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Do Loteão Pro Mundo: O funk como memória viva e a retomada do espaço público

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

Não é só música, é o retrato fiel do Loteão, o território que molda a identidade dele e de onde ele tira a munição pras letras. Aos 15 anos, Cauãzin 019 chega com seu álbum de estreia, Do Loteão Pro Mundo, fazendo do caos e do corre a sua estética e verdade.


Crédito: Cauãzin |DLTPM
Crédito: Cauãzin |DLTPM

O artista constrói um arquivo das ruas de Campinas a partir da ótica de um moleque de quebrada que, mesmo novo, já entende a música como válvula de escape e de sobrevivência.


“Pra mim, Do Loteão pro Mundo é um retrato de experiências que acontecem aqui na ‘vila’, ainda mais pela ótica de um moleque de quebrada. Trazer meu território, minha inocência e minha evolução foi o que busquei traduzir no álbum.


A absorção dessas vivências contribuiu para o meu desenvolvimento, tanto crítico quanto pessoal. Mesmo sendo muito novo, sempre vi na criação desses cenários uma válvula de escape”, destaca o artista.


Crédito: Cauãzin |DLTPM
Crédito: Cauãzin |DLTPM

E aqui a gente precisa falar sobre disputa de narrativa e estrutura: o lançamento marca um feito histórico ao ser o único álbum de funk contemplado pelo Fundo de Investimentos Culturais de Campinas (FICC 2024).


Para um jovem artista preto e periférico, acessar esse edital público não é só viabilizar um disco, é um tapa no sistema. É a legitimação de que a cultura urbana e o funk não precisam pedir licença para ocupar a prateleira dos investimentos institucionais.


“O apoio que o FICC dá ao projeto foi, na verdade, um tapa - no melhor sentido. Desde a minha profissionalização como artista, venho lidando com o trabalho, a seriedade e todas as demandas burocráticas que existem por trás. E também é um tapa em tudo que já disseram sobre um projeto de funk ser financiado por um órgão da Prefeitura de uma cidade como Campinas. Fazer um projeto desse sendo um artista novo, trabalhando a estética dessa cultura, coloca tudo numa proporção gigantesca.
Crédito: Cauãzin |DLTPM
Crédito: Cauãzin |DLTPM
Colocar o gênero nessa prateleira - não que eu seja o único ou o primeiro -, pra mim, é muito gratificante.”

Sonoramente, o projeto não se perde. Assinada pelo duo OSVITÃONOBEAT (Granadeiro Guimarães e vlopse), a produção percorre as batidas rasteiras do funk de BH, cruza o 130BPM e deságua no mandela.


É uma construção rica, que dialoga com a vivência do samba no bar amarelo do campo e com a urgência ruidosa dos finais de noite nos bailes. Para somar no peso, nomes como MC KTRINE, Jovem MK e Léo WW fortalecem o caráter coletivo do trabalho.


Crédito: Cauãzin |DLTPM
Crédito: Cauãzin |DLTPM

“A construção do álbum foi um processo muito importante pra gente. O funk é uma escola de produção musical muito rica e criativa, e foi ao mesmo tempo divertido e desafiador experimentar os beats nas músicas do Cauã - sempre com ele junto no processo.
Crédito: Cauãzin |DLTPM
Crédito: Cauãzin |DLTPM
O OSVITÃONOBEAT, inclusive, nasce dessa imersão. A produção foi muito bem trabalhada, com samples, instrumentos orgânicos e atenção a cada detalhe. Acho que o álbum sintetiza bem todo esse tempo dedicado ao projeto.”

Mais do que narrar ostentação, Cauãzin costura a vaidade com a disciplina de quem constrói o próprio sonho na sobriedade. Do Loteão Pro Mundo não entrega apenas beats; entrega asas para quem, até então, o sistema só enxergava como parte do formigueiro.


Ouça aqui:



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