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“Foi preciso que mais de um colonizado dissesse “isso não pode mais durar”, foi preciso que mais de uma tribo se revoltasse, foi preciso mais de uma revolta camponesa dominada, mais de uma manifestação reprimida para que pudéssemos hoje resistir com certeza da vitória".


Viver enquanto um corpo periférico e se intelectualizar à luta é sinônimo de travar uma batalha entre a sua existência passada e futura.


Um olhar que capta dois mundos, que entrecruzados abrem espaços distintos: para a perspectiva de mundo a partir de pensamentos ocidentais e de uma sobrevivência que só foi possibilitada pelas lutas individuais contra o colonialismo enraizado.


“E o que subtrair pra não ser subtraída Às vezes reagir é a única saída” Mundo dual - Stefanie 

Determinados a afastarem-se do pensamento do colonizador, caímos como presas na armadilha do sistema: “não podendo fazer amor com a história presente de seu povo oprimido, não podendo se maravilhar com a história de suas barbáries atuais, decidiram ir mais longe, descer mais baixo, e, não duvidemos, foi numa alegria excepcional que descobriram que o passado não era de vergonha, mas de dignidade, de glória e de solenidade.”


Se voltar para o passado não gera a insatisfação do presente, lá são refeitas as raízes.


Não se percebe, porém, que ao retornar a sua realidade e mergulhar no seu eu-infância, no seu eu-ancestral, nos perdemos no povo, com o nosso povo, travando apenas um pré-combate gerador “de angústia, de mal-estar, experiência da morte, experiência também da náusea.” Porque aqui, agora, estamos chorando.


“Se deixar o medo assume e depois te enclausura E te desfigura, mude de figura Que a alegria vem pela manhã, nem todo mal dura” Fugir não adianta - Stefanie
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“Não basta se reunir com o povo nesse passado no qual ele não está mais, mas nesse movimento oscilante que ele acaba de esboçar e a partir do qual subitamente tudo vai ser questionado. É necessário que sigamos para esse lugar de desequilíbrio oculto em que o povo se mantém, porque, não duvidemos, é ali que sua alma se cristaliza e que sua percepção e sua respiração se iluminam.”


É preciso clareza na ausência de espaço, para existir luta por ele.


Sobreviver é resistência, cantar o que se vive também, mas a continuidade de tradições de forma exata ou a não reatualização de tradições deixadas de lado é se posicionar contra a história, contra seus movimentos, as novas necessidades e, principalmente, posicionar-se contra seu próprio povo. Afinal, são consequências de lutas ganhas.


“Um sonho não pode virar realidade Voando só A fé sem obra morta não faz milagres Voando só Meus pés não alcançaram a felicidade Voando só Se meu verso se apagar vira saudade Voando só” Voando só - Dina Di

O caminho da periferia à intelectualidade é então atravessada por três fases: na primeira deve assumir e provar sua capacidade de assimilação da cultura ocupante/hegemônica/dominante; na segunda rememora sua vida, incapaz de vivenciar de forma não crítica seus atravessamentos da primeira infância agora assume novas concepções acerca da realidade que viveu; e por fim, entendendo seu caminhar se posiciona politicamente, despertando seu povo consigo.


“Durante essa fase, um grande número de homens e de mulheres que nunca teriam pensado em produzir obras literárias, agora que estão em situações excepcionais, na prisão, no maqui ou na véspera de sua execução, sentem a necessidade de dizer sua nação, de compor a frase que expressa o povo, de se fazer porta-voz de uma nova realidade em atos.”


Primeira fase:


“Endeusava o branco por não ser o padrão real Mas compreendeu que o mundo é seu, tentar nunca faz mal” A voz da resistência - Negra Li e WD


Segunda:


“Paralisei com esse misto de sentimento Vê-la sofrendo me causava tanto sofrimento De mãos atadas esperando dias melhores Tem coisas nessa jornada que a gente não escolhe” Mundo dual - Stefanie


Terceira:


"Andorinha só não faz verão" vamos voar juntos Somos pássaros da mesma espécie" Dina Di - Voando Só


Dessa maneira, em uníssono, cultura e combate popular caminham sofrendo tentativas de destruição e contestação, pois colocam em berros o que sistematicamente foi arquitetado para manter-se escondido da população.


Porém, se a fala não convoca, não torna-se ação. Nesse momento, é preciso dar um passo de retorno à imaginação, uma caminhada a novos modelos culturais, que, quando caracterizados como nacionais, representarão uma voz do povo, para o povo. “Uma ação em preparação ou já em curso”.


