Punho de Mahin "Entre a Penitência e a Ruptura": Entrevista da banda sobre o álbum
- Pedro Santos

- há 21 horas
- 12 min de leitura
Eu fui realizando algumas matérias que se misturam no universo da Revista, e senti que era necessário voltar ao começo. E quer saber de uma coisa? Nunca me senti tão bem em fazer isso.
Nesse período, a Punho de Mahin finalizava o seu segundo álbum, o “Entre a Penitência e a Ruptura”, que marca uma fase da banda que reúne a experiência de quase uma década de atividade, e se trata, ao meu ver, de um disco mais agressivo sonora e liricamente.
Muito se deve não só ao desenvolvimento do repertório da banda ao longo desses oito anos de existência, como também a entrada dela para a Deckdisc, famosa por revelar muitos talentos no meio independente e dos mais diversos gêneros musicais.
Outro aspecto que torna o álbum interessante é o reforço perfeito para que fosse gravado com o máximo de liberdade. Clemente Tadeu, conhecido por ser figura histórica do cenário punk brasileiro, ele foi o produtor desse trabalho e fez a Punho demonstrar por que o Punk nasceu preto.
No início do ano, conversei com todo mundo pra saber dos detalhes que teríamos quando o disco estivesse lançado. Cá estou eu, ainda digerindo essa pedrada na orelha que é a obra.
Demorei muito, muito, MUITO pra essa conversa sair do papel. Não foi fácil fazer 4 joias raras ouvirem um maluco como eu. Mas aqui está: A Punho, por ela mesma.

[Paulo]: A gente tinha gravado uma parte dele em meados do primeiro semestre do ano passado, talvez no final do primeiro semestre. E aí a gente precisava gravar uma segunda parte, porém tivemos um hiato entre as duas partes, e dentro desse hiato a gente começou a discutir questões sobre como é que o disco se chamaria [...] Em algum momento eu disse que poderia talvez ser “Entre a Penitência e a Ruptura”, e esse nome ainda ficou no ar com outros nomes, com outros conceitos, e aí a gente foi afinando coletivamente até chegar nesse título [...]. O disco é dividido em duas partes, ou seja, digamos que o lado A é a Penitência, que fala sobre diversas questões sociais, até situações de precarização do sistema carcerário feminino. Fala sobre meritocracia, [...] desigualdade [...], assuntos que acabam afetando a sociedade, no geral, principalmente a periférica [...]. E a segunda parte, que seria o lado B (Ruptura), já é um processo de celebrar a ascensão e a luta, sabe? Não a ascensão no nicho social que o capitalismo promove, mas [...] realmente a luta, a resistência, as conquistas, que no geral a população preta e a população pobre no geral [...] seja no campo da educação, seja no campo da coletividade, do aquilombamento, e também trazer uma ideia [...] de ancestralidade. Acho que essa palavra acaba também costurando muito o álbum, principalmente essa segunda parte.
[Natália]: É a mesma linguagem, só que a gente está olhando pra outras situações, né? Porque dentro do que é ser negro, a gente consegue apontar para vários caminhos, né? Tanto para o bem, quanto para o mal. E nesse álbum aí, a gente está mais maduro, né? Um pouco mais experiente em relação ao primeiro. E a gravação desse segundo álbum se deu totalmente diferente do primeiro, né? O primeiro a gente fez bem do it yourself, gravado com um parceiro nosso, o Fábio Godoy. Foi feito dentro de um estúdio, um bar-estúdio, que era da Camila. Esse aqui, nós já temos o Clemente como produtor musical, a Deck como gravadora responsável, e um estúdio referência aqui em São Paulo, né? Todas as bandas aqui do underground costumam ensaiar ou tocar lá, que é na RedStar.
[Paulo]: Eu acho que em relação ao primeiro disco também teve um certo refinamento em vários quesitos, não só técnico, musical, mas a gente já tinha repertório no primeiro disco. Acho que o fundamento da Punho de Mahin foi justamente essa junção de repertórios, mas o que dá o start para o Entre a Penitência e a Ruptura é um melhor refinamento no sentido de análise social e política. Não que a gente não tivesse no Embate (“Embate e Ancestralidade [2022]”), que para mim [...] tem uma potência bem gigantesca em termos de manifesto político, mas o Entre a Penitência e a Ruptura vai para além.

