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XVI Seminário Nacional de Educação das Relações Étnico-Raciais Brasileiras: "Afrodiáspora e Afro-brasileiros: Cultura, territórios e direitos reparatórios"


II Seminário Internacional Tecnologias Sociais, Inovação e Desenvolvimento Humano, e o Fórum Africanidades no Espírito Santo: Saberes de Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana – Povos de Terreiro


GT 13 – Educação, juventude negra e formação para o futuro


A MELANINA ENTRE A MÍDIA E O POVO: O CASO DE BLACK ALIEN E ORUAM


Resumo
O som que abalava as periferias, pulou os muros. Porém, o público exterior não é o mesmo das periferias. Desta forma, a presente comunicação é uma análise do discurso de alguns dos comentários que marcam a Lei Anti-Oruam (lei que proíbe a contratação de pessoas e shows que, segundo o relator, fazem apologia ao crime). A lei, idealizada pela vereadora paulistana Amanda Vettorazzo (União), já foi aprovada em pelo menos 46 cidades de 13 estados diferentes, e foi feita mirando no artista Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, conhecido como Oruam. A análise também aborda o caso do rapper Gustavo de Almeida Ribeiro, o Black Alien, que, em fevereiro de 2025, durante um show na casa Áudio em São Paulo, apresentou dificuldades em lembrar as letras e foi amplamente exposto e ridicularizado pela mídia e nas redes sociais. Em ambos os episódios, observa-se como artistas negros são enquadrados em narrativas públicas que os associam à criminalidade, ao fracasso ou à incapacidade, produzindo sofrimento psíquico e social. Para compreender essa dinâmica, parte-se de Frantz Fanon (2020), que discute como o corpo negro é constantemente atravessado por projeções da branquitude, que moldam experiências subjetivas e coletivas. Mobiliza-se também Cida Bento (2022), ao problematizar a branquitude como estrutura de privilégios que legitima a estigmatização do outro, e Marcos Vinicius de Araújo (2021), que discute como a mídia, operando dentro do racismo estrutural, normaliza a violência contra corpos negros em situações de vulnerabilidade. O objetivo é analisar como o público interpreta e reproduz esses discursos, seja em comentários no Threads ou no X, evidenciando que a criminalização da juventude negra ultrapassa o sistema jurídico e encontra na mídia e nas redes digitais um campo de perpetuação do racismo estrutural e de reafirmação da branquitude. Ao tensionar esses enunciados, busca-se contribuir para a contracolonização (Nego Bispo, 2021) dos discursos sobre corpos negros, problematizando a forma como a mídia opera como dispositivo de poder que pode produzir sentidos e naturalizar violências.

Palavras-chave: Branquitude; Mídia; Black Alien; Oruam.

Abstract
The sound that shook the outskirts of São Paulo has now reached the walls. However, the audience outside the city is not the same as the one in the outskirts. Therefore, this paper analyzes the discourse of some of the comments surrounding the Anti-Oruam Law (a law that prohibits the hiring of people and shows that, according to the rapporteur, promote crime). The law, created by São Paulo councilwoman Amanda Vettorazzo (União), has already been approved in at least 46 cities in 13 different states and was aimed at the artist Mauro Davi dos Santos Nepomuceno, known as Oruam. The analysis also addresses the case of rapper Gustavo de Almeida Ribeiro, known as Black Alien, who in February 2025, during a show at Casa Áudio in São Paulo, had difficulty remembering the lyrics and was widely exposed and ridiculed by the media and on social media. In both episodes, we observe how Black artists are framed in public narratives that associate them with criminality, failure, or incapacity, producing psychological and social suffering. To understand this dynamic, we draw on Frantz Fanon (2020), who discusses how the Black body is constantly permeated by projections of whiteness, which shape subjective and collective experiences. We also mobilize Cida Bento (2022), who problematizes whiteness as a structure of privilege that legitimizes the stigmatization of the other, and Marcos Vinicius de Araújo (2021), who discusses how the media, operating within structural racism, normalizes violence against Black bodies in situations of vulnerability. The objective is to analyze how the public interprets and reproduces these discourses, whether in comments on Threads or on X, highlighting that the criminalization of Black youth goes beyond the legal system and finds in the media and digital networks a field for perpetuating structural racism and reaffirming whiteness. By challenging these statements, we seek to contribute to the countercolonization of discourses on Black bodies, problematizing how the media operates as a device of power that can produce meanings and naturalize violence.
Keywords: Whiteness; Media; Black Alien; Oruam.

A Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch afirmou que a polícia do Rio de Janeiro cometeu falhas "cruciais" na investigação de 121 mortes ocorridas durante a Operação Contenção, em 28 de outubro. Em nota pública, a organização relacionou estas falhas a um “desinteresse proposital”, por envolverem população de maioria negra e de baixa renda.
A Organização Não Governamental (ONG) Human Rights Watch afirmou que a polícia do Rio de Janeiro cometeu falhas "cruciais" na investigação de 121 mortes ocorridas durante a Operação Contenção, em 28 de outubro. Em nota pública, a organização relacionou estas falhas a um “desinteresse proposital”, por envolverem população de maioria negra e de baixa renda.


Introdução: Quem são os corpos que são marginalizados ou negamos assistência?


A comunicação na contemporaneidade transformou nossas relações, todas as informações são recebidas em tempo real. Os aplicativos de comunicação disparam mensagens que rapidamente são acessadas e compartilhadas sem que seja necessário um aprofundamento naquilo que consumimos ou falamos. A beleza e a leveza de conseguir se comunicar com uma pessoa querida de uma rede no quintal ou mandar um áudio enquanto vai para o trabalho - são pontos positivos de nosso momento histórico, se pensarmos que outrora as cartas eram esse espaço de comunicação e a demora que existia nesse processo. No entanto, a forma incontrolável com que essas mensagens se espalham e a forma como isso atinge de modo subjetivo o público são coisas que ainda não se consegue mensurar no negativo.


