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Quem a cidade permite que permaneça

16 de ago.
5 min de leitura


Tem uma pergunta que não sai da minha cabeça: quem a cidade permite que permaneça?

Não estou falando de quem pode passar. Passar é fácil. A gente passa pela praça, passa pelo Centro, passa pela rua, passa pela frente daquele prédio bonito que algum projeto de revitalização recuperou. Estou falando de ficar. Sentar, encontrar alguém, tomar uma cerveja, escutar uma música que você nunca escutaria, ver um artista fazendo seu primeiro show, trocar ideia na calçada e voltar para casa tarde porque, por algumas horas, aquela rua também parecia sua.


Estou falando de viver a cidade.

Milton Santos nos ajuda a entender isso quando pensa o território a partir do uso. A cidade não é só aquilo que foi construído. Não é só prédio, rua, monumento ou praça. Existe cidade porque existe gente trabalhando, vendendo, criando, se encontrando, brigando, amando, fazendo festa e criando relação naquele espaço. O povo não é simplesmente usuário da cidade. O povo faz a cidade.


Foi curioso ouvir algo parecido, sem precisar citar nenhum geógrafo, quando entrevistei Marcus Vinícius, da Casa Cultural Caipora, no início deste ano. A entrevista era uma comemoração. Dois anos de Caipora ocupando uma casa na Rua Nestor Gomes, no Centro de Vitória.


Em determinado momento ele me disse:

“Ninguém faz cultura. A gente vive cultura. [...] São relações humanas. São trocas. É a nossa expressão de identidade.”

Guardei a frase. Porque talvez seja isso que algumas políticas sobre a cidade não entendam: cultura não aparece simplesmente quando alguém lança um edital, reforma uma fachada ou coloca uma placa dizendo que determinado lugar virou um corredor cultural. A cultura já estava acontecendo ali.



Na mesma entrevista, Marcus dizia que a Caipora funcionava porque existia reconhecimento das pessoas com aquele espaço, com a casa, com a rua e com o próprio Centro. Isso é território. Não porque alguém decretou. Porque tinha gente ocupando.


E aí começa a grande ironia dessa história.


A Rua Nestor Gomes foi reconhecida como parte de um Corredor Criativo. Criativo é uma palavra bonita. Cabe em projeto, release, campanha de governo e apresentação de PowerPoint. Mas existe uma distância enorme entre chamar uma rua de criativa e garantir que quem realmente produz criatividade naquela rua consiga continuar nela.



Porque uma coisa é valorizar o território. Outra é garantir a permanência de quem fez esse território ter valor, né? 


Naquela entrevista, quando perguntei sobre ocupar o Centro, Marcus respondeu que era caro “em vários sentidos”, tanto material quanto simbolicamente. Logo depois veio uma pergunta que, alguns meses mais tarde, parece ainda maior:


“Quem pode ocupar o Centro?”

Hoje eu colocaria outra junto:


quem consegue continuar ocupando o Centro?

Porque abrir é uma coisa. Permanecer é outra.


Você pode abrir um espaço, fazer evento, lotar a rua, construir público, colocar artista novo no palco, virar referência e fazer gente atravessar a cidade inteira para chegar até você. E mesmo assim não conseguir sobreviver.


Meses depois daquela entrevista em que comemoramos dois anos da casa, a Caipora anunciou o encerramento de suas atividades.



E existe uma frase no comunicado que talvez diga mais sobre a cidade do que sobre a própria Caipora:


“Se por um lado a Casa Caipora deu muito certo simbolicamente para a nossa cena, para o nosso território, materialmente desde o seu início foi muito difícil fechar as contas.”

Deu certo e fechou. Contraditório, né?


A gente foi ensinado a pensar que, se um lugar está cheio, ele está dando certo. Se está dando certo, dá dinheiro. Se dá dinheiro, permanece. Mas quem vive de cultura independente sabe que essa matemática nunca foi tão simples.


Na entrevista, Marcus já falava disso. Ele dizia que alguém podia olhar a rua cheia e imaginar que a Caipora estava “nadando em dinheiro”. Só que a própria forma de funcionamento da casa entrava em choque com a lógica de um empreendimento tradicional.


Porque existiam outras preocupações: acesso, gratuidade, artistas novos, experimentação, públicos diferentes dividindo o mesmo espaço. Marcus explicava que a gratuidade ajudava justamente determinados públicos a chegarem à casa e relacionava isso às desigualdades econômicas e ao que significa ocupar o Centro.