[Natália]: E a gente tem aí [...] sete anos de construção de um álbum para o outro. Então, com certeza, nesse meio do caminho, evoluímos fisicamente, mentalmente, evoluímos intelectualmente nas nossas questões. Então, nosso aprimoramento musical se dá também nessa evolução pessoal.
[Camila]: É, eu também acho que é aquela coisa assim de não ter receio de arriscar algo novo, não ter receio de misturar o punk, o d-beat, [...] misturar isso com as coisas que a gente gosta de ouvir, que estão totalmente fora do nicho do punk rock, né? Dentro do punk, dentro da própria cena, rola um certo conservadorismo, assim, de não misturar muito, né? Daquela coisa assim: ”não, tem que ser raiz né?”. E isso acaba limitando também bandas que têm um baita potencial, e não saem muito. Aí a gente fala, mano, a gente disputa tanta coisa, vamos aproveitar isso e enriquecer também o álbum, né?
Quando soube da entrada na Deck — gravadora independente brasileira ativa desde 1998, a qual consagrou diversos artistas —, procurei compreender se isso facilitou para a Punho.
[Du]: Ah, cara, teve um processo, assim, no meu ponto de vista, um processo até leve de construção das músicas, assim, apesar que nesse novo álbum tem elementos ali [...] super diferentes do punk convencional que, porventura, um ou outro pode achar o bagulho meio rebuscado. Mas são experiências que a gente vai trazendo da nossa expertise musical [...]. Eu entendo que essa segunda etapa de construção das músicas foi muito leve, muito rápida, inclusive [...]. O Clemente ajudou ali, dando seus toques, ele foi muito parceiro nesse sentido, né? Participando com a experiência dele, ajudando em solos, em dicas, dando as dicas dele. Então, meu, entendo que foi bem fluido [...].
[Paulo]: Eu acho também que foi orgânico, bastante orgânico. Na primeira parte a gente tinha as músicas já prontas. Então, Clemente meio que veio pra dar um start de mudanças minimamente estruturais, mas que não afetasse a música no geral. Acho que [...] saíram exatamente do jeito que a gente tocava, só que com um refinamento maior. E aí, as últimas cinco fluíram perfeitamente. Claro que teve muito ensaio, teve muita repetição, tipo, pra gente ter essa segurança no momento de gravar.

[Camila]: Às vezes, rolou até certos momentos, “pequenos erros” que a gente parava e falava “pô, mas isso ficou bom, vamos manter assim.” Não é aquela coisa mecânica de “não, vamos gravar desse jeito, né, e tal, não pode sair do roteiro”. Não. Eu acho que isso diz muito sobre a gente [...]. O nosso show costuma ser muito mais dinâmico e literal do que o nosso ensaio. Às vezes, a gente chega até um pouco inseguro no show, mas chega na hora ali, que entra no palco, o negócio explode a energia, assim. E foi o que eu senti gravando o álbum também, né? Com certeza rolou uma insegurança pela experiência nova aí na parte de todo mundo, de estar com uma gravadora grande e tal, mas eu acho que por esse motivo a gente tem uma sintonia legal.
Pergunto sobre a composição das letras da banda, pois é um diferencial devido ao jeito que falam das temáticas em torno do disco. Teve música que demorou porque era de outro trabalho e só veio parar no disco agora, o que me surpreendeu.
[Natália]: A música que a gente demorou mais para construir acho que foi "Dandara". Porque era para ter saído lá no primeiro álbum e não ficou do jeito que a gente queria. Deixamos de lado e conseguimos dar uma cara nova para ela agora. Essa foi, com certeza, a música mais demorada para ser construída. Anos, né (risos).
[Du]: Aí você também me pegou. Porque eu dei uma resposta anterior falando que não teve muita dificuldade. Não lembrei de "Dandara", realmente. Essa aí deu trabalho.
[Paulo]: Mas era de um período mais como uma ideia de ir ali, de fazer de verdade. Mas eu acho que é isso. Tem composições que acabam sendo presentes durante muito tempo até elas se consolidarem. Não era exatamente um plano para o próximo disco. Ela existia ali, e aí a gente direcionou ela para o disco. Completamente diferente.
[Camila]: A música do álbum que eu mais gostei do resultado, depois de todo o processo, é "Respiro". É a penúltima música do álbum, e é a letra do Paulo. O Paulo chegou com essa letra, a letra sem nenhuma métrica, tipo “mano, vamos fazer essa música aí”. E é uma letra bem interessante, que fala sobre uma temática extremamente relevante na sociedade, e a gente não queria tirar nenhum ponto e vírgula dela para conseguir musicar essa letra. E eu acho que a gente conseguiu com maestria fazer a letra virar uma música.
“Entre a Penitência e a Ruptura” é uma porrada atrás de outra. Vou pontuar algumas das coisas que me impactaram para vocês terem noção.
“Marcus Vinícius da Maré” é uma das feridas que nunca irão ser curadas. A mãe, Bruna Silva, depois destes anos todos, espera por justiça, e cansamos de ver casos como os dele na mídia tradicional.
O capital espreme até a última gota de sangue na “Vão”, pois o mundo vai seguir quando alguém morre nos trilhos. O tráfego não vai parar e ficará por isso mesmo. O lucro é o que importa, no final das contas.
A faixa homônima não só separa as temáticas como Paulo havia falado no início da entrevista, ela também muda o clima do disco. O momento de dar um basta para tanta dor sofrida na História não deve ser outro senão agora.
“Raios, Trovões e Tempestades” ensina de onde a força pode ser retirada para continuar na luta. É onde se percebe que a ancestralidade conecta a gente por meio da natureza.
A faixa homônima não só separa as partes como Paulo havia falado no início da entrevista, ela também muda o clima do disco. O momento de dar um basta para tanta dor sofrida na História não deve ser outro senão agora.
E tem espaço pra se falar o que quer e entrar na roda pra pogar na “Ei, Mulher!”. Lugar de mulher é onde quiser estar, e essa canção também serve para quem rompe os padrões do sistema cisheteronormativo.
Ao terminar de ouvir o álbum, eu botei no repeat porque ele finaliza com a “Grito Quilombo”. Essa canção é potencializada por causa do coro e dá vontade de gritar quando ouve. Um verdadeiro manifesto em forma de som.
Pensar e lutar: é o grito Quilombo Avante e resista: é o grito quilombo Pensar e lutar: é o grito Quilombo Avante e resista

