Varal: Entre Chuvas e Memórias — documentário revela histórias das enchentes na Baixada Fluminense
- Pedro Santos

- há 11 horas
- 12 min de leitura
23 de maio de 2026, 19:45 min
Pilar – Duque de Caxias

O clima estava agradável, o tempo colaborou hoje porque dá para ver o céu limpo. Tive a honra de estar presente em um dos dias de exibição de “Varal: Entre Chuvas e Memórias”.
Para ficar melhor, estava para começar um jogo do Flamengo e o pessoal que chegava para assistir o curta-metragem comentava sobre.
Antes de começar o evento, ocorre um discurso explicando a proposta daquela exibição, que foi basicamente explicitar o resultado das entrevistas realizadas e das filmagens dos locais que foram alvo das fortes chuvas que abalaram Caxias, Nova Iguaçu e Belford Roxo.
O produto foi um documentário que ganhou apoio do SESC e que ele rodaria em colégios, centros culturais, dentre outros locais que possuíam parceria com a instituição na Baixada Fluminense.

NATÖ, o diretor do projeto, organizou com a família uma sala de cinema no quintal da casa de seus pais para receber os moradores do bairro com o intuito de gerar uma contribuição para a área a respeito de sua pesquisa com Lucas Bussi e Beatriz Honorato, que também foi a diretora de arte do projeto. Para isso, ele contou com a ajuda de Guilherme Leopoldo, que ficou responsável pela direção de fotografia e pelo roteiro junto ao próprio NATÖ e ao João Vieira.
Particularmente, gostei da forma a qual foi pensada a exibição, mesmo que inicialmente a intenção fosse a portas abertas e com vista para a rua. Por questões técnicas e de som ao redor, acabou que o melhor jeito foi sendo a portas fechadas, e isso deu um clima intimista além de reter a atenção para os filmes que iriam ser exibidos.

A abertura foi o sensacional registro de Azis Gabriel sobre a trajetória da banda KMD5 (Pivete falou mais sobre esse material aqui no Cine Menó).
Nele eu pude entender os pontos que levaram a banda a ser uma referência a nível fluminense e, de certa forma, nacional quando o assunto se trata de reggae.

E foi, para mim, inusitado ver uma banda de Belford Roxo — até porque não sou um profundo conhecedor do gênero musical, o que faz com que eu conheça a maioria das coisas pela primeira vez, e tudo bem — ser pilar do estilo, e ver todo o processo de formação dela, ainda mais pelas lentes de uma pessoa que teve a oportunidade de levar essa arte para o Centro Cultural Donana, no dia seguinte, que foi onde tudo começou.
[Azis]: É uma experiência muito legal assistir ao filme com muitas outras pessoas vendo pela primeira vez e tendo essa experiência. É uma experiência que eu vivo há bastante tempo, assim, faço parte de um movimento cineclubista aqui da Baixada, que é muito forte, e sempre gostei de assistir ao filme e debater depois com as pessoas para elas apresentarem suas experiências, seus sentimentos dentro dessa perspectiva junto ao filme e, pô, satisfação muito grande em reexibir o filme aqui em Caxias. A primeira vez foi no Sesc, e amanhã vou estar exibindo a primeira vez em Belford Roxo, que é exatamente de onde eu sou. A gente vai estar exibindo lá e vai saber como é que as pessoas vão reagir. Foi lá pro Sesc e tá retornando aonde deveria estar, no Centro Cultural Donana. Filme que fala do orgulho de ser de Belford Roxo, ser da Baixada Fluminense e ser também uma referência para novas gerações de músicos, de artistas, que é importante falar que de onde você é, de falar que a Baixada é um celeiro de oportunidades de artistas, de músicos, de cineastas, de atores, atrizes. Então é isso, acho que é importante a gente sempre estar falando da Baixada Fluminense da melhor forma, e também trazer essas questões de denúncia, né, pra trazer melhorias, trazer novas perspectivas para nossa cidade e nossa região.
Durante a programação, saquinhos de pipoca foram distribuídos para o público para aproveitar o momento.
Mas sabia que ali não era uma noite para ficar de risos e de carinha feliz, se tratava de uma mostra de traumas, dores recorrentes de quem vivia todo dia com a saúde debilitada devido ao ambiente prejudicado pela poluição e saneamento básico precário.
Fiquei com isso na cabeça enquanto estava a caminho do local, porém não senti essa carga emocional ao chegar em casa.
Foi o contrário, pois eu via o pessoal ansioso para curtir algo fora da rotina ali no final de semana.
Prosseguindo para o curta da noite, a obra veio com tudo. Digo que veio com tudo porque tiveram momentos que não suportei e soltava umas lágrimas com os depoimentos dos moradores ao longo do filme.