Aí vem a pergunta que o capitalismo sempre coloca para a cultura que nasce na margem: beleza, mas como monetiza isso?


Como monetizar o encontro? Como monetizar espaço para artistas que ainda não tem público? Como monetizar uma programação que quer continuar acessível para quem não consegue pagar quarenta, cinquenta, sessenta reais numa entrada? E, principalmente, até que ponto você consegue monetizar tudo isso sem transformar completamente aquilo que fazia o espaço ter sentido?


Tem uma monografia de Lucas dos Santos Rosário, de 2019, chamada Cidade Gentrificada: um estudo dos processos de reconfiguração do espaço urbano de Vitória/ES. O trabalho não diz simplesmente que o Centro de Vitória já estava completamente gentrificado naquele momento. O autor fala de um processo ainda incipiente, cujo avanço dependeria de fatores como mercado imobiliário, poder público e substituição de moradores.


Mas o trabalho chama atenção para algo importante: a gentrificação não transforma apenas imóveis ou substitui moradores. Ela também pode alterar costumes, cultura, lazer e formas de consumo de determinado território.



Por isso eu tenho cada vez mais dificuldade com a palavra “revitalização”.


Revitalizar significa devolver vida. Mas quem disse que esses lugares estavam mortos?


Quando um lugar é chamado de degradado, geralmente já tem alguém vivendo nele. Tem morador, ambulante, bar barato, gente em situação de rua, trabalhador esperando ônibus, artista ensaiando, gente fazendo samba, gente fazendo festa, gente simplesmente sobrevivendo.


Talvez o problema seja que aquela vida não é a vida desejada pelo projeto de cidade que vem depois.


Se ligou? Não explana que foi o Pivete que falou. 


Voltando a entrevista:


Marcus falava de uma característica do Centro que considero fundamental: o encontro entre pessoas que, em outros pontos de Vitória, dificilmente dividiriam o mesmo espaço.


“Se a gente for para os bairros de classe média alta, ou os bairros periféricos, a gente vai ficar em ilhas, né? Onde esses dois públicos não vão se encontrar. E aqui é o lugar que os dois públicos se encontram.”

É engraçado pensar nisso numa cidade-ilha, né? 


Então se liga na visão:


Vitória está cheia de outras ilhas que não aparecem no mapa. Uma cidade dividida, como qualquer outra capital, entre classes, culturas e tantas outras fronteiras. Bairros onde determinados corpos se sentem confortáveis e outros onde eles já chegam entendendo que não são bem vindos. 



O Centro, com todos os seus problemas, ainda bagunça um pouco essas fronteiras.

Não é porque moro aqui que vou romantizar o Centro. O próprio Marcus também não fazia isso. Ele falava da desigualdade, das pessoas em situação de rua e de um território ainda profundamente conflituoso. Mas é justamente por isso que precisamos discutir qual Centro está sendo produzido daqui para frente. 


Será que sabem da diferença entre melhorar a cidade e higienizar a cidade?


Uma praça bonita onde ninguém consegue ficar continua sendo uma praça hostil. Um Centro cheio de fachada restaurada e vazio depois das oito da noite continua sendo um Centro esvaziado. Um corredor chamado de criativo onde os espaços culturais independentes não conseguem sobreviver carrega uma contradição difícil de ignorar.


A cidade não pode existir apenas para quem consegue pagar por ela.


No final daquela entrevista, ainda comemorando os dois anos da Caipora, Marcus falou algo muito simples:


“A Caipora por si só é só tipo... parede e teto.”

E depois concluiu:


“A Caipora só é a Caipora porque tem gente que ocupa ela da forma que ocupa.”
É isso.

Uma cidade também.


Sem gente, sobra concreto. Sobra fachada. Sobra asfalto. Sobra um prédio bonito para colocar no Instagram. 


A cidade começa quando o povo ocupa.


E o direito à cidade só existe de verdade quando esse povo também consegue permanecer.

Por isso, quando alguém falar sobre o futuro do Centro de Vitória, talvez a pergunta não deva ser apenas quantos prédios serão restaurados, quanto dinheiro será investido ou quantas ruas vão ganhar algum nome bonito ligado à criatividade.


A gente precisa perguntar quem já estava ali antes de todo mundo descobrir que aquele território tinha valor.


E, principalmente:


Quando esse Centro estiver “bonito” do jeito que querem, quem ainda vai conseguir estar lá?

— Pivete




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