As influências? O pessoal respondeu da melhor forma possível: as participações que agregaram no disco. Elas foram responsáveis em fortificar a essência dele, como rola em “Violação”.
Na primeira do álbum, a Rádio Diáspora traduz com a banda a violência que ocorre com as mulheres na prisão durante as mudanças de tempo da música. O sistema carcerário é um dos mais cruéis e abusivos, principalmente quando é dito no início da canção que o Brasil é o terceiro maior do mundo.
Também teve participação de Vinícius Donato em duas músicas. Ele é o produtor responsável por fechar os shows da banda, e ele caiu dentro tocando também. Algumas pessoas sabem quais faixas ele participou. Você é uma delas? Deixo aqui a curiosidade.
Em “13 de Maio” o contramestre Messias Gingaê, do Gingaê Camará, deixa claro que a escravidão só mudou de nome.
Quem foi que disse?
Que se acabou a escravidão
Quem contou essa mentira?
Dessa tal abolição
Quem foi que disse?
Que Isabel nos libertou
Liberdade não foi dada
No papel que ela assinou
A liberdade
Teve luta, teve sangue
Teve morte, teve dor
Quem foi que disse?
Que o 13 de maio
É dia de comemorar
Quem foi que disse?
Que houve libertação
Negro luta o tempo inteiro
Contra o sistema de opressão
Agora eu digo
Quilombo e capoeira
Em meio a matas rasteiras
A união dos nossos povos
Nos dará a liberdade verdadeira, camarada
Quem foi que disse?
Seguindo a conversa, perguntei ao pessoal qual foi o melhor momento da banda. Não tem como não ficar emocionado após ouvir que um dos melhores picos para fazer show foi o Circo Voador. Tocar no SESC Pompéia também teve bastante representatividade para eles também. Outro momento mágico para a banda aconteceu na Audio, quando abriram para a Bikini Kill.
[Natália]: Eu acho que, a partir da abertura do show do Bikini Kill, que foi um marco, assim, pelo menos pra minha vida, depois disso, a gente tocou com várias bandas muito fodas, né, que a gente admirava, e em locais diferentes. Eu acho que o último show marcante foi no Circo Voador, ter o privilégio de tocar naquela casa.
[Paulo]: Se eu tivesse que dizer os ápices, acho que o Bikini Kill foi absurdo pra mim. E aí, acho que tocar no Sesc Pompéia, que pra mim é a casa que eu mais vi show na minha vida, e que eu vi inúmeras apresentações absurdas, foi excelente, e o Circo Voador, cara. O Circo Voador foi, sei lá… primeiro que é uma casa que passou todo mundo da música brasileira, que em algum momento estourou, teve notoriedade, e com qualidade, inclusive, passou por lá. Só que eu acho que, pra mim, esses três foram excelentes, cara.

