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Big Rush Não Aprendeu a Parar 

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 4 dias
  • 5 min de leitura
Big Rush Não Aprendeu a Parar
Big Rush Não Aprendeu a Parar

Eu conversei com o Big Rush lá em meados de março. Naquele momento, ele tinha acabado de lançar TORNADO (2026). Antes disso, já tinha colocado no mundo Domingo à Noite e Showbiz. De lá pra cá, enquanto essa entrevista descansava no meu caderno, ele lançou mais dois projetos: MEDO e ALÉM DO MAR.



Talvez essa seja a primeira coisa que você precise entender sobre o Rush: ele não para.

Enquanto boa parte da indústria musical tenta transformar artistas em produtos previsíveis, encaixados em nichos e fórmulas prontas, Rush parece seguir no caminho contrário. Um disco melancólico, outro cheio de boom bap, depois um projeto experimental misturando plug, samba, arrocha e piseiro. Quando você acha que entendeu o artista, ele já virou a esquina.


A conversa, no entanto, revelou que essa inquietação não nasce de estratégia de marketing. Ela vem de alguém que passou a vida inteira tentando não criar expectativas demais.


"Eu me considero uma pessoa pessimista. Sempre penso no pior. E isso acabou sendo um bom método de defesa contra o mundo da música. Eu já esperava que as coisas pudessem dar errado."


Nascido na Baixada Fluminense e criado em Irajá, na Zona Norte do Rio de Janeiro, Rush carrega uma trajetória que mistura rua, internet e experimentação. As lembranças da infância não passam necessariamente pela música. Passam pelas brincadeiras que hoje quase desapareceram.


"Eu jogava bolinha de gude, jogava pião, brincava na rua. Depois que fui ficando mais velho, ninguém mais ia pra rua. Aí comecei a usar mais a internet e depois comecei na música."


A música chegou sem grandes cerimônias. Não houve uma epifania nem um plano de carreira desenhado. Houve curiosidade.


Ao acompanhar artistas do Rio, como a galera da Pirâmide Perdida e do Bloco 7, ele começou a acreditar que também podia fazer aquilo. Descobriu o FL Studio, começou produzindo beats e, quando ninguém rimava em cima deles, decidiu rimar ele mesmo.


"Quando eu via esses caras fazendo música, eu acreditava que eu conseguiria fazer música também, tipo, descobri o FL, descobri formas mais fáceis de fazer música hoje em dia, e eu fui pra cima, eu fiz os testes, comecei a testar a produção, comecei fazendo beats. Muita gente não rimava nos meus beats, então eu comecei a rimar nos meus próprios beats, e aí foi assim que eu comecei a rimar, a ter coragem de rimar." 

Desde que acompanho seu trabalho, lá dos tempos de "C Walk" com a Fire Gang, uma característica nunca mudou: a recusa em ficar confortável.


O sucesso de Plug da Nuvem poderia ter transformado Big Rush em apenas mais um nome associado ao plug brasileiro. Não aconteceu.


“Eu não tinha certeza se as pessoas iam gostar. Na verdade, eu achava que as pessoas iam odiar. Mas foi bom que deu tudo certo. Foi bom que as pessoas gostaram. E é por causa do Plug da Nuvem que hoje eu continuo soltando músicas melódicas e músicas diferentes também.”


O disco que ajudou a consolidar sua identidade surgiu quase como um acidente.


“Foi muito teste. Muito experimental. E é até por isso que hoje em dia eu só solto as músicas, tá ligado? Eu não planejo tanto a divulgação, o marketing. Tem muitos ouvintes meus que me cobram isso, mas, enfim, é o jeito que funciona melhor pra mim, de soltar várias músicas. Começou ali, no Plug da Nuvem, porque eu tinha muitas músicas soltas no SoundCloud e muita gente pedia pra eu lançar oficialmente. Um belo dia eu juntei tudo, pedi uma capa pra um amigo, escolhi o nome mais genérico do mundo e lancei. As faixas nem tinham tanto a ver umas com as outras, mas combinavam numa certa sequência. Foi assim que nasceu. Foi como um teste que deu bastante certo.” 

O que nasceu como uma coletânea de faixas espalhadas pelo SoundCloud acabou se tornando um dos marcos da sua trajetória. Mas, ao invés de se acomodar na fórmula que funcionou, Rush decidiu continuar procurando novas.


