Não deixe a praça da Cantareira se tornar a praça Leoni Ramos
- Pedro Caetano

- há 2 dias
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A praça da Cantareira, localizada na frente da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, é atualmente um lugar onde as contradições saltam aos olhos.
É um lugar onde se pode ver abraços quentes entre amantes e desolados moradores de rua dormindo no chão frio com barrigas vazias; lugar de alegres reuniões entre amigos, que consomem com gosto suas latas de cerveja, e catadores de lixo buscando alguns centavos nos restos dessas alegrias.
Lugar que comporta a comida, a bebida e o vômito. E até mesmo, acreditem, a fraternidade. Agepê compôs uma música chamada “Moro onde não mora ninguém”; os versos cantam: “Moro onde não mora ninguém/Onde não passa ninguém/Onde não vive ninguém”.
Assim parece que o poder público imagina que a praça deva ser: livre das contradições, exportando elas sabe-se lá para onde.
Hoje (dia 14/04) conheci duas crianças que brincavam no parquinho da praça: Pedro e João. Por alguma espécie de simpatia, eles viram graça no meu grupo de amigos e fizeram as suas presenças inevitáveis; depois de um longo interrogatório sobre nossos nomes e times de coração, um de meus amigos resolveu ensiná-los um jogo de dados chamado bozó.
Eles são apenas duas crianças entre as outras (filhas de comerciantes/ambulantes ou não) que frequentam o espaço.
No dia anterior (13/04), na reunião do Conselho de Urbanismo da Cidade de Niterói, o Secretário de Economia Criativa, André Diniz, prometeu apresentar um plano de transformação da Cantareira, o qual esperamos até agora, e explicar o vídeo da reforma da praça, postado na página da prefeitura semanas antes.
Nesse vídeo, árvores e bancos foram retirados para transformar o local em uma praça de passagem. Interrogado sobre a ausência do parquinho no vídeo, ele perguntou aos presentes se crianças frequentavam a praça. Uma breve conversa com João e Pedro poderia esclarecer o secretário.
André termina a reunião afirmando que foi escolhido pelo prefeito para essa tarefa e disse que será um guerreiro na elaboração desse projeto.
Fica aí a questão: contra quem ele pretende guerrear? Por que não entender a reforma da praça pela metáfora da cooperação ao invés do guerreiro? Por que não a metáfora da escuta ao invés do apelo à espada?
Por que realizar um debate sobre qual praça deveria existir em uma reunião sem nenhuma divulgação feita pela prefeitura, se as palavras do slide do secretário afirmavam a intenção de ouvir a comunidade?

As promessas perdem toda a credibilidade após nenhuma dessas perguntas serem respondidas pelo secretário. Na minha opinião, o que está em jogo é um modelo de política como uma gestão de uma empresa, que não se preocupa com a opinião dos clientes, senão aqueles que podem pagar.
Gostaria de defender a ideia de que essa reforma é uma peleja sobre duas praças: a Leoni Ramos e a Praça da Cantareira.
Por um lado, Leoni Ramos foi um jurista importante, prefeito da cidade de Niterói e juiz do Supremo Tribunal Federal; ele se formou na Faculdade de Direito do Recife no começo do século XX, espaço acadêmico de chegada das teorias de determinismo biológico e racismo científico. Esse é o nome dado pelos poderosos, é o nome oficial da praça.
Por outro lado, a Cantareira, nome de aclamação popular, vem da empresa que controlava o transporte de pessoas por embarcação no trajeto Niterói-Rio de Janeiro: “Companhia Cantareira e Viação Fluminense”. Essa empresa, comandada por uma família espanhola chamada Carreteiro, deixou de gerir as barcas após a Revolta das Barcas, em 1959.

Nela o povo de Niterói ateou fogo na estação das barcas que ficava na praça Arariboia, além de destruir o escritório da empresa localizado no centro da cidade e marchar até a casa da família no Fonseca e saqueá-la. A consequência foi centenas de mortos e a estatização do serviço, que haveria de ser privatizada novamente na ditadura empresarial militar.
Até hoje é possível ver o nome “Estação Cantareira” escrita na fachada do prédio em frente à praça. Esse espaço funcionava como um estaleiro e, em algumas épocas, também como uma estação. Chamar de Cantareira é se referir a empresa fundada pelos poderosos, mas há uma ironia incontornável posta por essa revolta sangrenta e vitoriosa de 1959.

O nome popular da praça, mesmo de maneira não intencional, mesmo que o nome já fosse utilizado antes da revolta, guarda a memória da derrota de um modelo imperialista de gerir a infraestrutura da cidade.
Quando o povo se organiza para utilizar a praça, é a Cantareira que estamos observando. Quando a prefeitura pretende limpar a praça, é Leoni Ramos e a escola de Recife que estamos vendo de fundo. A Praça Leoni Ramos se manifesta principalmente pela desgastada estátua de D. Pedro II que fica localizada no seu centro, objeto praticamente ignorado por boa parte do público.
Conta a lenda que a direção para onde D. Pedro olha, leva azar e o estabelecimento fecha. No momento, ele olha para o velho estaleiro, reformado pela prefeitura para ser um polo de tecnologia criativa. Ironia supersticiosa, mas que me leva a perguntar novamente se a prefeitura conhece mesmo a praça.

Hoje, apesar da deterioração do local, muitas atividades culturais acontecem: rodas de samba, rodas de jongo, rodas de rap, aniversários, a famosa Quintareira, encontros de centros acadêmicos da Universidade.
E até as mais simples atividades: crianças brincando no parquinho, pessoas esperando horários de compromissos sob a copa das árvores durante a tarde. Outras atividades deixaram de acontecer, como o dia do reggae e do forró. Apesar do descaso do poder público, a praça continua sendo um lugar de encontro e não de passagem.
Esse texto pode dar a impressão de que sou contrário à reforma, mas sou contra a que está de costas à participação popular e que não observa essas manifestações espontâneas do povo como o cerne de orientação para qualquer melhoria.
Gostaria de ver a praça ter espaço para a memória do antigo clube de futebol de São Domingos, que ainda tem seu estandarte guardado no bar do Seu Pedro, dono de bar que canta até hoje o hino da instituição:
“Se alguém me perguntar onde que é que eu moro/ respondo em menos de um minuto/ moro em São Domingos o melhor bairro do mundo/ lá tem serestas quando a noite é de luar”.

Gostaria que a praça contasse a história dos seus frequentadores ilustres e verdadeiramente conhecidos e queridos pela comunidade, conhecidos por boa parte dos cativos da Cantareira.
Gostaria que a praça tivesse um banheiro público porque seus frequentadores são obrigados a urinar na “rua do mijo”, localizada ao lado da igreja ou na primeira árvore da rua General Osório. Isso tem sido um fator de exclusão da praça, sobretudo para as mulheres.
Ironicamente a prefeitura tem preferido passar com um caminhão, durante algumas sextas, limpando a rua com produtos químicos. Essa falta de infraestrutura forja o crime, obriga a quem queira continuar consumindo dos ambulantes a mijar na rua.
Depois, qual imagem os deputados conservadores vão usar para defender uma praça limpa dos indesejáveis que não sabem se comportar?
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