Um país cuja ferida inegável da escravização ainda sangra e produz secreção, não pode negar o racismo em sua cultura e estrutura. Para trazer uma perspectiva mais concreta ao se olhar os dados sobre a população negra destacam-se os piores cenários quando a letalidade da (in)segurança pública em relação às pessoas negras que é gritante, uma vez que, subiu para 90% o número de encontros fatais entre a brutalidade da polícia e o corpo negro[1]. Outro dado que destaca a estrutura de desigualdade racial em que se vive por esse alvo de violência contra o corpo negro fica ainda mais nítido na forma como as mulheres negras são majoritarias entre aquelas que são mães solo[2] e aquelas que são agredidas em seus relacionamentos, segundo os índices de feminicídio[3]. Esses dados reforçam o modelo como o corpo negro é perpassado por muita violência enraizada nas práticas coloniais dos europeus sobre o corpo negro.


Se somarmos o fato da comunicação instantânea ao processo de violência com o corpo negro, o resultado é o estímulo de mais ódio ao corpo negro, na medida em que, de um lado há o bombardeio à sociedade com mensagens que nem sempre são positivas, pois circula o discurso e as ações racistas e do outro lado tal prática estimula ou tenciona a mesma sociedade ao âmago de seus problemas relacionados ao desejo ou desprezo em relação ao corpo negro. Nesse ponto, somos seres envolvidos em circularidades que se manifestam à nossa volta em forma da família, do trabalho, dos locais de encontro e desencontro - somos seres que circulam pelo globo chamado mundo. A grande questão é que pular o círculo e ocupar os outros espaços, acaba por automaticamente por inserir a dimensão de como lidar diretamente com outro público que pode não ser consciente da nossa trajetória ou não ser impactado pelos mesmos fatores sociais que para nós (negros que estão conscientemente com criticidade racial no olhar) são relevantes.


A trajetória artística dos músicos Mauro Davi dos Santos Nepomuceno (Oruan) e Gustavo de Almeida Ribeiro (Black Alien) traz esse embate entre o lugar de origem e o público que se alcança. A realidade periférica descrita nas linhas dos artistas não é só algo capturado por uma lente de celular, pois Oruam nasceu no dia 1 de março de 2000 na cidade do Rio de Janeiro no estado do Rio de Janeiro, perpassando Cidade de Deus e o Complexo do Alemão e Black Alien nasceu na cidade de São Gonçalo no Rio de Janeiro no dia 7 de junho de 1972 e viveu em Niterói passando alguns momentos na Baixada Fluminense. Os dois bairros do Rio de Janeiro não são áreas nobres como Ipanema ou o Leblon, esses dados destacam que Black Alien e Oruam conseguiram conquistar um número de ouvintes superior ao espaço em que nasceram, pois segundo a Wikipédia o Complexo do Alemão possui pelo último censo demográfico de 2010, a quantidade de 69. 143 e o número de ouvintes mensais de Oruam no Spotify[4] é de 10.352.076, e Niterói possui o número de 481.749 habitantes, enquanto a página perfil no Spotify[5] de Black Alien registra cerca de 1.454.744 ouvintes mensais. Ambos os artistas conseguiram sair do seu território e conquistar um número de ouvintes mensais, superior até mesmo a quantidade de habitantes do seu lugar de origem, por conta do excelente trabalho musical e de representação que fazem em território nacional.


Romper a bolha que é seu lugar de origem e o entorno não é só expandir as possibilidades de tornar a música uma renda para artistas negros, mas a certeza de lidar com comentários negativos também. Nesse sentido, Oruam é muito cobrado pelo passado do pai dele, que é Márcio dos Santos Nepomuceno (Marcinho VP), líder do Comando Vermelho e Black Alien é julgado por problemas com vícios. A constituição da memória é uma arma muito usada pela retórica dos supremacistas raciais, pois configura um destaque a corpos brancos e põem em marginalização os outros corpos que seriam atrasados mentalmente:


Memória é também construção simbólica, por um coletivo que revela e atribui valores à experiência passada e reforça os vínculos da comunidade. E memória pode ser também a revisão da narrativa sobre o passado “vitorioso” de um povo, revelando atos anti-humanitários que cometeram — os quais muitas vezes as elites querem apagar ou esquecer (Bento, 2022. p. 39)


Ambas as questões que deveriam ser particulares acabam por tomar uma dimensão pública e dentro da lógica que se está tornando racista na forma em que esses processos são comunicados por meio das mensagens e notícias que fazem referências aos artistas. O Objetivo deste trabalho reside justamente em analisar esses comentários e  trazer uma perspectiva crítica a forma como a branquitude controla as narrativas até particulares dos corpos negros.


Abaixo de Zero: Hello Hell é o terceiro álbum de estúdio do rapper Black Alien, lançado no dia 12 de abril de 2019.
Abaixo de Zero: Hello Hell é o terceiro álbum de estúdio do rapper Black Alien, lançado no dia 12 de abril de 2019.

