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Malunguinho mata quem mata o Brasil: o samba-enredo sobre o herói supravivente da Viradouro.


Desde o dia da invasão em 1500 até os dias atuais, planejou-se um projeto de Brasil colônia, fatalmente, um projeto muito bem vitorioso e ainda enraizado nas estruturas deste projeto de Estado.


Este projeto cívico colonial tem como seu objetivo o estabelecimento de uma monocultura, desenvolvimento civilizatório, monolinguístico, monologismo, sendo seu método a política do desencanto e a produção de escassez.


Este método é eficiente contra uma sociedade multicultural e de múltiplas éticas (modos de ser), pois projeta ser universalista e utilitário, pronto para criar corpos úteis e dóceis para trabalhar até o esgotamento de toda a vida e do axé, deste modo colonizando o corpo.



Se por um lado há o colonizador cristão, que cujos dogmas negam e demonizam tudo que vem da carne, o prazer e o corpo, do outro lado, há Exú. Este Orixá, uma das figuras centrais a sofrer o processo de demonização, é regente do corpo, do prazer e da carne, é o Orixá da fertilidade, do prazer sexual e etc.


Os barracões de matriz africana, sejam umbandas e candomblés, nos ensinam a valorizar, a respeitar e a sacralizar o nosso corpo, enquanto o projeto colonial desvaloriza, dessacraliza e instrumentaliza para o labor.


Enquanto a cultura iorubá tem em sua cosmogonia práticas do encantamento, da “terreirificação” do corpo, em contrapartida, a cultura ocidental cristã produz o desencanto, homem-máquina e a docilidade do corpo.


Faz-se necessário correr para as encruzilhadas, ponto de força de Exú para transgredir as amarras coloniais, e para afirmar a vida, para o encantamento, então o devir supravivente. Malunguinho, herói afro-indígena símbolo da liberdade, um supravivente que retornou como Mestre Juremeiro e como Exú Trunqueiro.


A G.R.E.S Unidos do Viradouro, escola de samba de Niterói–RJ, trouxe no ano de 2025 como enredo a incrível história deste herói, e nos mostrou sua passagem de um corpo indomável, inquieto e encantado para entidade da Jurema sagrada, como dito, mestre juremeiro e Exú Trunqueiro.



O pedagogo carioca Luiz Rufino, joga luz acerca do processo civilizatório colonial europeu no mundo, afirmando ser fundamentado na destruição dos seres não brancos. Ou seja, por onde as navegações europeias passaram e se instalaram, saquearam, estupraram, promoveram genocídios e etc., como, por exemplo: Leopoldo II, governou a Bélgica e durante seu reinado, invadiu o Congo matando cerca de dez milhões de pessoas.


No Brasil não foi diferente, desde então sofremos com as consequências que ainda persistem neste projeto colonial. Segundo Rufino, a colonização acarreta o destroçamento dos seres subordinados a esse regime, os colonizados, mas também a bestialização do opressor, o colonizador (RUFINO, 2019).



A colonialidade que assola a América Latina, no Brasil em específico, carrega o enraizamento estrutural do racismo/capitalismo/cristão/patriarcal/moderno europeu, baseando na violência e produção de lógica de dominação do ser, saber e poder, portanto uma estrutura sistêmica do desencanto da vida, do esquecimento e da servidão dos corpos (RUFINO, 2019).


As religiões de matrizes africanas sofrem, até os dias atuais, com o processo de demonização, sendo uma religião não cristã, tudo que advém deles são “coisa do demônio”, “é do diabo”, como dito anteriormente, o Orixá que rege o corpo, prazer sexual, a fertilidade e a potência é Exú, é bastante comum observamos este Orixá a figura mais atacada e demonizada pela sistemática colonial.


Este Orixá possui o falo como uma das suas representações, mostrando seu poder de fertilidade, o sistema cria a artimanha de distorcer esse significado sacro da cosmogonia africana para afirmar que é o capeta.


Exú é a esfera que nos possibilita um reposicionamento do corpo. A disponibilidade conceitual inscrita nesse signo nos revela dimensões historicamente negadas pelos regimes de verdade mantidos pelo Ocidente. A emergência de novas perspectivas, a partir de Exú, nos permite credibilidade princípios, domínios, e potências dos seres que transgridem parâmetros da política colonial. Cabe ressaltar que essa política de dominação exercida há mais de quinhentos anos é demasiadamente concentrada na violência contra os corpos. Assim, a violência praticada nos cotidianos da colônia autoriza a coisificação dos seres, do mesmo modo que a coisificação perpetua a violência. Nesse sentido, funda-se uma lógica de governabilidade da vida, uma marafunda viciosa que substancia o sentido existencial do homem branco (colonizador) em detrimento do desvio do ser não branco (colonizado). RUFINO, L., Pedagogia das encruzilhadas, pág:129, Rio de Janeiro, Mórula, 2019.

 

“A chave do cativeiro, virado no Exu Trunqueiro / Viradouro é Catimbó, Viradouro é Catimbó / Eu tenho corpo fechado, fechado tenho meu corpo / Porque nunca ando só, porque nunca ando só”.

