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BXDELAS: A força das mulheres na cultura urbana da Baixada Fluminense

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 4 dias
  • 4 min de leitura

Se a cultura na Baixada Fluminense é frequentemente lida pela escassez, o BXDELAS impõe a narrativa da insurgência. O projeto — que ocupa e transborda o Espaço BIC (Rua Prata, 35, Coelho da Rocha) desde janeiro de 2024 — foi idealizado pelo BXD IN CENA não apenas como um evento, mas como a engenharia de um dispositivo de ruptura. É um contra-ataque à lógica misógina que ainda opera no Hip Hop e à gestão cultural que insiste em observar a periferia apenas pelo binóculo.



Para quem é cria — como eu, que vim de Belford Roxo —, a gente sabe que o território pulsa potência, mas o acesso ao capital é filtrado por recortes severos de gênero e raça. O BXDELAS inverte essa pirâmide. Como pontua a própria Lohanna, que sustenta o corre da produção e a responsabilidade de mestre de cerimônias:


"O BXDELAS nasce com uma vontade, um gesto de ocupação das vozes da Baixada... Durante muito tempo as mulheres estiveram nos bastidores de forma silenciosa. O evento vira essa chave: coloca mulheres no palco, no microfone, na curadoria. Elas não são apenas parte, elas conduzem o movimento."

A gestão cultural, tantas vezes vista como um processo burocrático e frio, aqui aparece como uma tecnologia de empoderamento pessoal e coletivo. Lohanna traduz esse sentimento de quem deixa de ser espectadora para se tornar arquiteta do próprio destino: 


"Eu também fui me empoderando ao me sentir pertencente a esse lugar, ao me unir com outras mulheres da cultura que estão a fim de colocar seus projetos e suas energias para frente, mirando um futuro onde a gente tenha prosperidade e una nossas sabedorias."

Diferente de eventos que usam a "pauta feminina" como fachada ou cota, o BXDELAS se estruturou na tecnologia de rede. A parceria entre Lohanna e Jéz garantiu que o projeto tivesse o respaldo institucional do BXD IN CENA, mas com a autonomia radical para que o protagonismo fosse 100% delas.


Laura Gonna, que articulou a produção das primeiras edições, destaca a importância desse ecossistema blindado por mulheres: 


"Foi muito importante reunir uma equipe 100% de mulheres. Da produção aos materiais de design e fotografia... É sobre viabilizar as mulheres da Baixada e a visão feminina de empoderamento dentro do Rap."

O palco do BIC tornou-se o ponto de convergência de uma constelação de potências que redesenham o mapa da cultura fluminense. Nomes como Jacquelone, Lorac Bxd, King Saints, Lavinia, Black Rare, Akascagrossa, Joy BXD, Suave Preta, Tabita Infinito, Crioula, Iscarlett, Nina, Clara Ribeiro, Aysha Catt, Lettié, Preta Belle e Aryelle provam que a Baixada não é apenas berço, mas o centro produtor de uma vanguarda que não pede licença.



A Baixada sempre produziu, mas nem sempre foi creditada. O BXDELAS chega para rasgar o roteiro que coloca a mulher negra e periférica apenas como o suporte ou o "apoio" da cena. A ruptura com o silêncio é, acima de tudo, uma reivindicação do direito ao brilho. Nas palavras da idealizadora:


"O BXDELAS reafirma que a Baixada Fluminense é um território de criação. A gente não merece ficar só por trás, nos bastidores; a gente merece o protagonismo, a nossa própria história e a importância de brilhar por toda a nossa potencialidade."

Essa visão dialoga diretamente com a luta por espaços que a estrutura patriarcal dificulta o acesso. Quando o território é gerido por elas, a estética muda, o cuidado se impõe e o acolhimento vira a regra, não a exceção.


Arte como Denúncia e “(R)Ex(s)istência”



No palco do BIC, o que se vê é a materialização da resistência. Para artistas como Lorac BXD, que está na caminhada desde o primeiro dia, o evento funciona como um front contra as estatísticas de feminicídio e opressão:


 "O Hip Hop serve como ferramenta de denúncia. Nós, como artistas, temos esse dever de nos posicionar. Queremos fazer arte, queremos viver, queremos ter voz." 

Ocupar o microfone ou as pick-ups — como faz a DJ residente Black Rare — é acender o que Lohanna chama de "sequência de luzes numa rua inteira". É a prova de que o intelecto e a rima da mulher preta e periférica são os pilares que sustentam o futuro da cultura na região.

O que acontece na Rua Prata, 35, transborda as paredes do BIC. 


O evento é o nó de uma rede que conecta comunicadoras, DJs, artesãs e MCs. É a criação de um ambiente de troca onde o reconhecimento mútuo é a moeda mais valiosa.


"Não é apenas uma festa, é um movimento. O evento fortalece uma rede onde as minas passam a se reconhecer umas nas outras. É um apoio mútuo que constrói um ambiente de celebração da nossa força."


O BXDELAS não pede licença; ele estabelece um novo território. É a demonstração de que, mesmo diante da histórica carência de incentivo financeiro, a nossa potência criativa é inegociável. 


Por fim, o projeto se consolida como um compromisso com o que ainda virá. Para as meninas que hoje observam de longe, o recado é direto: a arte é um território de liderança possível. 

Falar de futuro na Baixada é garantir que as trajetórias de quem veio antes sirvam de alicerce para quem está chegando.



"Falar das mulheres da Baixada também é falar sobre o futuro. É mostrar para as meninas que estão começando agora que existe espaço na arte para elas... Que a história delas tem valor e as vozes delas merecem ser ouvidas."

O BXDELAS é a prova viva de que a nossa cultura é autossuficiente e que a nossa história, quando escrita por nossas próprias mãos, é imbatível. Respeita a caminhada, porque o amanhã já está sendo construído agora.


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