top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Melodia & Barulho (2025): Maui e a arte de equilibrar mundos

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 10 de dez. de 2025
  • 8 min de leitura

Ouvindo Maui, artista caxiense e baixadense, e seu álbum Melodia e Barulho (2025), me encontro em loop na faixa “Inocência”. Ela me faz lembrar do corre da adolescência, de viver longe da capital, de ser de um município com poucos aparelhos culturais, com uma política que pouco dialogava com a juventude, refém de um passe livre que mal garantia a volta pra casa.


O ódio à cidade - que fazia tudo parecer distante - se confunde com a letra da música, com a voz linda da dupla Yoùn, também da Baixada, que eu garanto ter cantado entre lembranças de um passado recente. Porque não é só música: é território. É o caminho do trem, as estações, os trajetos que moldam a gente e moldam a obra do Maui.



E talvez seja justamente aí que o disco toca mais fundo: no lugar onde melodia e barulho convivem, se misturam, disputam espaço e formam uma coisa nova. Uma estética. Uma vida inteira.


E é impossível não ouvir Maui e sentir que ele tá narrando a mesma trilha que muitos de nós caminhamos. Até porque ele mesmo diz que “foi muito difícil ser um moleque que mora longe”, mas que dessa distância tirou força e criação - “se eu não fosse um menor que mora longe, não teria as duas horas de ônibus pra ficar ouvindo discos igual um maluco e agora fazer música melhor que vários playboy”.


Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

Entre gospel, metal, trap e charme: o caos vira conceito


Quando Maui começa a falar de si, fala com cuidado, quase pedindo desculpa por falar de si. “É estranho falar sobre mim, acho que não me acostumei ainda”, ele admite.


Voltando para a infância, lembra do pai que tocava qualquer instrumento “que tivesse no dia”, e da mãe que, mesmo sem cantar, enchia a casa de Whitney Houston, JB, soul e R&B.

Daí nasce a primeira melodia.



A adolescência traz o primeiro barulho:


“Eu mergulhei no universo do metal, ouvi tudo que tinha pra ouvir de subgênero… era minha válvula de escape pra lidar com as pressões.”

Era o rock gritado que dava vazão ao silêncio imposto ao “bom garoto” que vendia bala no trem e estudava numa escola que vivia operação policial.


Só que logo ele percebeu que aquela energia não estava presa a um único gênero: 


“O que eu buscava no rock não tava exclusivo ao rock… era sobre essa música que tira do lugar.”

Aí entram o trap, a música eletrônica, o dubstep. E, alguns anos depois, o retorno às raízes: pagode, samba, charme - as festas de família que ele tinha deixado de lado e reencontra com maturidade.


Maui resume essa travessia de forma simples e profunda:

 “Eu precisava de uma arte que representasse esses dois lugares. Não é tudo ruim, mas também não é tudo bom. Eu não queria ter que escolher.”

Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

Quando “melodia e barulho” vira identidade


Antes de ser álbum, Melodia & Barulho (2025) foi uma frase solta, um insight despretensioso que um amigo designer pescou no ar: aquilo não era só frase - era identidade.


“Quando ele ligou isso na minha mente, foi como se uma porta nova tivesse sido aberta.”

Dentro dessa porta, Maui começou a guardar tudo que vibrava no conceito: vídeos, fotos, trechos, sensações. 

“Um vídeo no TikTok, uma foto, um áudio… tudo. Quando a sala tava bagunçada, entrei lá pra entender.”

A arte do disco nasce dessa mesma lógica: colagem, multiplicidade, fragmentação.


Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër
“Muitos estímulos… vivendo em 2025, né, mano?”

A vida é fragmentada.

A arte também é.


A ambiguidade como método e como vida


O disco tem três atos: euforia, introspecção e calmaria. Começa na rua - festa, movimento, aceleração. No meio, Maui volta pra dentro, “olhar para casa, olhar pra si” ao falar de "Há Volta”.

O final traz um sopro de tranquilidade possível.


Mas nada é total.


A calmaria nunca é só calma.

A euforia nunca é só alegria. 

O barulho nunca é puro caos. 

A melodia nunca é só leveza.


Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

“Tudo de bom que aconteceu com a gente tinha um aspecto muito ruim, e tudo de ruim também tinha um aspecto muito bom. A gente não consegue separar as experiências.”