A imersão nele foi intensa, o desespero que algumas pessoas tiveram ao perder tudo após as enchentes podia ser sentido na pele. Eu tive dificuldade para respirar em certas passagens dele, o desconforto foi alto, mas eu precisava continuar na missão de captar.

O filme começa com a narração de Lorena Pires apresentando os descasos que veremos ao longo do curta, seguido por recortes de falas que questionam qual o projeto político e ambiental que é reservado para o povo brasileiro diante do avanço do neoliberalismo dentro das cadeiras parlamentares, e quando terminam as provocações, somos transportados para o primeiro caso das enchentes que abalaram os moradores durante o início do ano de 2024: Pilar.
Quando NATÖ apresenta a história da formação do bairro durante o ciclo do ouro no Brasil-Colônia, o mesmo dirá que não houve riqueza nenhuma repassada para o povo de lá. Pelo contrário, só abandono e, obviamente, muita água.
Os depoimentos dos moradores eram estarrecedores. As casas eram atingidas de forma que os guardas roupas não tinham salvação, isso quando era só o guarda roupa. Teve gente que perdeu tudo em questão de meses.

Um depoimento que me chocou foi o de Rosilene, que dizia sobre ensinar seus filhos muito cedo sobre regras básicas durante os períodos de enchente, como a de subir os móveis e pedir ajuda ao vizinho sempre que pudesse.

NATÖ foi uma dessas crianças que aprenderam essa palavra no sentido literal porque o fenômeno estava ali diante dele, tomando espaço em todos os cômodos.
O impacto das enchentes era enorme e isso tinha uma causa. No verão de 2024, o bairro ficou debaixo d’água por 40 horas, e o investimento que poderia ser feito a partir do orçamento público destinado de R$4,3 bi (2023) foi irrisório: somente de R$70 milhões, o que corresponde a 1,6% do total.
Aí podemos ver que não é um acidente, é um projeto público feito para matar pelo descaso. Falar que se trata de uma fatalidade pela natureza é escancarar na nossa cara que pessoas merecem perecer.

Então vemos a questão de Areia Branca, localizado em Belford Roxo, altamente afetado pelo transbordamento dos rios Botas e Sarapuí. 7 mil pessoas ficaram desabrigadas durante o mês de janeiro daquele ano.
A água, dizia Heros, um dos residentes, batia no peito e ele filmou um vídeo no celular para comprovar o absurdo volume de água que alcançara. Outro relato que revelava isso foi o de Luiz Felipe, ao falar que o que viam na TV era a história de muitas das pessoas, inclusive a dele.
Se não fosse a mobilização dos próprios moradores e de locais como a Casa Quilombel, mais famílias estariam mais ilhadas. Foram 15 dias de doação de alimentos, fraldas, roupas e outros mantimentos para aqueles que não tinham mais nada depois das enchentes.

A burocracia e a falta de planejamento para redução de danos dificultaram o recomeço de muita gente, e quando iam para ajudar, o auxílio não tinha finalidade.
Não é um mapeamento para contabilizar quem perdeu moradia ou não que vai resolver, tampouco a chegada de repórteres para falar de forma superficial para a mídia. O Projeto Iguaçu, assim como outros, foi interrompido por falta de interesse político, causando esse desastre mais do que exponencial.
Como que um município impulsionado pela expansão industrial e ferroviária do Rio de Janeiro no século XX se tornou um lugar inóspito e uma verdadeira prova de resistência para existir? A resposta mora na falta de acolhimento do poder público. Mais uma vez, se trata de um projeto.
E chegando ao último bloco, temos a questão de Morro Agudo. O bairro de Nova Iguaçu foi também um dos que mais sofreram com o transbordamento de um dos rios citados no caso anterior.

Entre os dias 13 e 14 de janeiro de 2024, foi registrado um volume de chuva de 235 mm em 14 horas, o bastante para causar deslizamentos que mataram diversas pessoas e desapareceram com outras.

Viviane, conterrânea, disse que entra ano e sai ano, vem enchente e leva tudo. Ela se sentia bem triste com o quadro, uma vez que pessoas da família foram atingidas e que pessoas próximas a ela também tiveram parentes que entraram nesta estatística.
Alan e sua esposa, Diana, também ficaram bem preocupados quando sabiam que ia vir chuva. A água, de acordo com o morador, chegou a mais de dois metros de altura, e quem morava na parte de baixo, perdia tudo, enquanto o poder público só se preocupava com um viaduto que não tinha serventia nenhuma.
Mas o que mais me deixou impactado ao assistir este bloco foi a fala de Jorge Antônio sobre a concessionária CCR Nova Dutra não ligar para nada disso. A obra em questão é um escoamento que começa na Via Dutra e deságua na altura dos supermercados Casa do Sabão, do outro lado dela.
Como a água não tem um caminho, ela “acha” o seu, que no caso acaba sendo a de milhares de residências ali por perto. Um município que possui orçamento de 2 a 3,5 bilhões de reais ao ano não tem um investimento permanente massivo para prevenção de enchentes.
A enchente, narra Lorena, não é um erro, ela é um resultado de séculos de um Brasil inventado para virar negócio. E como quem mora nele vai manter suas esperanças se toda vez que chove, um dos primeiros lugares que se precisa pensar depois de tudo é o varal?

