Quem ficou de fora do 7 de setembro
- Pivete

- há 19 horas
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Todo 7 de setembro o Brasil repete a mesma imagem. Um homem branco, montado num cavalo, levanta uma espada perto de um rio e, de repente, parece que a liberdade começa ali. É uma história bonita, simples, fácil de decorar. Talvez por isso tenha sobrevivido tanto.

O problema é que a liberdade nunca funcionou assim por aqui.
Muito antes do grito chegar ao Ipiranga, já tinha gente gritando por liberdade nesse território. Gente que não ganhou quadro, monumento, feriado ou avenida com o próprio nome. Gente que ganhou forca, cadeia, perseguição e esquecimento. Em 1798, quase vinte e cinco anos antes da independência oficial, a Revolta dos Búzios já colocava em circulação ideias de independência, república, igualdade e fim da escravidão. Ali estavam homens negros, pobres, soldados, alfaiates, trabalhadores, libertos e escravizados imaginando outro país possível. Lucas Dantas, Manuel Faustino, João de Deus e Luís Gonzaga foram executados. A independência deles não ganhou desfile. Ganhou condenação.

Talvez seja esse o problema quando contamos a história do Brasil apenas pelas datas escolhidas pelo próprio poder. A gente começa sempre quando eles chegam. Nunca quando nós começamos a lutar.
A luta dos negros ao longo da história. A busca por pertencimento depois do sequestro. Os que sobraram da invasão. As memórias soterradas pelo colono. Sonhos imperialistas, violência, eugenia e outras teorias criadas para justificar a selvageria de quem se diz civilizado. A história oficial tem uma habilidade impressionante para transformar conquista popular em bondade de gente poderosa. Foi assim com a independência. Foi assim com a abolição. Parece que sempre existe alguém da elite chegando no último capítulo para assinar um papel e receber os créditos por uma luta que começou muito antes.
Dom Pedro aparece às margens do Ipiranga. Isabel aparece com uma pena na mão. E o povo desaparece.

A discussão apresentada no texto “República e abolição: história sem povo?”, da Fundação Perseu Abramo, ajuda a desmontar justamente essa narrativa. Quando a história é contada apenas pelas decisões das elites, os grandes processos políticos parecem acontecer sem participação popular. Como se o povo estivesse sempre assistindo. Como se negros, indígenas, trabalhadores, libertos, escravizados, homens e mulheres pobres fossem apenas cenário. Não eram.
O próprio 7 de setembro fica pequeno quando a gente olha para o que aconteceu depois dele. Portugal não ouviu o grito do Ipiranga e simplesmente arrumou as malas. Na Bahia, a guerra continuou. Negros, indígenas, libertos, escravizados, pescadores, trabalhadores pobres, homens e mulheres participaram dos conflitos contra as tropas portuguesas até 1823. Entre essas memórias aparece Maria Felipa, mulher negra de Itaparica, pescadora, ganhadeira, lembrada pela resistência contra os portugueses. Essa imagem me interessa muito mais. Não o príncipe em cima do cavalo, mas uma mulher preta na beira do mar. Talvez porque eu consiga enxergar melhor o Brasil nela.

Vejo as vozes e o que sobrou delas. Fela, Lumumba, Davis, Mandela, King, Malcolm, Gonzalez, Abdias, Huey, Sankara, Baldwin, Fanon, entre tantos outros. Entre o que existiu e o que lembramos, são muitos os que pagaram por desafiar o colono. Ainda assim, sua resistência abriu margem para liberdades possíveis. Quando leio esses livros que falam de nós, escritos por nós, quando assisto aos documentários que contam um pouco do que fomos, percebo que, mesmo com tudo desfavorável, criamos, lutamos, sobrevivemos.
No Brasil também foi assim. Nas tentativas de revolução, nas insurreições, nas revoltas de quem só tinha a força, nas tentativas de preservar uma identidade, tudo isso se tornou nosso. Palmares, Búzios, Malês, Balaiada, quilombos espalhados pelo país, fugas, sabotagens, revoltas, compra de alforrias, ações judiciais, imprensa, associações. A liberdade nunca chegou para a população negra como presente. Foi arrancada pedaço por pedaço.
E continuou sendo arrancada depois de 1822, porque talvez essa seja a pergunta que o 7 de setembro deveria provocar de verdade. Independência para quem?

O Brasil rompeu politicamente com Portugal enquanto milhões de pessoas continuavam sendo tratadas como propriedade. Isso não é um detalhe na história da independência. É uma das suas maiores contradições. Um país que se declarou livre enquanto mantinha gente acorrentada. Foram justamente essas pessoas, escravizadas, libertas e seus descendentes, que continuaram tensionando os limites dessa palavra chamada liberdade.
Décadas depois, Luís Gama transformaria a própria vida em enfrentamento direto à escravidão. Homem negro, nascido livre e vendido ilegalmente como escravizado pelo próprio pai, recuperou sua liberdade e passou a atuar nos tribunais, na imprensa e na campanha abolicionista. Ao lado dele estavam José do Patrocínio, André Rebouças, Ferreira de Menezes, Vicente de Souza e tantos outros homens e mulheres negros que fizeram da luta abolicionista uma batalha pública. A abolição não começou em 13 de maio de 1888. Ali foi colocada uma assinatura. A luta já estava acontecendo havia muito tempo.