Essa é a alma do disco.

Essa é a alma da Baixada.

E essa é a alma de quem escuta.


Da fome ao baile: quando o poema abre o disco


O álbum começa com a voz de Sílvia de Mendonça recitando Tem Gente com Fome, de Solano Trindade - dois pilares da luta negra que vêm de Duque de Caxias.


Maui fala dela como quem fala de família:


“Ela é melodia e barulho também… referência política e pessoal.”


A escolha não é estética - é recado.

O disco pode ser festa, mas a fome está ali.

Pode ser baile, mas o trem continua cortando a cidade com suas contradições.

Pode ser pagode, trap, samba, drum’n’bass - mas tudo nasce pelas mesmas mãos negras.


“Mesmo a música festiva tem que levar em consideração que você tá cantando a festa porque a dor tá ali, em paralelo.”

O Trem é o personagem político que atravessa tudo…


Maui insiste que o personagem do disco não é ele, pessoa física, mas sua pessoa política:

 “Ele é um jovem negro de periferia que tem alguns acessos que os pais não tiveram, mas percebe que ainda é muito pouco… a gente é novão, mas já tá geral cansado.”

Se a primeira parte de Melodia & Barulho fala de estética, memória e invenção, a segunda é inevitavelmente política. Não uma política panfletária, mas a política da sobrevivência - aquela que atravessa todo jovem negro que tenta criar alguma coisa na Baixada Fluminense. E, se eu puder exagerar um pouco, diria que isso acontece em pleno auge do genocídio e da criminalização do nosso povo desde a abolição.


Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

Maui sabe que seu corre não é isolado.


Ele é parte de um ecossistema inteiro de artistas que tentam fazer música num país onde a criatividade disputa espaço com o algoritmo, a melhora técnica disputa com a fome, e o sonho esbarra na lógica do mercado. Por isso, quando se posiciona, ele fala com sinceridade de quem vive a contradição todos os dias.


O Rap é político porque viver é político, mas há muitas formas de dizer isso.


“O hip-hop é um movimento de periferia, então necessariamente é um movimento de esquerda… até quem faz rap de direita tá fazendo política.”

Mas Maui não exige panfleto o tempo todo: 


“Você não precisa ser o Nelson Mandela nas rimas. O comportamento também comunica.”

E alerta: 


“Se você não se preocupar, vai acontecer por osmose - e provavelmente de forma negativa.”
Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

Em determinado momento da entrevista, pergunto para Maui sobre o avanço das inteligências artificiais na música e ele responde com o mesmo cuidado com que fala do próprio processo criativo. Não é uma recusa ingênua nem uma celebração vazia - é análise. Ele diz que a I.A. pode até ser ferramenta, mas que existe um perigo real quando a indústria transforma tudo em produto enlatado:


“Se tudo vira produto enlatado, se tudo vira repetição, você destrói o que tem de mais humano na música: que é a vivência, o sentimento e o risco.”

Pra ele, o problema não é a tecnologia - é o mercado.

É quando a máquina vira padrão e o artista vira exceção.

E numa das falas mais fortes da entrevista, ele solta:


“Tem gente fazendo música que não viveu a música. A I.A. só acelera isso.”

Ser da Preto e da Baixada, nesse contexto, se torna uma espécie de antídoto. Para Maui, existe algo que a I.A. jamais vai replicar:


“A contradição da vida de um jovem negro da Baixada.” 


Ser jovem, negro e artista indenpedente da Baixada Fluminense


Maui fala muito sobre independência artística. Não aquela da estética romântica, mas a independência dura, de “segurar a onda sozinho”. Ele trabalha, cria, cuida da filha, busca editais, vende show, produz, compõe.


É artista e é CLT.

É criador e é trabalhador. 

A vida independente na Baixada não é hype.


É luta.



E é por isso que ele não cai na armadilha do discurso neoliberal do “seja seu próprio chefe”. A construção do disco nasce da convivência, do teste, da troca. 


“Eu gosto muito de colaborar. Gosto mesmo. O disco é mais uma formatura do que uma experimentação.”

Foi criado nas madrugadas de Caxias, nos pequenos estúdios, nos encontros com ANTCONSTANTINO e os crias da Leigo.


