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A Nave do Hip-Hop pensa sempre no futuro

A van-estúdio itinerante que transforma a juventude da periferia através da cultura Hip-hop.


Como muitos de vocês que leem a revista sabem, eu participei de forma ativa no Hip-hop enquanto MC de batalha e cheguei a lançar algumas músicas durante esse período. 


E durante o mês de outubro pude trocar ideia com um dos responsáveis pela minha obtenção de título de bacharel em Sociologia pela UFF: Klauder Gonzaga. Ele é professor e doutorando em História pela mesma Universidade, MC da Batalha dos Criadores, e diretor da Nave dos Crias.


Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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Ele, com o Ministério da Cultura e com o Instituto Conecta Brasil, realiza o que chamo de um “resgate por completo” da menozada. 


Para você ter noção da força que é esse projeto, ele ocorre por uma emenda do deputado federal Washington Quaquá, que é hoje o prefeito do município de Maricá. 


E isso não é pouca coisa. 


Mas do que se trata a Nave dos Crias? É basicamente um exemplo literal do Hip-hop em movimento, pois é uma estrutura itinerante. E ele me deu toda a planta de como ela opera. 


Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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A Menó entende que não poderia ficar sem mandar alguém pra conversar com ele, e essa responsa ficou comigo.


"Começa com a ideia de uma van que é um estúdio de gravação. Na verdade, era um ônibus para a gente poder levar esse estúdio para vários lugares diferentes onde talvez as pessoas não tivessem acesso a um estúdio de gravação no local, né? Tem lugar que é mais difícil por N motivos, seja às vezes não ter luz elétrica direito, não ter internet, enfim, não ter grana. Essa foi a primeira ideia da Nave dos Crias. Ao invés de ter um lugar fixo, você poder circular e levar a pessoa até esse estúdio. E de forma democrática, popular, podendo atingir pessoas que já têm músicas há um tempo, pessoas que nunca fizeram uma música, artistas que já têm várias músicas, mas fizeram gravação só no celular, só vídeo. Oportunizar essas pessoas para que elas possam ter um trabalho profissional. A Nave não só grava, ela grava, mixa, masteriza e lança na plataforma. Então é... todo o projeto, né? Todo o processo. O cara só tem que mandar a letra para poder subir na plataforma e fazer o registro. E assinar ali as coisas que ele tem para fazer esse registro, as coisas burocráticas ali. Mas a Nave oferece todos esses serviços. Para quem for selecionado para gravar, já vai ver sua música na plataforma, no Spotify." 

Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)

Escolas, bibliotecas e rodas culturais são apenas alguns dos alvos dessa ação pregadora do quinto elemento, o que faz total sentido da Nave ter esse nome. 


"A gente entende que existe, muitas vezes, no hip-hop, um choque de gerações, né? Geralmente, a galera que é mais antiga olha para a nova geração meio que com desconfiança. Muitos dizem que o que a nova geração faz não é hip-hop. E, por outro lado, a nova também olha para a galera mais antiga de uma maneira que isso é muito antiquado. “Isso não me representa, isso não é hip-hop, então eu não sou hip-hop com essas pessoas”. É isso que a gente percebe. E a gente precisava ter um nome que dialogasse tanto com a nova geração, que é Nave dos Crias, né? Nave, por ser na van, os crias e tudo mais e, ao mesmo tempo, ser um projeto que defenda a bandeira do hip-hop com os quatro elementos e com o conhecimento."

Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
"Então, Nave dos Crias tem essa situação de lidar com a juventude por conta dessa junção, né? Da tradição com a modernidade e de ser itinerante também. Então, a Nave vai nesse sentido. E Nave também remete a uma coisa moderna, a uma coisa do futuro, né? É você olhar o futuro. Então, tudo acaba casando. É isso. É dos Crias, é dos crias atuais, é dos crias mais antigos. E é quem remete à favela. E, ao mesmo tempo, remete à linguagem da periferia, da favela, da comunidade, do morro, do subúrbio, do bairro. Quem é cria sabe que é cria. Quem é criado é outra coisa. A gente vem desse lugar. Nós somos pessoas que tiveram parte da sua formação a partir da cultura hip-hop. Alguns têm até formação acadêmica, outros não têm, mas todos têm formação. O hip-hop formou essas pessoas. Então, a gente acredita nesse poder de formação da cultura hip-hop. É como se fosse um ensino superior mesmo. Quem tem uma trajetória na cultura hip-hop é como se tivesse um ensino superior."

Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)

Não é só fomento da cultura e lazer, é um reflexo de como o entrevistado foi inserido no movimento, pois o mesmo foi influenciado por iniciativas desse porte. O Hip-hop forma personalidades e cria agentes.  


"Eu vou falar por mim e falar também um pouco pelas pessoas no projeto. É... Todos nós... Eu, por exemplo, sou cria do Jardim Catarina, São Gonçalo, sou cria do projeto chamado Geração na Trilha, sou cria da ASAC, foram movimentos muito importantes para o hip-hop na cidade. Hoje, a cidade de São Gonçalo é uma referência no hip-hop, seja no breaking, no graffiti, MCs, enfim, né? Produtores, vários também, que foram importantes para a cena nos últimos 10 anos. E isso não aconteceu à toa. Isso aconteceu porque, lá no final dos anos 90 e início dos anos 2000, houve uma semente plantada. E essa semente foram esses projetos, né? Geração na Trilha, ASAC, CLAM, né? Enfim, existiam muitos movimentos."

E como todo projeto que vem de uma parceria dessa magnitude, existe uma seleção para que se entre nesse circuito.


"A gente tenta equilibrar entre artistas muito iniciantes e artistas que já têm alguma experiência com o estúdio. Então, é a gente pegar artistas que estão já investindo um tempo na carreira, mas não têm oportunidade, e alguns que estão consagrados também... Mas a gente tem outras coisas. Como a ideia de que com isso o cara tem uma música para apresentar nos locais. Por exemplo, o cara vai concorrer: "ah, a música não bombou", ok. Mas ele vai, por exemplo, concorrer a um edital. Ele já tem o link da música dele para colocar lá no edital. Se quiser fazer um show, quiser apresentar para um SESC, para uma coisa assim, ele já tem o trabalho pronto executado na plataforma. Então, isso é muito importante. As pessoas muitas vezes não sabem esse passo. Então, a Nave já entrega isso. Mas além da van, a gente também entende que o hip-hop precisa de informação."

Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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"E o hip-hop não é só rap. Então, a gente leva as oficinas de MC para o cara que quer começar a dar os primeiros passos ali. Geralmente jovem DJ, né? Para você ter o movimento, você tem que ter o DJ. Para ter a roda cultural, você tem que ter o DJ, o grafite que, obviamente, é um elemento clássico do hip-hop, e o break, que hoje também virou esporte olímpico e tudo mais. Mas a gente não pode esquecer que ele faz parte da cultura hip-hop. Então, os quatro elementos da cultura. E a gente leva o conhecimento também. Em todas as que a gente fala a respeito de tudo isso. Está entranhado ali nas oficinas. Todas as pessoas que vão trabalhar, estão trabalhando como educadores têm isso entranhado no trabalho deles, e na forma como eles abordam, como falam sobre a cultura. Então, a gente também se preocupa com essa questão do hip-hop. Tem todo um acolhimento para o pessoal, né? É isso."

Conforme foi falado nessa conversa, eles tão prosseguindo uma parada absurda: uma seletiva de batalha dos MCs para que ocorra uma no final. Essa seria a Seletiva Extra.  


Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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"A gente vai ter uma batalha final. Um representante de cada território que a gente vai passar, que são 13 territórios. E, além disso, a gente vai fazer batalhas extras, né? Então, provavelmente essa batalha vai ser no centro do Rio, com um de cada território, mais esses três das batalhas grandes. E a gente sempre faz essa batalha seletiva antes da gente entrar em cada território. É mais ou menos assim que vai funcionar a Nave. Antes da gente entrar na Nave, o abre-alas é sempre essa batalha em parceria com a batalha local para selecionar os MCs para a grande final. A Nave dos Crias vai funcionar nesse modelo, nesse sistema. Está funcionando nesse modelo, nesse sistema. Como diria Marcelo D2, é a favela na internet."

Em determinado momento, questionei Klauder sobre os desafios pertinentes sobre fazer essa parada acontecer sem maiores imprevistos. Até porque “o independente depende de muita gente”, e ver isso, na prática, foi o que despertou minha curiosidade.


