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UOTOTOGOKA: D$ Luqi fala sobre racismo, masculinidade e o direito de ser humano

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UOTOTOGOKA começa na experiência de um moleque preto da Baixada Fluminense que gostava de música, tocava guitarra em banda de garagem, mas não enxergava aquilo como uma possibilidade de vida.


Não porque faltasse interesse, mas porque a própria ideia de viver de arte parecia pertencer a outro mundo.


Na conversa com a Revista Menó, D$ Luqi lembra que nunca havia pensado profissionalmente na música porque nem sabia que aquilo era possível para alguém como ele. Quando começou a trabalhar aos 18 anos, de carteira assinada, abandonou a música e entrou no que chama de “ciclo da vida normal para qualquer pessoa periférica, da Baixada”, sobreviver, trabalhar e tentar fazer um pé de meia. Foi apenas durante a faculdade de Letras que a criação começou a aparecer como possibilidade concreta.



A literatura mostrou que a linguagem também podia criar mundos e, em 2017, ele começou a escrever e publicar músicas. Só que rapidamente encontrou outra barreira: produzir alguma coisa não significa que alguém vai parar para ouvir. Durante anos suas músicas passaram despercebidas, até que o humor e a produção de conteúdo na internet furaram essa primeira barreira.


A trajetória entre humor e música ajuda a entender bastante UOTOTOGOKA porque uma das disputas que atravessam o álbum é justamente a possibilidade de ser reconhecido para além da imagem que os outros constroem sobre você.



Luqi diz que a internet cria pequenas fotografias das pessoas. Você chama atenção fazendo alguma coisa e, para parte do público, passa a ser apenas aquilo. 


“Aquilo vira você, pra sempre. Não existe um ser humano antes daquilo, nem depois daquilo.” 

Para ele, foram necessários dois trabalhos. Primeiro chamar atenção, depois demonstrar que existia uma pessoa inteira por trás do recorte que viralizou. A transição do humor para a música exigiu abrir a própria história, suas inseguranças, traumas e experiências que normalmente não seriam colocadas em público.


“Eu lutei muito pra ter o meu lugar ao sol, pra ser visto pelas pessoas, e tive que lutar em dobro pra demonstrar pra essas pessoas que, no momento que eu chamei a atenção, eu tinha mais a dar.”


É justamente essa vontade de ser percebido por inteiro que atravessa UOTOTOGOKA. O álbum foi apresentado pelo próprio artista como seu trabalho mais íntimo e reúne questões familiares, emocionais, políticas, filosóficas e espirituais.


O título vem de um personagem que Luqi inventava quando criança enquanto criava histórias sozinho para fugir de uma realidade difícil. A resposta sobre o significado do nome aparece somente na última faixa, recuperando um áudio antigo do próprio artista e levando o disco de volta para a infância.


O que poderia ser apenas uma lembrança ganha outro peso quando colocada ao lado da entrevista. Luqi explica que algumas crianças inventam mundos de maneira inocente e outras fazem isso por necessidade. No caso dele, diz ter precisado escapar de uma realidade atravessada pela experiência de ser um jovem negro e periférico.


UOTOTOGOKA nasce, portanto, de uma memória muito anterior à carreira. O personagem criado pelo menino para fugir do mundo retorna no homem adulto que agora tenta compreender o mundo pela música.



Só que falar de si, no caso de D$ Luqi, rapidamente vira falar sobre estruturas maiores. Talvez por isso uma das primeiras ideias apresentadas pelo álbum seja tão direta: “na minha vez o Pelé é branco”. 


Na entrevista, Luqi explica que começou a perceber um padrão nos diferentes espaços pelos quais passou, primeiro na literatura, depois na comédia e finalmente no rap.


“Eu percebia que eu tava em desvantagem por ser quem eu sou. Literalmente isso.”

Ele diz ter acompanhado pessoas fazendo coisas muito parecidas com aquilo que ele fazia, mas recebendo mais respeito, reconhecimento e carinho simplesmente por serem brancas.


No rap, essa sensação ficou ainda mais evidente. Quando abordava política, família, religião, pobreza ou experiências pessoais pesadas, Luqi sentia que aquilo possuía menos valor para o público do que trabalhos muito mais superficiais produzidos por artistas brancos. 


“Eu falando de problemas familiares pesados, de ‘sou um moleque preto da favela, não tive muita atenção do meu pai, eu tive uma vida muito difícil’, e aí é ‘mais uma vez o neguinho violento, o neguinho reclamando da vida de novo’.”


