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Zabú: A Velha História de um Novo Alguém e a Resistência que Brota da Planície

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 28 de jan.
  • 5 min de leitura

Caminhar pelo Norte Fluminense é deparar-se com a imensidão de uma planície que, embora geograficamente plana, é repleta de relevos sociais e culturais complexos. 

Em Campos dos Goytacazes, a cinco horas de distância da capital fluminense, o Hip Hop não é apenas um gênero musical, mas uma ferramenta de sobrevivência. É desse solo que emerge Zabú, rapper, produtor e articulador que, após uma década de "corre", entrega ao mundo seu primeiro álbum de estúdio: A Velha História de um Novo Alguém.


 Foto e Design da Capa: Aryah
 Foto e Design da Capa: Aryah

O disco é um mosaico de 15 faixas (que se expandem na versão Deluxe) que narram a trajetória de quem começou na percussão do samba e do reggae e encontrou na rima a sua verdadeira voz.


O "Pé no Barro": O Desafio de ser Interior


Na entrevista, Zabú é categórico sobre o que significa fazer cultura fora do eixo metropolitano. Para ele, a distância física da capital se traduz em uma luta constante por reconhecimento e infraestrutura.



"Fazer o hip hop aqui no interior... é desafiador, mano, porque não tem como não sentir essa distância. A gente tem muito menos visibilidade. Às vezes a gente faz um trabalho muito foda, mas até chegar nas pessoas que decidem as coisas, demora muito mais. É um dobro de esforço para ser ouvido."

Apesar disso, Zabú não vê o interior como uma carência, mas como uma potência. Através da Mãos Negras e da IN MUNDO records, ele criou um ecossistema que permite a outros artistas locais terem onde gravar e como se articular. Sua atuação em escolas e no sistema socioeducativo reforça que o rap, para ele, é uma missão social.


A Arqueologia do Sample e a Construção do Som



Zabú não é apenas o homem do microfone; ele é o arquiteto sonoro de 11 das 15 faixas do álbum. Sua técnica de produção remete aos grandes mestres do boombap, mas com um ouvido atento às brasilidades e ao jazz. Durante a conversa, ele revelou como o tempo é um aliado na sua criação:


"O processo desse álbum foi uma viagem. Tem sample que eu garimpei em 2019, guardei porque sabia que era especial, mas ainda não tinha a letra certa. 'Tudo Passa', por exemplo, é uma música que 'marinou' por anos até estar pronta. Eu gosto dessa sujeira do vinil, dessa textura que o digital às vezes perde."


 Foto: Moviz
 Foto: Moviz


A Dualidade do Novo e do Velho


O título do álbum, A Velha História de um Novo Alguém, resume a fase atual do artista. Ele reconhece que a maturidade só veio através dos erros do passado.


"Eu sou um novo alguém hoje, mais maduro, mais consciente do meu papel como artista e como educador. Mas eu não posso apagar a 'velha história', as dificuldades, as rimas ruins do início, os 'nãos' que recebi. Tudo isso pavimentou a estrada. O álbum é o fechamento desse ciclo de dez anos."


Na versão Deluxe, Zabú leva essa maturidade para a pista. Com remixes em Drum and Bass e House, ele mostra que o rap do interior pode (e deve) dialogar com a música eletrônica e global. A participação de Erick Jay, campeão mundial de DJs, sela o álbum com um selo de qualidade que coloca Campos dos Goytacazes no mapa mundial do scratch.


O Manifesto do Encontro: Conspirar e Existir


Ecoando o Manifesto Conspirar, a obra de Zabú é um convite ao "aquilombamento". Em um mundo que marchar de braços dados com o individualismo, ele prefere a comunhão.


Foto: Alerrandro
Foto: Alerrandro

"O hip hop me salvou várias vezes. Eu era uma pessoa insegura antes da rima. Ver as pessoas se identificando com um verso meu, chorando num show, é o que me faz sentir que a vida está em outro patamar, sabe? Não é sobre números de Spotify, é sobre carne, sangue e alma."

