Precisamos falar sobre sexo com prazer e não medo: Notas sobre um fim de tarde com duas amigas da assistência social de São Paulo e as diferenças na saúde pública entre lá e cá
- Hiasmim Silva

- há 6 horas
- 3 min de leitura
De antemão, eu não sou especialista no tema. O texto nasce de uma discussão pessoal que acredito ser relevante ao cenário capixaba e também para termos parâmetros ao imaginar mais ações com foco na saúde pública.
Há algum tempo, sentei para tomar um delicioso e gelado chopp de vinho com minha amiga Derli e, entre os assuntos, a gente falou sobre sexo. Ela me relatou que, em São Paulo, trabalhava com prevenção sexual e tratamento das infecções sexualmente transmissíveis.
O assunto foi chamando minha atenção pela forma como era abordado, diferente dos espaços públicos daqui do estado.
Derli apontou que, no coração da cidade paulista, há acompanhamento dos pacientes com HIV e também formas de prevenção às infecções sexualmente transmissíveis, como a distribuição gratuita de testes para HIV, testes para sífilis e até a famosa PrEP e a PEP.
A PrEP (Profilaxia Pré-Exposição) é o uso de antirretrovirais antes de uma possível exposição ao HIV para reduzir o risco de infecção. A PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é uma medida de emergência tomada após uma exposição ao HIV (como relação sem camisinha ou violência) para bloquear o vírus.
São Paulo é um dos estados brasileiros que cumprem as recomendações de uma política nacional para prevenção contra as infecções sexualmente transmissíveis.


Ouvi todas essas informações sem acreditar e fiquei pensando que a gente estava em outro mundo.
Noto a distribuição de camisinhas e lubrificantes nos postos de saúde da minha cidade, Serra – ES, mas nunca soube sobre esses testes e também nunca comentaram comigo sobre os medicamentos PrEP e PEP até ver os vídeos do infectologista Ricardo Kores.
Embora saiba que a Serra possui um Centro de Testagem e Aconselhamento (CTA), essas novas informações mudam minha forma de pensar por indicarem mais facilidade na prevenção e/ou acompanhamento.
Anteriormente, eu pensava que a prevenção sexual por meio de exames particulares era a maior forma de estar atenta ao próprio corpo, e considerava também a doação de sangue, que avalia a existência de algumas doenças sexualmente transmissíveis.
No entanto, saber como as coisas funcionam em São Paulo mudou minha forma de me relacionar comigo mesma, pois, se há exames que a gente pode fazer e que demoram pouquíssimo tempo para ter um resultado, há uma capacidade de cuidado maior que a gente pode ter conosco.
Eu acreditei sem querer acreditar nessas novas possibilidades.
Outra amiga também veio ao estado e a gente tomou mais um chopp de vinho (eu já falei que amo? Pois me chamem!) e, dessa vez, a gente falou sobre São Paulo e como eu não acreditava nas coisas que Derli me relatava.
A gente sentou, e ela me mostrou os testes que são distribuídos lá. Foi a primeira vez em 25 anos que eu vi esse teste, muito embora já tenha feito exames de sangue e de cuidados sexuais antes.
Eu sentei ali, super apreensiva, aprendi a usar os testes e meu resultado deu negativo para HIV com o tempo de 15 minutos.

O sexo nunca é puramente sexo. O encontro sexual é político e vai acontecendo muito antes do ato, que é apenas uma realização do imaginado e exercido politicamente.
Acredito que, além da troca de olhares, do flerte e das carícias, o ato de transar é também o ato de imaginar o mundo para si e para o outro, ainda que possa ter seu tempo a variar e ser fantasioso.
Nessa dimensão, também existe o recorte racial, pois mulheres negras historicamente são associadas ao prazer e ao cuidado do outro, e nunca a si mesmas.
Pensar nos cuidados com nosso afeto e, essencialmente, conosco é uma parte importante da política. O prazer é uma parte importante da vida e que nos conecta a ela de diferentes formas.
Nesse sentido, a gente não pode deixar de pesar o aumento significativo, segundo os dados do Tribunal de Contas do Espírito Santo, dos casos de HIV, e também os dados do Século Diário sobre os casos de sífilis no estado do Espírito Santo.
Toda forma de prazer é melhor vivida sem o medo, e quando nos sentimos amados não só no ato, mas na fantasia do outro. Dessa forma, o presente texto se apresenta mais como uma conversa do que como um texto acadêmico.
Ser amada é também ser cuidada e cuidar sexualmente de quem se ama.
Fontes:
Estudo do TCE-ES ressalta crescimento do HIV na população capixaba acima dos 60 anos. Disponível em https://www.tcees.tc.br/noticias/estudo-do-tce-es-ressalta-crescimento-do-hiv-na-populacao-capixaba-acima-dos-60-anos/.
Casos de Sífilis crescem no Espírito Santo e em todo o Brasil. Disponível em https://www.seculodiario.com.br/saude/casos-de-sifilis-crescem-no-espirito-santo-e-em-todo-o-brasil/.
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