top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Profanar a rua, rir dos valores dominantes: sobre o carnaval e seus detratores


Todo Carnaval parece um pouco do meu gueto!

VND - Cinzas de Quarta-Feira (Ft. Sant)

 

 


Ainda hoje são comuns a produção de discursos que associam o Carnaval a uma suposta decadência civilizatória: um período em que a depravação domina as ruas e o povo “alienado” ameaça os valores do “cidadão de bem”.


Mas afinal, quem tem medo do Carnaval? Ou melhor: o que se esconde por trás dos ataques moralistas contra determinadas expressões culturais populares?

 


Mais do que uma atitude isolada (afinal, ninguém é obrigado a gostar dessa ou aquela maneira de se divertir), a hierarquização entre práticas culturais refletem processos históricos enraizados no imaginário coletivo de nossa sociedade, de modo a separar: por um lado, as culturas ditas eruditas e virtuosas; e por outro, as culturas consideradas inferiores, banais e/ou vulgares.

 

Os repúdios morais que recaem sobre as festas carnavalescas de rua, em particular, podem ser interpretadas como tentativas de neutralizar a potência criativa e transformadora de tais manifestações populares. Indicam o medo de uma ruptura, mesmo que breve, das formas normalizadas de organizar e disciplinar a vida em sociedade.

 


Porém, não podemos continuar jogando no campo binário dos embates entre posições essencialmente boas ou más. Para além do mero entretenimento, o Carnaval é uma arena de conflitos e ambivalências: ao mesmo tempo que está constantemente sujeito à captura mercadológica; a espetacularização higienizada; e a reprodução da desigualdade social pelo acesso ao lazer via consumo, também pode expressar a oportunidade momentânea de uma felicidade em comum; a possibilidade de realizar os desejos da carne; e a abertura para uma inversão dos valores dominantes vigentes.

 

Acordar às 6h da manhã, vestir um uniforme e pegar o trânsito em direção ao local que nos ordenam. Apenas por essa semana, não! Ao menos no carnaval, ao menos para os que não são privados desse momento…

 

Acordar às 6h da manhã, vestir uma fantasia aleatória e entrar na multidão em direção a mundos distintos. É Carnaval, e a alegria também é um gesto político!

 


Durante a folia, o tempo do relógio fica suspenso. Os corpos disciplinados podem expressar outras formas de desejar. As ruas das cidades podem nos levam para novos espaços em uma reunião coletiva que desestabiliza a normatividade social.


Uma interação livre que nos liberta da rotina com um mero riso perante ao deserto do real. Brechas que nos permitem, mesmo que provisoriamente, experimentar outros estilos de vida.

 

O Carnaval é uma desculpa para sorrir: um ritual que profana a mesmice da vida, subverte temporariamente as classificações sociais e debocha das relações rígidas de poder.


Profanar é retirar da esfera exclusiva o que foi separado do uso comum, abrindo margem para a inovação por meio das forças coletivas. É uma experiência de liberdade: um acontecimento que autoriza o sentimento de esperança em meio ao desespero que coloniza nossa imaginação sobre outros futuros possíveis.

 

O ano só começa depois do Carnaval e eu nem sei que dia é hoje. Depois da festa, a culpa e a ressaca moral tentam ocupar o lugar da alegria, mas as cinzas de quarta-feira não apagam aquilo que nos excede. Ao fim, que ainda sobrem forças para acreditamos que a vida vale a pena e o novo possa sempre ressurgir.

 


E aos que querem reprimir a diferença, destruir o outro distinto, o estranho… continuamos (re)existindo, insistindo em expressar possibilidades de vivências que ultrapassem as violências normalizadas pela hierarquização social.

 

A cultura do povo é sempre vista como ameaça por aqueles que temem perder o controle.


 

 

Referências

 

AGAMBEN, Giorgio. Profanações. Tradução de Selvino J. Assmann. São Paulo: Boitempo, 2007.

 

FIORIN, José Luiz. Introdução ao pensamento de Bakhtin. São Paulo: Ática, 2011.

 

VND. Cinzas de Quarta-Feira ft. Sant. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qrCFLb4N5GE. YouTube. Acesso em: 14/02/2026.

logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page