Abaixo de zero, mas fritando no racismo


O último álbum musical de Black Alien é o Abaixo de Zero: Hello Hell, todos os álbuns são políticos, no entanto, esse é muito especial por ser lançado em um momento crítico de esperança quase nula para a esquerda brasileira tendo em vista que Bolsonaro estava eleito e a perspectiva era de muitas vitórias para a direita com o Lula preso. O álbum saiu em 12 de abril de 2019, Bolsonaro já estava como Presidente e Lula só seria solto em 8 de novembro de 2019. As músicas falam de um inferno que é orquestrado pela ideia de viver no conservadorismo e nos bons costumes que pregava o atual presidente autoritário e suas letras falavam mal da política brasileira e falavam sobre sexo e sexualidade em oposição ao engessamento cultural presente naquele momento. O músico também falava sobre seu vício em álcool e cocaína não como um louvor, mas como uma parte do Brasil que também existe dentro desse cenário que só quer aceitar ou reconhecer os iguais aos conservadores. O músico parecia alertar que esses problemas não eram individuais, mas sociais.


Essas mensagens estão fortemente apresentadas nos comentários extraídos do Threads[6] sobre o caso do Black Alien, pois associam que os shows dele não deveriam ser frequentados alegando que não sabem qual Gustavo irão encontrar como na figura abaixo:



Figura 1: Comentário sobre ir e gastar o dinheiro atoa Fonte: Threads
Figura 1: Comentário sobre ir e gastar o dinheiro atoa Fonte: Threads

O comentário acima nem demonstra uma preocupação com o artista, mas com a quantidade de dinheiro que seria gasta e o problema da pessoa em questão de não ter suas necessidades atendidas. O pacto narcísico da branquitude é justamente quando se nega a humanidade dos negros em detrimento do ego e prazer dos brancos, nesse sentido, essa pessoa sequer considera o estado mental de Black Alien e nem pensa em como seu comentário pode afetar negativamente influenciando outras pessoas a deixarem de ir e adquirir os produtos de Black Alien. Se pode observar que até o emoji é um emoji que é branco. A branquitude seria essa série de acordos estabelecidos entre as pessoas brancas para consigo a fim de excluir os outros e enaltecer sua própria cultura:


Sempre  entendi  como  acordos  tácitos,  como  pactos  não  verbalizados,  não  formalizados. Pactos feitos para manter em situação de privilégio, higienizados de usurpação que os constituiu. E que se estruturam nas relações de dominação que podem ser de classe, de gênero, de raça e etnia e de identidade de gênero, dentre outras (Bento, 2022, p.65)


Obviamente que na realidade capitalista que todos estamos inseridos esse comentário automaticamente valida que esse artista não deve ser remunerado enquanto não estiver sem o uso e consumo de coisas ilícitas. Ocorre que o controle da economia sempre foi um artífice dos colonizadores sobre os colonizados, segundo Fanon (2020):


a verdadeira desalienação do negro requer um reconhecimento imediato das realidades econômicas e sociais. Se há um complexo de inferioridade, ele resulta de um duplo processo:

  • econômico, em primeiro lugar;

  • e, em seguida, por interiorização, ou melhor, por epidermização dessa inferioridade (Fanon, 2020, p.25)


O trauma de inferioridade é que esse comentário demonstra que sendo negra, uma pessoa acaba contraindo suas vulnerabilidades e não consegue mostrar a si mesmo com autenticidade na medida em que a sociedade o tratará como inferior e por meio do seu controle econômico o excluirá dos espaços. A figura 2 que está abaixo demonstra como essa inferiorização ocorre e como o corpo negro é observado sem cabeça para assumir a vida:



Figura 2: Homem que diz que Black Alien é sem cabeça Fonte: Threads
Figura 2: Homem que diz que Black Alien é sem cabeça Fonte: Threads

O texto acima demonstra que o autor do comentário considera as letras e as músicas de Black Alien boas, mas não aprova a sua conduta moral e pessoal, pois segundo ele são coisas de quem está perdido da cabeça. No entanto, outras pessoas que sabem que Black Alien está cantando aquilo que vive tencionam que ele precisa se cuidar e escrever mais músicas:


Figura 3: Comentário sobre ele precisar se cuidar  Fonte: Threads
Figura 3: Comentário sobre ele precisar se cuidar Fonte: Threads

O comentário acima, mesmo apontando as dificuldades de um homem que tem uma certa dependência química, traz uma noção de humanidade ao Black Alien e se preocupa com o artista e não só com o produto que é a arte musical ouvida e vista. Como observado também no comentário abaixo:


Figura 4: fãs da base  Fonte: Threads
Figura 4: fãs da base Fonte: Threads

O comentário indica que quem entende a história e a origem dele sabe como ele é; sabe que, às vezes, ocorrem recaídas, mas elas não são a marca de um trabalho ruim, apenas de um ser humano que precisa de ajuda.


O rapper Oruam e os moradores da comunidade Santo Amaro, no bairro Catete, zona sul do Rio de Janeiro, participaram, neste sábado (07/06), de um protesto. No dia anterior, durante ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), unidade da Polícia Militar (PM), cinco moradores foram baleados e um acabou morto.
O rapper Oruam e os moradores da comunidade Santo Amaro, no bairro Catete, zona sul do Rio de Janeiro, participaram, neste sábado (07/06), de um protesto. No dia anterior, durante ação do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), unidade da Polícia Militar (PM), cinco moradores foram baleados e um acabou morto.

Da legislação ao ataque insensível: Oruam é mais um caso?


O corpo negro é lido como violento na mídia e quem diz isso é o pesquisador Marcos Vinicius (2021). A abordagem sobre como contar uma história quando se pensa em um corpo negro é sempre marcada pelo olhar da violência. O problema desse lugar da violência é que ele nunca é justo com quem pode praticá-la ou quem simplesmente existe é passa a ser caracterizado como violento.