"Eis me aqui, brisando alturas de sobradin  vendo minha sombra tingir as paredes do bequin" Dina Di - Voando Só

“Vimos surgir o movimento nas manifestações culturais. Vimos que esse movimento e essas

novas formas estavam ligados à maturação da consciência nacional. Ora, esse movimento tende cada vez mais a se objetivar, a se institucionalizar. Daí a necessidade de uma existência nacional a qualquer custo.”


Existência essa que traz em si a responsabilidade da reformulação do existir, conhecendo a realidade pós-libertação em que a pessoa periférica desaparece paralelamente ao seu repressor, pois agora: novo mundo, que só será estável em um Estado sob formas de fecundidade cultural excepcional, ou seja, um Estado em que a periferia se une, dita novas regras e marca sua resistência, pois ditadora da lei, produtora das artes e amante da diversão.


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[...] Se é pra nascer to aqui Dina Di - Voando Só


Referências:


FANON, Frantz. Sobre a cultura nacional. In: Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.


Dina Di, Emmy Jota & Je Bernardo - Voando Só . Disponível em https://youtu.be/p-yB95T0QBM?si=HfaKx1p-YB1ov1Rj

Stefanie, Jonathan Ferr - Mundo Dual. Disponível em https://youtu.be/foL2hV3r9WQ?si=hAB1Tk6X8Hu2R64c


Stefanie, Mahmundi - Fugir Não Adianta. Disponível em https://youtu.be/bh2WcEuavlw?si=0Lq7LJWNcQ8cNc1w


WD, Negra Li - A Voz da Resistência. Disponível em https://youtu.be/EpOfjON2Y7Q?si=TSmMJ-nqzkQ218MG

 
 
 
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Tudo foi encontro. Quando conheci Valetim e Guilherme - dois artistas incríveis da cena capixaba - , estava também encontrando uma potente artista de Nova Iguaçu, Pietra Canle, da Baixada Fluminense, que tinha acabado de realizar uma oficina de lambe na UFES, a convite de outra artista foda, Yasmin Cerqueira.



Era pra ser só uma cervejinha no bar do Mãozinha, reduto do underground da cidade, mas virou o que deveria ser: conexão, troca, aquilombamento.

Conspiração é o que fazemos, do jeito mais íntimo e verdadeiro, pensando em caminhos que às vezes podem ser tortos. Mas quem saiu por último na fila da partida sabe: com o tempo, a gente atravessa a linha de chegada.


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Conhecer Dani K foi fruto dessas trocas. Às vezes me assusto com o destino, que nos momentos mais desafiadores coloca no nosso caminho um porto seguro, um espaço pra aquilombar. Foi assim na Casa Gui Brasil: um lugar de troca, afeto, partilha, reflexão.


Por Guilherme Brasil
Por Guilherme Brasil

Pretos, quase todos, inteiros de corpo e alma, questionadores, felizes, políticos, criativos. Nossos caminhos se cruzaram na busca por quem dialogasse de verdade com nossas identidades - semelhantes e diferentes, complexas e óbvias.

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Caricatos. No pouco tempo que conheci esse povo todo, me apaixonei por cada um: seus sonhos, suas lutas, suas histórias, suas artes. Quadro, música, aula, poema. O que sai de dentro e o que se vê por fora. Arte explícita.


Capa por JV Abreu, @jvmabreu
Capa por JV Abreu, @jvmabreu

E aí veio Dani K com sua Nova Rota da Seda (2025).


A Nova Rota da Seda é um pouco da minha história sendo contada pela minha ótica. – começa Dani K. – Estar lançando esse projeto é uma realização pessoal muito importante.

Seus caminhos, que vieram das terras fluminenses pela visão de seu pai, se encontraram nessa ilha cercada de muralhas, construídas pra afastar forasteiros.



Através do seu quilombo familiar, ele se fortaleceu, depois fortaleceu quem estava ao redor, e o ciclo não para. Fez seu próprio caminho em busca das especiarias que temperam sua vida.

Esse trampo não é só meu. É da minha vó, da minha família, dos amigos, de todo mundo que segurou a barra e acreditou.

Nessa peregrinação, Dani K levantou um EP na marra e na coragem: juntou e valorizou seus iguais, colocou a direção de arte nas mãos de JV Abreu, produtor cultural potente do Espírito Santo, fez o busão virar palco, segurou o dendê e, pouco a pouco, mostrou a que veio.


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Fiz esse EP na marra e na coragem. Juntei e valorizei meus iguais, coloquei a direção de arte nas mãos do JV Abreu, fiz o busão virar palco, segurei o dendê.

