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RN do Capão: “Um preto com dinheiro incomoda muito mais”

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 18 horas
  • 7 min de leitura
Do Capão que conhecemos através dos Racionais ao corre de um jovem que vendeu bala na porta de balada antes de conseguir viver da música, RN do Capão conversa com a Menó sobre território, composição, trabalho, ascensão e o que significa atravessar a ponte sem esquecer o lado de cá.


Eu conheci o Capão Redondo antes mesmo de conhecer São Paulo. Conheci pelas músicas dos Racionais MC’s. Era por aqueles versos que eu imaginava uma cidade cinza, violenta e desigual, onde ser preto e periférico significava aprender cedo sobre quais lugares eram seus e quais pareciam não ter sido feitos para você.


Na São Paulo dos anos 90 cantada pelos Racionais, o Capão aparecia atravessado pela violência, pelo racismo e pela pobreza, mas também por códigos, afetos, revolta, orgulho e sobrevivência. Era um território contado por quem estava dentro dele, e talvez por isso tenha chegado tão longe.


Durante muito tempo, esse também foi o imaginário que carreguei do Capão. Mas uma quebrada nunca cabe apenas na violência que contam sobre ela. Tem família, festa, trabalho, sonho, criação, contradição e um monte de pivete tentando inventar possibilidades onde disseram que quase nenhuma existia. Décadas depois dos Racionais colocarem aquele pedaço da Zona Sul no mapa de muita gente como eu, RN do Capão aparece carregando o território no próprio nome.


E isso não é pouca coisa. Ele mesmo reconhece que existem pessoas que nunca estiveram no bairro, mas sabem que o Capão existe por causa dos Racionais.


Só que antes do RN, dos números e dos shows, tinha o Rian. Um menor que conheceu o funk pelo celular de um parceiro, escrevia escondido porque tinha vergonha de mostrar suas músicas e passava horas consumindo tudo o que conseguia sobre aquela cultura.


E tinha o corre que quase nunca aparece quando a história já deu certo. RN vendeu bala na porta de balada, trabalhou registrado e fazia música nas horas vagas enquanto ajudava dentro de casa. Foi criado pela avó, merendeira, e aprendeu cedo que sonho também precisa disputar espaço com responsabilidade.


Talvez seja uma das partes menos românticas de ser artista preto e periférico: antes de pensar em viver de arte, muita gente precisa descobrir como sobreviver enquanto faz arte. É trabalhar durante o dia e escrever de noite.


É juntar dinheiro para uma produção. É atravessar a cidade para acessar oportunidades que quase sempre estão longe de casa. É fazer acontecer mesmo quando a vida oferece uma quantidade absurda de motivos para deixar para depois.


Por isso a ponte aparece tanto nessa conversa. A Ponte João Dias - a mesma da música “Da Ponte pra Cá”, dos Racionais MC’s - não é só concreto. Para RN, ela marca uma divisão entre o lugar onde cresceu e os espaços que precisava acessar para trabalhar, estudar e correr atrás das coisas. Ele atravessava para ir, mas era na volta que reconhecia: “tô em casa.”


Hoje, RN atravessa outras pontes. Estúdios, gravadora, shows, números, reconhecimento. Só que existe algo ainda mais incômodo do que um preto periférico sobreviver: é vê-lo prosperar. É quando aquele corpo que deveria permanecer dentro de determinado imaginário começa a comprar, viajar, ocupar, escolher e desejar. RN resume essa contradição do jeito mais simples possível: “um preto com dinheiro incomoda muito mais.”


Na conversa com a Menó, RN do Capão fala dessas travessias. Do menor tímido ao Canetinha. Do trabalhador que fazia música na folga ao artista que hoje consegue viver 100% do próprio som. E, principalmente, sobre atravessar a ponte sem precisar virar estrangeiro quando volta para o lado de cá.



MENÓ — Antes de existir o RN do Capão, quem era o Rian?