O que aparece em sua fala não é apenas uma reclamação sobre reconhecimento artístico. É uma pergunta sobre quem recebe o direito de ser considerado profundo, sensível, complexo ou universal.


Quando explica a ideia por trás de “na minha vez o Pelé é branco”, Luqi amplia ainda mais essa leitura. Na entrevista, ele diz que o título já apresenta o tom do álbum porque simboliza a sensação de entrar num jogo cujo resultado parece definido antes mesmo da partida começar. 

“O jogo já tá perdido pra mim. Eu já entrei perdendo, eu já entrei tomando 7 a 1 no primeiro minuto do jogo.”

Depois continua a metáfora dizendo que o campo, o hino e a torcida pertencem aos outros. Ainda assim, ele escolhe continuar jogando. Não há nessa fala uma celebração simples da meritocracia, porque Luqi não afirma que o esforço individual elimina desigualdade. Pelo contrário. A batalha permanece inclusive depois do sucesso.




Em outro momento da conversa ele lembra que o álbum já acumulava milhões de reproduções, havia um público consolidado e uma turnê acontecendo, mas sua percepção sobre o lugar ocupado dentro da indústria permanecia praticamente a mesma.

“Não importa os números, não importa nada disso. O álbum está lá batendo quase 5 milhões no Spotify, legal, muito maneiro, eu tenho um público, mas a luta é a mesma, desde o dia 1 não mudou absolutamente nada.”

É nesse ponto que UOTOTOGOKA se torna um álbum político sem precisar abandonar sua dimensão íntima. Política, para D$ Luqi, não aparece como uma camada colocada artificialmente sobre a música. Ela atravessa a forma como ele experimenta o cotidiano, sua relação com raça, território, religião, família e reconhecimento. Isso fica claro quando ele fala sobre seu próprio público.


Parte significativa das pessoas que acompanham seu trabalho, segundo o artista, é formada por jovens brancos e cristãos que não compartilham diretamente muitas das experiências presentes nas músicas.


Para alguns artistas isso poderia representar um limite, mas Luqi interpreta justamente como possibilidade.

“É muito fácil você pregar para convertido”, diz.

Para ele, conversar somente com pessoas negras, periféricas ou de religiões de matriz africana que já compartilham dos mesmos referenciais seria permanecer dentro de uma zona conhecida. A potência está também em alcançar quem provavelmente não encontraria aquelas discussões em outros espaços.



É daí que surge Patrice Lumumba dentro do álbum. Luqi sabe que grande parte dos jovens que o escutam provavelmente nunca ouviu falar no líder congolês e nas lutas anticoloniais africanas. Ele conta que decidiu colocar essa referência dentro das músicas justamente sabendo que parte do público poderia ser apresentada àquela história pela primeira vez.

“Eu sei que a maioria dessa rapaziada jovem agora, de 17, 18 anos, jamais ouviria sobre Patrice Lumumba, e agora tem milhares de jovens aí que ouviram sobre ele e sabem a história do cara, e alguns foram até procurar um pouco mais.” 

Para Luqi, isso é uma das maiores possibilidades abertas pela arte. Ele não pretende abandonar quem chegou pela estética, pelo humor ou pela música para construir uma obra destinada exclusivamente a quem já domina aquele repertório político. Prefere aproveitar a atenção conquistada e dizer “agora vamos falar de um assunto sério, tem um problema na sociedade, tem uma rapaziada que não está sendo ouvida”.


Essa postura também ajuda a compreender como a religião aparece em seu trabalho. Luqi fala abertamente de sua relação com os orixás e com as religiões de matriz africana, inclusive num espaço cultural em que referências cristãs muitas vezes são tratadas como universais enquanto outras espiritualidades continuam enfrentando preconceito. Em vez de suavizar esse aspecto para tornar sua imagem mais vendável, incorpora a religião à própria narrativa. 



Na entrevista, lembra que muitos dos jovens que acompanham seu trabalho são cristãos e conta já ter recebido relatos de pais dizendo que seus filhos tiveram através das músicas um primeiro contato com discussões sobre negritude, religiões afro-brasileiras e luta negra.


Para ele, conseguir estabelecer esse diálogo é justamente uma conquista:

“Às vezes eu não tive nenhum contato com macumba, ou com negritude, luta negra, nada disso, e foi você o cara que foi o primeiro a falar sobre isso para o meu filho.”

