencial do sistema.


Mas a prisão de Poze não é exceção — é padrão. É o Estado mandando o recado: se você é da favela e fala alto demais, vai ser silenciado.

E é nesse cenário que nasce a famigerada “Lei Anti-Oruam”, projeto que circula por várias câmaras municipais do país, tentando proibir a contratação de artistas cujas músicas falem sobre crime, drogas ou sexo — especialmente em eventos públicos voltados para jovens.


O rapper carioca Oruam, de 24 anos, alcançou um novo patamar em sua carreira ao ser destaque na capa da prestigiada revista britânica Dazed. A publicação não se limitou à capa, e o artista também estrela vídeos promocionais nas redes sociais da revista, solidificando sua presença no cenário internacional.
O rapper carioca Oruam, de 24 anos, alcançou um novo patamar em sua carreira ao ser destaque na capa da prestigiada revista britânica Dazed. A publicação não se limitou à capa, e o artista também estrela vídeos promocionais nas redes sociais da revista, solidificando sua presença no cenário internacional.

A própria alcunha da lei é um ataque direto: Oruam, artista negro da favela, filho de Marcinho VP, é o nome escolhido para personificar o perigo. Mais do que um projeto de lei, isso é uma tentativa de apagar referências que não seguem o molde esperado — que não pedem licença pra existir.


Essa lei não tem nada a ver com proteger a infância. Tem a ver com controle.
“Eu não consigo descrever esse sentimento. É como se eu tivesse que ser um herói, mas, na verdade, eu sou um anti-herói”, declarou o rapper, refletindo sobre a complexidade de sua trajetória e a dualidade de sua persona artística.
“Eu não consigo descrever esse sentimento. É como se eu tivesse que ser um herói, mas, na verdade, eu sou um anti-herói”, declarou o rapper, refletindo sobre a complexidade de sua trajetória e a dualidade de sua persona artística.

Com impedir que moleques vejam no Poze, no Oruam, no MC Cabelinho, exemplos de superação e autenticidade. É uma tentativa institucional de censurar, sob um verniz moralista, a cultura que nasce nas bordas do sistema e mostra que é possível ser grande sem abrir mão das raízes.


Não é de hoje que isso acontece. Em 2010, a polícia prendeu quatro cantores de funk acusados de fazer apologia ao tráfico e de envolvimento com o Comando Vermelho: MC Smith, MC Frank, MC Ticão, MC Max e MC Dido. A narrativa era a mesma: “marketing do tráfico”, incitação à violência, criminalização da arte.


Emicida (2012): preso após show em BH, acusado de desacato por cantar uma música que incomodou a PM.
Emicida (2012): preso após show em BH, acusado de desacato por cantar uma música que incomodou a PM.
Eles não foram os únicos. A repressão a artistas do funk, rap e samba remonta a décadas e segue o roteiro de sempre: racismo, censura e seletividade penal.

Casos emblemáticos comprovam o modus operandi do Estado:


  • MC Poze (2025): preso sob acusações frágeis, em ação midiática e vexatória, solto após decisão judicial que reconheceu o abuso.


  • Oruam (2025): Foi preso duas vezes: primeiro por dirigir com a CNH suspensa e tentar fugir de uma blitz; depois, por abrigar um foragido com arma ilegal em casa. Foi liberado após pagar fiança e assinar termo. Os casos reacenderam o debate sobre a seletividade penal e a "Lei Anti-Oruam".


  • Rennan da Penha (2019): preso por “associação ao tráfico” por tocar em bailes funk. Absolvido em 2023 pelo STJ por falta de provas.


MC Tikão (2017): O funkeiro Fabiano Batista Ramos, conhecido como MC Tikão, foi preso sob a acusação de auxiliar na fuga do traficante Rogério 157 da Rocinha durante uma operação das Forças Armadas.
MC Tikão (2017): O funkeiro Fabiano Batista Ramos, conhecido como MC Tikão, foi preso sob a acusação de auxiliar na fuga do traficante Rogério 157 da Rocinha durante uma operação das Forças Armadas.
  • Emicida (2012): preso após show em BH, acusado de desacato por cantar uma música que incomodou a PM.