RN DO CAPÃO — Eu sempre gostei muito de música. Quando era menor, o acesso que eu tinha era mais puxado pro black, por conta do meu pai. Meu primeiro contato mesmo com o funk foi voltando da escola, quando um parceiro me mostrou uma música no celular. Eu fiquei brisando e pedi pra ele passar pra mim.


Eu não tinha muito acesso à internet, nem computador em casa, mas minha tia tinha. Então comecei a ir pra casa dela e ficava o dia inteiro vendo vídeo dos caras, show, camarim, medley. Foi ali, por volta de 2010, 2011, que comecei a fazer minhas rimas e escrever minhas músicas. Eu tinha uns nove anos.


MENÓ — E quando você percebeu que queria transformar isso em carreira?


RN — Eu escrevia muito, mas tinha vergonha de mostrar. Em 2015 fui morar com a minha mãe em Fortaleza e estava acompanhando muito as batalhas pelo YouTube. Quando voltei pra São Paulo, falei: “É isso que eu quero mesmo”.


Em 2016 comecei a postar minhas prévias e meus vídeos. Meus parceiros me incentivaram a criar uma página no Facebook e foi por 2016, 2017 que comecei a ter coragem de me apresentar realmente como MC.


MENÓ — Qual foi a parte mais difícil desse corre?


RN — Primeiro foi perder o medo. Mas acho que o mais difícil foi conciliar a vida pessoal com a profissional. Hoje eu consigo viver 100% o RN, mas nem sempre foi assim.


Já vendi bala na porta de balada, já trabalhei registrado. Quando estava de folga, eu era MC: tentava gravar uma música, fazer algum corre, investir no meu sonho. Fui criado pela minha avó, que era merendeira, então também precisava ajudar dentro de casa.


Cada pessoa tem uma realidade. Se a sua é mais dificultosa, você acaba tendo que se esforçar mais que os outros.


Pra mim, uma das maiores vitórias de um artista não é necessariamente ficar milionário. É chegar no momento em que consegue viver da própria parada.


MENÓ — E como o Capão entrou no seu nome?


RN — Meu vulgo era MC RN. RN veio de Rian: começa com R e termina com N. Só que começou a ter outro RN ganhando destaque e o pessoal confundia nós dois.


Quando fui gravar uma medley, um parceiro falou: “Vou colocar RN do Capão”. Eu até achei grande. Depois ele lançou no YouTube assim e ficou.


Hoje eu agradeço muito. Carregar Capão no nome dá um peso gigantesco. É a quebrada onde eu nasci e fui criado. Tem gente que nunca pisou lá, mas conhece o Capão através dos Racionais. Então hoje eu entendo muito mais a importância desse nome.


MENÓ — O Capão muitas vezes é resumido à violência e à pobreza. Qual é o Capão que você conhece?


RN — Eu nasci e fui criado lá. Sei que existem problemas, como em qualquer comunidade, mas eu posso dizer que cresci em paz. Eu amo muito o Capão Redondo.


MENÓ — De onde veio o “Canetinha”?


RN — Como eu tinha vergonha de mostrar minhas músicas, ficava muito tempo em casa escrevendo. Desde cedo exercitei muito meu lado de compositor. Quando comecei a frequentar estúdio, já chegava com esse peso na caneta.


A galera começou a notar: “Esse bagulho que você falou eu nunca vi ninguém falar desse jeito”. Até que meu empresário começou a me chamar de Canetinha. Às vezes eu soltava uma barra e os caras: “É o Canetinha mesmo”. Foi pegando e eu abracei. Hoje é quase um alter ego.



MENÓ — Como funciona seu processo de composição hoje?


RN — Sou bem livre. Antigamente eu chegava no estúdio com a música pronta e o DJ produzia em cima. Hoje gosto de chegar, ouvir os beats e ver a energia.