"Não é dificuldade, mas a parte mais trabalhosa é criar a relação com a comunidade em questão, a gente poder mobilizar, de fato, fazê-la abraçar o projeto. Eu acho que, assim, o grande lance é porque é uma coisa tão inacreditável que as pessoas não botam fé de início. Então, o projeto está começando agora. E a cada duas semanas a gente está numa comunidade diferente; essa articulação e mobilização é sempre a maior dificuldade. Por exemplo, para o estúdio, sendo a relação direta com os MCs, é uma coisa muito mais tranquila. Até porque, se você falar que tem um estúdio gratuito em qualquer lugar, vai ter milhões de pessoas interessadas e as pessoas vão se mobilizar para estar ali. A batalha é a mesma coisa. Agora, pensando como um todo, principalmente a parte de formação, eu, por exemplo, sou o que sou hoje, você me conhece, sou professor, faço doutorado, eu não faria isso se eu não tivesse passado pela cultura hip-hop. E eu tenho essa defesa da cultura hip-hop. Por quê? Porque a gente passou por um processo de formação, que era uma cultura do hip-hop dos anos 90, com as posses e tudo mais. As pessoas faziam oficinas, o hip-hop ia nas escolas, tinha essa questão. Agora não, está numa visão de “eu vou cantar o trap aqui, eu já vou ganhar um dinheiro aqui, já vou virar influencer e vou resolver minha vida”. E não é assim. Não é assim que funciona." 

Nessa mesma resposta, uma coisa ele aponta sobre a situação da cultura ser pós-moderna, que exige uma espécie de retorno quase instantâneo, não permitindo que as pessoas se desenvolvam a longo prazo.  


"As pessoas querem ganho imediato, elas não querem investir. Então, essa questão da mobilização no território e da construção de público, esse é o nosso grande desafio. Eu já sabia disso desde o início. Não é fácil construir. As crianças não vão nem para a escola direito, não gostam nem de estar na escola. Imagina para estar numa turma de qualquer outra coisa. Então, essa é a grande dificuldade. Mas, ainda bem que a gente tem uma equipe muito legal, bacana, e estamos muito empenhados e muito atentos com isso."

Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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Se não fossem as batalhas, o processo seria mais árduo. De acordo com Klauder, são elas que conseguem trazer a molecada pra imergir no mundo do Hip-hop.


"A batalha é a porta de entrada. Então, a gente sempre está articulando com as batalhas locais. Nos locais também tem gente local fazendo essa articulação. Em cada local vai ter gente ali para fazer esse trabalho de relação inicial com o território e consolidação dessa relação. É importante a gente ter gente nos locais. E a gente tem isso no projeto. E aí o restante é a mobilização, é a rede social. A gente está, por exemplo, a gente está em carros de som, nós estamos nas rádios, vamos estar nas redes sociais, estamos nos cartazes também. Eu acredito muito nessa mobilização de rua, que não é uma... Não é uma mobilização do algoritmo somente, a gente não depende do algoritmo, né? Eu acho que essa mobilização corpo a corpo nas escolas, nos territórios, é muito importante. E depois dos streamings, eu falo do rap, mas e das redes sociais, do Instagram, do Pinterest, no caso do grafite, a gente perdeu muito essa situação do flyer, né? Da divulgação no flyer, corpo a corpo, cartaz, tudo... Só que aí a gente depende do algoritmo. Então eu acredito na mobilização da internet, nessa mobilização corpo a corpo, está sendo feita a todo momento."

Nem todo sofrimento é eterno. E não seria diferente quando você vê uma galera que quer viver disso, e falar pelo Hip-hop. Assim como eu, o entrevistado me descreve essa sensação de vitória durante esse processo de inserção.


Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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"Nosso recorte de faixa etária é o da juventude, entre 16 e 29 anos. Esse é o nosso objetivo. Obviamente, se chegar uma pessoa com mais de 29 anos, a gente também vai aceitar. E, um pouco menos de 16, desde que tenha a autorização dos pais certinho, a autorização da imagem, direitinho, a gente também aceita que o pai converse com a gente. Mas a prioridade é atender a faixa da juventude, entre 16 e 29 anos. Porque você aprende uma série de linguagens, uma série de habilidades, competências e sensibilidades que vão te levar para esse lugar, que vão te transformar num educador, que vão te formar numa pessoa que sabe conversar, que influencia positivamente a sua comunidade, as pessoas que estão ao seu redor. Esse é o poder de transformação e é essa satisfação que a gente traz. Quando a gente vê um jovem ali, um menino de 15, 16, 17 anos, mexendo numa controladora ali no equipamento de DJ, ou tentando dar os primeiros passos no break, pegando o microfone de maneira correta para melhorar o desempenho na batalha, que às vezes ele já batalha, essa é a satisfação. A gente vê o cara gravando a primeira música no estúdio com microfone condensador, sabe, num beat próprio, que antigamente era difícil também de conseguir um beat, essa é a satisfação. A gente abriu o caminho mesmo. E com o fundamento, sem perder o fundamento."
Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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Sinceramente, fiquei bem empolgado em manter a conversa com ele. Porém, ele estava a caminho de mais um capítulo dessa jornada, e eu não podia ficar travando ele. Nem ele, nem a equipe. 


