Silêncio na Cantareira: meu sobrinho está dormindo.
- Pedro Caetano

- 26 de mar.
- 6 min de leitura

Acho que passamos por um período em que muitas crianças e pessoas foram levadas a acreditar que "Tenho um problema, é obrigação do governo resolvê-lo!" Ou "Estou sem-teto, o governo tem que me dar um lar!". Assim, elas projetam seus problemas na sociedade, mas quem é a sociedade? Não existe sociedade! Existem indivíduos, homens e mulheres, e existem famílias.
(Margaret Thatcher)
Essa primeira citação que abre o texto é de Margaret Thatcher, primeira ministra da Inglaterra, que foi responsável por introduzir o modelo de governo neoliberal no país. Esse modelo de governança tenta retirar do campo social a possibilidade de sentir afeto pelo destino do próximo.
É uma política de individuação e insensibilidade. O resultado foi um processo de desindustrialização, desemprego, repressão a movimentos sociais, repressão, na verdade – a qualquer experiência social: tipo de relação que não deveria existir.
Não é à toa que torcedores de vários times, principalmente aqueles ligados a movimentos operários, esperavam e celebravam sua morte.
Este texto rumará no sentido contrário. A história que queremos contar vai além do indivíduo, vai além da família e valoriza o campo do social, onde a vida pode ser reinventada coletivamente.
E essa reinvenção não se faz dentro do espaço privado, lugar sagrado para a subjetividade burguesa. Essa criação se realiza na rua, em espaços que não estão demasiadamente programados.
Ao final desse texto, espero que fique claro que emprestando o coração pro mundo a gente se vingar da miséria que é o tamanho do peito. Cada um de nós é pequeno demais, é tonto demais e é fraco demais; mas nós não somos. Ou pelo menos podemos não ser.
Nelson Rodrigues disse uma vez que a pior solidão é a companhia de um paulista. Apesar da graça, hoje temos que superar essa brincadeira para traçar uma infeliz semelhança na história de dois sambistas: um paulista e outro carioca. Seu Altamir e Pato N’Água. Ambos foram embora sem dizer adeus e o samba ficou como responsável por produzir a despedida.

Pato N’Água era um sambista enraizado no bairro do Bexiga de São Paulo, um dos fundadores da escola de Samba Vai Vai e mestre de bateria da escola; o que ele chamava de mestre do apito. Conhecido e amado pela comunidade, deve o destino de muitos pobres e negros no Brasil, foi encontrado morto, boiando em uma lagoa e cheio de buracos de tiro, no ano de 1969.
Nas manchetes foi chamado de bandido. A especulação é que o Esquadrão da Morte, grupo miliciano da polícia de São Paulo, durante a ditadura militar, matou Pato N’Água; esse grupo de extermínio reprimia manifestações culturais negras e julgava e condenava pela força do gatilho.
Ao certo nunca vamos saber o que realmente aconteceu, é a tirania dos registros e de quem tem o poder de o fazê-lo. Sentimos uma raiva pela impossibilidade de acessar um passado perdido, a verdade – a objetividade – não está ao nosso alcance.
Uma das poucas armas que temos contra essa opressão é a arte e sua capacidade de criar sentido; como disse um velho filósofo: temos a arte para não morrer “da” verdade. No enterro de Pato N’Água, o sambista Geraldo filme compôs este samba, até hoje conhecido na terra da garoa. Essa música, pretendo mostrar, me faz lembrar impreterivelmente de Seu Altamir:
Silêncio, o sambista está dormindo Ele foi, mas foi sorrindo A notícia chegou quando anoiteceu Escolas, eu peço o silêncio de um minuto O Bixiga está de luto O apito de Pato N'água emudeceu Silêncio, o sambista está dormindo Ele foi, mas foi sorrindo A notícia chegou quando anoiteceu Escolas, eu peço o silêncio de um minuto O Bixiga está de luto O apito de Pato N'água emudeceu Partiu, não tem placa de bronze, não fica na história Sambista de rua morre sem glória Depois de tanta alegria que ele nos deu E assim, um fato se repete de novo Sambista de rua, artista do povo E é mais um que foi sem dizer adeus Silêncio Silêncio Silêncio
Na Praça Leoni Ramos, conhecida como Praça da Cantareira, – porque a estação das barcas ficava de frente para a praça e foi removida dali para o centro de Niterói após uma revolta popular que ateou fogo nas tocas por conta de um aumento da passagem – encontramos não apenas uma placa de bronze, como diz a música, mas um busto de Dom Pedro II.
É importante perceber quais histórias a cidade quer lembrar e quais ela quer esquecer.
Tantos outros boêmios de longa data, sambistas, donos de botecos, alunos ilustres não são mencionados em nenhum minúsculo centímetro daquela praça. Seu Altamir, também conhecido como Loba, memorável sambista com uma voz de dar inveja a multidões e capaz de ser escudado a quadras de distância, é um personagem difícil de ser esquecido daquela praça.
Loba, apesar do talento e de uma história de sucesso na União da Ilha do Governador, passou seus últimos anos de vida vivendo nos bancos da praça da Cantareira tendo como proteção da chuva e sol as amendoeiras.
Mesmo aparentando estar a esperar da hora da morte, recusando ajuda da família e amigos, Seu Altamir era visto com frequência elogiando a vida. Se aproximando sempre de manso, quando via um grupo com instrumentos musicais, para cantar: “não posso ficar mais nem um minuto com você”.
Esse trecho da música de Adoniran Barbosa, trem das onze, que fala de como a precariedade do transporte público de São Paulo impede um amante de ficar mais tempo com sua amada ou de como um malandro usa isso como desculpa para deixar a mulher de lado, ganha outros contornos na voz de Loba.
Com ele, essa música é um anúncio irônico de um morador de rua que sabe que dificilmente será bem-vindo. A música e o talento eram ferramentas que ele ofertava para abrir caminhos e carinhos muitas vezes.
Senhor Altamir nos deixou entre o Natal e o Ano Novo, morreu sozinho em um hospital de Niterói. A notícia de sua morte chegou não por uma confirmação oficial, chegou pela ausência. Dias depois de ser levado por uma ambulância sem ter retornado, a comunidade da praça o deram como morto.
É uma morte sem companhia e sem direito ao luto. Mas morreu mesmo? Sumiu como? Quem viu ele ser levado por essa ambulância? Morreu de quê? Qual hospital? Qual é o nome completo? Alguém conhece a família?
Perguntas que fiz e ficaram me ecoando até conseguir algumas informações. Seu Altamir não tinha o direito de ser declarado morto, somente desaparecido. Isso me pareceu uma violência ainda maior.
Após conseguir encontrar o contato da família, confirmei a morte e descobri também que a família só foi informada do falecimento mais de uma semana depois. Dado a tristeza, só restava fazer uma única coisa, fazer uma despedida a caráter de um sambista: música e muita bebida.

