- Contracolonizar

- 3 de nov.
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XVI Seminário Nacional de Educação das Relações Étnico-Raciais Brasileiras: "Afrodiáspora e Afro-brasileiros: Cultura, territórios e direitos reparatórios"
II Seminário Internacional Tecnologias Sociais, Inovação e Desenvolvimento Humano, e o Fórum Africanidades no Espírito Santo: Saberes de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana – Povos de Terreiro
GT 13 – Educação, juventude negra e formação para o futuro
A MELANINA ENTRE A MÍDIA E O POVO: O CASO DE BLACK ALIEN E ORUAM
Resumo
O som que abalava as periferias, pulou os muros. Porém, o público exterior não é o mesmo das periferias. Desta forma, a presente comunicação é uma análise do discurso de alguns dos comentários que marcam a Lei Anti-Oruam (lei que proíbe a contratação de pessoas e shows que, segundo o relator, fazem apologia ao crime). A lei, idealizada pela vereadora paulistana Amanda Vettorazzo (União), já foi aprovada em pelo menos 46 cidades de 13 estados diferentes, e foi feita mirando no artista Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, conhecido como Oruam. A análise também aborda o caso do rapper Gustavo de Almeida Ribeiro, o Black Alien, que, em fevereiro de 2025, durante um show na casa Áudio em São Paulo, apresentou dificuldades em lembrar as letras e foi amplamente exposto e ridicularizado pela mídia e nas redes sociais. Em ambos os episódios, observa-se como artistas negros são enquadrados em narrativas públicas que os associam à criminalidade, ao fracasso ou à incapacidade, produzindo sofrimento psíquico e social. Para compreender essa dinâmica, parte-se de Frantz Fanon (2020), que discute como o corpo negro é constantemente atravessado por projeções da branquitude, que moldam experiências subjetivas e coletivas. Mobiliza-se também Cida Bento (2022), ao problematizar a branquitude como estrutura de privilégios que legitima a estigmatização do outro, e Marcos Vinicius de Araújo (2021), que discute como a mídia, operando dentro do racismo estrutural, normaliza a violência contra corpos negros em situações de vulnerabilidade. O objetivo é analisar como o público interpreta e reproduz esses discursos, seja em comentários no Threads ou no X, evidenciando que a criminalização da juventude negra ultrapassa o sistema jurídico e encontra na mídia e nas redes digitais um campo de perpetuação do racismo estrutural e de reafirmação da branquitude. Ao tensionar esses enunciados, busca-se contribuir para a contracolonização (Nego Bispo, 2021) dos discursos sobre corpos negros, problematizando a forma como a mídia opera como dispositivo de poder que pode produzir sentidos e naturalizar violências.
Palavras-chave: Branquitude; Mídia; Black Alien; Oruam.
Abstract
The sound that shook the outskirts of São Paulo has now reached the walls. However, the audience outside the city is not the same as the one in the outskirts. Therefore, this paper analyzes the discourse of some of the comments surrounding the Anti-Oruam Law (a law that prohibits the hiring of people and shows that, according to the rapporteur, promote crime). The law, created by São Paulo councilwoman Amanda Vettorazzo (União), has already been approved in at least 46 cities in 13 different states and was aimed at the artist Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, known as Oruam. The analysis also addresses the case of rapper Gustavo de Almeida Ribeiro, known as Black Alien, who in February 2025, during a show at Casa Áudio in São Paulo, had difficulty remembering the lyrics and was widely exposed and ridiculed by the media and on social media. In both episodes, we observe how Black artists are framed in public narratives that associate them with criminality, failure, or incapacity, producing psychological and social suffering. To understand this dynamic, we draw on Frantz Fanon (2020), who discusses how the Black body is constantly permeated by projections of whiteness, which shape subjective and collective experiences. We also mobilize Cida Bento (2022), who problematizes whiteness as a structure of privilege that legitimizes the stigmatization of the other, and Marcos Vinicius de Araújo (2021), who discusses how the media, operating within structural racism, normalizes violence against Black bodies in situations of vulnerability. The objective is to analyze how the public interprets and reproduces these discourses, whether in comments on Threads or on X, highlighting that the criminalization of Black youth goes beyond the legal system and finds in the media and digital networks a field for perpetuating structural racism and reaffirming whiteness. By challenging these statements, we seek to contribute to the countercolonization of discourses on Black bodies, problematizing how the media operates as a device of power that can produce meanings and naturalize violence.
Keywords: Whiteness; Media; Black Alien; Oruam.

