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Amor-próprio em tempos de sobrevivência


Os tempos atuais não são para o amor.


Não temos tempo para o amor. Não temos tempo de amor.


Criolo, se não existia amor em SP, hoje aparentemente não existe amor em lugar nenhum...



No mês dos namorados e da comunidade LGBTQIAPN+, o amor continua uma incógnita para muitos, e não somente sobre relações amorosas entre namorados, onde, na maioria das vezes a carência se confunde com o que se espera do afeto, e a dependência se torna o elo entre as conexões.


Não falo somente do “do amor entre homem, filho e mulher. A única verdade universal que mantém a fé”. Falo também do amor entre pessoas do mesmo sexo, das diversas formas de amor.


Sobre o amor da mãe com seus filhos, com a família, do amor que se constrói com amizades, e do amor que tentamos construir com as pessoas que conhecemos em nossa jornada.


Mas, como amar sem tempo?


Não temos tempo para nos amar, bell hooks, então como amar os outros?


“Ame os outros como a si mesmo”.


Também não me amo, e não tenho tempo para me amar.


Clareza, justiça, honestidade, compromisso, espiritualidade, valores, ganância, comunidade, reciprocidade, romance, perda, cura e destino. bell hooks decide separar seu livro “Tudo sobre o amor: novas perspectivas” em 13 capítulos, nos oferecendo formas de presenciar e interpretar o amor.


Sem romantização, sem pensar em amor somente como algo a ser projetado por nós desde crianças através de telas e histórias, principalmente para o público alvo feminino.


Um dos capítulos que mais conversa com os dias de hoje é o compromisso. Quando pensamos em compromisso, talvez pensemos logo em compromisso social, contrato entre duas pessoas, que decidem se unir por um propósito: o amor.


Mas o compromisso é aqui com nós mesmos. O amor-próprio. Para além do egoísmo, do narcisismo, o amor-próprio é ainda uma outra incógnita dentro da descoberta de outra em uma longa equação.


“A autoaceitação é difícil para muitos de nós. Há uma voz interna que julga constantemente, primeiro nós mesmos e então os outros. Essa voz gosta de indulgência de uma crítica negativa sem fim. Como aprendemos a acreditar que a negatividade é mais realista, ela parece mais real do que qualquer voz positiva. Uma vez que começamos a substituir o pensamento negativo pelo positivo, fica claro que, longe de ser realista, o pensamento negativo é totalmente incapacitante. Quando somos positivos, não só aceitamos e afirmamos quem somos, mas também somos capazes de afirmar e aceitar os outros.” (hooks, 2021).

A tentativa de se amar, de ter responsabilidade consigo mesmo, reflete diretamente naquilo que podemos aceitar ou não como amor. Com a autoestima, vem o posicionamento, e a autoafirmação, que, quando exercida por mulheres através da verbalização de suas vontade, posicionamentos, e outros, é lida como uma ameaça.


A escritora e ativista bell hooks — Foto: Divulgação
A escritora e ativista bell hooks — Foto: Divulgação

A autoestima não é somente construída pelo que é visível e pelo que se vê, por roupas legais, um corpo aceitável e padrão, mas também, pela vontade de escolher a si mesmo em ambientes em que poucos acreditam em você.


Expor os pensamentos, verbalizar vontades e pontos de vista, ser assertiva, e, acima de tudo, lutar pelo que se quer, soa como desafios para muitas pessoas, principalmente para mulheres.


Construir essa aceitação de quem se é para se expor, é também construir autoestima intelectual, e saber que, muitos não querem te ouvir, saber quem você é, com o que você colabora, quais ações você pretende fazer em prol do seu futuro, ou da comunidade.



Amor é sobre respeito. Essa é uma certeza. E amor próprio é viver com o propósito de saber quem se é no mundo, e viver (ou tentar sobreviver) com um propósito.

Em sua escrita sobre o compromisso consigo mesma, bell hooks traz o desafio de construirmos um propósito com a necessidade do desenvolvimento profissional, algo que, para muitos, principalmente no Brasil, se tem muitas barreiras, ainda mais quando levamos em conta questões de raça, gênero, orientação sexual, e outros.


Muitos não têm liberdade de escolha, e é preciso agarrar-se ao que tem para a sobrevivência, mesmo que este espaço mine sua autoestima de todas as formas.


Trabalhar com o que não se gosta, ou em um ambiente que não permite o crescimento e desenvolvimento pessoal e profissional/acadêmico, vai deteriorando as possibilidades de aprimoramento da autoestima intelectual, e confiança em si mesmo. Portanto, a necessidade de se escolher é fundamental para o propósito consigo mesmo.


E escolher-se não é sobre jogar tudo para o alto, é sobre compreender que nossas escolhas determinam também onde podemos chegar e quem somos, e que ser subestimado pode servir como gás para o nosso desenvolvimento.


Por isso, a autoestima e amor próprio servem como fonte onde a chuva são nossos pensamentos e propósitos, onde trabalhamos em nós mesmos, para aprender a reagir a forma como os outros nos leem e nos desrespeitam.


Parece papo de coach, mas, se não nos apegarmos a isso, a que mais podemos nos apegar?


“A certa altura de uma carreira profissional muito heterogênea, trabalhei como cozinheira numa casa noturna. Eu odiava o barulho e a fumaça. No entanto, trabalhar à noite me deixava livre para escrever durante o dia, para fazer o trabalho que eu realmente queria fazer. Cada experiência aprimorava o valor da outra. Meu emprego noturno me ajudou a aproveitar a tranquila serenidade do meu dia e apreciar o tempo sozinha, tão essencial para a escrita”. (hooks, 2021).

Ter bom gosto é escolher-se. Desejar a si mesmo o melhor, e compreender que mesmo que com diversas barreiras estruturais, podemos e devemos nos escolher, e com inteligência.


É preciso saber que o amor próprio é mais fácil para alguns que para outros, devido a diversos tipos de privilégios, e aqui, deixo explícito sobre a autoestima intelectual que é diretamente afetada pelo profissional.


Afinal, é mais fácil amar a si mesmo quando não se mata diversos leões por dia.


Referências:


HOOKS, bell. Tudo sobre o amor: novas perspectivas. Tradução de Stephanie Borges. São Paulo: Editora Elefante, 2021

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