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Memórias da Baixada: das Rodas de Rima às Salas de Aula


“Nunca fiz nada sozinho, por trás de cada conquista existem muitas pessoas e sou muito grato a cada uma delas”

As estações precarizadas da SuperVia, por onde passam os trens da Baixada Fluminense em direção à Capital, são carregadas de contradições. Se por muitas vezes foram alvos que sintetizavam minhas revoltas – e de muitas e muitos trabalhadores – também simbolizaram aberturas para novas possibilidades de existir no mundo.


Nos calotes em contrafluxo, encontrei comunidades que me acolheram. Ou melhor, encontrei caminhos que me levaram às Rodas de Rimas, ao Rap, à Cultura Hip Hop.


Confrontei nômades que se moviam no mesmo percurso, mesma intensidade, mas em sentidos tão diferentes que me fizeram perceber que não era preciso seguir roteiros escritos por sei lá quem.

 

Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.
Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.

O ano era 2017 – ou talvez 2016, memória nunca foi o meu forte. Estávamos no Ano Lírico e o álbum “Castelos & Ruínas” era a trilha sonora do trajeto até as Rodas Culturais. Todavia, mesmo morando no Eixo, foi inevitável não se identificar com os versos da diss “Sulicídio”.


Quem faz(ia) Rap na BXD compartilha(va) a sensação de invisibilidade e exclusão simbólica. A consciência de estar segregado no espaço, habitando nas margens da metrópole, sobrevivendo à Capital vampiresca que suga nosso tempo e energia.

Porém, procuramos resistir no conflito: as Rodas de Rima representavam um local de esperança e coletividade, onde as batalhas não só nos preparavam para uma existência periférica, mas também estimulavam a acreditar que era possível transformar nossas realidades.

 

Foto: Roda da Via. Instagram, 2026. Disponível em: @rodadavia_.
Foto: Roda da Via. Instagram, 2026. Disponível em: @rodadavia_.

 Roda Cultural da Via Light (Nova Iguaçu), Batalha do Federa (Cabuçu), Batalha do Morreba (Morro Agudo), Batalha do Raul Cortez (Duque de Caxias)… esses espaços e tantos outros me formaram tal qual uma escola – na verdade até mais, contudo não quero contribuir na desvalorização sistemática do ensino público.


Não exagero quando falo que só entrei na UERJ por causa do Hip Hop. Poder pesquisar sobre Rap, em plena Faculdade de Direito, foi uma das rotas que tracei no esforço de retribuir ao menos um pouco. Uma gambiarra construída nessa tentativa de honrar meu sonho de moleque.

 

Quando criança, eu sonhava em crescer e ter todo o melhor dessa vida Hoje eu sou um homem crescido E a criança em mim ainda é viva [BK’, Quadros, 2016]

 

Sempre que lembro da minha experiência pelas ruas da Baixada, o refrão da música Titãs (BK’, 2018) ecoa na memória: “Eu quero ser maior que essas muralhas/ Que eles construíram ao meu redor.” Compartilhava, com amigos tão ambiciosos quanto eu, esse impulso para avançar sem rumos.


Querendo entrar para a história igual Legião Urbana, gastando tempo sem ganhar dinheiro, gastando dinheiro sem ganhar tempo – esses versos, escritos por um camarada que acompanhou meus passos, ainda me assombram.


O quão longe poderíamos ir? A verdade é que nos deslocamos para lugares que nunca imaginaríamos. Fugi, nadei contra a maré, mas sinto saudade. Ou será só nostalgia? Mil voltas em círculos, seguindo a estrada como sobreviventes de guerras, querendo retornar a um início que não existe mais.

 

De volta ao motivo (Não) De volta ao motivo do motivo Mil voltas no mundo Em buscas e buscas Depois, mais mil voltas em círculos Um circo, num cerco de insanidade (uhh) A fim de recuperar o que 'cê já tinha no início [Don L, Àquela Fé, 2017]


 


A vontade de liberdade, quando se mora em periferias tão distantes da “cidade maravilhosa”, pode ser atravessada por ambivalências. Será que realmente era preciso sair do meu território para buscar meus sonhos? Como progredir sem abandonar minhas raízes? Ingenuidade minha, né? Perturbado por esses dilemas, lembro de alguém dizer:


“Ryan, acorda, pensa no futuro que isso é ilusão!”.

Mas a esperança (ou será ambição?) foi algo que aprendi nas escolas que frequentei.  Os desafios foram fonte de criatividade e superação. E sempre que penso em desistir, uma memória brota em minha mente.


Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.
Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.

Eu estava no ensino médio e a sala de aula estava um caos. E mesmo gostando das aulas de História, em grande parte por causa do professor, eu não entendia o que levava alguém a se sacrificar na tentativa (improvável) de mudar as vidas dos alunos.


Lembro como se fosse hoje a pergunta que fiz a esse professor de História: “O que te motiva a continuar? Ninguém aqui está te dando atenção.” Confesso que tinha um certo tom de provocação na indagação, mas o que me impulsionou de fato foi a expressão de frustração estampada em seu rosto.


O professor ouviu mesmo com o barulho na sala de aula – nesse dia eu estava próximo do quadro que ele escreveu em vão. Sua resposta, entretanto, ainda retorna em minhas memórias:


“Eu desejo transformar o mundo para melhor. Nem que seja contribuindo na vida de uma única pessoa.”

Não tenho mais contato com esse professor de História, porém espero conseguir algum dia dizer o quanto o trabalho dele foi importante para mim. Eu herdei esse desejo, uma utopia ingênua, carregada com uma potência que continua me motivando em todas as aulas que ministro atualmente.

 

Retroceder não parece uma alternativa. Ficar para trás não dá. É foda a sensação de poder perder tudo a cada passo, precisar se reinventar a cada momento, ser “livre” como um migrante. A resposta são esses lugares que nunca quis frequentar? O vício nessas notas que nunca quis tocar?


Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.
Foto: Batalha do Federa. Facebook, 2018. Disponível em: https://www.facebook.com/batalhadofedera?locale=pt_BR.

Peregrinando entre o centro e as margens, conheci a pior versão de mim. Mostrei para as pessoas que mais amava. Confesso que gostei, mas hoje não, ainda não é o fim dessa jornada.

Agradeço a todos que caminharam comigo, apoiando ou competindo, pelos fluxos da nossa querida BXD.


E prometo que em breve estarei de volta às escolas que me formaram – batalhando na próxima Roda de Rima ou quem sabe ensinando em salas de aula, levando adiante a esperança de que transformar nossa realidade não só é possível, mas necessário.

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