Falar de violência em um país como o nosso que é geograficamente amplo e possui dentro de si inúmeras realidades é complexo, pois se sabe que dependendo do lugar que se nasce o nível físico dessa violência é mais intenso e a família também acaba por influenciar na forma como sentimos e agimos diante da violência. Observe que são duas coisas que nós não escolhemos ao nascer: local de nascimento e a família.


Porém, se a gente pensar que há o estigma da violência na melanina dos corpos negros e conectar com esse passado escravagista, é possível conceber esse processo como um  espelhamento da violência feita pelo colonizador que recai ao corpo negro para que se torne o Outro um ser não humano, incivilizado e violento.


Pessoas negras experimentam a violência em contextos marcados pela tensão racial. Ao reencenar a morte de um corpo negro, nota-se um reforço “quase sádico” em exibir cenas chocantes dessa violência. Isto são marcas históricas de uma cultura audiovisual que, desde sempre, espetaculariza e banaliza a morte negra. É preciso discutir sobre os limites da ‘representatividade’, uma vez que incluir negros em instituições estruturalmente racistas serve como uma maneira de legitimar o racismo com a desculpa de que existem negros ocupando esses espaços (Vinicius, 2021)


Oruam não escolheu nascer na Cidade de Deus e nem pode escolher seu pai, mas ambas as coisas aconteceram e fazem quem ele é. O olhar social para essa realidade é um olhar que destaca justamente o conservadorismo brasileiro e que menciona essas pessoas periféricas e que falam da periferia tirando a maquiagem e exibindo a realidade como escórias da sociedade. Para apresentar um cenário distante, os comentários desta parte do texto são respostas ao vídeo do deputado Kim Kataguiri que gravava defendendo a lei Anti-Oruam[7], como na figura abaixo:


Figura 5: retirada da escória Fonte: Instagram de Kim Kataguiri
Figura 5: retirada da escória Fonte: Instagram de Kim Kataguiri

Outro comentário sugere que as coisas seriam melhores se houvesse um projeto escolar fundamentado nos valores éticos e morais dos respectivos sujeitos:


Figura 6: Projeto contra a deseducação  Fonte: Instagram de Kim Kataguiri
Figura 6: Projeto contra a deseducação Fonte: Instagram de Kim Kataguiri

Observe como a ideia de punição a um ritmo musical é celebrada com louvor e como isso também é uma forma de controle social enquanto busca homogeneizar como as pessoas se relacionam com a cultura. O comentário não pensa que a cultura é uma das coisas mais caras e a maioria das pessoas pobres no país não conseguem acessar teatros ou galerias de arte. Sabe-se que esse esvaziamento cultural também é planejado para pensar a cultura do colonizador como a única. A gente pode observar como esse modelo de estruturação colonial funciona em Fanon (2019):


Podemos dizer que existem certas constelações de instituições, estabelecidas por homens particulares, no quadro de áreas geográficas precisas, que num dado momento sofreram o assalto direto e brutal de padrões culturais diferentes. O desenvolvimento técnico, geralmente elevado, do grupo social surge como tal autoriza-o a instalar uma dominação organizada. O empreendimento da desculturação apresenta-se como o negativo de um trabalho, mais gigantesco, de escravização econômica e mesmo biológica. A doutrina da hierarquia cultural não é, pois, mais do que uma modalidade da hierarquização sistematizada, prosseguida de maneira implacável (Fanon, 2019, p.65)


Esse pensamento é concreto na Lei Anti-Oruam que marca um alvo em funkeiros e músicos que falam das realidades periféricas em simultâneo a permissão dos papéis na televisão serem sempre trabalhos que permitem essa violência. O Brasil ainda não produziu um filme com todos os papéis feitos por pessoas negras mesmo sendo o país em que os negros são maioria, no entanto, nas novelas e nas reportagens que retratam essa violência sempre se escolhe o corpo negro. Em oposição aos comentários que marginalizam Oruam, aqueles que o defendem  são homens negros que se sentem atingidos pela situação que acontece com ele:


Figura 7: artista  Fonte: Instagram de Kim Kataguiri 
Figura 7: artista  Fonte: Instagram de Kim Kataguiri 

O comentário reflete sobre Oruam não ser um traficante, e sim ser um artista e traz a questão de que eles nunca vão derrubar o artista. A pessoa que escreveu esse comentário disputa a cultura ou o lugar da cultura com todos os demais que estão colocando Oruam como algo que não é civilizado.


Estudar as relações entre o racismo e a cultura é levantar a questão da sua ação recíproca. Se a cultura é o conjunto dos comportamentos motores e mentais oriundos do encontro do homem com a natureza e com o seu semelhante, devemos dizer que o racismo é, com efeito, um elemento cultural. Assim, há culturas com racismo e culturas sem racismo (Fanon, 2019, p.66)


O corpo periférico se reconhece e reconhece seus semelhantes como aqueles que precisam dessa proteção, pois é um homem negro comentando. Abaixo, outro homem negro comenta que Oruam é tão foda que criou a própria lei:


Figura 8: Criar a própria lei Fonte: Instagram de Kim Kataguiri
Figura 8: Criar a própria lei Fonte: Instagram de Kim Kataguiri

Esses últimos comentários sugerem que apesar do local da violência na visão dos brancos ser o corpo negro, na visão das pessoas negras são os brancos e eles é quem criam essa marginalização do corpo e da cultura. São pessoas que estão ao redor da realidade do artista e entendem as expressões que eles usam para descrever essas realidades que infelizmente não são floridas.



Conclusão 


As trajetórias dos artistas cariocas são similares não só por serem homens negros de origem humilde, mas pela forma como escolheram verbalizar sua realidade nas músicas e fazer da música um local de disputa política e também de produção de sentido para as suas próprias realidades.


