Rios Voadores na Galeria Homero Massena: Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira fazem chover ancestralidade no presente
- Pivete

- há 23 horas
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Quando me disseram que existia rio que viaja pelo ar, confesso que a minha primeira reação foi o ceticismo. Fiquei tentando imaginar essa água suspensa, correndo invisível sobre nossas cabeças. Tentei observar o céu de Vitória, a olho nu, buscando rastrear esse fluxo, algum sinal desse caminho molhado no vento, e não consegui. Nada de rio passando ali no azul aberto.
Só fui realmente presenciar tal fenômeno na Galeria Homero Massena - território fincado na Cidade Alta - pela ótica de três artistas que compreendem o peso e a fluidez dos seus próprios caminhos. Ali, Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira provaram que a gente também é feito dessa água que não para. Água que corre, evapora, volta, se transforma e insiste em circular.

A abertura foi muito mais que um protocolo institucional com gente segurando taça e falando baixo. Foi um gesto coletivo de afirmação, travessia e permanência - um encontro que já não aceita mais viver nas margens.

Enquanto o público se refrescava com picolés e se deixava levar pela roda de contação de histórias com Adélia Oliveira, a visita acompanhada pelos artistas transformava a galeria em um espaço de troca viva, onde as conversas corriam soltas e o afeto organizava o ambiente.

Ver jovens artistas negros ocupando esse centro histórico não é detalhe - é luta. É a reafirmação de um fluxo que ocupa o presente para projetar o amanhã. Porque, no fundo, o mar que nos trouxe até aqui existia muito antes e persistirá muito depois da branquitude. A água sempre esteve aqui. Correndo por dentro da terra, por dentro do corpo e por dentro da memória
E nada mais justo que ela também seja nosso lugar de morada e nossa ferramenta de deságue. Seja nos canais lacrimais, quando o peito pesa, seja nos rios que correm por caminhos que ainda estamos aprendendo a alcançar.

Os artistas caminham próximos da premissa de Ailton Krenak - líder indígena, ambientalista, filósofo, poeta e escritor do povo Krenak, além de membro da Academia Brasileira de Letras -, que insiste em nos lembrar que o rio não é um recurso. É uma pessoa: um ser vivo que respira, sente, responde e interage com o todo. Sendo ele um ser como nós - pertencente e confluente -, também somos sua extensão. Somos pedaço desse curso. Nos misturamos nele como quem entende que nenhuma água corre sozinha.
No fim das contas, somos rios correndo juntos em direção a uma mesma foz.

Negros, indígenas e afrofuturistas buscam, nesse encontro, construir narrativas de futuros possíveis - e até utópicos. Porque imaginar também é uma forma de sobrevivência. Uma forma de garantir que nossa comunidade nunca chegue ao ponto de secar. Nesse mergulho coletivo, o trio se reconhece como "corpos-território": rios vivos operando em um tempo espiralado, onde passado e futuro se encostam na urgência do agora.
Valentim Faria, vindo de Campos dos Goytacazes, utiliza a pintura como um exercício de "desesquecimento". Suas telas tratam o Rio Paraíba do Sul e o mar como arquivos vivos da nossa diáspora, como se cada onda carregasse fragmentos de histórias que insistem em não desaparecer.

Guilherme Brasil, natural de Porto Seguro, transforma o afrofuturismo em tecnologia de cura. Em suas obras, a saudade exorbitante e a memória familiar deixam de ser peso e viram combustível - matéria-prima para reconstruir identidades pretas que o tempo tentou fragmentar.

Fechando esse fluxo, Yasmin Cerqueira conecta a bagagem de Nova Iguaçu com o cotidiano vivido hoje em Cobilândia. Seu trabalho projeta nossos corpos através de narrativas orgânicas que ligam as águas da origem ao chão que se pisa agora. É como se cada imagem abrisse uma ponte entre territórios que continuam conversando.

Ao entrar na galeria e levantar o olhar para as doze grandes telas instaladas no teto - um grande rio-mar flutuando sobre o público -, a gente entende a provocação de Leda Maria Martins, poeta, ensaísta, dramaturga e acadêmica brasileira: “A força vital é o que atravessa o corpo e o faz pulsar na criação, tornando cada gesto do artista presença viva no mundo.” É essa energia que atravessa a exposição e faz cada obra pulsar diante de quem passa por ali.

A exposição Rios Voadores segue em cartaz até o dia 24 de abril de 2026, na Galeria Homero Massena, na Rua Pedro Palácios, nº 99, no centro de Vitória.
Rios Voadores reúne Guilherme Brasil, Valentim Faria e Yasmin Cerqueira em uma mostra sobre ancestralidade, afrofuturismo e memória.

Vale muito a pena visitar e chegar perto desse desaguar coletivo.
Porque o que está acontecendo ali não é só exposição. É correnteza.
Com o suporte do design de Milena Espinoza e a fotografia de Alerrandro Onofre, esses artistas seguem abrindo caminhos e reescrevendo, gota por gota, a história da arte contemporânea negra capixaba.

E quem chega perto percebe:
tem rio passando por ali.
Mesmo quando o olho ainda não aprendeu a ver.





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