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Quando deixamos de discutir os sonhos?


Tenho pensado muito na ideia de que o capitalismo tardio é o capitalismo do fim do sono, como diz Jonathan Crary, na medida em que nossos sonhos parecem cada vez mais distantes do nosso alcance, e gastamos muita energia física nos empenhando entre as telas, a vida, às demandas do cotidiano e as metas.


Rubens Casara afirma que o modelo neoliberal nos faz ignorar a dimensão coletiva dos problemas e passar a enxergar tudo na lógica do sujeito individual, com uma crescente sensação de solidão.

 

Todavia, a sensação de desespero é algo coletivo, uma vez que o sonho da estabilidade, da casa própria, do diploma, dos lugares, dos ritos e dos ritmos que se quer conhecer e ainda se necessita acessar passam como oportunidades da mesma forma que se observa a areia numa ampulheta de um minuto.



A frase de Gramsci passa a ser um clichê, mas um clichê que, de tão repetido, se fixa no espírito: “pessimismo da razão, otimismo da vontade”. E voltamos a imaginar nossa vida com sonhos, como na frase de Mano Brown:

 

Às vezes eu acho que todo preto como eu Só quer um terreno no mato, só seu Sem luxo, descalço, nadar num riacho Sem fome, pegando as frutas no cacho.

 

Aí fica a pergunta: em que lugar ficam os sonhos em tempos de crise, quando não vemos mais esperança? E o que podemos pensar de positivo no meio desse incessante conflito que os Racionais já falavam: “Viver entre o sonho e a merda da sobrevivência”, mas com a certeza de que “A vida não é o problema, é batalha, desafio, cada obstáculo é uma lição, eu anuncio”.

 


Vamos (re)descobrir como sonhar e votar em quem mais manifesta nossos sonhos.

 

bell hooks sempre nos convida a um lugar muito íntimo dentro de nós: o dos sentimentos. Receio que não é possível sair para nenhum outro lugar sem passar por lá. Nesse sentido, é necessário entender nossas demandas pessoais, mas também que essas demandas precisam de ações materiais para serem atendidas.



Se o desejo de beber um suco pede claramente um suco, o desejo de ouvir nossos sentimentos pede relacionamentos (amigos, família...) que também escutem nossa sensibilidade e estejam dispostos a fazer parte dela.

 

Quando a gente lê, Fanon temos a sensação da tradução entre a sensação de perseguição que sentimos ao sermos coagidos entre o sonho e aqueles que possuem o domínio de alterar a realidade.


Os processos de sentir-se amado, sentir afeição por outros, e todos aqueles que envolvem nossa relação com o mundo e o mundo conosco, tornam-se nublados pela névoa ou fumaça imposta pelos colonizadores.



Em Tornar-se Negro, Neusa Santos fala do desejo inconsciente ou consciente de ser sempre o melhor em desempenho, que é gestado em todo corpo periférico, e da sensação de falha, que é sempre sentida em dobro, pois a falha é também uma falha com a comunidade.


Nesse sentido, o ideal é mentalizar que só temos controle sobre nossas próprias ações, e as ações do Outro ou as forças da natureza nunca estarão sob nosso domínio. É mais empático mentalizar um diálogo conosco, ou seja, uma conversa em que o indivíduo seja também seu ouvinte e amigo argumentador.

 

Nos estudos de Lélia Gonzalez reafirma que, embora a dimensão política seja importante, os sonhos não se fazem ou se concretizam somente nela. Na entrevista ao MNU, no livro Por Um Feminismo Afrolatinoamericano, Lélia Gonzalez diz:


“[...] e aí nós temos que aprender com os nossos antigos, os africanos, esse sentido da sabedoria, esse sentido de saber a hora em que você vai interferir e como você vai interferir, fora desse lance individualista. É importante distinguir o seguinte: projeto pessoal não quer dizer individualismo, não. É você se ver na sua dignidade de ser humano.”

É necessário ir ao encontro daquilo que nos proporciona felicidade, ou ao menos tentar nos proporcionar. Nesse sentido, permanecer fiel aos próprios sonhos é um dos maiores atos de amor que podemos ter conosco.

 

 

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