Introdução: Quem são os corpos que são marginalizados ou negamos assistência?
A comunicação na contemporaneidade transformou nossas relações, todas as informações são recebidas em tempo real. Os aplicativos de comunicação disparam mensagens que rapidamente são acessadas e compartilhadas sem que seja necessário um aprofundamento naquilo que consumimos ou falamos. A beleza e a leveza de conseguir se comunicar com uma pessoa querida de uma rede no quintal ou mandar um áudio enquanto vai para o trabalho - são pontos positivos de nosso momento histórico, se pensarmos que outrora as cartas eram esse espaço de comunicação e a demora que existia nesse processo. No entanto, a forma incontrolável com que essas mensagens se espalham e a forma como isso atinge de modo subjetivo o público são coisas que ainda não se consegue mensurar no negativo.
Um país cuja ferida inegável da escravização ainda sangra e produz secreção, não pode negar o racismo em sua cultura e estrutura. Para trazer uma perspectiva mais concreta ao se olhar os dados sobre a população negra destacam-se os piores cenários quando a letalidade da (in)segurança pública em relação às pessoas negras que é gritante, uma vez que, subiu para 90% o número de encontros fatais entre a brutalidade da polícia e o corpo negro[1]. Outro dado que destaca a estrutura de desigualdade racial em que se vive por esse alvo de violência contra o corpo negro fica ainda mais nítido na forma como as mulheres negras são majoritarias entre aquelas que são mães solo[2] e aquelas que são agredidas em seus relacionamentos, segundo os índices de feminicídio[3]. Esses dados reforçam o modelo como o corpo negro é perpassado por muita violência enraizada nas práticas coloniais dos europeus sobre o corpo negro.
Se somarmos o fato da comunicação instantânea ao processo de violência com o corpo negro, o resultado é o estímulo de mais ódio ao corpo negro, na medida em que, de um lado há o bombardeio à sociedade com mensagens que nem sempre são positivas, pois circula o discurso e as ações racistas e do outro lado tal prática estimula ou tenciona a mesma sociedade ao âmago de seus problemas relacionados ao desejo ou desprezo em relação ao corpo negro. Nesse ponto, somos seres envolvidos em circularidades que se manifestam à nossa volta em forma da família, do trabalho, dos locais de encontro e desencontro - somos seres que circulam pelo globo chamado mundo. A grande questão é que pular o círculo e ocupar os outros espaços, acaba por automaticamente por inserir a dimensão de como lidar diretamente com outro público que pode não ser consciente da nossa trajetória ou não ser impactado pelos mesmos fatores sociais que para nós (negros que estão conscientemente com criticidade racial no olhar) são relevantes.
A trajetória artística dos músicos Mauro Davi dos Santos Nepomuceno (Oruan) e Gustavo de Almeida Ribeiro (Black Alien) traz esse embate entre o lugar de origem e o público que se alcança. A realidade periférica descrita nas linhas dos artistas não é só algo capturado por uma lente de celular, pois Oruam nasceu no dia 1 de março de 2000 na cidade do Rio de Janeiro no estado do Rio de Janeiro, perpassando Cidade de Deus e o Complexo do Alemão e Black Alien nasceu na cidade de São Gonçalo no Rio de Janeiro no dia 7 de junho de 1972 e viveu em Niterói passando alguns momentos na Baixada Fluminense. Os dois bairros do Rio de Janeiro não são áreas nobres como Ipanema ou o Leblon, esses dados destacam que Black Alien e Oruam conseguiram conquistar um número de ouvintes superior ao espaço em que nasceram, pois segundo a Wikipédia o Complexo do Alemão possui pelo último censo demográfico de 2010, a quantidade de 69. 143 e o número de ouvintes mensais de Oruam no Spotify[4] é de 10.352.076, e Niterói possui o número de 481.749 habitantes, enquanto a página perfil no Spotify[5] de Black Alien registra cerca de 1.454.744 ouvintes mensais. Ambos os artistas conseguiram sair do seu território e conquistar um número de ouvintes mensais, superior até mesmo a quantidade de habitantes do seu lugar de origem, por conta do excelente trabalho musical e de representação que fazem em território nacional.
Romper a bolha que é seu lugar de origem e o entorno não é só expandir as possibilidades de tornar a música uma renda para artistas negros, mas a certeza de lidar com comentários negativos também. Nesse sentido, Oruam é muito cobrado pelo passado do pai dele, que é Márcio dos Santos Nepomuceno (Marcinho VP), líder do Comando Vermelho e Black Alien é julgado por problemas com vícios. A constituição da memória é uma arma muito usada pela retórica dos supremacistas raciais, pois configura um destaque a corpos brancos e põem em marginalização os outros corpos que seriam atrasados mentalmente:
Memória é também construção simbólica, por um coletivo que revela e atribui valores à experiência passada e reforça os vínculos da comunidade. E memória pode ser também a revisão da narrativa sobre o passado “vitorioso” de um povo, revelando atos anti-humanitários que cometeram — os quais muitas vezes as elites querem apagar ou esquecer (Bento, 2022. p. 39)
Ambas as questões que deveriam ser particulares acabam por tomar uma dimensão pública e dentro da lógica que se está tornando racista na forma em que esses processos são comunicados por meio das mensagens e notícias que fazem referências aos artistas. O Objetivo deste trabalho reside justamente em analisar esses comentários e trazer uma perspectiva crítica a forma como a branquitude controla as narrativas até particulares dos corpos negros.