[Natália]: Meu top 3 foi o Pompéia, o Bikini Kill e o Circo.
[Camila]: Pra minha experiência pessoal, o ápice, pra mim, assim, de falar ”mano, zerei a vida” foi o Circo Voador. Depois do Bikini Kill, eu achei que nada poderia superar, mas o Circo Voador foi histórico. A reação do público, a atmosfera da casa, sabe? Foi uma junção, assim, de coisas que não tem nem como descrever, assim, sabe? E é aquilo, por incrível que pareça, né? Até o Du não falou ainda, né? Mas nós três, até agora, nem falamos do The Town [...] O rolê foi televisionado, puta negócio gigante, assim. Mas na questão emocional, de ficar marcado, não ficou tanto. Foi [...] um puta passo pra banda de realmente ser mais profissional, mas de falar ”nossa, isso daqui é histórico”, não foi.
[Du]: É isso, às vezes lugares muito pequenos, pra 20, 30 pessoas, representam muito mais, dependendo do contexto, de uma série de questões pra gente. Mas, realmente, esse do Circo Voador tem uma série de elementos ali que… putz, mano, foi demais. Entrega, o som foi legal, galera do Black Pantera interagindo lá com a gente. Ela estava com uma pegada lá importante, né, que é entregar um vídeo, o lance da gravação lá. Tem toda essa preocupação que a gente entende também, porque com o The Town foi a mesma coisa. Então, teve tantas questões burocráticas anteriores ao tocar [...] que acaba que a gente sobe ali com uma certa tensão pra entregar o show. Por outro lado, o Circo Voador, ele… Ele teve uma fluidez, ele foi mais leve. A gente entrou leve ali pra tocar. Então, a entrega foi muito legal. A receptividade do público foi excelente. Tanto no palco; no antes; no pós; durante e depois, assim. Foi excelente.
[Paulo]: Tem um DVD que é do Ratos (Ratos de Porão), que eu acho um dos melhores DVDs que eu já vi, pelo menos, da cena punk e hardcore. E aí tem os extras, que é esse Ratos Ao Vivo no Circo Voador. E é muito louco, porque eu lembro de algum momento que aconteceu uma entrevista e um dos membros fala “porra, o Circo Voador é um dos melhores shows que existe, tá ligado, na nossa trajetória”. E aí eu tocava, sei lá, eu tocava por aí e eu vi esse DVD, falei “caralho, deve ser uma experiência excepcional tá nesse palco, né, cara”. E aí, literalmente, assim, eu lembrei de quando eu vi esse DVD pela primeira vez, deu um start. É muito louco, cara. E realmente é um público absurdo, e não tenho palavras.
Tocar no Circo Voador é, para muitas bandas, um marco definitivo na carreira. Se você tem banda ou já teve, com certeza já pensou em tocar lá. E a Punho fez isso, num evento muito importante, que foi o show que celebrava os 11 anos de carreira da Black Pantera.
Punk e hardcore com protagonismo negro, contando um público que vibrou bastante e que caiu no moshpit.
Mas como tudo que é bom dura pouco, pedi para o grupo recomendar algumas bandas e artistas antes de ter que encerrar a entrevista. Nome foi o que não faltou na lista.
[Natália]: Rádio Diáspora, Valla, Anversa, Intervenção…
[Paulo]: Tem a Trama, do Rio.
[Du]: Essa me surpreendeu quando a gente tocou com eles lá no Garage, né? Gostei bastante, viu? Me surpreendeu.
[Camila]: É, eu vou falar da Agravo, aqui de São Paulo também. As minas estão fazendo um som foda por aí . Tem tudo pra crescer muito ainda.
[Du]: Tem a Crexpo que vai tocar com a gente, sempre é parceiro aí, né? Quem gosta de som pesadão, assim…
[Camila]: Uma banda aqui, parceira nossa também que sempre tá num corre louco, desde quando eu conheço eles, Asfixia Social, né? Eu admiro, assim, porque eles não só tocam, né? Eles agitam absurdamente, assim, a cena de várias formas com projetos, ou arranjando turnê pra outras bandas, trazendo outras bandas de estados diferentes, assim. Então eles são muito ativos, né? Além do som, que é muito bom também.
[Du]: Então tem muita coisa boa, é que o pessoal muitas vezes fica em casa, né? Fica reclamando, mas não sai da sua caixinha ali, não pega um busão, um trem, um metrô pra ver os brother pagando 10 conto, assim. Então é só sair de casa que você vai encontrar coisa boa.
[Paulo]: É, e não é só música, é troca de ideia também, vivência, né? Pra além, tá ligado? Tem que viver, olhar o horizonte, sabe? É isso aí.
O maior desafio dessa conversa foi me despedir. Mas é aquilo também: são pessoas comprometidas com o seu trabalho na música, e viver do corre não é fácil. Todo mundo ali se desdobra de mil formas pra manter viva a parada.
Assim como a banda, eu também agradeci demais por aceitarem aturar por quase uma hora um doido varrido, mas ávido por ouvir música que vai na contramão, que realmente procura esclarecer.
E o mais importante que eu queria com essa volta é falar menos e ouvir mais. Principalmente porque falei sobre a banda em uma matéria aqui na Menó.
Como o álbum já saiu nas plataformas, fica aqui um convite pra vocês conferirem. Além disso, comprem o CD físico, fortaleçam no merchan e vão aos shows.
Só assim pra manter o cenário vivo!

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