Pesado demais para dizer que é apenas poético o final, é luta contra o conformismo e a indisposição representada na sétima arte.
Quando o curta terminou, as palmas foram batidas. NATÖ então agradece ao pessoal presente e convida para uma roda de conversa para opinarem sobre os filmes exibidos para nós. Todos elogiaram as obras, sem sombra de dúvidas.
No entanto, as opiniões foram diversas quanto ao clima em relação ao futuro do bairro, porque algumas pessoas ali disseram que moram há cinquenta anos e não viram nada mudar, como foi o caso de um senhor que veio do Nordeste e comparou a situação de lá com o que ocorre na Baixada.
Ele afirma que é um ciclo vicioso.
[Morador 1]: Não estou querendo jogar a pauta de água fria no seu trabalho, mas eu tenho certeza absoluta que daqui a 55 anos, de novo, vai ter outros NATÖs na vida fazendo tipo como você fez agora. O processo vai continuar do mesmo jeito, sabe por quê? Os políticos, sabe? Eles precisam que alguém sofra pra eles poderem pedir fora. Se não tem ninguém sofrendo, quem é que vai voltar nisso? Entendeu? Eles precisam da Baixada Fluminense inundada, eles precisam das favelas com tráfico de drogas, eles precisam de todo esse povo ferrado, que é pra poder pedir voto. O Brasil sempre foi assim, sempre será. Daqui a um milhão de anos, vai ser a mesma história. Vai ter a inundação da Baixada, vai ter tiroteio na favela. A gente vai ser sempre assim porque eles fazem é curral eleitoral.

Outra contribuição que quis destacar foi de um de rapaz que morou no Jardim Brasil, que é um sub bairro do Lote XV. Esse depoimento mexeu comigo porque ele ao descrever a experiência dele durante o tempo que morou, ele conseguia sentir o cheiro de minhoca por causa do pós-enchente.
Fiquei assustado porque até um cheiro poderia trazer memórias horríveis.
[Morador 2]: Eu costumava, quando era criança, falar que o cheiro do pós-enchente era cheiro de minhoca. Porque é aquele cheiro de lama que vem de água de valão, né? A própria ideia de valão é uma ideia super problemática pra gente, né? E eu lembro de sentir o cheiro disso recentemente e o bagulho me despertar uma parada surreal, sabe? De memória dos meus pais acordados de madrugada, olhando pela janela, tentando entender o que vai acontecer. Da galera já subindo o móvel, botando um sofá em cima de cadeira. Então, são danos que a gente pega de uma maneira muito zoada, sabe? E aí, gente, eu não sei como é que bate pra você, eu acho que bate de uma maneira muito parecida, que é partir pro outro lado, se tornar acadêmico, estudar, entender como que a máquina gira e se descobrir mais uma vez impotente quanto a isso. E é muito difícil porque é difícil a gente ouvir os relatos, é difícil a gente bater no lugar de não saber o que fazer, ao mesmo tempo que eu acho que o trabalho de vocês é um absurdo nesse sentido, porque vai de um lugar de cara, só a gente entende mais ou menos como é que funciona essa ideia.
Apesar do trauma, ele põe bastante fé e crê que esses trabalhos darão futuro pois podem ser inspiração para outras gerações as quais vão passar pelo mesmo e, assim irão mobilizar mais do que a de hoje.
Existe um otimismo não só na fala dele, mas como a de outras pessoas que estavam presentes ali na noite. Se eu ficar aqui falando de todos os depoimentos, caberia para um dossiê completo do que foi aquela data. Eu vi o que significava comunhão mesmo, senso de comunidade.