A Conspiração Cultural entrevistou Dani K numa conversa repleta de cerveja, fumaça e pizza. Entre a apresentação do portfólio de artistas incríveis — e amigos de coração — como Gui Brasil e Valetim, projetado na parede com o projetor, o EP rodava em loop.


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Se a gente não fala, outro fala por nós. E aí a narrativa vem torta. A responsabilidade é grande.

No meio, brotou também o amigo de Dani: o beatmaker e skatista Raphael Reis, que deu uma palinha do seu EP de instrumentais Cinzeiro Cheio Vol.1.


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Foi quase uma roda-viva, cheia de olhares e percepções. Nada de ego de entrevistador e entrevistado: todo mundo falava, mostrava sua visão da obra, viajava junto no olhar desse artista incrível que é Dani K, que construiu um trampo impecável - pouco a pouco.

“No Busão” é o corre diário, é rima que eu escrevia enquanto ia e voltava do trampo. “Segura o Dendê” é força, é axé, é saber que ninguém pode apagar essa chama. “Nidã” é oração, é conversa comigo mesmo.


Entre o carinho da sua vó, fortaleza da família, e a força dos amigos e afetos, entre as horas nos ônibus e os minutos que viravam versos rabiscados, entre cada lugar por onde passou, tudo foi construindo uma rota que não estava nos mapas daqueles que já nascem com eles nas mãos.

Quero que as pessoas não só vibrem com os beats e flows, mas que sintam a verdade que coloco em cada faixa.

Dani traçou o próprio caminho, criou suas estratégias, atravessou a pandemia que esmagou milhões, sentiu o peso de ser demitido, de ser tratado como descartável. Estudou, se reinventou, deu a volta por cima.


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O mais importante é mostrar que dá pra criar as próprias rotas. Que a gente pode escrever a nossa história e colocar no mundo do nosso jeito.

Não chegou agora: sempre foi artista, já tinha até prêmio em 2023, mas precisou pausar porque em nós a balança pesa mais. Voltou chutando o pé na porta, com um trabalho tão potente quanto necessário.


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A gente passa a representar aqui, né? Tá produzindo daqui, mostrando daqui… mas, por mais que a gente entenda, não é acessível.

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O espaço, que já traz em si um olhar questionador, dialoga diretamente com a proposta do EP. A noite promete ser festa, encontro e união — uma espécie de porto cultural dessa nova rota sonora.


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Eu cresci ouvindo Racionais, Sabotage, depois Kendrick. Mas entendi que não bastava repetir. Precisei contar a minha versão da história, falar da Baixada, de Jacaraípe, de Vitória. Esse é o meu corre, essa é a minha rota.


Seja firme, continue, lute. Pouco a pouco, a conquista acontece.

Então, segura o dendê!

 
 
 

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Eu não sabia o que era crônica, pesquisei o que era crônica e me falaram que crônica é um relato do cotidiano. Crônica pode ter história, argumento, humor e reflexão. Machado de Assis era bom de crônica, então crônica deve ser bom.


Ela pode falar sobre o clima, mas do clima eu não vou falar porque tá calor demais. Também pode falar de vestimenta, mas além da cueca me resta do short e nada disso vai aparecer na próxima Fashion Week.


Vou contar umas histórias, argumentar sobre um tema, tentar rir da desgraça e fazer o leitor refletir sobre o papel da crônica.


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O Rio de Janeiro que não deixa de ser lindo, até porque os olhos do amor só julgam a distância, não tá lá tão lindo assim. E vai se levantar em fúria a garotada e a terceira idade, a mulherada e a contraparte, os locais e todas as amizades. Mas saibam que sou carioca da gema e falo contigo de coração, de verdade.


Quem vê tanta rima acha até que tenho todo esse molejo, mas vivi muito tempo pela terra do pão de queijo, e a uma década voltei pro ensejo do Rio de Janeiro. Vi muito daqui, um pouco de lá, acolá parece nome de doce então deixa estar.


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Outro dia passeava pela Zona Norte de nossa morada, com destino certo, com a pia estragada. No caminho pra loja de construção, vem um transeunte na minha direção, bermuda no corpo e o troço na mão. Conheço o tipo, já tô acostumado, fecho a cara e vou passar sem dar papo.


Mas ele me olha, de cima em baixo, de peito aberto, sujo de um jeito exagerado. No rosto um sorriso, na mão o troço, na língua a música que aqui vos toco:


– Desce, sobe, não faz esse biquinho.