É com o refrão deste samba enredo que inicio o destrancamento do portão para libertar os corpos docilizados, pois é preciso transbordar as revoltas dos corpos oprimidos deste projeto colonial do desencanto.


Iremos agora nos encantar, fechar o nosso corpo, sacralizar e o transformar em terreiro para que os Orixás possam fazer sua morada.


É através das frestas do Estado que se manifesta em becos e vielas das comunidades que primamos o ebó (ritual de purificação e limpeza) epistêmico. Os saberes afrodiaspóricos são essenciais para ocorrer a transgressão necessária, pontuando algumas como: mandinga, incorporação, transe, ginga, esquiva e drible.


“Ê, Juremeiro, curandeiro ó/Vinho da erva sagrada, eu viro num gole só/Catiço sustenta o zeloso guardião/Trago a força da Jurema, não mexe comigo, não”, este verso do samba nos mostra um ritual que Malunguinho avivou para sacralizar seu corpo e alma.



Este vinho da erva sagrada citada no verso, é uma bebida ritualístico da Jurema Sagrada, como também o Ọtí nos candomblés, licores da Iansã, cerveja branca de Ogum, Aruá de Oxóssi (considerada o primeiro refrigerante brasileiro), e marafo de Exú, são algumas destas as práticas do encantamento do corpo.


Pensar o corpo como terreiro parte da consideração que o mesmo é assentamento de saberes e é devidamente encantado. O corpo codificado como terreiro é aquele que é cruzado por práticas de saber que o talham, o banham, o envolvem, o vestem, e o deitam em conhecimentos pertencentes a outras gramáticas. Tais ritos vigoram esses corpos os potencializando ao ponto que os saberes assentados nesses suportes corporais, ao serem devidamente acionados, reinventam as possibilidades de ser/estar/praticar/encantar o mundo enquanto terreiro. L. SIMAS, L., RUFINO, Fogo no mato A ciência encantada das macumbas, pág:50, Rio de Janeiro, Mórula, 2018.

É através das práticas dos saberes ancestrais afrodiaspóricos que terreirificamos o corpo, assim estamos prontos para a luta contra o projeto colonial. Assumimos agora atitudes políticas e éticos para o devir supravivente.


“Do parlamento das tramas, para os quilombos modernos/ A quem do mal se proclama, levo do céu para o inferno” “O rei da mata que mata quem mata o Brasil/ O rei da mata que mata quem mata o Brasil” é com estes versos que Malunguinho incorpora o ser ético e político, lutando contra a opressão daqueles que operam no desencanto e na dominação dos corpos e na exploração e desmatamento para saque dos minérios. Malunguinho, o portador da chave do cativeiro para libertar escravizados.


Malunguinho agora é supravivente, ele é capaz de driblar a condição de exclusão por meio de práticas de estratégias e táticas para que saibamos atuar nas batalhas árduas e constantes da guerra pelo encantamento do mundo (SIMAS e RUFINO, 2020).



O supravivente é a capacidade da continuação no pós-vida, pois a morte, na cosmogonia afrodiaspórica, é o esquecimento. Malunguinho tem seu retorno como Mestre Juremeiro e Exú Trunqueiro, para a continuação da libertação dos corpos, ensinando seus saberes ancestrais, transgredindo a lógica colonial, possibilitando novos seres.


No cinema, podemos observar de forma muito bem representada no filme Besouro, está passagem de um momento vivo carnalmente, para um ser encantado. Ao final do filme, Besouro ao batalhar com o branco, sofre um apunhalado de uma faca feita do material que é fraqueza de seu corpo fechado, não resistindo e falecendo.



Após sua morte, ele passa a ser encantado e incorpora naqueles que ele protege, encanta com suas habilidades de capoeira, dando suporte na continuidade da luta contra o colonizador. Ser supravivente é poder tornar-se encantado.


Nas bandas daqui a noção de encantamento vem sendo ao longo do tempo trabalhada como gira política e poética que fala sobre outros modos de existir e de praticar o saber. O encantado é aquele que obteve a experiência de atravessar o tempo e se transmutar em diferentes expressões da natureza. A encantaria, no Brasil, plasmada na virada dos tambores das matas e no transe de sua gente cruza inúmeros referenciais para desenhar nas margens do Novo Mundo uma política de vida firmada em princípios cósmicos e cosmopolitas. A noção de encantamento traz para nós o princípio da integração entre todos as formas que habitam a biosfera, a integração entre o visível e o invisível (materialidade e espiritualidade) e a conexão é relação responsiva/responsável entre diferentes espaços-tempos (ancestralidade). Dessa maneira, o encantado é a prática do encantamento nada mais são que uma inscrição que comunga desses princípios. L. SIMAS, L., RUFINO, Encantamento Sobre política de vida, pág: 7, Rio de Janeiro, Mórula, 2020.

Nosso dever é lembrarmos da nossa ancestralidade, avivar e afirmar a vida em suas qualidades, encantar esse projeto de desencanto. “Atabaque ecoou, liberdade que retumba/Isso aqui vai virar macumba” (pré-refrão do samba enredo Bembé, da G.R.E.S Beija-Flor de Nilópolis deste ano).

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