O Belga em o Último Ensaio Antes do Próximo Recomeço:
- Pivete

- há 3 dias
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Essa entrevista já deveria ter saído há muito tempo.
Mas a vida, quando quer, não dá trégua. Ela se apresenta como urgência. Tem que pagar aluguel, garantir a comida do mês, arrumar um lugar para dormir, resolver os incêndios do cotidiano. Só depois, se sobrar energia, a gente pensa em escrever, fazer música, criar alguma coisa. O ímpeto continua lá, queimando por dentro, mas antes dele existem algumas pré-condições impostas por um mundo que cobra sobrevivência antes de permitir expressão.
Talvez por isso conversar com o Belga faça tanto sentido.
Porque "Último Ensaio Sobre Seus Olhos" é um disco atravessado exatamente por essa contradição. Um trabalho sobre amor, memória, espera e afeto, mas também sobre resistência. Sobre continuar acreditando na própria arte enquanto a vida insiste em cobrar outras prioridades.
Antes de chegar aos palcos de São Paulo, antes das matérias, dos elogios e do reconhecimento crescente, existia um moleque em Uberlândia tentando encontrar um caminho possível através da música.
"O meu primeiro acesso com a música, no geral, foi na igreja."

A frase parece simples, mas ajuda a entender muita coisa. A igreja foi uma das primeiras portas de entrada para um universo que mais tarde se transformaria em profissão, obsessão e projeto de vida. Antes do rap, vieram os instrumentos, os hinos, os ensaios, a convivência comunitária. Antes do Belga existir, existia o pivete - que coincidência rs.
"Eu assinava pivete mal criado, mano."
E talvez exista algo desse pivete em tudo que ele faz até hoje.
Porque o Belga não surgiu de uma cena consolidada. Não veio de um lugar onde gravadoras ficam circulando atrás de talentos. Não cresceu cercado por equipamentos, estúdios ou grandes oportunidades.
"Tem essa parada da geografia, né? Que sempre atrapalhou muito nós. Eu venho de um lugar muito longe. O que predomina é o agronegócio, é o sertanejo."

A geografia aparece várias vezes durante a conversa. Não apenas como localização, mas como obstáculo. Como condição. Como marca.
Enquanto boa parte dos holofotes do rap brasileiro apontavam para Rio de Janeiro e São Paulo, existia toda uma geração de artistas produzindo longe dos grandes centros, criando linguagem própria porque simplesmente não tinha outra opção.
"As pessoas nunca olhou muito pra nós do interior."
Mas talvez o mais interessante seja perceber que o Belga não fala isso com ressentimento. Fala quase como quem descreve uma realidade que precisou aprender a contornar.
"Nós meio que fez a própria receita."
Essa frase talvez resuma boa parte da sua trajetória.
Sem referência direta. Sem fórmula pronta. Sem sobrenome. Sem herança.
O Sertão da Farinha Podre, coletivo e selo criado ao lado dos amigos, nasce justamente dessa necessidade. De encurtar essa distância. De criar estruturas onde elas não existiam. De provar que o interior não precisava copiar ninguém para existir artisticamente.
"A minha ideia é dominar esse polo e mostrar que o interior tem voz pra caralho."
E talvez nenhum trabalho represente melhor essa caminhada do que "Último Ensaio Sobre Seus Olhos".