Então, Klauder mostrou a importância de ter a Nave rodando pela região metropolitana. 


"É mostrar para esses territórios que o Rio de Janeiro, a cultura periférica, ela pode abrir a política pública. E a política pública financia, entendeu? É isso. E tem uma situação que a assessoria de imprensa está aqui, está me acompanhando, pode falar isso. A ideia também é deixar o grande legado. Acho que o próximo passo, acho que o passo de todos, é o seguinte: duas coisas. O hip hop pode ser política pública, mostrar isso para o território, que se a gente faz a coisa de forma organizada, com fundamento, com método, a gente consegue transformar as práticas do hip hop em política pública, em coisa que pode acontecer e ficar por legado. Como a gente vê, por exemplo, no Rio Grande do Sul, lá com o Museu do Hip Hop, tem uma série de atividades. Em São Paulo, como o hip hop está na agenda da Virada Cultural, as Casas do Hip-Hop, que é algo que vem desde os anos 90,  e agora você tem é município de São Paulo, porque existe uma luta, existe uma organização."
Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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Foto por Edu Miranda (@edumirandaedit)
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"E que a gente no Rio de Janeiro está muito atrás, e a gente tem uma contribuição, o Rio de Janeiro tem uma contribuição para o hip hop muito grande, em todos os elementos. Esse é o passo. É a gente colocar o hip hop na agenda pública, provar por A mais B que a oficina de MC pode melhorar a escrita do moleque na escola, pode melhorar o comportamento social. Os elementos do hip hop por si só, têm competências, habilidades ali, se a gente pensar em educação, como o breaking mexe com a corporalidade, com a expressão, vai pegar um moleque tímido, ele vai aprender a se expressar melhor com o corpo; com o desenho, você se expressar artisticamente, na arte plástica, no desenho, sabe? Então o hip hop tem tudo. E a cultura salva, salva do tráfico, salva da porra toda. Ao invés de ficar na esquina ali, fazendo uma, fazendo um ganho ali, no meio da galera, o moleque vai ficar em casa, treinando freestyle para participar da batalha, ou desenhando, ou dançando, ou na própria oficina, né? No dia que ele tiver a oficina, ele vai estar na oficina. Então a ideia é deixar esse legado, essa marca mesmo, assim, de cara, precisamos de mais projetos como esse, precisamos dar atenção para essa cultura, porque ela é completa. Ela trabalha todas as dimensões humanas." 

Ele disse pra apenas chegar na página do Instagram e acessar o link na bio e, assim, escolher o que se quer fazer.

"Siga as nossas redes sociais, né? Primeiramente, o Instagram, @navedoscrias. Acompanhe. Se a gente está chegando no seu território ou se a gente não estiver, a gente vai estar no território vizinho. Você que mora na Região Metropolitana do Rio de Janeiro: a gente vai chegar em algum lugar mais ou menos perto da sua casa. Então, fique ligado. A Nave dos Crias está chegando. Acreditem no potencial de vocês, na formação. Acreditem que o hip hop tem o poder de transformação do caráter, da autoestima, da valorização da sua área também. É importante você representar a sua área. Um MC sem a sua área não é nada. Um grafiteiro, DJ, B-boy, sem a sua área não é nada. E precisamos de mais projetos como esse. Quem quer trabalhar, vai trabalhar. Quem quiser fazer, vai fazer. Vai ter oportunidade. E a Nave dos Crias está aí para mostrar isso."

Não tenho como dizer outra coisa aqui. A felicidade e a gratidão são imensas, e fico honrado em fazer um registro sobre tudo isso que a Nave faz. Até a próxima.  


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Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

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