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De lá pra cá, o que mudou?

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 25 de jul.
  • 8 min de leitura
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Quando penso nas revoltas que aconteceram no Brasil, vejo um povo que, de todas as formas, buscou sua liberdade - muitas vezes apostando na fraternidade, fortalecendo-se como iguais diante de um sistema que prosperou justamente na nossa divisão. 


É aquela máxima, né? Dividir para conquistar.

Ao ler o texto Diário de um Intelectual do Terceiro Mundo: A Revolta do Contestado, de Douglas Barros, no Blog da Boitempo, confirmei um sentimento que sempre me acompanha durante as pesquisas que faço para construir minhas aulas. Estou justamente tratando dessas conjurações e revoltas com minha turma do oitavo ano e, a cada leitura, me deparo com uma mesma inquietação: no fim das contas, os inimigos muitas vezes somos nós mesmos.


Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. Esta e as demais fotos desta galeria são do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra
Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. Esta e as demais fotos desta galeria são do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra

Hoje, mesmo de forma menos reativa, seguimos na resistência - agora com mais acesso a manifestos, poemas e registros. 


Quando vejo a postagem do Renato Freitas, deputado estadual em Curitiba, sobre os Caiado - essa família que enriqueceu com o sangue de milhares de pessoas escravizadas, violentadas, mortas - entendo o ciclo. Construíram um império que permanece há centenas de anos, mesmo diante de denúncias, documentos e memórias. Oligopólios latifundiários. Monopólios que impedem a igualdade.



Quem tem direito à terra? Quem tem direito ao que sua força de trabalho produz? Quanto é preciso ceder para usufruir do próprio esforço e tempo? As discussões sobre imposto, exploração e arbitrariedade permanecem. Quando será que a próxima bomba vai explodir? E as mudanças climáticas?


Essa terra que não para de esquentar... a solução se dissolve. 

Quanto tempo ainda temos?


Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO
Trabalhadores resgatados produziam carvão sem nenhum equipamento de proteção, enfiados em fornos de barro de alta temperatura de chinelo e bermuda. Foto: SRTE-GO

Vejo essas revoltas e sinto a ausência de um coletivo. O neoliberalismo faz isso: individualiza, isola, cria representações irreais que só representam a si mesmas. E as torcidas, os fanatismos, viram melodia. A batida é a violência - que encontra um leque de possibilidades para se expressar em sociedades cada vez mais distópicas. A naturalização do caos custa caro. 


E a elite que lucra com a dor só gera mais dor, mais ódio, mais rancor...

Estar em sala de aula me coloca em contato com uma geração que se vê à frente, que pensa saber de tudo, porque tem acesso a tudo. Mas esse “todo” nunca fez parte do projeto deles, uma falsa totalidade, a parcela a que temos direito é pequena, ilusória. Hoje, a mão de obra já não se divide entre barata ou especializada: surgem os descartáveis. Jovens jogados em lugares cada vez mais difíceis de sair.


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Ir ao Rio de Janeiro é ver a encarnação viva de um Brasil que deveria ser antigo. Quanto mais mergulho nas vivências, mais entendo como chegamos até aqui: uma elite gananciosa e covarde, que engana, explora, descarta. Que nos associou - historicamente - a estigmas e defeitos que dizem mais sobre eles do que sobre nós. Uma cidade que, em sua gema, só se importa com o cifrão. Tudo para o turismo. O pouco que sobra é parcelado para o povão. 


Andando pelas ruas que não são limpas desde a Reforma Pereira Passos. Procurei banheiros e não achei. Os poucos que vi, tive que pagar. Aos poucos, entendi as consequências. O cheiro de merda no ar - o mesmo cheiro da família real que veio fugida de Portugal correndo porque o baixinho francês prometeu matar. Covardes. Como vemos no filme da Carlota Joaquina. Olho ao redor e acho graça, tantos monumentos a supostos heróis, tentando vender uma história que nunca existiu.


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Os verdadeiros heróis foram mortos buscando liberdade. Em suas revoltas, conjurando, iluminados. Gente com uma força que brota mesmo nas piores condições. Se fôssemos os vencedores, talvez não estivéssemos nessa situação. 


Mas a história tem dessas coisas. 

E outras também - como a de ainda estar sendo escrita.


Família de sertanejos se rende às forças oficiais em Canoinhas (SC), em 1915
Família de sertanejos se rende às forças oficiais em Canoinhas (SC), em 1915


E foi nessa escrita truncada que apagaram a Guerra do Contestado.


"O problema da desigualdade no Brasil se manifesta de forma radical na concentração fundiária, que deu origem a oligopólios latifundiários e a uma expropriação predatória do solo." – Douglas Barros, em Diário de um intelectual do Terceiro Mundo: a Revolta do Contestado, publicado no Blog da Boitempo.