E confesso abestalhado que ri que nem um palhaço. Sou fraco de riso e forte de coração, Amoroso é o nome do indivíduo que me deu essa canção.


Eu sigo o meu caminho, ele segue o dele, não há o que se dizer. E ainda existem aqueles que dizem que o romance morreu, mas aqui estou eu, apaixonado pelo Rio que me recebeu.


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Mas não são flores que dominam a paisagem e meu amor pelo Janeiro é como o meu amor por tudo, crítico. E por mais humorístico que meu encontro fortuito tenha sido, e acredite, esse foi um dos encontros mais tranquilos que podem acontecer no Rio, ainda fico aturdido. 


Um de meus outros encontros com os residentes de praças, vielas e becos da cidade maravilhosa, foi com o que chamaria de Necromante. E agora pode estar repensando essa leitura, duvidando de mim.


Esse cara acha que pode dar nome pros outros assim?

E te lembro mais uma vez do título dessa crônica, e te convido a atividade imoral que fazemos todos os dias, não acredita? Eu e você, sim, todo dia vivemos essa desumanidade que afeta a sociedade, e seguimos vivendo.


Trabalhamos, escrevemos e amamos. Enquanto Amoroso balança o troço dele por aí (se ainda estiver vivo).


Dito isso, voltemos ao meu relato esquisito. Era sábado e seria um dia cansativo, como todos os anteriores daquele momento que por mim era vivido. Aflito e sem abrigo, recorri a um amigo. A visita faria de carona, por conta do meu Riocard que nunca me abandona, tirando as vezes que me abandonou.


Se houver tempo e espaço, falaremos das mazelas do transporte público do Rio, que sozinho me proporcionou a habilidade única de conseguir dormir em pé, mas talvez seja história demais para essa crônica. O calor era infernal, o ponto cheio, minha atenção zerada.


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Desatento, não vejo no meu olho que vê o que está na calçada, Necromante se esguia pro meu lado, safado que é, tá com tudo planejado. Grita arteiro pra mim:


Segura o ônibus que esse ai é pra mim.

Eu, a boa alma que sou, em reflexo involuntário paro o ônibus completamente ocupado. A porta se abre e o motorista me encara com morte, não é o meu dia de sorte.


A mão de Necromante agarra o meu braço, assisto estupefato esse mago infernal se impulsionar pra escada. No ar o seu característico pé enfaixado. O motorista me chinga, e o Necromante nem agradece, ingrato.


Vai ser necessário contexto para que entenda essa parte do meu relato, primeiro sobre mim e o toque inesperado. Eu sou ruim de toque. Indiferente da pessoa, se vamos nos tocar eu preciso de uma comunicação, de um jeitinho, sabe?



Preciso de um je ne se quoi (Não sei o que significa, mas dizem que francês é bonito), de uma troca de olhar, de uma antartica gelada. Fazer o quê, sou um romântico irreparável. Então quando tocado pelo indivíduo citado, me desesperei de imediato.


Olhei para o meu braço e a marca de Saruman, Uruk Hai havia me tornado. O Necromante se foi e eu fiquei ali parado, ouvindo o riso descontrolado do meu amigo, que também é um safado.

O Necromante assim é chamado, pela capacidade quase etérea de se transportar longas distâncias sem ser afetado pelo seu pé mumificado. Dizemos até que agora ele é capaz de me rastrear através da marca deixada, eu que nem acredito em Deus, acredito nessa piada.


E você pode bradar, a toda voz e pulmão cheio, que isso não tem graça. Que ele é uma pessoa que precisa ser respeitada. E eu retruco, na melhor imitação de homem de “bem” que posso fazer: 


Então leva pra casa.

Brincadeiras à parte, tem em mim alguém que concorda, não há graça na tristeza que o assola, mas há graça na situação que nos engloba. Penso comigo nessas histórias, essas fábulas que viraram contos para mesa de bar, anedotas a se contar.


Quantos assim sabemos que há? Na Quinta da Boa Vista, quando há sol, a família vai passear, quando a noite chega, o mesmo homem de bem vai lá o prazer buscar. Nossas ruas lotadas de almas perdidas, corpos encontrados, vozes esquecidas. E nós vivemos, vivemos todos os dias. Trabalhamos, escrevemos e amamos.


E tenho consciência de que não sou ninguém pra te cobrar, mas se sou cronista posso argumentar, que a reflexão não pode só ficar no ar.


Se há papel da crônica na atualidade, talvez seja no virtual não deixar se perder a realidade. E se no cotidiano a desumanidade crônica vigora, o tempo de ação é o agora.


 
 
 
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