“Meus amigos como o Fabris me recebiam pra ficar lá madrugada testando.”

Os amigos CL FEZ O BEAT e Pi formaram o núcleo criativo com Maui.

As participações vieram por pertencimento, não por marketing: 


“A gente tinha nomes grandes… mas eu bati o pé. Não queria cartela de publicidade.”

Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

Por isso Melodia & Barulho reúne Afrodite BXD, Cristal, Yoùn, Scof Savage, Maskotte, KBrum, Bruno Kroz, 2ZDinizz, Ogoin, DJs Linguini e Akai - artistas que dividem com ele território, linguagem, memória.


Num dos momentos mais bonitos da entrevista, Maui fala de Maskotte - não como feat, mas como parte da vida. Eles começaram juntos, dividiram palco, dividiram insight, dividiram dor e conquista. Ele diz:

“Maskotte é meu irmão. Ele acreditou em mim antes de eu acreditar em mim.”

E completa:

“A gente se entende na dor e na arte. É parceria de quebrada, de caminhada.”

O corre dos dois prova algo que o discurso do centro nunca entendeu:

na Baixada, ninguém se ergue sozinho.

Quem soma, soma porque precisa, não por estratégia.


Entre o trampo, a paternidade e o sonho


Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

O disco nasce dos intervalos possíveis entre responsabilidades adultas. 


“Tem sido difícil viver essa vida dupla de artista e de trabalho adulto… eu quero ter mais tempo, mais paz, poder pagar um plano de saúde.”

No meio das nossas conversas, das perguntas sobre estética, política e processo, fomos “interrompidos” - se é que essa é a palavra certa -  por algo maior, mais suave, mais urgente: sua filha.


Em determinado momento, Maui comenta:

“Eu tô tentando equilibrar tudo… música, trampo, saúde, minha filha. Quero ter mais paz. Quero poder dar tudo pra ela.”

Em outro trecho, ele fala mais um pouco da paternidade:

“Ser pai me mudou. É outra responsabilidade, é outro ritmo… parece que o relógio bate diferente.”

Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

É bonito perceber que, no meio de um disco sobre dualidade, o gesto mais inteiro do Maui foi esse: estar ali, 100% presente, mesmo dividido. A entrevista acontecia na tela; a vida acontecia fora dela - e ele não fugia de nenhuma das duas.


“Criar a Mali, educar a Mali, aprender com a Mali, é um presente muito grande e é o meu principal projeto da vida, assim. Eu achava que eu amava música até minha filha nascer, tá ligado? E eu fico muito triste pelos pais que se ausentam dessa oportunidade...”

A paternidade também atravessa Melodia & Barulho como camada invisível.


“A vida ganha um outro valor [...] porque a minha filha tá nela. Não é só eu. Ela tá nela também.”



Ela não está explícita nas letras, mas está no amadurecimento, na gestão emocional, na paciência, no ritmo com que ele organiza o caos.


“Eu sempre fui o menor que chorava uma vez por ano. Eu choro toda hora agora, né?”

Ser pai obriga a filtrar barulhos e escolher melodias.


E também revela outra dimensão da independência:não é só artístico - é familiar.


“Frequentemente eu tenho que viajar e estar longe da minha filha, e isso me dói… mas se eu não for atrás dos recursos, como é que eu vou criar ela?”

Divulgação/Wander Scheeffër
Divulgação/Wander Scheeffër

É decidir criar algo no mundo enquanto cria alguém no mundo. Mesmo nascendo com tão pouco, com tanta falta, seguir buscando caminhos melhores - uma herança que não seja só emocional, mas material, concreta, capaz de quebrar o ciclo que nos foi imposto. E não por acaso, na faixa que dá título ao álbum, a voz de sua filha MALI aparece - pequena, pura, mas poderosa - lembrando que o futuro dele não é só projeto: é pessoa.


Talvez seja essa a síntese mais honesta do Maui:

ele cria, mas também cria alguém.

Ele canta, mas também cuida.

Ele se divide, mas nunca se ausenta.


Ele mesmo diz:


 “Eu movimento as pessoas. Acho que essa é minha função na Terra.”

"Melodia&Barulho (2025)", o álbum de estreia do artista Maui, está disponível em todas as plataformas digitais.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page