Sem freio nem filtro, Bia Soull constrói em Pornografia Auditiva um manifesto de prazer
- Treicy Emmeline
- há 4 horas
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Em seu álbum de estreia, a artista passeia por diferentes gêneros e aposta na experimentação com uma produção bem amarrada
Por Treicy Emmeline

Bia Soull constrói um disco que pulsa desejo em estado bruto, onde o erotismo não é metáfora tímida, mas linguagem central, explícita e sem pudor. Um álbum que não pede licença, não suaviza suas intenções e tampouco se preocupa em caber nas expectativas de uma indústria cada vez mais previsível.
Ao recusar encaixes fáceis, a artista transforma a provocação em parte essencial da experiência, conduzindo o ouvinte por um território onde a inquietação e o prazer andam lado a lado.
Há algo de inevitavelmente político na forma como Bia transforma o próprio desejo em narrativa, sobretudo quando essa narrativa recusa a culpa, o recato imposto ou qualquer tentativa de domesticação do corpo feminino.
Enquanto parte da sociedade parece caminhar para uma estética mais contida, quase asséptica, Pornografia Auditiva surge como um desvio quente, suado e consciente dessa tensão. Em um cenário marcado pela propagação de movimentos que reforçam visões misóginas, a presença de uma artista que canta sobre sexo com autonomia, prazer e provocação soa minimamente necessário.

Transitando entre o funk, R&B e elementos eletrônicos com uma naturalidade que reforça sua coesão, a fluidez do álbum acompanha essa proposta sem esforço aparente. Não se trata apenas de misturar gêneros, mas de fazê-los dialogar de forma orgânica, como se cada faixa prolongasse a anterior em outra textura, outro ritmo, outra intensidade.
O resultado é um disco que escorre — no melhor sentido da palavra — mantendo o ouvinte imerso em uma atmosfera que alterna entre momentos de maior intimidade e passagens mais inquietas, sem perder consistência.
Essa escolha por caminhos menos óbvios se destaca ainda mais quando colocada em contraste com o mainstream atual, onde muitas produções parecem seguir fórmulas prontas. Bia vem na contramão, ignorando essa cartilha e apostando no risco, conseguindo construir uma estética que não se dobra à lógica do consumo rápido.

Estética essa que vem ganhando vida nas apresentações ao vivo, que incorporam elementos visuais provocativos, pôsteres explícitos, dançarinos, tudo pensado para expandir o universo do álbum pro palco, deixando a experiência ainda mais intensa e imersiva.
Ao abordar sexo de maneira direta, a artista também escancara uma desigualdade antiga na indústria musical. Enquanto homens sempre encontraram espaço para falar de seus desejos falocêntricos sem grandes consequências, mulheres historicamente enfrentam julgamentos que tentam reduzir sua arte a algo menor.
Ao se inserir nesse jogo e ao mesmo tempo tensioná-lo, Bia dialoga com um legado de artistas que já desafiaram esse moralismo, mas imprime sua própria assinatura, mais alinhada com as possibilidades sonoras contemporâneas.
Em “Melaço”, uma das faixas mais marcantes pra mim, essa proposta ganha contornos ainda mais evidentes.

O instrumental cresce em camadas, quase como um corpo que se aquece, enquanto os vocais de Bia conduzem a música com segurança, explorando texturas e intenções que reforçam o caráter sensorial do disco.
Usando os lábios de cima pra se chegar nos de baixo Falando no teu ouvido todas as posições que eu faço Outra armadilha, esse é um dos meu traços Sorrateira, safadinha e o teu nome no melaço Segunda de Lua cheia, eu proferia as palavras que farão tua cabeça Vai pensar na minha buceta e todos os seus passos te trarão pra minha mesa Na tua vida medíocre, eu vou ocupar espaço, onde tudo incendeia Vai pensar na minha buceta e todos os seus passos te trarão Pra lamber meus pés, pra fuder a minha xota O jeito que eu te chupo é o jeito que você goza A noite é sua, e saliva, me bate, que ela se molha Putaria de verdade, energia de gostosa Você tá obcecado na minha voz Obceca-ca-ca-do na minha Roupa de látex, velas vermelhas Taças de champanhe, luzes acesas Veja todos os detalhes daquilo que cê deseja Teu pecado favorito e não há quem te defenda Quando o rolê acaba, é minha buceta que abre Coberta por renda branca pode causar um desastre Até eu mandar que pare, vai dormir na minha cama E aí, Deus que te guarde
Há uma construção cuidadosa da produção ali, onde cada elemento parece pensado para intensificar a experiência, como se o som também pudesse tocar.
O álbum inteiro reivindica o direito ao prazer em todas as suas formas, atravessando o desejo feminino, ao mesmo tempo em que abre espaço para fantasias, fetiches e curiosidades que muitas vezes permanecem reprimidas, principalmente entre homens.

Ao fazer isso, Bia amplia o campo de escuta, convidando o público a encarar o desejo como algo natural, complexo e inevitavelmente humano.
Em meio a tanta previsibilidade, Pornografia Auditiva é um disco que provoca e instiga. Bia Soull aposta no que desestabiliza, deixando como rastro uma experiência que não se esgota na audição, mas permanece reverberando. Quase como um convite, ou melhor, um desafio, a bancar nossos próprios desejos.
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