Às vezes estamos conversando sobre a vida e, de alguma coisa que você fala, já vem uma ideia. A gente transforma aquela conversa em música. Também gosto de referência gringa, de pegar um flow e pensar como aquilo pode funcionar em português. Filme também vira referência. Tem infinitas possibilidades.


MENÓ — Sendo um artista negro e de quebrada que começa a ocupar outros espaços, você sente uma responsabilidade sobre o que comunica?


RN — Sim. A gente percebe que vai virando referência. Vários menores chegam falando que se inspiram em nós, que querem ser MC, que estão no corre. Então a gente procura incentivar e também ser uma referência boa.


Não tem tanta referência dentro da quebrada. Se Deus abençoou nós pra ocupar esse lugar, temos que dar importância pra isso.


MENÓ — Por que você acha que incomoda tanto quando um artista periférico começa a falar também de dinheiro, luxo e conquista?


RN — Porque as pessoas estão acostumadas a ver a gente ali. A gente nasceu ali, então parece que tem que crescer ali e morrer ali.


Mas não é isso. Se a gente está trabalhando pra crescer, a gente quer expandir. Você vê o neguinho comprando um carro, reformando a casa, conseguindo comprar uma casa em outro bairro... isso incomoda.



Um preto com dinheiro incomoda muita gente. Um preto com dinheiro incomoda muito mais.


MENÓ — “Da Ponte pra Cá” carrega uma referência forte dos Racionais, mas também uma experiência muito sua. O que essa ponte significa?


RN — Quando eu era mais novo, pra trabalhar, fazer um curso ou uma entrevista, sempre tinha que passar da Ponte João Dias pra lá. Ela é uma referência que liga essa região mais periférica da Zona Sul com bairros mais nobres.


Eu sempre pensava: toda vez que a gente vai fazer alguma coisa, tem que atravessar a ponte. Só que quando estou voltando e chego na João Dias, já falo: “Tô em casa”.


Da ponte pra cá tem Vila das Belezas, Campo Limpo, Capão Redondo. Eu pensava no tanto de vivência de pessoas que moram igual a gente desse lado de cá. Essa foi a inspiração.


A gente atravessa pra trabalhar, fazer entrevista, curso, correr atrás. Mas no final das contas a gente sempre volta pra cá.



MENÓ — E depois de atravessar essa ponte, acessar gravadora, artistas grandes e outros espaços, como é voltar sem virar estrangeiro dentro da própria quebrada?


RN — No começo eu tomava muito um choque de realidade. Imagina: você sai da sua casinha cheia de goteira no telhado e vai gravar num prédio maneiro, começa a ter contato com artistas que vivem outra realidade. Mas no fim do dia você volta pra sua casa.


Eu encarava isso mais como incentivo. Se da ponte pra lá está tendo isso, vamos trabalhar pra chegar lá também.


MENÓ — E o que vem agora?


RN — Tenho projetos que quero usar pra abordar pautas e dar mais importância pra rapaziada. Agora que a gente está tendo mais relevância, quero aproveitar isso também pra trazer assuntos importantes.


Estou no momento mais feliz da minha carreira profissional. Hoje posso viver 100% o RN e estou tendo um reconhecimento que sempre almejei e trabalhei pra ter.


É louco pensar que eu só queria cantar minhas músicas, gravar meus vídeos na palma da mão, e hoje tem gente me reconhecendo na rua e cantando nossas músicas nos shows.


MENÓ — Quando você olha para aquele Rian lá do começo, você ainda reconhece aquele menor?


RN — Acho que todo mundo muda. A gente vai ficando mais velho, vai dando umas cabeçadas na vida, ficando mais maduro, aprendendo.


Mas eu creio que sou o mesmo moleque pureza de lá atrás. Do mesmo coração. Só quero fazer meu som, ajudar minha família e mudar minha realidade, que já vem sendo mudada, graças a Deus.


É isso, mano.

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