Salvar os Mares: Um Dever de Fé e Sobrevivência
- Hiasmim Silva

- há 2 dias
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Quem nunca viu o mar e sentiu paz diante da imensidão de suas águas azuis? As águas que trazem alimentação por meio do pescado e que nos fazem felizes por sermos capazes de viver imensamente muitas vidas em suas margens estão sob ataque. O ataque é ratificado pelo esgoto, pelo plástico e pela forma como a gente se relaciona com ela.
Yemanjá, Oxum, Iansã, Obá, Nanã são diretamente ligadas às águas. O que temos feito com as águas do planeta? Nesse texto, a gente propõe uma reflexão acerca de Yemanjá que é homenageada nacionalmente no dia 2 de Fevereiro e que no Brasil tomou forma de representação da água das praias e do mar.
A concentração de plásticos na água é maior nos estados brasileiros do Espírito Santo e da Bahia, segundo a pesquisa organizada pelo Instituto Federal Goiano e financiada pela CNP em 2025. Recentemente, o Espírito Santo registrou vários indicadores de esgoto em suas praias e isso não diz respeito só a nossa capacidade de ir tomar um banho de praia, mas o que estamos fazendo aos a vida marinha no litoral capixaba.

Orixá é vivo, mas pode morrer. Os orixás cultuados em candomblé ketu e ifá são forças da natureza, mas como força da natureza podem ser dizimados. Um rio poluído é um rio sem vida, sem asé e sem orixá. Uma praia poluída é uma praia que nem as pessoas e nem os peixes ou outras vidas marinhas podem desfrutar, portanto, é morta.
2 de Fevereiro não pode ser só uma data importante para os povos de matriz africana em celebrações a orixá Yemanjá, pois deve ser o momento de conscientizar acerca daquilo que representa a morte da mesma orixá que é nossa relação desarmônica e predatória com as forças da natureza.
Òkun Igbo coletivo de matriz africana organizado pelo omo ifá e Ogboni Marcos de Odé e a Ìyálòrìṣà Guacyra de Iemonja não só discutem filosoficamente práticas contra esse desequilíbrio da natureza, mas já efetivam uma percepção de transição para práticas voltadas em equilíbrio com as forças da natureza.
Marcos de Odé
Tratar a natureza com respeito é o dever de todos nós, seres humanos, em especial dos povos tradicionais de matriz africana, como os Ogboni. Nós, irmãos Ogboni, temos o dever, para além da justiça climática, de defender com honra a nossa grande mãe Terra.
Eu, Marcos, como Ogboni do povo de matriz ketu, faço mais do que falar: faço ações. Eu e a Ìyálòrìṣà Guacyra de Iyémónjá cuidamos, no que podemos, da manutenção das forças do meio ambiente, para assim preservarmos nossa fonte de sustento ancestral, como a água, a terra, as matas e o ar.
Coletamos materiais como vidros, alguidares e plásticos nos locais onde são feitas oferendas aos ancestrais. Participamos de fóruns de discussão sobre o tema, inclusive de uma campanha chamada “Todas as Mulheres São Águas”, do Fórum Nacional de Segurança Alimentar dos Povos Tradicionais de Matriz Africana (FONSANPOTMA), que combate a poluição dos mares nas festas de Iyémónjá, ocasião em que são entregues materiais altamente poluentes.
Estamos trabalhando na criação de projetos alternativos, como a produção de alguidares de produtos biodegradáveis, de grão-de-bico e de palha de cana-de-açúcar, recipientes de folha de banana e de coqueiro, e barcos de folha de palmeira imperial. Sempre que vamos entregar algo na mata ou nas águas, retornamos com os recipientes de plástico, vidro e outros que possam poluir.
Nosso entendimento é que, se nossa religião se baseia nas forças da natureza, que se alinham com as forças de nossas ancestralidades e do nosso Elédàá (Senhor da Criação/Orixá) — a quem invocamos todos os dias para a existência de nossas vidas e para ajudar o próximo —, devemos proteger, cuidar e fomentar esses cuidados também em outros. Porque, se não cuidarmos, não só a nossa vida está em risco, mas também a vida da energia (natureza) que invocamos para sentir nossos ancestrais e nossos Òríṣás.
Preservar o meio ambiente, combater os problemas climáticos e manter a vida no dia a dia é preservar a ancestralidade que nos ensinou a respeitar nossa Mãe Terra.










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