  • MC Smith (2010): preso no Complexo do Alemão, acusado de apologia e associação ao tráfico. Solto duas semanas depois, sem provas.


  • MC Frank (2005/2010): indiciado por músicas que retratam a realidade da favela. Novamente preso anos depois, sob o mesmo argumento.


  • MC Colibri (2006): Foi preso em maio de 2006 e liberado em dezembro do mesmo ano por falta de provas, após ter sido acusado de ter ligações com o tráfico de drogas.


  • MV Bill (2000): investigado antes mesmo de lançar o clipe de “Soldado do Morro”. Censura prévia pura.



    Planet Hemp (anos 90): presos por apologia às drogas, acusados por letras que discutiam o uso da maconha. Um clássico da hipocrisia.
    Planet Hemp (anos 90): presos por apologia às drogas, acusados por letras que discutiam o uso da maconha. Um clássico da hipocrisia.

E antes de todos eles, o samba. No início do século XX, sambistas eram presos por “vadiagem”, rodas de samba eram interrompidas a cacetete. A repressão era direta e escancarada, com o racismo institucional sempre como pano de fundo.


O que tudo isso revela? Que a criminalização da arte periférica é um projeto de poder.

Acusações genéricas como “apologia ao crime” são usadas para calar quem ousa transformar dor em denúncia. Enquanto produções das elites, que tratam dos mesmos temas, são vistas como “ficção”, “denúncia social” ou “arte conceitual”, a favela é julgada sem roteiro nem direito a segunda cena.


Quando um artista é perseguido por retratar o que vive, o que sente e o que vê, o que está em jogo não é só sua liberdade — é a tentativa de silenciar um povo inteiro. A arte que nasce da favela não é propaganda: é vivência, é sobrevivência, é identidade. E é exatamente isso que assusta tanto.

O Mc Poze do Rodo fez a alegria de centenas de crianças do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, em 2012, ao realizar a PozeKids. A ação social PozeKids contou com muitos brinquedos, diversão, lanches, entretenimento além de um show do artista.
O Mc Poze do Rodo fez a alegria de centenas de crianças do Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, em 2012, ao realizar a PozeKids. A ação social PozeKids contou com muitos brinquedos, diversão, lanches, entretenimento além de um show do artista.

Pergunte a uma criança da favela quem é o Poze. Ela vai dizer: é inspiração. É alguém que venceu, mas continua com os dois pés no chão de barro. Que fala a mesma língua. Que representa o que muitos tentam esconder. Agora pergunte quem é o “herói” de farda. O que entra na comunidade com o dedo no gatilho e a certeza da impunidade.


A figura do herói só se sustenta quando ninguém cobra o sangue que ele derrama.

A criminalização do funk, do rap, do samba — da arte preta e periférica — é uma tentativa constante de dizer que nossas histórias não valem. Ou só valem quando são contadas do jeito deles, editadas, lavadas, pasteurizadas. Quando a Justiça é seletiva, racista e classista, ela não protege: ela pune quem ousa existir.


O Massacre de Paraisópolis aconteceu em 1º de dezembro de 2019, durante um baile funk na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Nove jovens morreram pisoteados após uma ação violenta da Polícia Militar, que cercou e dispersou a multidão com bombas e tiros, provocando pânico. A operação foi duramente criticada por uso excessivo de força, racismo e repressão à cultura periférica.
O Massacre de Paraisópolis aconteceu em 1º de dezembro de 2019, durante um baile funk na comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. Nove jovens morreram pisoteados após uma ação violenta da Polícia Militar, que cercou e dispersou a multidão com bombas e tiros, provocando pânico. A operação foi duramente criticada por uso excessivo de força, racismo e repressão à cultura periférica.

Poze não é o vilão. Oruam não é o vilão. O vilão é o sistema que censura, que marginaliza, que mata. O herói é quem canta mesmo quando o microfone vira alvo. Quem transforma a ausência em rima, a violência em batida, o luto em verso.


Quando a arte vira crime, o que está sendo julgado é o nosso direito de existir.

E disso, a favela entende bem.



 
 
 
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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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