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Thiago Elniño: Do Rotina do Pombo ao Cangerê.

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 9 de jun.
  • 6 min de leitura

"Cangerê" chega ao mundo como encerramento de um ciclo. Mas conversar com Thiago Elniño por quase quarenta minutos deixa uma sensação diferente: talvez o disco seja menos um ponto final e mais uma fotografia de tudo que ele construiu até aqui.

Porque, antes de ser rapper, Thiago continua se enxergando como educador.


E ele fala isso sem cerimônia.


"O meu início da música foi muito doido, porque eu nunca sonhei, necessariamente, em ser músico, sabe? E ser músico, pra mim, é uma coisa muito menor do que as coisas que eu tenho pra comunicar. Eu tenho uma atuação com educação também. Atuar dentro das escolas, atuar dentro do espaço de educação, pra mim, é uma prioridade tão grande quanto fazer rap. Ela alimenta muito do que a minha atuação enquanto rapper apresenta. Eu tenho mais prazer em estar em sala de aula do que em cima de um palco."

Essa talvez seja a chave mais importante para entender sua obra.


A música nunca foi o destino. Foi o veículo.


O começo da história não passa por estúdios ou gravadoras. Passa por Volta Redonda, pelos projetos culturais da cidade, pela influência do maracatu, do jongo, dos terreiros e da herança de Chico Science. Foi nesse ambiente que Thiago começou a construir uma visão de mundo que mais tarde apareceria em seus discos.


O rap surgiu quase por acidente.



Em 2003, passando por uma batalha de MCs antes de ir para um baile funk, ouviu dos amigos que, se vencesse, teria o ingresso pago.


Entrou na roda.


Venceu.


E a partir dali passou a frequentar mais intensamente o espaço cultural que realizava aquelas atividades.


Mas mesmo depois de duas décadas de carreira, ele continua rejeitando a ideia romântica do artista consumido pela própria arte.


"Eu não sou um músico que não consegue ficar sem fazer música. Eu consigo de boa. Inclusive, fazer música, pra mim, em vários momentos, é um exercício não prazeroso. Fazer música nunca foi uma parada que eu necessariamente decidi. Eu tinha coisas pra comunicar e, em algum momento, vi que a forma que as pessoas mais assimilavam aquilo que eu queria comunicar era através da música."

Talvez por isso sua discografia pareça uma conversa permanente com o tempo presente.


Thiago não acredita em permanecer parado.


Não acredita em educadores que param de aprender.


E não acredita em artistas que deixam de escutar o mundo.


"O educador que não se predispõe a aprender quando ocupa um espaço de educação já está fracassado. Eu vou criando coisas novas o tempo todo e estou interessado nessas coisas novas. Estou interessado no anime que os alunos estão comentando no recreio. Estou interessado na cultura popular das cidades que eu visito. Estou aberto aos amigos que estão indicando coisas. Eu vou ouvindo e vou trazendo isso pra minha obra."

Essa lógica ajuda a entender por que seus discos são tão diferentes entre si.


Rotina do Pombo nasce das batalhas de MCs, mas já carregava reggae, dub e música jamaicana.


"Eu sou um rapper que a música que eu mais escuto no cotidiano é dub. Eu escuto dub o tempo todo."

Depois veio Pedras, Flechas, Lanças, Espadas e Espelhos, um disco que nasceu justamente do fracasso comercial do trabalho anterior.



Enquanto a crítica abraçava Rotina do Pombo, as contas continuavam chegando.


Então Thiago decidiu ampliar os caminhos.


"Eu queria alcançar as pessoas pelos meios que fossem necessários. Então é um disco que atira pra um monte de lado. Tem trap, tem boom bap, tem um monte de coisa. Ele é uma salada intencional."


Mas existe um elemento que atravessa praticamente toda sua trajetória: a tentativa de falar sobre questões profundas da população negra sem se afastar das pessoas que mais gostaria de alcançar.


"A minha meta ainda é comunicar com os moleques da minha comunidade. Eu ainda quero falar com eles. Estou fazendo música há muito tempo e ainda não consegui completamente. Ainda estou falando muito com o preto acadêmico. Meu exercício é ser menos prolixo e menos complexo para a realidade do lugar onde eu vivo."

Esse compromisso ganha uma dimensão ainda mais evidente quando a conversa chega na espiritualidade.


Porque falar de Thiago Elniño sem falar de umbanda, orixás e religiosidades afro-brasileiras é ignorar uma das transformações mais importantes da sua carreira.


Ele conta que tudo começou quando entrou para a umbanda e passou a conhecer mais profundamente os orixás.