Luqi diz que ouvir algo assim representa um reconhecimento que apenas a arte poderia proporcionar.


Mas UOTOTOGOKA não pretende construir D$ Luqi como um sujeito politicamente consciente e, por isso, automaticamente resolvido. O disco também é sobre contradição. É nesse ponto que a masculinidade ocupa espaço central.


Na entrevista, Luqi observa que existe dentro do rap uma necessidade recorrente de demonstrar invencibilidade. O artista precisa ser aquele que tem dinheiro, carro, mulheres, força e capacidade de impor medo. É uma postura que, para ele, acaba sendo reproduzida porque se tornou parte da imagem associada ao sucesso dentro da própria cena.


“Existe muito uma parada de se mostrar invencível às vezes, de se mostrar bem sucedido. Eu tenho o dinheiro, eu tenho o carro, eu tenho a mulher, eu sou o cara que bato, eu sou o cara que mato.” 

Em UOTOTOGOKA, entretanto, sua intenção foi outra.

“Nesse álbum em específico eu queria demonstrar humanidade.”


Demonstrar humanidade, nesse caso, passa por admitir que a revolta não elimina o medo, a insegurança, a carência ou o trauma. Luqi reconhece que existe uma realidade concreta capaz de produzir raiva num jovem negro e periférico. Fala de abandono, ausência de assistência e das injustiças percebidas desde cedo, mas rejeita a ideia de que essa revolta precise apagar todas as outras dimensões daquele indivíduo. 

“A gente pode sim ser revoltado, pode ficar puto com a realidade, mas ainda a gente é ser humano, a gente passa por problemas, passa por traumas e por mazelas que a gente meio que reprime pra poder sobreviver.”

O problema dessa repressão, para ele, é que em algum momento tudo precisa encontrar uma saída.

“A gente não pode ficar chorando o tempo todo”, reconhece, mas completa que também não é possível carregar tudo indefinidamente.

Essa discussão fica ainda mais interessante quando Luqi traz a questão para suas relações mais próximas. Não existe em sua fala uma tentativa de transformar o homem negro apenas em vítima das estruturas. Ele também olha para os próprios conflitos e reconhece problemas dentro de casa, nos relacionamentos e em sua própria construção emocional. 



“Eu também sou contra o sistema, eu também quero lutar contra tudo isso, mas eu também tenho problemas com a minha mãe, cara. Eu tenho problemas com a minha namorada, eu tenho problemas na religião, eu tenho problemas filosóficos.” 

Para ele, muitos homens acabam incapazes de expressar essas questões porque cresceram observando ídolos que também precisam sustentar permanentemente a imagem de força. Dentro desse modelo, falar que brigou com a mãe, que ama a namorada mas não consegue se comunicar com ela ou simplesmente admitir que está perdido pode parecer incompatível com aquilo que se espera da masculinidade.


UOTOTOGOKA tenta quebrar essa obrigação e dizer que “você pode ser sensível também”, mesmo sendo alguém que continua lutando contra tudo e todos.


Por isso, uma faixa ligada à mãe não aparece como algo deslocado do debate político do disco. Ela faz parte dele. Família, abandono, cuidado e dificuldade de comunicação também ajudam a formar o sujeito que depois aparece falando de racismo, poder ou colonialismo. UOTOTOGOKA não organiza essas experiências em gavetas. O próprio artista define o álbum como um retrato de sua vida, reunindo experiências familiares, emocionais, políticas, filosóficas e espirituais.


As participações também seguem essa mesma lógica. Em vez de escolher nomes apenas pela estratégia de mercado, Luqi reuniu pessoas próximas, que conhecem sua trajetória para além da música e entendem aquilo que ele está tentando construir.

“Meu trabalho é a minha vida”, explicou ao falar sobre o projeto.


A ideia da dualidade humana atravessa boa parte da conversa. Luqi sabe que existe dentro dele a pessoa que quer lutar, enfrentar estruturas e sustentar suas escolhas, mas existe também alguém cansado.

“Não importa o quanto eu luto, eu ainda sou um ser humano. Eu vou estar cansado, eu vou ter dúvidas, eu vou ter diálogos internos, brigas internas.” 

Para ele, a beleza do álbum está justamente nesse conflito entre querer manter uma postura de força e reconhecer que as coisas estão dando errado, que existem inseguranças e que ninguém consegue carregar tudo sem ser afetado.


“O ser humano é feito disso, de dualidades.” 

