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Lessa Gustavo e Muitobomloopar em Sereno da Via Light (2025): Uma Imersão no Rap da Baixada Fluminense

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura
Caminhar pela Baixada Fluminense é, antes de tudo, entender uma coreografia de resistência que o mapa oficial do Rio de Janeiro insiste em ignorar. Não se trata apenas de geografia, mas de uma "materialidade histórica" que pulsa entre o trem da SuperVia e o asfalto quente.

É nesse cenário, onde o suor se mistura à poeira das estradas que ligam o subúrbio à capital, que Lessa Gustavo fundamenta a sua nova e mais ambiciosa obra: Sereno da Via Light.



Direto do coração da Baixada, Lessa Gustavo e o produtor Muitobomloopar apresentam este disco como um passeio experimental e imersivo. É um trabalho que quebra compassos e expectativas através do rap, fugindo de qualquer fórmula pronta que o algoritmo tente impor. 

Se em trabalhos anteriores, como o marcante EP Cor de Deus Quando Foge (2023), Lessa já demonstrava uma urgência em buscar o novo, aqui ele atinge um estado de maturação onde a música se torna uma extensão física do seu território.



A Via Light como Artéria e Horizonte


A Via Light não é apenas uma avenida famosa em Nova Iguaçu; é um símbolo de trânsito, sobrevivência e rito de passagem. Para quem é de Mesquita ou de "Iguaçu", ela é a pista que liga ao destino final, a Pavuna, o portal para a capital. Mas, para o duo, ela guarda uma mística que só quem vive a madrugada entende: o sereno.


Foto: @madebydogz
Foto: @madebydogz

"A Via Light... ela não tem casa na beira, sabe? Ela tem mato em algumas partes. Então ela rola um sereno à noite... tanto na parte comercial quanto nessa parte que é mais vazia. Rola esse sereno que gripa", reflete Lessa na entrevista.

O álbum é uma travessia pela mente, pela cidade e pela própria vida do artista. Cada faixa funciona como um pedaço de experiência, um olhar íntimo e urbano, pulsante e sensível, capaz de conduzir o ouvinte por altos e baixos, silêncios e gritos. É um mosaico sonoro e emocional que reafirma a potência da colaboração com Muitobomloopar e o suporte estratégico do selo multicultural carioca NCI Media. O resultado é uma obra que não se limita a um gênero ou a um espaço, mas se expande, vibra e permanece.


A Engenharia do Garimpo: O Método Loopar


O processo de construção de Sereno da Via Light levou quatro anos. Enquanto o mercado exige lançamentos mensais, Lessa e Loopar optaram pela "marinada". A produção musical de Muitobomloopar opera como uma arqueologia: o som não vem de bancos de dados digitais, mas do toque da agulha no sulco do vinil e da extração de texturas de fitas VHS e DVDs esquecidos.



"A gente fez um disco não convencional de rap usando os métodos mais convencionais... que são métodos também meio defasados hoje em dia dentro da cena. Quase nada veio da internet", explica o artista.

Essa escolha técnica cria uma sonoridade "turva" e nostálgica, mas com uma urgência contemporânea. A captação e edição, realizadas no OuvidoPai (Torre de Eurídice), e a mixagem/masterização de Marco Caramelli (Sampa Beatstop), garantem que esse aspecto "sujo" do sample dialogue perfeitamente com a clareza da mensagem de Lessa.


Foto: @madebydogz
Foto: @madebydogz

Colaborações e Redes de Afeto


O disco não é um esforço solitário, mas um encontro de mentes que compartilham a mesma ética de trabalho. As participações especiais aparecem em momentos estratégicos:


  • Sopa Preta (Geru Jamal): Na faixa 3, trazendo a linhagem de quem apresentou essa estética ao grupo.



  • Duvô: Na faixa 11, representando a irmandade cotidiana da cidade.



  • SUB DELTA: Na faixa 12, selando a conexão internacional antes de sua partida para a Espanha.



Essas conexões, aliadas à produção executiva de Igor Serra, mostram que o trabalho independente da Baixada atingiu um nível de profissionalismo que não deve nada aos grandes centros, mas que mantém o "pé no barro" e a identidade preservada.


O Artista Visual e a Materialidade da Fita


Prestes a se diplomar em Artes Visuais, Lessa Gustavo não separa o som da imagem. A capa do disco, assinada por ele em parceria com o fotógrafo Eduardo Severi, é a primeira em dez anos de carreira onde ele decide "botar a cara" de forma direta.


Foto: @madebydogz
Foto: @madebydogz

"Sempre tive capas com fotos de objetos, ou só minha mão... mas essa marca os 10 anos de amizade com o Loopar. A gente criou a Banal Label junto lá no início, então era hora de mostrar quem somos".

Essa preocupação com o "objeto" levou à decisão de lançar o álbum em fita cassete. Para Lessa, a materialidade é um rito de resistência contra o descarte digital. É a prova física de que o "corre" existiu. É um rap para ser tocado, guardado e estudado — o que ele define carinhosamente como "rap de nerd", focado em uma escuta de qualidade feita por quem realmente ama a cultura hip hop.


O Legado do Sereno


Foto: @madebydogz
Foto: @madebydogz

Sereno da Via Light comunica a vivência de quem precisa fazer o dobro para ser notado. Lessa discute a imigração, a hostilidade urbana e a necessidade de se manter autêntico. Se o Lessa de 16 anos, influenciado pela MTV e pelos trens da SuperVia, pudesse ouvir este disco hoje, ele entenderia que o "capital simbólico" que conquistou vale mais do que qualquer métrica vazia.


Lessa Gustavo e Muitobomloopar não entregaram apenas música; entregaram um documento histórico da Baixada Fluminense em 2025. 

Um disco que, ao falar do sereno que gripa na Via Light, acaba falando da alma de todo artista que escolhe a verdade em vez da fórmula.



FICHA TÉCNICA (CRÉDITOS)

  • Título: Sereno da Via Light
  • Lançamento: 13 de novembro de 2025
  • Voz e Composições: Lessa Gustavo
  • Produção Musical: Muitobomloopar
  • Selo: NCI Media
  • Participações: Sopa Preta (faixa 3), Duvô (faixa 11) e SUB DELTA (faixa 12)
  • Captação e Edição: OuvidoPai @Torre de Eurídice
  • Mixagem e Masterização: Marco Caramelli @Sampa Beatstop
  • Direção de Arte e Capa: Eduardo Severi e Lessa Gustavo
  • Produção Executiva: Igor Serra

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