Um povo inteiro jogado no limbo da história porque ousou sonhar com uma terra que fosse, de verdade, sua. Porque não era só disputa de limite entre Paraná e Santa Catarina - era o latifúndio com sede de progresso, e o povo com fome - de entre tantas coisas - paz. Era a ferrovia rasgando o chão dos outros como se ali não houvesse vida. Como se a mata, os rios, os corpos fossem meros obstáculos.


Milícia armada (vaqueanos) protege serraria de ataques, em Três Barras (SC)
Milícia armada (vaqueanos) protege serraria de ataques, em Três Barras (SC)

Vejo um povo tratado como entrave ao progresso: caboclos, mestiços, pretos, indígenas, desviantes, famintos - os que resistem a um projeto de embranquecimento. Um povo que precisou criar suas próprias estratégias, forjar suas armas, firmar pactos entre si para persistir. Porque diante de tanto genocídio, não há como limpar o que nunca foi sujeira.


Em certos momentos, só há luz no divino: no monge José Maria, rezando e curando, e o povo acreditando - porque até ali só havia motivos para desacreditar. Às vezes, é só a fé que sustenta o que a lei destrói.


Mas fé preta, fé pobre, fé sertaneja... assusta. Antônio Conselheiro que o diga.


A única foto conhecida de Antônio Conselheiro, místico rebelde e líder espiritual do arraial de Canudos (1893-1897), Bahia, Brasil. Foto tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército.
A única foto conhecida de Antônio Conselheiro, místico rebelde e líder espiritual do arraial de Canudos (1893-1897), Bahia, Brasil. Foto tirada duas semanas após sua morte, pelo fotógrafo Flávio de Barros, a serviço do Exército.

Chamaram de fanatismo. De monarquismo. De loucura. Como sempre chamam quando o povo se organiza fora da lógica deles. Só que ali tinha mais que fé - tinha organização. Tinha memória. Tinha gente montando reduto, fazendo reza, formando Cidade Santa. Tinha mulher no comando, criança em vigília, caboclo erguendo arma e palavra.


E aí o Estado veio com tudo. Com regimento, com exército, com massacre. Assim como em Canudos. 


O Contestado durou de 1912 a 1916. E, nesse tempo, o Brasil matou o que viu pela frente. Jogaram bomba em vila de palha, invadiram terreiros, queimaram documentos, enterraram a história - mas ela se manteve viva na oralidade.


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Era a República mostrando sua cara - e ela era branca, militar e vendida ao capital estrangeiro.

O progresso vinha de trem, mas quem ficou no caminho virou poeira.


Chamaram de Guerra, mas foi chacina. No Irani, mataram o monge. Em Taquaruçu, bombardearam a população inteira. Em Caraguatá, foi tifo, bala e luto. Na fase do “açougue”, cortaram gente como gado. E o pior: ninguém se responsabilizou. O decreto de anistia veio em 1918.Como se fosse possível apagar tudo com uma caneta.


Seguidores de Antônio Conselheiro
Seguidores de Antônio Conselheiro

Mas a memória não morre assim.


“⁠Onde há poder há resistência” - Michel Foucault em História da sexualidade I: a vontade de saber.

O Brasil nasceu em revolta. E sobreviveu se contorcendo.


Antes do monge e das Cidades Santas, teve os Malês em 1835,em Salvador, escrevendo revolução em árabe, com a cabeça erguida, lutando por liberdade religiosa, por dignidade preta, por um outro mundo. Foram mortos - mas deixaram o exemplo.


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Teve também a Cabanagem, lá no Grão-Pará. Povo pobre, indígena, mestiço, caboclo, cansado do poder vindo de longe, erguendo arma contra o Império. Tomaram Belém, fizeram governo popular, mas foram massacrados depois. Estima-se que morreram mais de 30 mil - quase 30% da população local. E tudo o que restou foi o silêncio.


O combustível do progresso brasileiro foi - e ainda é - o sangue das minorias.

Minorias que só se tornaram minoria por causa da chacina institucional que atravessa séculos e permanece até hoje. Mudam os nomes, mudam os discursos, mas os atores são os mesmos - os donos da terra, os donos do dinheiro, os donos da bala.


Proprietário de latifúndio do Nordeste no fim do século 19 (imagem: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)
Proprietário de latifúndio do Nordeste no fim do século 19 (imagem: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)

O que antes era repressão a caboclos insurgentes, hoje se veste de operação policial nas favelas. O que antes queimava terreiros no meio do mato, agora destrói casas de axé nas periferias. O que antes expulsava à força para abrir estrada de ferro, hoje empurra com gentrificação, despejo, remoção. O que antes rasgava mapas com fronteiras de sangue, hoje traça cercas invisíveis que separam quem pode viver de quem só sobrevive.