O álbum chega depois de uma sequência importante de lançamentos. "Caim", "Retaliação" e "Chucrilhos" ajudaram a consolidar uma identidade artística muito própria, marcada pela força coletiva, pela construção de universos e pela preocupação com o conceito como parte da obra.
"Não é só lançar música. Tem todo o conceito."
Mas o novo disco parece ocupar outro lugar dentro dessa trajetória.
Existe algo mais vulnerável nele.
Mais silencioso.
Mais disposto a observar do que reagir.
Enquanto trabalhos anteriores pareciam nascer da urgência da rua, dos conflitos e da coletividade, "Último Ensaio Sobre Seus Olhos" se aproxima de questões mais íntimas. O amor aparece com mais força. A passagem do tempo aparece com mais força. A dúvida aparece com mais força.
E isso não acontece por acaso.
Belga fala dos discos como quem fala de capítulos da própria vida.
"Eu sou um cara, tipo, mano, eu gosto de álbum, tá ligado? Tipo, eu tenho essa parada, esse apreço com álbum. E pra mim, o álbum... porque, tipo, eu acredito muito que, sei lá, em um, dois anos, a gente muda muito, tá ligado?
Num momento em que a indústria musical cada vez mais privilegia lançamentos rápidos e músicas descartáveis, ele continua tratando o álbum como narrativa. Como documento emocional. Como fotografia de um período específico da existência.
"Eu sou muito diferente do cara que eu era dois anos atrás e pretendo mudar o resto da minha vida, assim, tá ligado? Tipo, sempre aprendendo e evoluindo. Eu acho que nós estamos aqui pra isso. Então, tipo, pra mim, o disco é sobre essa reinvenção pessoal, tá ligado? Então, tipo, se eu for lançar um disco agora de novo, mano, eu quero criar um novo universo, tá ligado? Porque eu já sou uma nova pessoa, tá ligado? ""
Essa mudança atravessa o disco inteiro.
O artista que aparece em "Último Ensaio Sobre Seus Olhos" não é o mesmo que gravou "Retaliação". Não é o mesmo que criou "Chucrilhos". E ele não tenta esconder isso.
Pelo contrário.
"O disco é sobre reinvenção pessoal."
Talvez seja justamente por isso que o álbum soe tão maduro.
Porque ele não tenta repetir fórmulas que deram certo.
Não tenta reviver uma versão antiga de si mesmo.
Não tenta atender expectativas externas.
Ele simplesmente acompanha a transformação do próprio autor.
Ao longo das faixas, o Belga constrói uma obra que fala sobre relações que sobrevivem ao tempo, sobre a dificuldade de viver da arte, sobre a espera, sobre amizades que permanecem, sobre ausências que continuam presentes e sobre a necessidade de continuar acreditando quando os resultados demoram a chegar.

Existe uma sensação constante de travessia.
Como se o disco inteiro acontecesse entre um lugar e outro.
Entre Uberlândia e São Paulo.
Entre o passado e o futuro.
Entre aquilo que foi sonhado e aquilo que finalmente começa a acontecer.
Mas sem romantizar a caminhada.
Porque o Belga sabe que viver de música continua sendo um exercício diário de resistência.
"Pra se destacar nos grandes polos sempre foi um trampo."
Talvez continue sendo.
Mesmo agora, depois de apresentar "Último Ensaio Sobre Seus Olhos" na Casa Natura em São Paulo, de ocupar o palco do Sesc Vila Mariana e de ver seu trabalho alcançar novos públicos, a sensação é de que o corre não terminou.
Pelo contrário.
Apenas mudou de escala.
O artista que chegou sozinho na cidade hoje tenta abrir caminho para outros.
"Se não for pra trazer minha família, meus irmãos, meus amigos, não faz sentido."
Essa talvez seja uma das características mais bonitas da trajetória do Belga. O sucesso nunca aparece como conquista individual. Sempre aparece acompanhado de coletivo, amizade e pertencimento.
“Então, tipo, quando eu vim pra cá sozinho, era muito triste, era muito paia. E aí, graças a Deus, já trouxe dois irmãos meus.”
Por isso o disco também carrega tanto afeto.
Porque ele não fala apenas de relações amorosas.
Fala de comunidade.
Fala de quem caminhou junto.
Fala de quem segurou as pontas quando não havia palco, matéria ou reconhecimento.
No fim das contas, "Último Ensaio Sobre Seus Olhos" parece menos um ponto de chegada e mais um registro de processo.

Um retrato de alguém que continua mudando.
Que continua buscando.
Que continua tentando entender a própria vida através da música.
E talvez seja justamente aí que mora sua maior qualidade.
Porque quando Belga diz que sua música "é muito a minha cara, é muito a ver comigo e meus amigos", ele não está falando apenas de sonoridade.
Está falando de verdade.
E num tempo em que tanta coisa parece fabricada para caber em algoritmo, existe algo profundamente bonito em ouvir um artista que ainda faz discos como quem escreve cartas para não esquecer quem é.
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