Da experiência pessoal nasceu uma escolha artística.


E da escolha artística surgiu um projeto político.


"Quando eu lancei Filho de Deus que Dança, eu tinha acabado de entrar no terreiro. Eu estava aprendendo aquilo. E eu sempre tento trazer para a música aquilo que estou aprendendo e aquilo que está me fazendo bem. Naquele momento não era comum ter MCs fazendo trabalhos inteiros sobre espiritualidade preta. Então foi intencional. Eu resolvi tratar desse período porque acho que é uma das vias que o povo preto tem para se aproximar, se politizar e se entender no mundo através de uma cosmovisão que respeita coisas que a gente pratica, mas talvez nem entenda."

É justamente essa caminhada que desemboca em Cangerê.



O disco encerra aquilo que ele chama de Trilogia da Macumba, formada por Pedras, Flechas, Lanças, Espadas e Espelhos, Correnteza e agora Cangerê.



Mais do que um conceito musical, a trilogia funciona como uma convocação.


"É como se fosse uma gira de umbanda, um xirê de candomblé. Vem cada manifestação preta para esse momento onde a gente está sofrendo tanto ataque violento. Vem cada um com o que tem de melhor para celebrar aqui. Porque a gente canta e dança à noite para estar mais forte de dia."

A dimensão política dessa escolha aparece o tempo todo.


Inclusive quando Thiago define a função da sua própria música.


[Pivete]: "Você fala de música como um manual antirracista, então é uma ferramenta política para você?
[Thiago]: "Sim. Absolutamente. A música ocupa completamente esse lugar para mim. O mercado fonográfico não é um lugar prazeroso para mim. Mas é o território onde eu mais me desenvolvi para comunicar as coisas que eu acredito."

A resposta não deixa muita margem para interpretação.


A música é política.


Mas política não significa apenas denúncia.


Significa também cuidado.


Significa também afeto.


Significa também criar condições para que pessoas negras permaneçam vivas.


Por isso ele rejeita a ideia de que o rap precise existir apenas como linguagem do confronto.


"Eu quero um alimento gostoso e aconchegante para que você sente à mesa, coma e se sinta amado, necessário, bonito. Quando o rap traz outras temáticas, eu acho importante para que a gente tenha saúde também."

Essa visão atravessa Correnteza, disco produzido durante a pandemia.



Enquanto o mundo lidava com medo, luto e isolamento, Thiago decidiu fazer um álbum que funcionasse como acolhimento.


Um disco de cuidado.


Um disco para fortalecer quem estava tentando atravessar aquele momento.


Mas essa preocupação com fortalecimento coletivo não aparece apenas nas letras.


Ela também aparece na forma como ele organiza seu trabalho.


"Em qualquer movimento que eu faça, vou tentar priorizar pessoas pretas. Porque um dos problemas que a gente tem é a falta de poder econômico. Sempre que for possível, vou tentar fazer com que o valor que meu trabalho gera retorne para pessoas que têm a mesma origem que eu."

Talvez seja por isso que sua trajetória tenha sido construída quase toda fora dos caminhos mais fáceis oferecidos pelo mercado.



Aos 40 anos, Thiago continua independente.


Nunca teve empresário.


Nunca quis suavizar suas posições para se tornar mais aceitável.


"Sou um cara preto com 40 anos de idade que não tem vontade de ficar inofensivo."

A frase resume muito do que sua carreira representa.


Enquanto boa parte da indústria procura artistas facilmente assimiláveis, Thiago continua insistindo em construir uma obra que fala de espiritualidade negra, identidade racial, educação popular, afeto, política e comunidade.


E talvez seja justamente por isso que Cangerê não soe como encerramento.


Parece mais um convite.


Um chamado para reunir pessoas em volta da roda antes dos próximos enfrentamentos.


Porque, no fim da conversa, quando perguntamos qual mensagem gostaria de deixar para quem acompanha seu trabalho, a resposta voltou para o mesmo lugar de onde toda a entrevista partiu.


A ideia de construir outros caminhos.


Outras referências.


Outras formas de existir.


"Não deixar os robôs mandar na gente. Eu não estou falando de inteligência artificial. Estou falando da galera que para escravizar a gente teve que perder a alma. Não perde de vista que você é parte de uma cosmovisão e de uma ideia que não precisa reproduzir outra cosmovisão para ter dignidade. Vamos viver do nosso jeito. A gente não tem que reproduzir o que matou a gente."

Talvez seja isso que une todos os discos de Thiago Elniño.


Do Rotina do Pombo ao Cangerê.


Mais do que fazer música, ele continua tentando ensinar.



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