Estava nos quilombos, nas fugas coletivas, na recusa ao trabalho, nos processos judiciais, nas campanhas públicas, na imprensa abolicionista, nas associações, nas pessoas que escondiam fugitivos, arrecadavam dinheiro para alforrias ou simplesmente decidiam que ninguém mais seria dono de seus corpos. Depois colocaram uma princesa no centro da história.
É curioso como quase sempre existe um branco para receber os créditos no final.
Eles se expressaram. Seguiram com línguas afiadas, mãos calejadas e olhos fixos no objetivo de ser vistos como seres dignos, respeitados em relação de igualdade. O outro, sempre tão heroico, vilaniza quem o questiona. Para eles, os fins justificam os meios que idealizaram e executaram. Higienizaram povos inteiros porque se diziam puros.
Tudo que foge do branco é sujeira, inclusive o verde de uma floresta.

Negar que, em tantos momentos da história, a maldade teve uma cor, um propósito, um deus, um valor, uma bandeira, um clamor, o apoio de povos, o sorriso de inocentes e a conveniência dos justos é não perceber como o bem e o mal se confundem e se mascaram nos discursos.
Tudo depende da perspectiva.
Qual é a sua?
A deles foi não aceitar ser o vilão de uma história da qual eram, nitidamente, vítimas. Não ser conivente com uma sociedade que justifica seu ódio na revolta de quem já nasce sendo alvo de sua violência. Se distinguir, se afastar do olhar do colonizador na busca da própria identidade. Construir, através das ações, pontes para que outras identidades, já envenenadas por um olhar branco, possam renascer como um novo amanhã.

Talvez seja por isso que disputar memória seja tão importante. Porque quem controla os heróis de um país também controla aquilo que esse país entende como possibilidade. Se ensinam desde pequeno que a independência foi dada por um príncipe, você aprende que transformação vem de cima. Se ensinam que a escravidão acabou pela bondade de uma princesa, você aprende que direito é favor. Se escondem os quilombos, as revoltas, os abolicionistas negros, as mulheres negras que lutaram, os trabalhadores que pegaram em armas, os que escreveram, conspiraram, fugiram e organizaram, você cresce acreditando que o povo sempre assistiu à história acontecer.
Não assistiu.
Fez.
Somos o que somos por conta de quem fomos no passado. Uma só ancestralidade, uma infinidade de potencialidades. Seus sonhos movem os meus. Eu sou vocês. Compartilho o sonho de ser alguém diferente de quem ousou me fazer acreditar que eu sou. Sou diferente de quem sempre se colocou como o diferente. Não quero sua salvação nem seu clamor. Quero ser eu, o máximo possível. E, sendo assim, estou sendo nós.

As supostas humanidades foram categorizadas, colocadas em uma ordem hierárquica, tudo carimbado, assinado, datado. Transformaram isso em ciência, ou tentaram. Racializaram, debateram suas teorias publicamente. Foi política de Estado. Depois disseram que estavam nos civilizando. A mesma civilização que sequestrou, escravizou, invadiu, estuprou e matou. Depois escreveu os livros dizendo que nos deu liberdade.
Por pouco não conseguiram o que queriam.
Ou conseguiram?
Talvez celebrar independência hoje seja justamente tomar essa palavra deles. Olhar para o 7 de setembro e lembrar que o Brasil não começou a desejar liberdade naquele dia e muito menos terminou de conquistá la nele. Sete de setembro é uma data. A independência é uma disputa muito maior. Está em 1798, quando homens negros foram mortos por imaginar uma Bahia livre, republicana e sem escravidão. Está em 1823, quando o povo da Bahia continuou lutando contra as tropas portuguesas. Está nos quilombos, nas revoltas, em Luís Gama entrando nos tribunais, nos abolicionistas negros fazendo circular outra ideia de país, em cada pessoa escravizada que fugiu antes que alguém decretasse sua liberdade.

Porque ninguém espera uma caneta quando a própria vida está em jogo.
Me banho no que me resta, que é quem ainda resiste. Preservo a memória daqueles que resistiram, dos meus iguais que pereceram na luta por nossas liberdades, pelo direito de viver nossos sonhos, imprevisíveis como o mar. Em sua força e grandeza, resistiremos a mais um amanhecer.
Talvez esse seja o nosso verdadeiro grito de independência. Não o de quem levantou uma espada, mas o de quem nunca aceitou a corrente.
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