O Mundo Se Despedaça: colonialismo, cultura, racismo e reconstrução do afeto negro
- Hiasmim Silva

- há 15 horas
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Irei apresentar um texto que é um ensaio partindo das conexões que imagino entre minha fração de mundo e o Todo.
O mundo se despedaça é um livro de Chinua Achebe que relata a invasão do homem branco na sociedade Igbo na Nigéria. Lendo esse livro, pensei em todas as coisas que me foram impostas sem que eu tivesse conhecimento de que elas estavam sendo impostas. Sobretudo, lendo esse trecho de Chinua:
“O homem branco é muito astuto. Ele veio de forma silenciosa e pacífica com sua religião. Nós nos divertimos com sua tolice e permitimos que ficasse. Agora ele conquistou nossos irmãos, e nosso clã não pode mais agir como um só. Ele cravou uma faca nas coisas que nos mantinham unidos e nos desintegramos.”

A gente sabe que ser revolucionário é transformar as armas de nossos colonizadores em nossas armas. Fanon estudou em todas as suas obras o processo de construção da linguagem; na obra O Ano V da Revolução Argelina, em especial no capítulo “Aqui fala a voz da Argélia”, é possível ver como o rádio se torna um aliado da revolução argelina e o francês é reorganizado para servir aos interesses revolucionários.
Porém, como transformar essa invasão cultural em uma coisa que pode nos trazer algo de bom?

Tenho pensado muito sobre o direito ao ócio, o direito ao lazer e a cultura. A cultura não deveria ser restrita ou restringida a um público pequeno, e geralmente a gente nem sente o quanto é distanciado da cultura, mas é. Eu mesmo atravesso meu município em 40–60 minutos para chegar a outro que possui museu, teatro, exposições de arte e música – isso é uma forma de restringir a cultura, pois a deixa ao centro e todos os outros ficam à margem. Um trabalho que já foi feito falando como a branquitude tentou se estabelecer como uma única referência cultural é o de Grada Kilomba em Memórias da Plantação em seu capítulo sobre a fala, nesse capítulo, Kilomba apresenta como a linguagem foi controlada para ser manipulada pela branquitude.
Não é de agora que estamos à margem. 13 de maio, data da falsa abolição, também nos colocou à margem de uma sociedade que vivia o tempo de Saquarema e desejava os corpos brancos para estruturar o país. Na minha perspectiva, estamos todos em uma grande travessia sob o cair da grande noite (estou me referindo ao documentário Dahomey e à relação que algumas pessoas negras têm banzo ao ver o oceano), e essa noite parece durar vários séculos, mas, se existe luz, está em usar as armas dos nossos colonizadores contra eles.
Quantos livros falam das experiências brancas de viagem? Mogli, que foi elaborado pelo defensor do colonialismo Rudyard Kipling, em menção ao contato dos povos europeus com os povos não europeus; Robinson Crusoé e a experiência de um homem em uma ilha; e tantos outros que são perspectivas europeias sobre a vida e a cultura. Nesse sentido, a gente vem trabalhando o ato de narrar nossas próprias histórias de viagem e as nossas concepções culturais também com Irmãos de Alma, de David Diop, que relata soldados negros saindo do Senegal e indo viver a Primeira Guerra Mundial, ou Negras Raízes, que relata a trajetória de Kunta Kinte e vários outros.
Todavia, a gente tem feito isso?
A Neusa Santos vai dizer que o negro, na sociedade racista e capitalista, para ascender socialmente assume colocações ou lugares das pessoas brancas, ou seja, se embranquece. Nesse sentido, o embranquecer acaba por reproduzir certos padrões de consumo e cultura da branquitude, mas, acima de tudo, tenciona esse corpo contra a sociedade. Neusa Santos vai dizer que
“Afastado de seus valores originais, representados fundamentalmente por sua herança religiosa, o negro tomou o branco como modelo de identificação, como única possibilidade de tornar-se gente.”
O mundo se despedaçou e ainda está se despedaçando sobre nós.

Retomando a bell hooks, a experiência negra em relação aos próprios sentimentos é uma relação dolorosa, pois durante muitos e longos anos a escravidão separou as famílias negras e impediu por meio das violências a conversa com esses sentimentos. Nesse sentido, o mundo continua se despedaçando dentro de nós na medida em que a gente ainda está aprendendo a reconstruí-lo. O texto vivendo de amor da bell hooks, informa:
Numa sociedade onde prevalece a supremacia dos brancos, a vida dos negros é permeada por questões políticas que explicam a interiorização do racismo e de um sentimento de inferioridade. Esses sistemas de dominação são mais eficazes quando alteram nossa habilidade de querer e amar. Nós negros temos sido profundamente feridos, como a gente diz, “feridos até o coração”, e essa ferida emocional que carregamos afeta nossa capacidade de sentir e consequentemente, de amar. Somos um povo ferido. Feridos naquele lugar que poderia conhecer o amor, que estaria amando
Os machucados somados ao fato de não serem tratados, pois durante muito tempo nem sequer falamos deles, tornaram o desamor como uma espécie de afeto. Nesse sentido, pessoas negras, em especial as mulheres negras, acabam por fornecer mais em uma relação e não esperar nada em troca. No entanto, hooks não fala desse amor devocional, pois para ela toda manifestação de amor é uma ação.

Quais são as ações que a gente tem feito para reconstrução do nosso mundo?
Você se permitiu aprender algo novo?
Você se permitiu viver algo novo?
O que você tem feito para você?
Essas perguntas estão na esfera de pensar o amor não somente relacionado ao que precisa ser entregue ou socializado com o outro, mas também do que a gente tem mobilizado de forma revolucionária para permitir o amor em nós e para nós mesmos.
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