Acredito que a análise apresentada revelou como a branquitude tenta por meio de seu discurso moral e civilizatório empregar a pele melaninada como violenta e confere o espaço do saber a si. O estudo demonstrou também como essas situações não são obras do acaso mas atravessamentos sociais que pioram em nosso momento histórico de informações instantâneas. O racismo também é instantâneo.


No caso estudado, os artistas são referências e possuem um público de ouvintes mensais maior que os habitantes de suas cidades, mas artistas negros sempre começam engatinhando e a forma como a violência e a invasão as questões privadas dos comentários foi vista demonstra que é preciso inúmeras lutas ainda.


Ambos os artistas demonstram que possuem um público dentro e fora da bolha, seja para julgar ou para aplaudir e aqueles que vivem na mesma realidade ou em realidade próxima se enxergam nos artistas em questão. Dito isso, o trabalho mostrou que a violência feita contra esses corpos negros não é nova, talvez seja mais intensificada pelo avanço tecnológico mas ainda assim se produz em paralelo corpos dissidentes que se sentem aquilombados pela representação nas letras dos artistas.




Referências bibliográficas

BENTO, Cida. Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
DORNELES, D. R. . PALAVRAS GERMINANTES: ENTREVISTA COM NEGO BISPO. Identidade!, [S. l.], v. 26, n. 1 e 2, p. 14–26, 2021. Disponível em: https://revistas.est.edu.br/Identidade/article/view/1186. Acesso em: 30 out. 2025.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. São Paulo: Editora Ubu, 2020.
FANON, Frantz. "Racismo e Cultura" In. "MANOEL, Jones; LANDI, Gabriel. Revolução Africana: Uma antologia do pensamento marxista. São Paulo: Autonomia literária. 2019.

[1] População negra é a maior vítima da polícia, segundo estudo. Notícia da ebc Brasil. Disponível em:<https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2024-11/quase-90-dos-mortos-por-policiais-em-2023-eram-negros-diz-estudo>. Data de acesso: 10/10/2025.
[2] Mães solo são majoritariamente negras segundo o estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Disponível em <https://mundonegro.inf.br/pesquisa-aponta-que-90-das-mulheres-que-se-tornaram-maes-solo-no-brasil-nos-ultimos-dez-anos-sao-negras/>. Data de acesso: 10/10/2025.
[3]O índice de feminicídio é maior entre mulheres negras do que as brancas. Segundo, o DataSenado. Disponível em <https://www.senado.leg.br/institucional/datasenado/relatorio_online/pesquisa_violencia_mulheres_negras/2024/interativo.html>. Data de acesso: 10/10/2025.
[4] O número de ouvintes de Oruam está disponível em seu perfil no Spotify. Disponível: <https://open.spotify.com/intl-pt/artist/4yGgbQJMq9orWypwqtdzYT>. Data de acesso: 10/10/2025.
[5]  O número de ouvintes de Oruam está disponível em seu perfil no Spotify. Disponível: <https://open.spotify.com/intl-pt/artist/6aCbXH85qN6xo54C7atSMx>. Data de acesso: 10/10/2025.
[6] Todos os comentários foram extraídos da notícia do Futrikei sobre o Show de Black Alien na Áudio. Disponível: <https://www.threads.com/@futrikei/post/DGG8uKryd2a?hl=pt-br>. Data de acesso: 10/10/2025.
[7] Todos os comentários foram extraídos do vídeo de Kim Kataguiri. Disponível em <https://www.instagram.com/reel/DFVeRiqOBHB/?igsh=NmtyMmppYjB6ZXgy>. Data de acesso: 10/10/2025.
 
 
 

Se você acha que já viu de tudo no Carnaval, sabe de nada, inocente!

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Era domingo antes da semana do carnaval, o que fazia dele, o domingo da semana pré carnaval, que não deve ser confundida com a semana do pré-pré carnaval, ou com a semana do pós-carnaval, ou até mesmo com a semana do “É carnaval ainda?”. A resposta é sempre sim.


Pouco eu me lembro desse dia, mas afirmo categoricamente que muito vivi. Começou tudo na normalidade, era um bloco lá no Centro, o nome eu não sei, mas tinha banda e gente suada. E se banda e gente suada faz um bloco, todo show de rock também é carnaval, fiquem avisados.


Tava com um bonde de uma amiga minha, só galera gente fina. Já começamos na cerveja porque o calor é aquela coisa né. Um natural pra combinar, e o tratado do caos tava assinado. Logo mais adiante conheci o tal do Xeque-Mate, bom, mas caro. Entretanto, quem conhece o Rio sabe que ele tira, mas também dá.


Um brother vendendo bebida viu a mesma coisa que eu, uma plaquinha roxa no alto vendendo um doce batizado, ou algo do tipo. E tava lá escrito: "Maciota". Eu falei pra mina com a placa “Veio de Maciota é?”. Ela sem entender nada, me encarou como um indigente. 


Tem momentos na vida que decisões são tomadas, ali eu tomei uma depois de tomar várias. Vou eu e grito uma parada que fora do contexto ficaria estranho pra qualquer um. 


“Ô cafetão!” 
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E eu não sei se você sabe, mas sair por ai gritando “cafetão” é considerado deselegante. Mas antes que todo mundo pudesse me olhar indignado, vira o vendedor do meu lado pra me salvar, e começa:


“Um cafetão…” eu já me uno a ele “...chamado MACIOTA!”