"Eu sempre tive a mentalidade de fazer coisas novas. Sempre."

Talvez seja justamente aí que esteja sua principal característica artística. Não no gênero que faz, mas na incapacidade de permanecer no mesmo lugar.



Quando falamos sobre referências, ele faz questão de diferenciar inspiração de cópia. O interesse nunca foi reproduzir o que os gringos fazem. O interesse é entender as possibilidades.


"Eu nunca gostei de fazer exatamente a mesma música que um gringo faz, sabe? Eu bato neurose até pra fazer remix. Às vezes eu caio pra fazer algumas faixas e depois descubro que era um remix. Uma vez eu pedi pro cara mudar o beat porque ele tinha feito exatamente igual ao original. Eu sei que você refez o beat, mas tenta fazer outro tipo de beat, porque você fez exatamente como é o beat original. Eu bato muita neurose com isso. Quando o bagulho fica exatamente igual, eu não gosto." 

Essa busca constante por novas combinações aparece especialmente em Domingo à Noite, projeto onde mistura a melancolia do plug com elementos de samba, arrocha, piseiro e outras sonoridades brasileiras.


"Isso que é a brasilidade também. Pegar as referências e transformar em outra coisa."

E faz isso sem qualquer complexo de inferioridade cultural.


"Recentemente eu tenho tomado cuidado pra não ser injusto com essas referências que as pessoas fazem com o bagulho lá de fora. Porque, parando pra pensar, o brasileiro faz isso. Não é só no rap. Tem várias músicas, até antes de eu nascer, que são traduzidas, são a mesma melodia, a mesma batida e até mesmo uma letra traduzida." 


O curioso é que, apesar de toda a experimentação, existe uma linha invisível ligando praticamente toda sua discografia: a melancolia.


Rush fala sobre relacionamentos fracassados, solidão, despedidas e desencontros com uma frequência que chama atenção.


Mas ele não vê isso como negatividade.


"Eu gosto de fazer músicas melancólicas porque ajudam as pessoas a passar por aquilo. As pessoas me falam muito isso. Que as músicas ajudam elas a atravessar certos momentos da vida."

Talvez seja por isso que sua obra encontre tanta gente espalhada pelo Brasil.

Não porque oferece respostas.

Mas porque oferece companhia.


Enquanto muitos artistas escrevem para impressionar, Rush parece escrever para dividir peso.


E essa conexão construída longe dos grandes centros da indústria é o que mais o surpreende até hoje.


"É muito doido pensar que tem uma pessoa do outro lado do Brasil, tem uma pessoa lá em Manaus, que ouve minhas músicas diariamente e se importa com o que eu me importo, se importa com o que eu estou sentindo. É muito doido isso." 


A independência também moldou sua visão de mundo.

Rush não romantiza a caminhada.

Não fala sobre meritocracia.

Não vende a ideia de que basta acreditar.

Pelo contrário.


Ele lembra do primeiro microfone improvisado, dos equipamentos precários, dos investimentos feitos sem garantia de retorno.


"Tem que começar. Tem que botar a cara. Tem que se estressar, gastar dinheiro. Nenhum início de carreira independente vai ser fácil."

Talvez seja justamente por isso que ele valorize tanto as estruturas coletivas que construiu ao longo do caminho.


Mesmo evitando o rótulo de coletivo, faz questão de destacar as pessoas que caminham ao seu lado. Parceiros de estúdio, produtores, DJs, fotógrafos, designers e amigos que ajudaram a transformar uma ideia em carreira.



Porque, apesar de ser um artista independente, Big Rush nunca foi uma jornada individual.

E talvez esse seja o retrato mais fiel dele hoje.


Não o rapper do plug.

Não o rapper do boom bap.

Não o artista melancólico.

Nem o cara que lança cinco projetos em poucos meses.

Mas alguém que continua tratando a música como laboratório.


Um artista que parece mais interessado na próxima descoberta do que na última conquista.

Enquanto muita gente busca encontrar sua fórmula perfeita, Big Rush continua procurando novos caminhos.


E talvez seja exatamente por isso que, depois de tantos discos, tantas mudanças e tantas reinvenções, ele ainda pareça estar apenas começando.


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