Rojão em “A Lenda” (2026)
- Pivete

- há 2 dias
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Se no último texto (2022) a gente viu a estrela riscar o céu da Baixada, agora o papo é sobre o que sustenta o brilho: o ferro, a solda e a persistência.
Acaba de sair do forno, no último dia 13 de março, o novo EP do caxiense Rojão, intitulado "A Lenda". Sob a batuta do selo independente Banidos, o trabalho chega com cinco faixas que são verdadeiros capítulos de uma narrativa sobre trajetórias, ambição e o reconhecimento de quem é cria.
Rojão não entrega apenas música; entrega uma etnografia sonora do agora. É o relato de quem não observa o território de binóculo, mas o carrega nas mãos calejadas da serralheria da família em Caxias e no reconhecimento legítimo que tem no chão onde nasceu.

"É um lugar muito especial na minha vida porque é o quintal onde eu nasci e fui criado. Eu cresci vendo meu avô trabalhando nessa oficina, tá ligado? Eu nunca quis, nunca imaginei que um dia fosse trabalhar assim, tá ligado? Mas hoje em dia já é uma parada que já lido bem...
A relação de Rojão com a serralheria não nasceu de uma escolha romântica. O metal, as máquinas de solda e o cheiro do ferro atravessam as décadas e as gerações da família — do avô ao pai, dos tios até chegar nas suas mãos. No início, esse cenário era um campo de conflito: o estranhamento de um jovem artista, com a mente fervendo em rimas e conceitos, tendo que submeter o corpo à dureza, ao calor e ao peso do trabalho braçal.
No entanto, a maturidade trouxe uma perspectiva nova para o chão da oficina. Essa dualidade foi captada com precisão na contracapa do EP pelas lentes de Wander Scheffer e Designer de Giulia Souza, o que vemos não é um cenário montado, mas a realidade nua de quem forja o sustento no metal para garantir a liberdade da rima.
Não há separação entre o artista e o trabalhador.

Aprendi a curtir a parada. E, pô, muito foda estar trazendo o espaço onde eu cresci e vendo meu avô trabalhar, meu tio, meu pai e eu passei a trabalhar também. É um significado especial."
O mito nasce no silêncio do trabalho que ninguém vê, para depois ganhar o mundo com a força de quem sabe exatamente como cada peça do sistema se encaixa.
"Onde ninguém vê o que ele está fazendo, na maioria das vezes... é da onde sai todo o sustento para movimentar essa engrenagem aí da minha vida e dos sonhos que eu quero conquistar. Acho que, pra mim, ser a lenda é isso: é sair da oficina e desbravar em outros lugares fazendo música, arte."
A estrutura narrativa de "A Lenda"
Rojão desenhou o EP como um roteiro de dois atos, uma progressão que é tanto técnica quanto emocional. Se trata de um processo de amadurecimento como homem e artista.
O primeiro ato é a subida. Faixas como "Caminhos" e "Pódio" traduzem a tensão social e a ambição necessária para quem vem de onde nós vem. É o peso da pista que permanece salgada, é a estratégia do preto, pobre e marginal sobrevivente e o foco sempre no topo.
"O primeiro ato é ali, o caminho pra chegar no pódio e se tornar uma lenda... Você alcança um caminho fazendo de um jeito e depois você fica à vontade."
Já o segundo ato é o direito ao gozo. Após consolidar sua posição como "A Lenda", o artista se permite a leveza. Em "Me Chama" e "Macete", a estética afro futurista se encontra com o balanço, o romance e a descontração, provando que a expressão marginal não precisa ser um monólogo de sofrimento.

"Depois que você já se tornou uma lenda, você também pode se divertir e falar de outras coisas... Já fala de romance. É meio que essa ideia que acabou sintetizando a escolha da ordem das músicas."
A estrutura narrativa do disco é, em última análise, a afirmação de uma subjetividade completa: o direito de ser complexo, de ser técnico e, acima de tudo, de ser livre.
Antes de ser a voz que ecoa no drill, no dub e no grime, Rojão foi corpo presente nos bastidores.

O cara domina a técnica — iluminação, som — e o tempo na Universidade Federal Rural em 2016, o tornou, sim, Cientista Social, e despertou a consciência de que o território não é só o lugar onde se mora, mas onde se estuda e se luta.
Ele mesmo define essa transição entre o estudo e a prática:
"Eu não dei continuidade na graduação em Ciências Sociais, né? Mas eu tô fazendo minha pesquisa. Sabe? É como se fosse o TCC eterno. Pegar esses conceitos que eu aprendi na universidade e tentar entender essa parada acontecendo ali no dia a dia."
A lenda não é um herói intocável;
"A lenda tem que estar no lugar onde ninguém vê o que ele está fazendo, na maioria das vezes... É da onde eu tiro meu dinheiro e é onde também eu estou a maior parte do meu tempo.
Falar de Duque de Caxias e da Baixada Fluminense é falar de um solo que transborda fertilidade cultural
Apesar da narrativa de escassez que a mídia insiste em vender, a gente sabe que o que não falta aqui é visão e trabalho. Afirmar-se caxiense é uma resposta direta a esse estigma; é uma demarcação de terra que Rojão faz com orgulho, entendendo que a estética é, antes de tudo, política. Mas esse orgulho não se sustenta no vácuo. Nada do que a gente ouve hoje teria o mesmo peso se não fosse a articulação pesada de quem acredita no território.
É aqui que entra a peça fundamental dessa engrenagem: Diogo Queiroz.
Se "A Lenda" saiu do campo das ideias e virou realidade nas plataformas, foi porque o Diogo, junto com o Wander Scheffer, botou o selo Banidos pra marchar.
"Quando o Diogo e o Wander me convidaram para fazer parte da Banidos, que é um selo de Duque de Caxias... o convite trazia também essa mescla de falar de coisas do cotidiano, de vivência, mas também trazer uma coisa que fosse um pouco mais palpável pra gente comercializar mesmo, tá ligado? E dar uma elevada no nosso nível na carreira."
O Diogo foi o cara que movimentou toda essa situação, costurando as pontas e garantindo que o talento do Rojão tivesse o suporte necessário pra explodir.