Abaixo de zero, mas fritando no racismo
O último álbum musical de Black Alien é o Abaixo de Zero: Hello Hell, todos os álbuns são políticos, no entanto, esse é muito especial por ser lançado em um momento crítico de esperança quase nula para a esquerda brasileira tendo em vista que Bolsonaro estava eleito e a perspectiva era de muitas vitórias para a direita com o Lula preso. O álbum saiu em 12 de abril de 2019, Bolsonaro já estava como Presidente e Lula só seria solto em 8 de novembro de 2019. As músicas falam de um inferno que é orquestrado pela ideia de viver no conservadorismo e nos bons costumes que pregava o atual presidente autoritário e suas letras falavam mal da política brasileira e falavam sobre sexo e sexualidade em oposição ao engessamento cultural presente naquele momento. O músico também falava sobre seu vício em álcool e cocaína não como um louvor, mas como uma parte do Brasil que também existe dentro desse cenário que só quer aceitar ou reconhecer os iguais aos conservadores. O músico parecia alertar que esses problemas não eram individuais, mas sociais.
Essas mensagens estão fortemente apresentadas nos comentários extraídos do Threads[6] sobre o caso do Black Alien, pois associam que os shows dele não deveriam ser frequentados alegando que não sabem qual Gustavo irão encontrar como na figura abaixo:

O comentário acima nem demonstra uma preocupação com o artista, mas com a quantidade de dinheiro que seria gasta e o problema da pessoa em questão de não ter suas necessidades atendidas. O pacto narcísico da branquitude é justamente quando se nega a humanidade dos negros em detrimento do ego e prazer dos brancos, nesse sentido, essa pessoa sequer considera o estado mental de Black Alien e nem pensa em como seu comentário pode afetar negativamente influenciando outras pessoas a deixarem de ir e adquirir os produtos de Black Alien. Se pode observar que até o emoji é um emoji que é branco. A branquitude seria essa série de acordos estabelecidos entre as pessoas brancas para consigo a fim de excluir os outros e enaltecer sua própria cultura:
Sempre entendi como acordos tácitos, como pactos não verbalizados, não formalizados. Pactos feitos para manter em situação de privilégio, higienizados de usurpação que os constituiu. E que se estruturam nas relações de dominação que podem ser de classe, de gênero, de raça e etnia e de identidade de gênero, dentre outras (Bento, 2022, p.65)
Obviamente que na realidade capitalista que todos estamos inseridos esse comentário automaticamente valida que esse artista não deve ser remunerado enquanto não estiver sem o uso e consumo de coisas ilícitas. Ocorre que o controle da economia sempre foi um artífice dos colonizadores sobre os colonizados, segundo Fanon (2020):
a verdadeira desalienação do negro requer um reconhecimento imediato das realidades econômicas e sociais. Se há um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo:
econômico, em primeiro lugar;
e, em seguida, por interiorização, ou melhor, por epidermização dessa inferioridade (Fanon, 2020, p.25)
O trauma de inferioridade é que esse comentário demonstra que sendo negra, uma pessoa acaba contraindo suas vulnerabilidades e não consegue mostrar a si mesmo com autenticidade na medida em que a sociedade o tratará como inferior e por meio do seu controle econômico o excluirá dos espaços. A figura 2 que está abaixo demonstra como essa inferiorização ocorre e como o corpo negro é observado sem cabeça para assumir a vida:

