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A branquitude e o direito ao incômodo

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Outro dia eu tava conversando com um amigo sobre como pessoas brancas muitas vezes se sentem completamente à vontade pra incomodar, ocupar, atravessar. E eu nem tô falando só das grandes violências não, porque às vezes o racismo aparece justamente nesses pequenos gestos cotidianos que muita gente aprende a achar normal. É o grupo parado no meio da calçada sem sequer cogitar sair pro outro passar. É a pessoa falando alto num ambiente coletivo como se tudo fosse extensão da própria casa. É comentário invasivo, piada sem graça, necessidade constante de performar presença. Tem gente que entra nos espaços como se naturalmente pertencessem a ela.


E quanto mais eu penso nisso, menos eu acho que é simplesmente “falta de noção”. Acho que existe um conforto histórico muito específico em nunca precisar refletir sobre o próprio impacto no mundo. Como se certos corpos fossem socialmente autorizados a ocupar, testar limite, errar, exagerar e ainda assim continuarem sendo lidos como legítimos. O mundo dificilmente constrange essas pessoas de verdade. Existe sempre uma proteção, um amortecimento.


Os dois casos dessa semana me fizeram pensar muito nisso.


De um lado, a influenciadora que postou um vídeo beijando um macaco e depois disse que jamais imaginaria que aquilo pudesse ser associado ao Vinícius Júnior. E sinceramente? Isso me pega porque o Vinícius é um homem negro que literalmente virou símbolo global de uma sequência brutal de ataques racistas no futebol europeu sendo chamado de macaco repetidas vezes. Não é uma associação distante. Não é uma discussão abstrata da internet.



E o que deixa tudo ainda mais estranho é que ela já teve uma relação amorosa com ele. Então o debate, pra mim, passa longe de simplesmente “ela quis” ou “ela não quis”. Porque às vezes o problema da branquitude não é somente a intenção consciente, mas o fato de conseguir atravessar o mundo sem precisar desenvolver certos reflexos de percepção racial. Existe uma liberdade em não pensar. Uma liberdade em ser inconveniente sem calcular o peso histórico das imagens, das falas, dos símbolos. E talvez isso só seja possível porque o racismo nunca organizou a experiência de existir dessas pessoas.


No final, sempre aparece um conforto social pronto pra absolver. “Foi sem querer.” “A internet exagera.” “Vocês problematizam tudo.” E eu acho muito doido como a própria possibilidade de errar sem grandes consequências já é um privilégio racial.


Do outro lado teve o relato da desembargadora Adenir Carruesco dizendo que foi confundida com funcionária de supermercado e falando:


“sem a toga, sou apenas mais um corpo preto”. E essa frase me pegou num lugar profundo porque ela desmonta uma mentira que o Brasil adora contar sobre mérito, ascensão e reconhecimento.


Porque no fundo, pra muita gente, o corpo negro nunca chega neutro nos espaços. Antes da profissão, do cargo, do estudo ou da trajetória, existe uma leitura racial anterior. E isso produz uma vigilância constante. Pessoas negras aprendem cedo a calcular presença, tom de voz, roupa, comportamento, reação. Aprendem a não parecer ameaça, a não parecer “mal educadas”, a não ocupar demais.


Enquanto isso, tem gente vivendo no extremo oposto: completamente confortável em ocupar qualquer ambiente sem medo real de constrangimento.


E isso conversa muito com o que a Cida Bento chama de pacto narcísico da branquitude em Pactos Narcísicos. Existe uma proteção silenciosa que preserva a autoimagem branca e normaliza comportamentos que, em outros corpos, seriam imediatamente vistos como inadequados, agressivos ou excessivos.


O Frantz Fanon fala muito disso em Peles Negras, Máscaras Brancas quando mostra como o sujeito negro vive sob o peso do olhar racial. Como se a própria existência fosse constantemente observada, interpretada, tensionada. E a Neusa Santos Souza também toca nisso em Tornar-se Negro quando mostra o custo psicológico de viver tentando se adequar a um mundo que já te lê antes mesmo de você abrir a boca.


Então pra mim o assunto não é sobre indivíduos isolados ou “cancelamentos da semana”. É sobre perceber como a sociedade distribui de forma racializada o direito ao erro, ao conforto, à ocupação dos espaços e até ao ridículo. Tem gente que cresce aprendendo a sobreviver tentando não incomodar. E tem gente que nunca precisou sequer pensar se estava incomodando alguém.

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