E no centro dessa engrenagem, sempre o mesmo motor: a vida das gentes consideradas descartáveis. Pretos, indígenas, quilombolas, camponeses, ribeirinhos, povo de santo, travestis, pobres, desviantes - os que nunca couberam no projeto de nação desenhado pelos senhores da ordem. Uma ordem que exige sacrifício e, não por acaso, sempre oferece os mesmos corpos no altar do progresso.


Lei agrária de 1850 impediu acesso de ex-escravos à terra (foto: Projeto Monumenta)
Lei agrária de 1850 impediu acesso de ex-escravos à terra (foto: Projeto Monumenta)

E ainda têm a audácia de chamar isso de civilização.


"Uma civilização que se mostra incapaz de resolver os problemas que suscita é uma civilização decadente. Uma civilização que escolhe fechar os olhos aos seus problemas mais cruciais é uma civilização enferma. Uma civilização que usa seus princípios para enganar, que os torna instrumentos de duplicidade é uma civilização moribunda." – Aimé Césaire, em Discurso sobre o Colonialismo (Discours sur le colonialisme, 1950)

Mas a história está de pé, 

nos olhos de quem lembra, 

nos cantos de quem reza, 

nos punhos de quem luta.


Grandes propriedades rurais em São Paulo e Pernambuco no fim do Império (imagens: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)
Grandes propriedades rurais em São Paulo e Pernambuco no fim do Império (imagens: O Brazil Illustrado com Gravuras/Biblioteca do Senado)

Essa é a memória do Contestado. E de tantos outros territórios em disputa - não por terra, mas por dignidade. Porque progresso sem justiça é só mais uma palavra bonita a serviço da violência.


A Balaiada, no Maranhão, explodiu contra o latifúndio e a fome. Com balaio na cabeça e faca na mão, homens e mulheres disseram não. E foram chamados de baderneiros. Porque quando o povo levanta, os donos do poder tremem -e quando tremem, atiram.



Teve Canudos, com Antônio Conselheiro, e teve Palmares antes de tudo. Teve Sabinada, Revolta de Beckman, Revolta de Vila Rica, Revolta dos Búzios, Confederação do Equador, Revolta dos Alfaiates...Daria pra encher livros, mas preferiram esvaziar páginas. Falaram de ordem, de bandeira, de independência -mas se esqueceram de dizer que liberdade, por aqui, sempre foi coisa que o povo teve que arrancar na unha.


Cada uma dessas revoltas era também um aviso: esse país não é estável. Esse país nunca aceitou calado. Esse país nasceu de um conflito entre o que impuseram e o que se sonhou.



E se hoje parece que está tudo quieto, é porque a panela ainda não ferveu de novo.


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Ainda há quem conteste. Ainda há quem não aceite morar na margem do que nunca foi nosso por escolha.


E eu fico pensando - o que mudou, de lá pra cá?

Hoje o trem é outro. O trilho é algoritmo, a expulsão é mais burocrática, a bala é mais precisa. Mas a lógica é a mesma: modernização sem povo, progresso sem justiça, Estado sem alma. Ainda tem cidade vendida à multinacional. Ainda tem caboclo sendo expulso da beira do rio porque o rio virou propriedade. Ainda tem floresta tombando pra virar lucro. E ainda tem silêncio. Silêncio imposto, patrocinado, curricular.


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Por isso, quando entro em sala, eu conto. Mesmo que o livro não traga, eu conto.Mesmo que a apostila pule, eu volto. Porque se eles tentam enterrar, a gente planta.


Planta aula, planta texto, planta debate. Planta pergunta: quem escreve a história que a gente aprende? Quem decide o que é revolta e o que é "desordem"? Quem são os fanáticos e quem são os heróis?


E aí, no meio de tudo isso, vejo um aluno me perguntar: “Professor, o Brasil já venceu alguma guerra?”

E eu, com tudo entalado na garganta, digo: "Não. Mas já resistiu a muitas. E continua."


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Porque enquanto existir injustiça, vai existir revolta.

Enquanto existir esquecimento, vai existir quem lembre.

Enquanto existir opressão, vai existir quem conteste.


E é isso que todas essas revoltas me ensinou.

E é isso que nossa revolta  continua dizendo.


Pra quem tiver ouvido.

Pra quem tiver coragem.

Pra quem ainda acredita.


Minha luta é ensinar,

na persistência de nunca deixar de resistir.





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