O texto acima demonstra que o autor do comentário considera as letras e as músicas de Black Alien boas, mas não aprova a sua conduta moral e pessoal, pois segundo ele são coisas de quem está perdido da cabeça. No entanto, outras pessoas que sabem que Black Alien está cantando aquilo que vive tencionam que ele precisa se cuidar e escrever mais músicas:

O comentário acima, mesmo apontando as dificuldades de um homem que tem uma certa dependência química, traz uma noção de humanidade ao Black Alien e se preocupa com o artista e não só com o produto que é a arte musical ouvida e vista. Como observado também no comentário abaixo:

O comentário indica que quem entende a história e a origem dele sabe como ele é; sabe que, às vezes, ocorrem recaídas, mas elas não são a marca de um trabalho ruim, apenas de um ser humano que precisa de ajuda.

Da legislação ao ataque insensível: Oruam é mais um caso?
O corpo negro é lido como violento na mídia e quem diz isso é o pesquisador Marcos Vinicius (2021). A abordagem sobre como contar uma história quando se pensa em um corpo negro é sempre marcada pelo olhar da violência. O problema desse lugar da violência é que ele nunca é justo com quem pode praticá-la ou quem simplesmente existe é passa a ser caracterizado como violento.
Falar de violência em um país como o nosso que é geograficamente amplo e possui dentro de si inúmeras realidades é complexo, pois se sabe que dependendo do lugar que se nasce o nível físico dessa violência é mais intenso e a família também acaba por influenciar na forma como sentimos e agimos diante da violência. Observe que são duas coisas que nós não escolhemos ao nascer: local de nascimento e a família.
Porém, se a gente pensar que há o estigma da violência na melanina dos corpos negros e conectar com esse passado escravagista, é possível conceber esse processo como um espelhamento da violência feita pelo colonizador que recai ao corpo negro para que se torne o Outro um ser não humano, incivilizado e violento.
Pessoas negras experimentam a violência em contextos marcados pela tensão racial. Ao reencenar a morte de um corpo negro, nota-se um reforço “quase sádico” em exibir cenas chocantes dessa violência. Isto são marcas históricas de uma cultura audiovisual que, desde sempre, espetaculariza e banaliza a morte negra. É preciso discutir sobre os limites da ‘representatividade’, uma vez que incluir negros em instituições estruturalmente racistas serve como uma maneira de legitimar o racismo com a desculpa de que existem negros ocupando esses espaços (Vinicius, 2021)
Oruam não escolheu nascer na Cidade de Deus e nem pode escolher seu pai, mas ambas as coisas aconteceram e fazem quem ele é. O olhar social para essa realidade é um olhar que destaca justamente o conservadorismo brasileiro e que menciona essas pessoas periféricas e que falam da periferia tirando a maquiagem e exibindo a realidade como escórias da sociedade. Para apresentar um cenário distante, os comentários desta parte do texto são respostas ao vídeo do deputado Kim Kataguiri que gravava defendendo a lei Anti-Oruam[7], como na figura abaixo:

Outro comentário sugere que as coisas seriam melhores se houvesse um projeto escolar fundamentado nos valores éticos e morais dos respectivos sujeitos:

