É Hoje o Dia da Alegria: a memória que fez da União da Ilha eterna
- Thais Alves

- há 16 minutos
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“É hoje o dia da alegria,
e a tristeza nem pode pensar em chegar!”

O saudoso e histórico verso, que em época de carnaval ou não, está sempre na boca de cariocas e entusiastas de sambas-enredo, ou apreciadores de grandes composições, é uma das letras mais famosas e reconhecidas da escola de samba União da Ilha.
O clássico da música popular brasileira está em nosso imaginário a partir de sua lírica simples e metalinguagem, ao exaltar ao próprio samba e evento carnavalesco em todos os aspectos da sua musicalidade.
A composição inesquecível de Didi e Mestrinho e interpretada pelo grandíssimo finado Aroldo Melodia repousa em nossas mentes desde 1982, e nos traz a discussão sobre o que é realmente ganhar um título de campeã do grupo especial, mesmo com composições que marcam todo um país no qual tem sua cultura fundamentada na musicalidade.
Mas acontece que, nem só de samba-enredo popular e poético se ganha um título, senão, sem dúvidas, a União da Ilha já teria vários, assim como outras escolas.
A coisa toda está no conjunto. Como sabemos, a nota final é o que vale. A bateria, as fantasias e alegorias, comissão de frente, a fluidez do desfile, e outros aspectos técnicos e sobretudo estéticos, demandam recursos financeiros.

Assim como no futebol, infelizmente somente com raça não se ganha. Para além de um ataque maestral – e falando de samba e futebol, aqui me recordo de Fio Maravilha- é precisa uma boa distribuição das funções de meio de campo e defesa, e tudo isso, como dito antes, envolve recurso$.
Nem só de gol e samba-enredo vivem um time e uma escola de samba! Quem lembra do Flamengo no Intercontinental em 2025, que jogou magnificamente contra o Paris Saint-Germain, mas perdeu nos pênaltis?
Eu não estou puxando a sardinha nem pro meu Flamengo e nem pra minha União da Ilha aqui, somente falando sobre o que gere nossos gostos modernos (e quiçá cariocas): o dinheiro, que dita as regras de muitos jogos, direta e indiretamente.
A União da Ilha, fundada em 1953, mas que só chegou no Grupo Especial em 1975 através da saída em 1974 do segundo grupo, com Lendas e Festas da Yabás, composta e interpretada novamente por Aroldo Melodia, e até regravada pela grande Elza Soares em 1975, possui desde então inúmeros motivos de orgulho para a população da Zona Norte do Rio.

Em 1977 o título de campeã quase veio, com o samba-enredo “Domingo”, onde o minimalismo da União confrontou as enormes alegorias, ficando em 3º lugar. A escola chegou perto de levar o título também em 1978 com o enredo de “O Amanhã”;
"Como será o amanhã Responda quem puder O que irá me acontecer O meu destino será como Deus quiser”
Em 1979 o enredo de “O que será?” novamente quase levou a melhor, mas em 1980 a União obteve o título de vice-campeã com “Bom, Bonito e Barato”, e em 1982 nem com o histórico enredo de “É Hoje” a União levou o título de campeã.

“Festa Profana” de 1989 foi também um dos mais célebres enredos da época, composto por Bujão, Franco e J. Brito, e interpretado pelo grande Quinho, que mais a frente se integrou ao Salgueiro, intérprete também do grande samba “Peguei um Ita no Norte” de 1993... Não lembra? “Explode coração na maior felicidade...”. Lembrou, né?
Voltando à União da Ilha, os famosos versos de Festa Profana celebram a euforia não somente carnavalesca, mas todo prazer mundano sem relação a religiosidades e valores morais.
“Eu vou tomar um porre de felicidade, vou sacudir, eu vou zoar toda cidade...”
E já que estávamos falando de futebol, este samba-enredo saiu da Sapucaí e da quadra da União a ponto de estar presente até nos louvores das arquibancadas da final da Copa América do mesmo ano, onde o Brasil disputou e venceu o título contra o Uruguai, de 1x0, com o decisivo gol de Romário.

Entre quase altos e baixos, surge então outro dos maiores hinos carnavalescos em 1991:
“Hoje eu vou tomar um porre, Não me socorre, Que eu tô feliz”
“De Bar em Bar, Didi um Poeta”, sob interpretação novamente do grande Aroldo Melodia, o samba é uma ode à alegria carnavalesca e carioca, que junto a boemia dá fuga na tristeza, saudando o compositor de diversos sambas- enredos memoráveis da escola, Didi, falecido em 1987, um burocrata que deixou de lado o ofício de advogar para se entregar a arte da composição e da vida no samba. O enredo de 1991 foi composto por um de seus rivais de caneta, Franco.
Após disputas e incêndios que atrapalharam a década de 90 para a União da Ilha, em 2001, a escola desce então para o Grupo de Acesso, e volta em 2010 para o Grupo Especial com o incrível e esperançoso enredo de “Dom Quixote De La Mancha, O Cavaleiro Dos Sonhos Impossíveis” que relata sobre seu retorno à disputa no Grupo Especial, trazendo metáforas relacionadas a lendária literatura de Dom Quixote. Infelizmente a escola retornou para o Grupo de Acesso.
“A Ilha vem cantar Mais um sonho impossível... sonhar Quem é que não tem uma louca ilusão E um Quixote no seu coração”
O desfile de 2010 assinado pela carnavalesca Rosa Magalhães, teve o samba-enredo interpretado por Ito Melodia, que até hoje mantém o legado do pai Aroldo, e foi escrito coletivamente por diversos compositores da escola.
Com mais um lindo enredo, em 2014, interpretado também por Ito Melodia, e composto coletivamente, a União resolveu trazer a leveza da infância como tema central em “É Brinquedo, é Brincadeira. A Ilha vai levantar Poeira” e lançou mais um atemporal samba para os ouvintes recordarem a pureza de ser criança.

Homenageada por renomados artistas como Caetano Veloso, Dudu Nobre, Fernanda Abreu, Arlindinho, dentre outros, a União da Ilha tem seu nome consolidado como uma das maiores escola de samba do Rio de Janeiro. Até mesmo Alcione dedicou seu vozeirão para consagrar a escola, em “União da Ilha do Governador”.
A musicalidade carioca se cruza nas ruas entre memórias afetivas que conectam entusiastas do samba-enredo, e compreendem o carnaval como festa e comemoração que vai muito além de premiações e troféus.
Sabemos que a verdadeira construção do samba se faz no compasso coletivo do coração dos foliões e dos tamborins e caixas que ecoam nos dias de ensaio, treinando para o campeonato final na Sapucaí.
Os eternos sambas da União da Ilha constituem a história musical e cultural do Rio de Janeiro e do Brasil, em conjunto a outras completas composições de incríveis poetas e artistas, que constroem o maior show da Terra.
Referências:









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