Agora a conversa é entre nós, dois missionários da palavra sagrada de uma animação controversa. E voava de lá pra cá as frases de quem conhece a série, e quem sabe sabe, que não é Maciota, é Um Cafetão Chamado Maciota. 


Trocamos ideia mais um pouco, o bloco tava seguindo e o fluxo era único e lento. Acabou meu Mate, e o mano me deu um desconto no Xeque. Firmeza demais.


Eventualmente, depois de um período de tempo indeterminado, porque bêbado não tem linha temporal, a gente foi parar na Pedra do Sal, como eu não sei, só sei que foi assim. 


Tava tocando só as clássicas lá, e naquela altura do campeonato eu tava tão avariado que se tocasse Xuxa eu ia perder a linha. (Tocou Xuxa e eu perdi a linha) 


E aí surge ele, a sombra de um passado inesquecível, o arauto do caos em forma de um galináceo carnavalesco, o Galinho Chicken Little.


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Pra quem não conhece, o Galinho Chicken Little é um filme ai dos anos 2000 que volta e meia passava na sessão da tarde. Se era bom eu não sei, mas eu gostava, até porque senso crítico não é o forte de criança, nem da maioria dos adultos se for parar pra pensar. 


Eu fiquei fã instantaneamente daquele maluco. Se você não soubesse do que se tratava, dificilmente tu ia adivinhar, mas minha memória é meio maluca e seletiva. Eu não lembro o aniversário de ninguém, mas um desenho aleatório de duas décadas atrás? Conte comigo. 


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Sente o drip do cara: Camisa verde listrada, bermuda marrom, um bico alaranjado daqueles que criança faz com cartolina na aula de artes, e COBERTO com o que eu só consigo imaginar serem litros daquele corretor branco que a gente usava no ensino médio pra apagar nossos erros. Se ele já cometeu um erro na vida, foi corrigido alí.


O mano tava crocante. 


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Eu admiro até hoje o compromisso com o personagem.


Eu gritei pra ele, ele gritou pra mim, a gente se abraçou. Pouco tempo depois eu já tava todo manchado daquela merda. Ele falou que era vascaíno, eu já virei e falei “A gente é primo porra, sou Botafoguense.”, o primo dele também era Botafoguense, então tava tudo certo. 


E juntos a gente cantou:


“Bebeu água? (Não!)  Bebeu água? (Não!)  'Tá com sede? ('Tô!)  Olha, olha, olha, olha a água mineral  Água mineral  Água mineral  Água mineral”

Ele me contou como ele ficou triste pela gente em 2023, e se ele ficou, imagina eu. Mas comemorou comigo o 2024, porque foi merecido. Nesse meio tempo a namorada dele tava lá do lado, curtindo como dava, tendo o namorado que tem. Eu adorei aquele maluco, e espero um dia reencontrar ele.


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A noite chegou, minha amiga tinha que ir pra casa, e também tava meio preocupada comigo, afinal eu já tava relâmpago marquinhos das ideias. 


Fui levar ela no ponto de ônibus e vejo quem? Ele mesmo, Jesus, eu sei que você já tava questionando quando o Big J. ia chegar.


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Minha amiga me carregando de um lado, a Maria Madalena dele carregando ele pro outro. Por algum motivo eu resolvi falar em inglês com o Jesus, “Jesus! Jesus!”, imagina ai como os gringo fala Jesus.


E não é que ele sabia inglês? Filho de Deus tem essas paradas, né. Ele me abençoou, eu contei pra ele algo muito pessoal que só ele vai saber o que foi.


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Mas não ficamos muito tempo ali não, as duas mulheres já tavam sem paciência e arrastaram a gente embora. A gente tenta encontrar o caminho da salvação, mas sabe como é né?

 

Minha amiga ficou preocupada como eu ia pra casa, eu disse pra ela algo incompreensível que nenhum de nós vai se lembrar, e eventualmente cheguei em casa daquele jeito de só bêbado sabe chegar, no amor e na coragem. 


O carnaval é o inferno na terra, e a gente é o capeta.


 
 
 

Fala comigo, tá tudo bem com vocês? Espero que sim, pois tô finalmente voltando a escrever aos poucos depois de tanta coisa que rolou nesses últimos meses. É matéria ali, evento aqui, e por aí vai. Mas isso não é motivo pra parar com as coisas.

 

E uma dessas que precisava trazer pra vocês era essa história que me marcou durante as andanças no centro do Rio. Apesar de ter sido algo ocorrido no início do ano, vou levar pra minha vida na memória e não acho justo só eu saber como foi esse rolé — sim, eu digo “rolé” pois cresci ouvindo as pessoas falarem assim e, infelizmente, não consigo falar “rolê”; acho estranho. 


Fico feliz em vir pesado nesse Acorda Pedrinho de hoje.    


Foto por @clicksdajuliana
Foto por @clicksdajuliana

O DIVERSA me surpreende mais uma vez, pois eu presenciei o primeiro Baile Fock. Mc Taya, a mente por trás de tudo, trouxe uma lineup brabissima na noite de 16 de maio, e me encheu os olhos d’água em relação ao futuro que o rock, metal e o que nascia a partir daquela festa estava produzindo.


Um dos motivos para tal é a proposta de não ficar presa a uma parada tradicional, tendo atabacada com distorção a todo o tempo no set do DJ SPIEKER. Ele também é componente da banda com a cria de Nova Iguaçu, mas isso vou deixar pra falar mais adiante. 


Foto por @dr3i.jpg
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Eu fiquei impressionado com a faixa etária do público por causa da boa variedade que tinha de gente lá dentro do espaço. Não sou velho, só sei que não estou mais tão jovem assim, e ali naquela noite eu pude sentir a mesma energia que tinha quando mais novo.