Organizamos um samba no dia 22/01/2026. Seu Altamir chegava nas rodas de samba afirmando carinhosamente: “aqui só tem celebridade!”. E chamava a todos de “meu sobrinho”, por isso chamamos o samba em sua homenagem de “samba do meu sobrinho”.
Para mim essa despedida tinha uma função clara: dar o direito das pessoas que o amavam de ao menos chorarem pela sua morte, porque uma parte delas sabiam apenas da sua ausência e outra nem ao menos isso. Talvez aqui valha a pena evocar difusamente o conceito filosófico de dignidade.
Aquele homem que ficará ao sol e a chuva, que morreu sem acalanto de um amigo, que nada tinha do que a sociedade competitiva valoriza, teve uma despedida mais bela que aqueles que são classificados como homens de sucesso.
Não quero romantizar a sua morte, mas dizer que a arte, e a beleza que com ela ele produziu, fez dele um indivíduo que pode ir além de si, de seus laços sanguíneos, da miséria que é o tamanho do peito. E fui honrado e grato, junto com meus colegas e amigos, poder ir além de mim também.
Infelizmente a prefeitura de Niterói vai realizar uma reforma na praça e vai instituir o regime dos coqueiros sem coco, essa árvore que não protegerá ninguém da chuva ou do sol; para além disso não sabemos o que será dela. Cada vez mais se vê reformas em espaços públicos que pioram o conforto de estar no espaço para priorizar uma estética sem a menor utilidade.
Bancos confortáveis com encosto? Banheiros públicos? Nada. Acredito que isso seja uma estratégia para minar o espaço de convívio social, com a intenção de reduzir todos ao espaço privado, o espaço do indivíduo e suas famílias.
Tanto Pato N’Água e Seu Altamir são exemplos de figuras que não entram para história oficial, não terão placas de bronze e tiveram mortes solitárias depois de tantas alegrias que eles nos deram.
Os sambas e as histórias que aqui narramos se esforçam por fazer outras memórias e reescrever essas histórias. E como disse Plínio Marcos: “Um povo que não ame e não preserva suas formas de expressão mais autênticas, jamais será um povo livre”.

No dia 27/03/2026, no bar do Seu Pedro, na Cantareira, será feito mais um desse samba, ao leitor que chegou até aqui, deixo o meu convite.






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