A Planície que se Agiganta


Zabú prova que a "Velha História" é, na verdade, um arquivo vivo de resistência. Ele não entrega apenas música; entrega um registro histórico do Norte Fluminense. Enquanto o sereno cai sobre a planície goitacá, Zabú continua conspirando, rimando e provando que a verdade artística é a única fórmula que realmente permanece.


Foto: Alexya
Foto: Alexya

Se na primeira parte entendemos a geografia emocional que moldou Zabú, agora precisamos abrir as máquinas. Para além da voz, Zabú é um artesão do bit, um pesquisador que entende que a produção musical é um ato de "conspirar" contra a mesmice.


A Cozinha Sonora: O Samba no DNA do Beat


Um ponto crucial da trajetória de Zabú, muitas vezes ofuscado pela rima, é sua base como percussionista. Essa vivência no samba e no reggae trouxe para o álbum um balanço rítmico diferenciado. Enquanto muitos produtores se prendem a loops estáticos, Zabú imprime uma organicidade que remete à batida do couro.



"Minha formação vem da percussão... eu sinto o Hip Hop como essa extensão do tambor, sabe? O boombap pra mim tem que ter esse suor, essa malemolência que o samba me ensinou", revela o artista em sua fala sobre as origens musicais.

Essa influência é nítida na escolha dos samples de brasilidades, boogie e MPB que compõem o mosaico do disco. Zabú assina a produção de 11 faixas, demonstrando um controle total sobre a narrativa sonora.


Lirismo e Virtuosismo: O Desafio da Letra "C"


Zabú não se contenta com o básico. Na entrevista, ele destaca o exercício técnico por trás de faixas como "Contas Comigo". A música é um tour de force lírico, onde cada verso foi meticulosamente construído utilizando apenas palavras iniciadas pela letra "C".



"Eu queria testar meu limite como escritor... 'Contas Comigo' foi um desafio de paciência e dicionário. É o rap provando que é literatura, que é domínio da língua", explica Zabú sobre a faixa que se tornou um marco técnico do álbum.

A Missão Além do Disco: Hip Hop nas Escolas


Um dos temas mais caros ao artista é a função social da sua arte. Através da produtora Mãos Negras, Zabú atua diretamente na base, levando oficinas de rima e produção para escolas e unidades socioeducativas.


Foto por: Alerrandro
Foto por: Alerrandro

  • O Rap como Pedagogia: Zabú acredita que o Hip Hop é a linguagem mais eficaz para dialogar com jovens que o sistema tenta invisibilizar.


  • Aquilombamento: Ele vê sua atuação como um processo de "aquilombar", criando redes de apoio e auto-estima através da cultura.


  • Contra as Estatísticas: Como diz o seu manifesto, ele busca o que é "carne e sangue" em um mundo que reduz jovens a números e dados de violência.


O Deluxe como Transição para a Pista


 Design de Capa: Denis
 Design de Capa: Denis

A edição Deluxe do álbum, lançada em dezembro de 2025, não foi apenas um "bônus", mas uma afirmação estética de que o rap do interior é global. Ao incorporar remixes de Drum and Bass e House, Zabú conecta a planície de Campos com a cultura clubber europeia e paulista.



"O Deluxe é pra mostrar que o nosso boombap pode virar rave, pode virar baile. A gente não está preso num formato só", afirma sobre as 7 novas faixas que contam com produtores como Jonis e Kekere Ake.


O Novo Alguém que Nunca Esquece o Caminho



Zabú encerra este ciclo reafirmando que sua "velha história" é o alicerce para tudo o que virá. Ele não vive apenas de música; ele vive para a construção de uma cena que sobreviva à sua própria existência. Entre o boombap clássico e as batidas eletrônicas do futuro, Zabú permanece como um conspirador cultural necessário, provando que no interior do Rio, a arte não pede licença — ela ocupa.



FICHA TÉCNICA E CRÉDITOS AMPLIADOS


  • Artista: Zabú (Igor Faria Pessanha Felix)

  • Produção Musical Principal: Zabú (11 faixas)

  • Mixagem e Masterização: Jonis, Zabú e Kekere Ake

  • Identidade Visual: Aryah (Original) e Denis (Deluxe)

  • Selo: IN MUNDO records

  • Data de Lançamento (Deluxe): 01 de dezembro de 2025 


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