Assim que a roda termina, rola uns agradecimentos ao pessoal que foi assistir aos filmes, a equipe envolvida no Varal e no KMD5, e a quem cedeu suas histórias para que fizessem parte disso.
Aproveitei pra agradecer por aquele momento e, mesmo sem saber o que dizer e como dizer — porque na real não tinha nada pra dizer e era bom só ouvir e absorver o que tinha acontecido naquele quintal —, fui perguntar como algumas pessoas que da equipe do curta se sentiram depois de ver o filme.
Falei com o NATÖ, com o Guilherme, e com a Lorena.
[NATÖ]: Acho que em primeiro lugar o filme chegou no lugar de onde ele saiu, sabe? Acho que o filme só faz sentido, só tá completo agora. Acho que em primeiro momento, mais do que ser emocionante, mais do que ser importante enquanto mobilização, ele é um acontecimento de propósito, sabe? O propósito desse filme é reunir essas histórias que são esquecidas, essas histórias são dessas pessoas, essas pessoas vieram ver esse filme, que fala delas e que foi criado na perspectiva de elas se verem dentro. E foi muito gratificante, assim, fiquei muito feliz de ver que elas se viram. Sempre falam que cinema não se faz sozinho, né, e isso tem questão técnica, de equipe e tudo mais, mas principalmente público, né? Acho que desde que a gente fez esse filme a gente teve vontade de trazer pra cá, porque eu acho que a galera que assistiu hoje também faz parte da construção disso.

[Guilherme]: Então, satisfatório demais poder ouvir as histórias e tudo mais. Enfim, super emocionante também. Eu tava de cantinho aqui, mas bem emocionado. Poder ver uma realização de um amigo, poder ajudar a realizar uma parada, sabe? Poder sentir que a gente também tá fazendo um pouquinho, sabe? De pouquinho em pouquinho a gente vai juntando e vai chegando no objetivo maior. E é isso, cara. Só agradecer mesmo.

[Lorena]: Eu acho que eu tenho, assim, algumas coisas pra pontuar enquanto evento exibindo os dois filmes. Querendo ou não, acho que a nossa geração é uma geração que teve mais acesso, né? Então, de certa forma, mesmo que seja ainda uma coisa muito nichada, eu acho que a gente consegue acessar mais esse tipo de programação. E o que eu entendo é que coletivamente a gente tem muita dificuldade de acessar a nossa história. Temos as nossas experiências individuais, que às vezes a gente troca com os nossos vizinhos, às vezes a gente troca com os nossos parentes, mas a gente não consegue entender isso, talvez, numa perspectiva de comunidade, né? E aí eu acho que tanto o trabalho do Gabriel, que fala sobre a banda do pai dele, do tio dele, da família dele, que tem uma importância não só pro território, mas pra história da música que se desenvolveu no Rio de Janeiro, no Brasil. E também o Varal, que mostra essa perspectiva da enchente, né? Mas numa perspectiva coletiva. Então a gente acessa três lugares diferentes ali, e esse evento acontecer no bairro, acontecer pra pessoas que na maioria das vezes não se sentem representadas pelas coisas que elas veem no audiovisual o evento tem a importância nesse sentido. Então, achei importante essa exibição primeiro, porque elas se viram representadas e porque foi possível compartilhar diversas histórias diferentes, assim, fortalecer essa ideia de coletivo mesmo.

Naquela noite aprendi que falar sobre o seu bairro faz diferença quando conseguimos alcançar outras pessoas que tem o mesmo desejo que o seu.
Mais do que compreender a revolta, vi naquele quintal de uma casa no Pilar como que uma comunidade pode ser representada tendo a linguagem ideal, e que seja acessada e utilizada por quem faz o bairro.
Com certeza foi uma das produções mais difíceis da minha vida, porque tinha que encarar com responsabilidade o carinho que tiveram comigo, e transformar isso em leitura foi foda.

Um mundo passou por mim enquanto escrevia esse texto.
FICHA TÉCNICA Roteiro: NATÖ, Guilherme Leopoldo e João Vieira @_flashprince @ilogtivieira_ Direção: NATÖ @natocomtrema Direção de Fotografia: Guilherme Leopoldo Direção de Arte: Beatriz Honorato @bigga_ch Direção de Produção: Lorena Pires @cyberlori Direção de Som: Lúcio Perpetuos @lucioperpetuous Mix/master: INBUTE @inbuteog Trilha original: Dosanjo @dosanjo__ Narração: Lorena Pires Assistente de direção: João Vieira Operador de Câmera: Higor Cabral (Higordão) @higordaotopshow Assistente de Câmera: Vitor Garcia @garciaprod Drone: Yuri Veriato @yuriveriato Fotografia Still: Marina Maux @marinamaux Assistente de Produção: WARGUS @wargusmusicbxd Assistente de Arte: Leonardo Shaolin @flowshaolin Elenco: NATÖ, Rayane Pereira @rayy.pereira, Dorgô @dorgodj, Raimunda Izanete, Rosilene Mendes, Carlos José, Luís Felipe Ribeiro, Heros Silva, Alan dos Santos, Diana Oliveira, Viviane, Jorge Antônio Edição: Guilherme Leopoldo e NATÖ Designer: Mariana Andrade @mariananddrd Pesquisa: NATÖ, Lucas Bussi @lucasbussi e Beatriz Honorato
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