KMD5: Documentário Revela a Resistência Cultural em Belford Roxo nos Anos 80
- Pivete

- 14 de abr.
- 5 min de leitura

Viver na Baixada Fluminense durante a Ditadura Militar e o início dos anos 80 era caminhar sob a sombra constante do medo, num compasso ditado pela sobrevivência.
O território foi marcado pela atuação implacável de grupos de extermínio e figuras como o famigerado "Mão Branca", que transformaram o cotidiano em um estado de alerta permanente. Esse cenário de abandono e brutalidade do Estado culminou em um título que nenhuma cidade desejaria carregar: naquela época, Belford Roxo era taxada como a cidade mais perigosa do mundo.

Durante a entrevista, o diretor Azis recorda essa atmosfera pesada, questionando como, em meio a esse caos, uma juventude conseguia respirar arte e querer fazer música. Ele pontua que, apesar do estigma, sua vivência no bairro é diferente do que os jornais pintavam, ressaltando que em seu bairro não costumavam acontecer episódios de violência e que o nome da cidade acabou se tornando um sinônimo injusto para quem vê de fora.

A cultura, naquele chão rasgado, ergueu-se como a maior tática de sobrevivência possível. Enquanto o noticiário se limitava a focar na violência noticiada, no quintal da Dona Ana e nos arredores dos terreiros, o ritmo era outro.
O documentário revela que o surgimento da lendária banda KMD5 não foi apenas um evento musical, mas uma estratégia para trazer uma outra perspectiva de vida. Azis explica que a banda nasceu desse ambiente artístico-cultural da Baixada, influenciada por seu pai, Dida Nascimento, que é além de referência cultural, músico, artista plástico e capoeirista. A tática de sobrevivência do grupo vinha do fato de assumir a própria voz, de se colocar como artista, criando uma memória que pudesse inspirar o futuro.

Havia, acima de tudo, uma identidade forjada contra o estigma para manter a cabeça erguida. Em vez de esconderem a origem para serem aceitos nos grandes centros, eles faziam questão de levar o nome de Belford Roxo para o palco. Na entrevista, Azis menciona o impacto de bandas como o KMD5, que reverteu a questão do noticiário ao levar a Baixada para outros lugares com uma mensagem de potência.
Ele cita o exemplo de Heraldo HB, cineasta e articulador cultural da Baixada que atua no Mate Com Angu e no Gomeia Galpão Criativo. Heraldo conta que via jovens da Baixada pegando ônibus para a universidade e fingindo que não eram de Caxias ou de São João de Meriti para evitar o preconceito. Mas ao ver o KMD5 no Circo Voador reafirmando suas raízes, a chave virou. Como Azis afirma, o território é a própria pessoa, e o filme busca justamente reafirmar essa origem.

Construir um futuro exige olhar para os escombros com a coragem de reconhecer as sementes que vingaram no asfalto. O arquivo documental que compõe a base deste projeto é um inventário valioso de teimosia favelada. Azis relata que mergulhou na pesquisa após perceber a riqueza do material que seu pai guardou a vida toda: flyers, cartazes, fitas VHS, cassetes e fitas magnéticas.
Ele sentiu a necessidade urgente de descobrir o que havia naquele acervo e o que aquilo significava para a nossa história. Através desse resgate, o objetivo é fazer com que a história reacenda, servindo de acesso direto para a nova geração, com a intenção de disponibilizar as músicas e todo esse material em mídias digitais.
O filme funciona como uma máquina do tempo, que reconhece o quanto a Baixada é dura, mas reafirma que o afeto e a cultura são as ferramentas mais eficazes para romper o ciclo de dor. Para Azis, é uma missão familiar que reflete as trajetórias de muitos outros parentes e vizinhos que queriam viver da arte e não tiveram a mesma oportunidade.
A química do KMD5 sempre foi uma parada de sangue e território.
No começo, o núcleo era o Dida Nascimento, o Lauro Farias e o Marrone — uma irmandade que já pulsava no quintal da Dona Ana. Mas faltava a batida que amarrasse aquele reggae pesado com a urgência das ruas. Durante a entrevista, o diretor Azis revela que o elo perdido foi encontrado através do Lauro:
"O Marcelo Yuka chega na banda... o Lauro já conhecia o Yuka de algum lugar, de algum contexto de música".

Essa chegada não foi apenas a entrada de um baterista; foi o encontro de mundos que pareciam distantes, mas que batiam no mesmo compasso. Azis descreve com precisão que o Yuka trazia uma perspectiva que o grupo, mergulhado na crueza da Baixada, ainda estava organizando.
Ele pontua que o Yuka era "um cara que tinha uma visão estética, uma visão de mundo", e que, apesar de vir de um contexto que alguns poderiam rotular como mais privilegiado, ele se jogou de corpo e alma naquela vivência periférica.

No documentário, fica claro que a entrada de Yuka foi o "estalo" que faltava para a banda ganhar contornos de movimento. Azis explica que ele ajudou a organizar a identidade visual e o conceito que envolvia o KDM5. Não era apenas tocar reggae; era sobre como se portar, como falar e como levar a potência de Belford Roxo para fora.
"O Yuka era um cara que tinha uma... ele trazia essa coisa da organização, da estética", afirma o diretor. destacando que essa troca foi fundamental para que a banda deixasse de ser apenas um ensaio barulhento no quarto com caixa de ovo para se tornar a "Energia, Música, Dimensão e Controle" que mudaria a história.

O Centro Cultural Donana serviu de laboratório para esse encontro. Naquelas tardes, Yuka não apenas batia nos tambores; ele absorvia a ancestralidade do Dida e o peso do baixo do Lauro. Essa simbiose foi o que permitiu, anos depois, que ele escrevesse letras que viraram o espelho do Brasil.
O KMD5 foi o útero dessa consciência.
Como Azis reflete, documentar como o Yuka chegou na banda é mostrar que a nossa arte é feita de pontes, e que o encontro entre o talento bruto da Baixada e a visão estratégica do Yuka criou um legado que, como vimos na trajetória de O Rappa e do Negril, nunca parou de ecoar. É a prova de que, quando o território se une em torno de uma ideia, o som atravessa qualquer barreira.

O Nosso Som Pede Passagem
O documentário de 25 minutos dirigido por Azis coroa o resgate histórico da banda KMD5, levando memórias de fitas VHS e ensaios no quintal da Dona Ana diretamente para as telas de cinema. Mais do que um simples registro, o filme é um ato de justiça e um manifesto visual projetado para circular no próprio território, permitindo que a juventude da Baixada Fluminense se reconheça em sua própria grandeza.

As exibições pelos Sescs da região são um convite para celebrar a resiliência da arte periférica:
17/04: Sesc Duque de Caxias (14h)
18/04: Sesc São João de Meriti (14h)
28/04: Sesc Nova Iguaçu (19h)

Estar presente nessas estreias é reivindicar a narrativa local e provar que a energia e a música plantadas nos anos 80, no meio do caos, continuam a ecoar com força incalculável na cultura nacional.





Comentários