Outra razão pela qual o Baile Fock me encantou é o próprio lineup. Gostaria de citar o elenco antes de continuar o relato: ONDAPESA, RHAG, CHAINSAW KID, e MC TAYA (banda). Como podem ver, são nomes que representam uma renovação na música por mais que tenham um tempo na caminhada.


Aposto que algum desses nomes você já ouviu falar aqui na Menó por causa dos textos que vivemos falando das joias da Baixada. Digo isso porque temos uma missão  de expôr os talentos que a indústria finge não ver. Agora estão sendo vistos, e se depender de nós, ELA VAI VAI MANDAR EM TUDO. 


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Eu tinha, no entanto, a função a cumprir lá no Diversa: captar o que foi essa porradaria no talento na forma de som. Aproveitei e já fui atrás do primeiro a se apresentar na noite. O show foi uma mistura de expectativa e surpresa, pois eu já estava esperando um repertório com sons do seu primeiro álbum (ONDAPESA I). 


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O que não esperava é que eu iria gravar rápido e cantar no show alguns trechos das músicas à medida que pulava no mosh. A VILANIA VEIO E TOMOU CONTA DO MEU CORPO, simplesmente isso. Na hora que fui trocar ideia com a crew, fui saber como foi performar no Baile.


[Pedro]: Como é que foi apresentar as músicas do teu disco aqui? [Leon]: Mano, é simplesmente insano imaginar que eu começar a fazer músicas num computador fosse se tornar, acessar outros territórios, conhecer outras pessoas e até rever outras formas de eu estar e ser, tá ligado? Isso é muito poderoso, muito poderoso. Apresentar isso aqui agora, o show que eu e Yargo fizemos hoje, tá ligado, é um bagulho, uma energia assim, meio inexplicável. Noite linda, tá ligado? Noite acolhedora, noite de outono, tá fresquinho lá fora, aqui dentro de um furduncinho gostoso demais no Diversa. Apresentar isso foi sem palavras, tá ligado? Muito foda o convite da Taya, poder compartilhar um pouco das coisas que passam na minha cabeça, tá ligado? Tanto esteticamente, quanto também assim, nas filosofias.
Foto por @lorrainepompermayer
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[Pedro]: Pô, agora uma pergunta pro Yargo. Como é que foi segurar, fazer a contenção desse show que o pessoal recebeu bem, tá ligado? [Yargo]: Foi literalmente ter que segurar a galera no mosh ali pra não derrubar os mic e tudo mais, porque assim, do caralho a energia… Energia intensa, o show inteiro, do início ao fim. Eu acho que a proposta da ONDA é essa, sabe? Então ter essa receptividade da galera, eu acho que é o que faz a gente querer estar aqui, sabe? O que traz a energia pra gente é ver a galera ali, o mosh rolando, a galera curtindo, batendo cabeça. Isso pra gente, a gente olhando, assim, dá uma energia, bate uma adrenalina. Pô, a coisa linda demais. Só satisfação mesmo. Geral colou, convite da MC Taya, CC Diversa, pô, coisa linda demais. [Pedro]: Só pra fechar agora, um recadinho de final, um salve, uma mensagem que vocês queriam falar. Eu vou passar pra cada um, tá ligado? [Leon]: Visão. Música Eletrônica Marolenta, ONDAPESA 1, tá na pista, vocês podem ouvir. Tem lá várias participações, tá ligado? Lancei coisa também com o Xari, Rojão e Marcão Baixada, RAP SEM REFRÕES E PONTES PT II. A gente fez o clipe, ficou lindo, tá ligado? Equipe braba. É muito foda poder fazer parte das coisas que acontecem na Baixada Fluminense, em sentido de produção e reprodução, tá ligado? De memória, de cultura. É lindo poder fazer parte desses movimentos e ver as coisas acontecendo, e a gente tendo a oportunidade de falar e poder se conectar e poder se reunir com pessoas. Então, assim, gente, ocupe as ruas, vá aos lugares, frequente os eventos na sua cidade, acessem outros espaços, tá ligado? Não deixe as coisas passarem só por causa delas, tá ligado? Vamos viver a rua, vamos viver a pista, vamos trocar o olho no olho, tá ligado? Acho que é isso [Yargo]: Eu acho que o Leon já foi completo ali, já deu o papo todo, fez o jabá, inclusive, da banda, então acompanhem lá o nosso trabalho e tal. É muita correria, então, mais uma vez, vou agradecer ao CC Diversa, por ter cedido o espaço, MC Taya, pelo convite, pela idealização do Baile Fock. Isso que tá acontecendo aqui é uma parada nova aqui no Rio de Janeiro, entendeu? Muito por ser uma cultura que eles estão trazendo lá de São Paulo. A galera do Metal Mandrake já tá presente aqui, já tá presente em outros estados, então, assim, esse movimento tem que acontecer, a gente tem que fazer isso acontecer, tem gente que gosta pra caralho disso aí. Então a gente não pode deixar morrer. Querem saber onde é que tá o rock, qual é a do rock, rock de favela? É isso aí, irmão, vem pra cá que tu vai ver. Tamo junto.

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Prosseguindo a programação, é chegada a hora do mano Rhag. Seu show me remeteu a época que eu ouvia BK no início da carreira, assim como diversos artistas de 2016 que estão no seu auge hoje. 


Talvez seja a atmosfera da letra e dos instrumentais que me deram essa impressão, e esse deboche em tom de crônica nas suas canções era bem presente no show dele.


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Sabe aquela sensação de que mesmo você ouvindo a música pela primeira vez, parece que conhecia há muito tempo? Então, senti exatamente isso no show dele.


