- Isafera

- 13 de out.
- 4 min de leitura

“Foi preciso que mais de um colonizado dissesse “isso não pode mais durar”, foi preciso que mais de uma tribo se revoltasse, foi preciso mais de uma revolta camponesa dominada, mais de uma manifestação reprimida para que pudéssemos hoje resistir com certeza da vitória".
Viver enquanto um corpo periférico e se intelectualizar à luta é sinônimo de travar uma batalha entre a sua existência passada e futura.
Um olhar que capta dois mundos, que entrecruzados abrem espaços distintos: para a perspectiva de mundo a partir de pensamentos ocidentais e de uma sobrevivência que só foi possibilitada pelas lutas individuais contra o colonialismo enraizado.
“E o que subtrair pra não ser subtraída Às vezes reagir é a única saída” Mundo dual - Stefanie
Determinados a afastarem-se do pensamento do colonizador, caímos como presas na armadilha do sistema: “não podendo fazer amor com a história presente de seu povo oprimido, não podendo se maravilhar com a história de suas barbáries atuais, decidiram ir mais longe, descer mais baixo, e, não duvidemos, foi numa alegria excepcional que descobriram que o passado não era de vergonha, mas de dignidade, de glória e de solenidade.”
Se voltar para o passado não gera a insatisfação do presente, lá são refeitas as raízes.
Não se percebe, porém, que ao retornar a sua realidade e mergulhar no seu eu-infância, no seu eu-ancestral, nos perdemos no povo, com o nosso povo, travando apenas um pré-combate gerador “de angústia, de mal-estar, experiência da morte, experiência também da náusea.” Porque aqui, agora, estamos chorando.
“Se deixar o medo assume e depois te enclausura E te desfigura, mude de figura Que a alegria vem pela manhã, nem todo mal dura” Fugir não adianta - Stefanie

“Não basta se reunir com o povo nesse passado no qual ele não está mais, mas nesse movimento oscilante que ele acaba de esboçar e a partir do qual subitamente tudo vai ser questionado. É necessário que sigamos para esse lugar de desequilíbrio oculto em que o povo se mantém, porque, não duvidemos, é ali que sua alma se cristaliza e que sua percepção e sua respiração se iluminam.”
É preciso clareza na ausência de espaço, para existir luta por ele.
Sobreviver é resistência, cantar o que se vive também, mas a continuidade de tradições de forma exata ou a não reatualização de tradições deixadas de lado é se posicionar contra a história, contra seus movimentos, as novas necessidades e, principalmente, posicionar-se contra seu próprio povo. Afinal, são consequências de lutas ganhas.
“Um sonho não pode virar realidade Voando só A fé sem obra morta não faz milagres Voando só Meus pés não alcançaram a felicidade Voando só Se meu verso se apagar vira saudade Voando só” Voando só - Dina Di
O caminho da periferia à intelectualidade é então atravessada por três fases: na primeira deve assumir e provar sua capacidade de assimilação da cultura ocupante/hegemônica/dominante; na segunda rememora sua vida, incapaz de vivenciar de forma não crítica seus atravessamentos da primeira infância agora assume novas concepções acerca da realidade que viveu; e por fim, entendendo seu caminhar se posiciona politicamente, despertando seu povo consigo.
“Durante essa fase, um grande número de homens e de mulheres que nunca teriam pensado em produzir obras literárias, agora que estão em situações excepcionais, na prisão, no maqui ou na véspera de sua execução, sentem a necessidade de dizer sua nação, de compor a frase que expressa o povo, de se fazer porta-voz de uma nova realidade em atos.”
Primeira fase:
“Endeusava o branco por não ser o padrão real Mas compreendeu que o mundo é seu, tentar nunca faz mal” A voz da resistência - Negra Li e WD
Segunda:
“Paralisei com esse misto de sentimento Vê-la sofrendo me causava tanto sofrimento De mãos atadas esperando dias melhores Tem coisas nessa jornada que a gente não escolhe” Mundo dual - Stefanie
Terceira:
"Andorinha só não faz verão" vamos voar juntos Somos pássaros da mesma espécie" Dina Di - Voando Só
Dessa maneira, em uníssono, cultura e combate popular caminham sofrendo tentativas de destruição e contestação, pois colocam em berros o que sistematicamente foi arquitetado para manter-se escondido da população.
Porém, se a fala não convoca, não torna-se ação. Nesse momento, é preciso dar um passo de retorno à imaginação, uma caminhada a novos modelos culturais, que, quando caracterizados como nacionais, representarão uma voz do povo, para o povo. “Uma ação em preparação ou já em curso”.
"Eis me aqui, brisando alturas de sobradin vendo minha sombra tingir as paredes do bequin" Dina Di - Voando Só
“Vimos surgir o movimento nas manifestações culturais. Vimos que esse movimento e essas
novas formas estavam ligados à maturação da consciência nacional. Ora, esse movimento tende cada vez mais a se objetivar, a se institucionalizar. Daí a necessidade de uma existência nacional a qualquer custo.”
Existência essa que traz em si a responsabilidade da reformulação do existir, conhecendo a realidade pós-libertação em que a pessoa periférica desaparece paralelamente ao seu repressor, pois agora: novo mundo, que só será estável em um Estado sob formas de fecundidade cultural excepcional, ou seja, um Estado em que a periferia se une, dita novas regras e marca sua resistência, pois ditadora da lei, produtora das artes e amante da diversão.

[...] Se é pra nascer to aqui Dina Di - Voando Só
Referências:
FANON, Frantz. Sobre a cultura nacional. In: Os condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022.
Dina Di, Emmy Jota & Je Bernardo - Voando Só . Disponível em https://youtu.be/p-yB95T0QBM?si=HfaKx1p-YB1ov1Rj
Stefanie, Jonathan Ferr - Mundo Dual. Disponível em https://youtu.be/foL2hV3r9WQ?si=hAB1Tk6X8Hu2R64c
Stefanie, Mahmundi - Fugir Não Adianta. Disponível em https://youtu.be/bh2WcEuavlw?si=0Lq7LJWNcQ8cNc1w
WD, Negra Li - A Voz da Resistência. Disponível em https://youtu.be/EpOfjON2Y7Q?si=TSmMJ-nqzkQ218MG






