É nessa recusa ao personagem perfeito que o álbum encontra uma das suas dimensões políticas mais fortes. Luqi exige humanidade do mundo, mas também olha para a própria humanidade sem tentar limpá-la das contradições.


Tudo isso também faz parte de um lugar específico. Quando perguntado sobre a presença da Baixada em sua obra, Luqi evita uma ideia homogênea sobre o território. 

“Eu sou um cara da Baixada, explicitamente. As minhas vivências são todas na Baixada”, 

mas logo chama atenção para a diversidade interna da própria região. Ele se vê distante daquilo que chama de centro da Baixada e descreve a experiência de viver numa margem dentro da margem. Fala da linha de trem próxima de casa, das particularidades daquele pedaço de Caxias e conclui que “existem várias Baixadas dentro da Baixada”.



Essa observação parece simples, mas toca numa questão importante para uma obra tão atravessada por identidade. Mesmo a categoria “periférico” não consegue explicar sozinha todas as experiências. Territórios que vistos de fora parecem iguais possuem seus próprios centros, margens, linguagens, trajetos e memórias.


Talvez seja por isso que Luqi também tenha construído um público que funciona quase como um ecossistema próprio. Ele conta que esse nicho nasceu organicamente, sem grande investimento financeiro, apenas a partir da circulação das músicas e da identificação das pessoas com aquilo que estava dizendo.


Hoje, afirma que a própria comunidade leva o trabalho adiante. Para ele, isso permitiu alcançar algo que durante muito tempo parecia distante: viver de música sem precisar abandonar completamente aquilo em que acredita.



“Eu sou muito agraciado e muito grato por isso, por conseguir viver de música de verdade, sem ter que me vender, sem ter que fazer o que eu não quero fazer, porque durante muitos anos eu tive que fazer o que eu não queria fazer sonhando em fazer o que eu gostaria de fazer.” 

Ainda assim, ele não transforma essa conquista numa promessa de enriquecimento ou sucesso universal. Diz que não pretende ser milionário e prefere que sua própria trajetória sirva para mostrar a outros jovens que é possível construir alguma coisa mesmo quando o caminho é lento, difícil e desigual.


No fim, UOTOTOGOKA parece juntar as diferentes batalhas que D$ Luqi precisou travar para ser percebido como uma pessoa inteira. Primeiro foi necessário conseguir atenção. Depois mostrar que existia um músico por trás do humor. Depois mostrar que o músico negro e periférico podia falar de racismo sem ser reduzido à raiva, falar de religião sem tornar sua espiritualidade palatável, falar de política sem abandonar afeto, falar de masculinidade sem fingir invencibilidade e falar de família sem transformar intimidade em fraqueza.


“Eu quero que vocês me vejam como um ser humano”, diz em determinado momento da conversa.


Talvez essa frase atravesse o disco inteiro porque a disputa presente em UOTOTOGOKA não parece ser apenas pelo direito de falar. É também pelo direito de não precisar escolher uma única versão de si para ser compreendido.


O menino que inventava “Uototogoka” para escapar de uma realidade dura cresceu. A fuga virou música, mas o mundo que obrigou aquela criança a criar outros mundos não desapareceu. Racismo, desigualdade, intolerância religiosa, ausência de oportunidades, masculinidades construídas pela repressão e o peso de sobreviver continuam presentes. O que mudou é que agora Luqi consegue transformar essas experiências em linguagem e fazer com que outras pessoas entrem em contato com elas.



Na entrevista, ele se define de um jeito que talvez ajude a fechar essa história melhor do que qualquer tentativa de transformar sua trajetória numa grande narrativa de vitória:

“Eu tô aqui fazendo esse papel, só tenho um holofote na minha cabeça e é isso, eu sou só mais um que teve a sorte de ser ouvido.”

UOTOTOGOKA é o que D$ Luqi decide fazer quando finalmente é ouvido. Em vez de simplificar a própria história para alcançar mais gente, ele coloca mais coisa dentro dela. Baixada, mãe, racismo, macumba, amor, Patrice Lumumba, raiva, infância, masculinidade, culpa, filosofia e sobrevivência passam a habitar o mesmo disco porque sempre habitaram a mesma pessoa. 


E talvez seja justamente essa a política mais fundamental do álbum: num mundo acostumado a transformar pessoas negras e periféricas em personagens fáceis de reconhecer, D$ Luqi reivindica o direito de permanecer complexo.







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