Depois dessa onda que gastei no show dele, vem a Chainsaw Kid com uma pedrada atrás da outra. Eu poderia dizer que se tratam de jovens fazendo o que dá na telha quando estão em um palco, porém não foi nada disso que experienciei. 


Foto por @lorrainepompermayer
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Foi justamente o contrário; vi um grupo bastante comprometido em fazer uma levada New Metal bem no final dos anos 90 com uma pitada do rap contemporâneo, me lembrando muito bem de quando ouvia Slipknot (inclusive fizeram um cover da banda). 


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De toda forma, eu vi um pessoal que tava tocando o que queriam e com vontade, e isso me fez curtir os mosh mesmo destreinado porque não saía a anos para isso.


Foto por @clicksdajuliana
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Fechando com chave de ouro, a embaixadora do Baile Fock. A banda é MC Taya, DJ Spieker e 33 Salva, quebrando tudo no headline. Ela cantou músicas do HISTERIA AGRESSIVA 100% NEURÓTICA, e algumas antes da fase METAL MANDRAKE — essa parada é uma nova wave de artistas que procuram fazer uma experimentação com o melhor dos universos do funk e do som extremo que o rock pode oferecer, gerando um cenário que veremos aos poucos dominando o underground —, e fez jus ao nome do evento.


E o melhor de tudo isso é que consigo falar com ela depois de toda essa entrega que foi o show dela:


[Pedro]: Eu quero saber como é que foi fazer esse Baile Fock, né? A primeira edição. Como é que você acha que a galera recebeu? [MC Taya]: Cara, eu vou falar que eu fiquei a noite toda igual mãe, assim. Eu tava filmando com o olho cheio d'água porque assim, foi o primeiro rolê. É um som experimental. As bandas são novas. Todo mundo tá fazendo um som muito experimental, sabe? E quando eu cheguei aqui, vi que tava tendo gente, que a galera tava curtindo, tava moshando, tava se divertindo, que é o intuito. É minha realização. Eu sempre quis estar num espaço assim. Onde eu ia dançar funk, cantar rap, moshar, bater cabeça, falar com os meus amigos, dançar funk, rebolar o rabo e me divertir. Eu sempre quis estar num lugar assim. Então a gente faz muito em cima do que não tem. Se não existe, a gente inventa, o "do it yourself", né? E é isso. O Metal Mandrake é essa geração que eu acho que tá voltando. Da juventude, ser do it yourself, fazer acontecer.
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[Pedro]: E o que tu acha que vai ser o Metal Mandrake daqui a alguns anos, já que é algo recente? [MC Taya]: Cara, eu acho que vai crescer. Eu acho que a gente tá dando um pontapé em algo que vai vindo, sabe? Porque não tem como o rock negar mais a periferia. Não tem como o rock negar mais as pessoas negras. Não tem como o rock negar os LGBTs, sabe? Os não binários, as travestis, sabe? Não tem como o rock negar esses corpos. Então, a gente quer acolher esses corpos dos jovens que estão se iniciando no metal, e aí não quer dar de cara porque é de metaleiro, chato pra caralho, preconceituoso, reacionário que a gente tá acostumado, né? Então assim, a nossa vontade é que o rock volte a ser um bagulho que incomode os pais, e não que seja um bagulho de pai e tiozão. A gente quer que o rock seja odiado de novo pelos pais.
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[Pedro]: E queria que você desse um recadinho, um salve pra quem você queira falar agora nesse último momento. [MC Taya]: Eu quero agradecer muito a presença de vocês. Muito obrigada por vocês tão cobrindo. Porque é muito importante dar voz, é ampliar o que vocês viram aqui. É botar pra outras pessoas. Então é muito importante a comunicação sempre. E eu quero dizer que eu tô muito feliz com tudo que tá acontecendo. Tô muito feliz com o movimento se criando e tomando forma. E eu espero que a gente vai devagarzinho, a gente não tem pressa. A gente vai fazendo pedrinha por pedrinha, tijolo por tijolo. Igual um barraco de favela. Que é assim que a gente é acostumado. Nunca foi de mão beijada pra nós. Nunca foi rápido. Então o Metal Mandrake não vai ser diferente. E a gente já tá conquistando muitos lugares. E isso é muito foda. Obrigada.

Tá bom ou quer mais depois dessa visão? Nem preciso falar mais nada. A Menó agradece por ela e toda a galera que aceitou a nossa presença naquele dia.


Foto por @clicksdajuliana
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E espero estar em mais shows que forem feitos por essa tropa tão foda.


Resumindo: se você procura rabiscar a pista enquanto pensa em fazer um stage dive ou um circle pit do nada durante os shows, com certeza o Baile Fock é o seu lugar. 


Foto por @lorrainepompermayer
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E falei isso pra te convidar a ir na sua terceira edição, que vai ser lá no mesmo local. Todos os caminhos te levam até o dia 25/10 para a Rua da Carioca, do Diversa. Se você não teve a chance de ir na primeira edição aqui no Rio, agora é a hora e você não vai se arrepender. 


Além de ser um espaço de entretenimento, tanto a festa quanto o pessoal irão te acolher certamente, e fazer com que você cada vez mais sinta parte dessa cultura maravilhosa que é o underground na essência mais pura da palavra.


E tenho mais um coisa pra deixar marcada aqui: vá nos shows, ouça música independente e apoie seus artistas/movimentos. Se tiver merchan, compre sempre que puder. 

Aonde tiver mosh, eu provavelmente estarei. E é isso. Tamo junto e esse foi o dia que vai ficar na memória.



 
 
 
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