É a prova de que a Baixada produz o craque, mas também produz o técnico que organiza o time pro jogo.
"A gente sabe que tem coisa boa porque se não tivesse coisa boa a gente não tava fazendo coisa boa. Isso aqui vem de Caxias, o lugar que você odeia. Mas a gente ama porque a gente nasceu aqui e a gente vai amar pra sempre."
Essa rede de apoio, onde o Diogo Queiroz aparece como o grande articulador dessa "tropa" impossível de parar, é o que Rojão chama de "sair na urina": um processo natural de quem entende que o sucesso de um cria de Caxias é a vitória de todo o coletivo organizado.
Ninguém sobrevive à deriva no caos da metrópole.
O processo desse disco — que levou três anos entre perdas e falhas— é o retrato de mais um aquilombamento baixadense. Começou em julho de 2023 e, desde então, o caminho foi pavimentado por imprevistos: HD queimado, equipamento na miséria e distâncias geográficas.
A produção desse EP é uma aula de persistência.
"O bagulho fluiu, e a gente ficou na miséria do equipamento de novo, mais uma vez, tá ligado? A tecnologia, porra, brincando... Mas no final meio que tudo se encaixou e funcionou melhor do que a gente achou que seria."
O apoio do Maui, que cedeu a casa e o equipamento mesmo sem estar presente, explicitando que a infraestrutura do artista independente na Baixada é a rede de contatos. É o "fazer com o que tem" elevado ao nível de excelência.
Sobre a necessidade de se juntar aos seus, ele é enfático:
"Se a gente ficar muito sozinho, à deriva... Ou você vai definhar e ficar na merda... Ou então alguém vai aparecer, vai ver o que tu tá fazendo, mas vai te escravizar do mesmo jeito. Tu vai voltar pra senzala, filho. Se a gente se aquilomba, a gente não volta mais pra senzala, pô. A gente só ganha nosso rumo mundo afora com liberdade."

É a política do "nós por nós" aplicada na prática, transformando a cena local em um trem bala.
O amadurecimento sonoro do Rojão passa diretamente pela mão dos produtores CLFEZOBEAT, Taleko e, principalmente, Enigma.
A parceria com o Enigma foi o que ele mesmo chama de "virada de chave". Foi o que permitiu ao Rojão sair da zona de conforto e explorar sonoridades mais melódicas e profundas, mergulhando no drill, no dub e no grime.
"Foi bolado trabalhar com o Enigma... a gente já teve uma sintonia de primeira. Viramos 'Cris e Greg', tá ligado? A gente tinha muito tempo pra trocar ideia... Foi foda: três anos de imersão e no final tudo se encaixou melhor do que a gente achou que seria."
Nesse tabuleiro de influências, o papel do Kbrum foi cirúrgico. Em "A Lenda", a expertise do Kbrum ajudou Rojão a calibrar a intenção da voz.
"O Kbrum também deu uma moral pra gravar 'A Lenda', que já é uma música que tá mais no caminho do que ele faz. E aí ele me deu umas dicas na hora de cantar... foi maneiro compreender melhor o processo ali. Quando tem alguém de fora que não tá participando diretamente, mas não tem como não participar estando no ambiente."

E se o disco tem momentos de impacto e ambientação que pegam o ouvinte de surpresa, muito se deve à Clara Ribeiro. A participação dela não estava nos planos iniciais, mas surgiu da necessidade de elevar o patamar estético do projeto.
"Tem a participação da Clara também, minha lenda... foi uma parada que não tava prevista. E aí eu resolvi colocar um pedaço de uma parada pra dar uma impactada e uma somada na ambientação do bagulho. E aí eu chamei a Clara pra fazer essa brincadeirinha. Ficou muito foda."
Toda essa rede — que inclui o apoio logístico do Maui, as sessões com a Sarinha, a Akai, o Xari e o Matheus Coringa — prova que a técnica, na Baixada, se refina no respeito mútuo.
"A Lenda" é, ao mesmo tempo, técnico, íntimo e profundamente territorial.

O encerramento dessa jornada é um convite.
Não é sobre o Rojão ser o único protagonista, mas sobre como a trajetória dele serve de espelho para cada cria da Baixada.
O recado final do homem é direto para quem está no corre, para os amigos e para quem vai dar o primeiro play e para quem já “zerou” o albúm:
"Espero que a galera curta esse trabalho, porque foi uma parada feita com muita seriedade, muita dedicação de toda a equipe envolvida... É a virada de chave da minha carreira e a primeira delas. Espero que venham muitas maiores, mas por enquanto vamos trabalhar nessa. Já alcancei algumas metas que eu queria e estou sempre atualizando para arranjar mais e mais. E é isso, mano... vamos comemorar esse filho que ficou três anos no processo até nascer. É nóis."
A lenda tá na rua que é seu lugar.





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