Observe como a ideia de punição a um ritmo musical é celebrada com louvor e como isso também é uma forma de controle social enquanto busca homogeneizar como as pessoas se relacionam com a cultura. O comentário não pensa que a cultura é uma das coisas mais caras e a maioria das pessoas pobres no país não conseguem acessar teatros ou galerias de arte. Sabe-se que esse esvaziamento cultural também é planejado para pensar a cultura do colonizador como a única. A gente pode observar como esse modelo de estruturação colonial funciona em Fanon (2019):
Podemos dizer que existem certas constelações de instituições, estabelecidas por homens particulares, no quadro de áreas geográficas precisas, que num dado momento sofreram o assalto direto e brutal de padrões culturais diferentes. O desenvolvimento técnico, geralmente elevado, do grupo social surge como tal autoriza-o a instalar uma dominação organizada. O empreendimento da desculturação apresenta-se como o negativo de um trabalho, mais gigantesco, de escravização econômica e mesmo biológica. A doutrina da hierarquia cultural não é, pois, mais do que uma modalidade da hierarquização sistematizada, prosseguida de maneira implacável (Fanon, 2019, p.65)
Esse pensamento é concreto na Lei Anti-Oruam que marca um alvo em funkeiros e músicos que falam das realidades periféricas em simultâneo a permissão dos papéis na televisão serem sempre trabalhos que permitem essa violência. O Brasil ainda não produziu um filme com todos os papéis feitos por pessoas negras mesmo sendo o país em que os negros são maioria, no entanto, nas novelas e nas reportagens que retratam essa violência sempre se escolhe o corpo negro. Em oposição aos comentários que marginalizam Oruam, aqueles que o defendem são homens negros que se sentem atingidos pela situação que acontece com ele:

O comentário reflete sobre Oruam não ser um traficante, e sim ser um artista e traz a questão de que eles nunca vão derrubar o artista. A pessoa que escreveu esse comentário disputa a cultura ou o lugar da cultura com todos os demais que estão colocando Oruam como algo que não é civilizado.
Estudar as relações entre o racismo e a cultura é levantar a questão da sua ação recíproca. Se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais oriundos do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo é, com efeito, um elemento cultural. Assim, há culturas com racismo e culturas sem racismo (Fanon, 2019, p.66)
O corpo periférico se reconhece e reconhece seus semelhantes como aqueles que precisam dessa proteção, pois é um homem negro comentando. Abaixo, outro homem negro comenta que Oruam é tão foda que criou a própria lei:

Esses últimos comentários sugerem que apesar do local da violência na visão dos brancos ser o corpo negro, na visão das pessoas negras são os brancos e eles é quem criam essa marginalização do corpo e da cultura. São pessoas que estão ao redor da realidade do artista e entendem as expressões que eles usam para descrever essas realidades que infelizmente não são floridas.
Conclusão
As trajetórias dos artistas cariocas são similares não só por serem homens negros de origem humilde, mas pela forma como escolheram verbalizar sua realidade nas músicas e fazer da música um local de disputa política e também de produção de sentido para as suas próprias realidades.
Acredito que a análise apresentada revelou como a branquitude tenta por meio de seu discurso moral e civilizatório empregar a pele melaninada como violenta e confere o espaço do saber a si. O estudo demonstrou também como essas situações não são obras do acaso mas atravessamentos sociais que pioram em nosso momento histórico de informações instantâneas. O racismo também é instantâneo.
No caso estudado, os artistas são referências e possuem um público de ouvintes mensais maior que os habitantes de suas cidades, mas artistas negros sempre começam engatinhando e a forma como a violência e a invasão as questões privadas dos comentários foi vista demonstra que é preciso inúmeras lutas ainda.
Ambos os artistas demonstram que possuem um público dentro e fora da bolha, seja para julgar ou para aplaudir e aqueles que vivem na mesma realidade ou em realidade próxima se enxergam nos artistas em questão. Dito isso, o trabalho mostrou que a violência feita contra esses corpos negros não é nova, talvez seja mais intensificada pelo avanço tecnológico mas ainda assim se produz em paralelo corpos dissidentes que se sentem aquilombados pela representação nas letras dos artistas.
































