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Rios Voadores na Galeria Homero Massena: Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira fazem chover ancestralidade no presente

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 23 horas
  • 4 min de leitura


Quando me disseram que existia rio que viaja pelo ar, confesso que a minha primeira reação foi o ceticismo. Fiquei tentando imaginar essa água suspensa, correndo invisível sobre nossas cabeças. Tentei observar o céu de Vitória, a olho nu, buscando rastrear esse fluxo, algum sinal desse caminho molhado no vento, e não consegui. Nada de rio passando ali no azul aberto.

Só fui realmente presenciar tal fenômeno na Galeria Homero Massena - território fincado na Cidade Alta - pela ótica de três artistas que compreendem o peso e a fluidez dos seus próprios caminhos. Ali, Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira provaram que a gente também é feito dessa água que não para. Água que corre, evapora, volta, se transforma e insiste em circular.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

A abertura foi muito mais que um protocolo institucional com gente segurando taça e falando baixo. Foi um gesto coletivo de afirmação, travessia e permanência - um encontro que já não aceita mais viver nas margens.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Enquanto o público se refrescava com picolés e se deixava levar pela roda de contação de histórias com Adélia Oliveira, a visita acompanhada pelos artistas transformava a galeria em um espaço de troca viva, onde as conversas corriam soltas e o afeto organizava o ambiente.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Ver jovens artistas negros ocupando esse centro histórico não é detalhe - é luta. É a reafirmação de um fluxo que ocupa o presente para projetar o amanhã. Porque, no fundo, o mar que nos trouxe até aqui existia muito antes e persistirá muito depois da branquitude. A água sempre esteve aqui. Correndo por dentro da terra, por dentro do corpo e por dentro da memória


E nada mais justo que ela também seja nosso lugar de morada e nossa ferramenta de deságue. Seja nos canais lacrimais, quando o peito pesa, seja nos rios que correm por caminhos que ainda estamos aprendendo a alcançar.

Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Os artistas caminham próximos da premissa de Ailton Krenak - líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor do povo Krenak, além de membro da Academia Brasileira de Letras -, que insiste em nos lembrar que o rio não é um recurso. É uma pessoa: um ser vivo que respira, sente, responde e interage com o todo. Sendo ele um ser como nós - pertencente e confluente -, também somos sua extensão. Somos pedaço desse curso. Nos misturamos nele como quem entende que nenhuma água corre sozinha.


No fim das contas, somos rios correndo juntos em direção a uma mesma foz.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Negros, indígenas e afrofuturistas buscam, nesse encontro, construir narrativas de futuros possíveis - e até utópicos. Porque imaginar também é uma forma de sobrevivência. Uma forma de garantir que nossa comunidade nunca chegue ao ponto de secar. Nesse mergulho coletivo, o trio se reconhece como "corpos-território": rios vivos operando em um tempo espiralado, onde passado e futuro se encostam na urgência do agora.


Valentim Faria, vindo de Campos dos Goytacazes, utiliza a pintura como um exercício de "desesquecimento". Suas telas tratam o Rio Paraíba do Sul e o mar como arquivos vivos da nossa diáspora, como se cada onda carregasse fragmentos de histórias que insistem em não desaparecer.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Guilherme Brasil, natural de Porto Seguro, transforma o afrofuturismo em tecnologia de cura. Em suas obras, a saudade exorbitante e a memória familiar deixam de ser peso e viram combustível - matéria-prima para reconstruir identidades pretas que o tempo tentou fragmentar.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Fechando esse fluxo, Yasmin Cerqueira conecta a bagagem de Nova Iguaçu com o cotidiano vivido hoje em Cobilândia. Seu trabalho projeta nossos corpos através de narrativas orgânicas que ligam as águas da origem ao chão que se pisa agora. É como se cada imagem abrisse uma ponte entre territórios que continuam conversando.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Ao entrar na galeria e levantar o olhar para as doze grandes telas instaladas no teto - um grande rio-mar flutuando sobre o público -, a gente entende a provocação de Leda Maria Martins, poeta, ensaísta, dramaturga e acadêmica brasileira: “A força vital é o que atravessa o corpo e o faz pulsar na criação, tornando cada gesto do artista presença viva no mundo.” É essa energia que atravessa a exposição e faz cada obra pulsar diante de quem passa por ali.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

A exposição Rios Voadores segue em cartaz até o dia 24 de abril de 2026, na Galeria Homero Massena, na Rua Pedro Palácios, nº 99, no centro de Vitória


Rios Voadores reúne Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira em uma mostra sobre ancestralidade, afrofuturismo e memória.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

Vale muito a pena visitar e chegar perto desse desaguar coletivo.


Porque o que está acontecendo ali não é só exposição. É correnteza.

Com o suporte do design de Milena Espinoza e a fotografia de Alerrandro Onofre, esses artistas seguem abrindo caminhos e reescrevendo, gota por gota, a história da arte contemporânea negra capixaba.


Fotografia de Alerrandro Onofre
Fotografia de Alerrandro Onofre

E quem chega perto percebe:

tem rio passando por ali.

Mesmo quando o olho ainda não aprendeu a ver.



Serviço:

A Galeria Homero Massena (GHM), localizada no Centro de Vitória - ES, funciona geralmente de segunda a sexta-feira, das 9h às 18h. A galeria pode abrir aos sábados e feriados (geralmente das 10h às 16h ou 13h às 17h, dependendo da agenda de exposições)


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