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OLOROGUN: A ESTÉTICA DA GUERRA EM IKU THE KID

há 11 horas
9 min de leitura

O rapper e produtor musical IKU THE KID trocou uma ideia com a Revista Menó sobre política, religiosidade, sexualidade e todas as guerras – internas e externas – que transbordam o álbum Olorogun (2026), o seu mais recente projeto, já disponível nas plataformas digitais.


“Jovem demais para perder para mim mesmo; velho demais para perder…”

Mata/Esfora, Olorogun - IKU THE KID


Olorogun é uma oração que nos convida para uma jornada de revolta, vingança e autoafirmação.



Transitando entre sagrado e profano, o álbum expressa uma experimentação estética que não teme em mergulhar no caos: uma peregrinação até as profundezas dos “pecados” e transgressões mais inconfessáveis, para então, logo em seguida, se elevar para além das expectativas e regramentos moralizantes.


O rapper de 23 anos, cria da Baixada Fluminense, faz das contradições uma força para constantes transformações, reinvenções e tudo o mais que há entre-isso, indicando um movimento que se assemelha ao próprio processo artístico registrado nas faixas de Olorogun.


O processo criativo de Olorogun foi uma das paradas mais loucas que eu já vivi, porque tento trazer bastante situações do cotidiano. (...) Por isso queria que o Olorogun tivesse essa parada de ser um álbum até que meio cansativo. Uma forma de [expressar] como se experimenta a guerra… A guerra de acordar cedo para ir trampar; a guerra de perder amigos no meio da sua trajetória; a guerra que você tem dentro da sua própria cabeça, tá ligado?


Em Olorogun – nome que se refere ao ritual do Candomblé que encena uma guerra simbólica – IKU THE KID veste as máscaras da persona “Guilhotina” como uma alternativa para dizer alguns dos traumas e dilemas que vêm vivenciando nos últimos anos, tais como o processo de transição de gênero, a perda de amizades, conflitos familiares, entre outros, sem precisar necessariamente expor esses sofrimentos em primeira pessoa.


Eu passei por muitas coisas. Então, tipo, eu meio que decidi fazer esse personagem, essa personalidade, que é o Guilhotina. É tudo que passei em uma amálgama de desgraça e muitas vezes glória. (...) A parada da Guilhotina, na verdade, foi muito simples. Foi muito natural. Eu tinha pensado em trazer na construção do álbum – seja na lírica, contexto ou construção mesmo – uma forma mais terceirizada. Eu não queria falar, tipo: ‘eu fiz isso’, ‘eu fiz aquilo’ ou ‘eu sofri isso’ de uma forma que às vezes é pesada, porque tem muita coisa real. Acho que o ponto crucial e primordial do Olorogun é ser um bagulho real. É um monte de merda que eu tava vivenciando e transformei em música. Então, a Guilhotina foi só uma personalidade que encaixei ali para, sei lá… não assumir que eu sofri, tá ligado? (...) Guilhotina é meio que o bode expiatório dessa parada.

Assim, através da criação desse alter ego que guia as narrativas que compõem o álbum, o rapper carioca convoca o ouvinte para as suas guerras internas e externas.



Uma expedição que explora a angústia existencial da sensação de estranhamento e distanciamento em relação às convenções sociais, ao mesmo tempo em que representa uma insurgência e profanação da normatividade imposta na reprodução de violências sistêmicas – um manifesto contra as múltiplas injustiças do cotidiano (de gênero, raça, classe, sexualidade, etc..).


IKU apresenta Olorogun como um de seus trabalhos mais intimistas. Porém, permanece um traço que perpassa toda a sua discografia: a sua religiosidade, manifestada a partir de uma religião matriz afro-diaspórica, assim como a resistência diante de atos de intolerância religiosa e o confronto contra as “políticas religiosas” dominantes.


A minha arte, o meu rap, os meus bagulhos é um reflexo das coisas que eu vivo, tá ligado? Com certeza isso daí vai estar entrelaçado. Eu nasci feito. Quando minha mãe fez santo, ela estava grávida de mim. Então eu nasci para a espiritualidade. Eu vivo para a minha espiritualidade. Então não tem como. Se faço o meu bagulho de verdade, falando da realidade do que vivo, eu tenho que falar disso de qualquer forma.

Criado no Candomblé, já que a mãe fez santo durante a gestação, IKU THE KID integra sua espiritualidade ao próprio fazer artístico, em mais uma guerra que enfrenta desde os preconceitos escolares da época de infância.


Todavia, mesmo enquanto reafirma a benevolência do divino, o rapper não deixa de direcionar críticas severas à igreja e à política cristã como órgãos políticos associados a genocídios históricos, fazendo assim uma distinção entre fé e instituições políticas.


Eu falo de uma forma muito crítica à política cristã. Não contra a fé, porque é muito diferente você pregar a benevolência, a filosofia de Jesus… A igreja é política. Então a gente precisa criticar a igreja como um órgão político. Acho que minhas críticas vêm daí. Mas a benevolência de Deus é linda mano.


A religiosidade, a negritude e a crítica social são temas compartilhados com outros dois artistas que compõem o coletivo Slasher Gang: D$ Luqi (Canto Feio) e Yung Exu (Espiritual Gangster), ambos retomam a parceria de longa data com IKU THE KID, agora em Olorogun, nove meses após o lançamento do álbum protagonizado pelo trio da #slaxxergang – Black Lamen (2025). 


Esse álbum conjunto funciona, nas palavras de IKU, como uma denúncia contra as instituições políticas, a pobreza e o racismo estrutural, mas também como uma valorização das vivências das matrizes religiosas africanas.

O Black Lamen, eu diria que seria uma denúncia e um enriquecimento da nossa cultura. Como pessoas pretas e de religião de matriz africana também, tá ligado?

No decorrer da entrevista, após IKU explicar o conceito de guerra transmitido no seu álbum recém-lançado, eu comento que a faixa Mania – uma das minhas preferidas – sintetizava bem o espírito do disco. Podemos separar essa música em três partes.


O primeiro ato, com o discurso/desabafo do artista, prenuncia as oscilações maníaco-depressivas.


Uma dualidade entre momentos de (auto)destruição e (auto)afirmação que impulsiona o desenvolvimento da narrativa.


Sempre depois de pensar que tá tudo acabado Tipo, se jogar numa depredação própria terrível [...] Parece que é aí que acorda um bagulho doido dentro de mim Que eu posso tudo e que sofrer pelas tristezas é só uma opção ruim, tá ligado? Nós sempre foi ensinado a lidar com tudo e nunca chorar [...] E essas besteiras que parecem encrustadas na criação de várias pessoa Só atrapalha você de saber o quão bom é estar vulnerável às vezes, tá ligado? Ninguém faz nada se tiver confortável o tempo todo – Mania, IKU THE KID

No segundo ato, com versos agressivos rimados em um cenário sombrio, a persona Guilhotina revela as ruínas e o caos que habitam em si.


As contradições presentes na construção de sua própria imagem, em sua forma de compreender e ser no mundo, a qual se encontra em confronto com o constante questionamento alheio.


Uma insaciável inquisição que busca enquadrar, classificar, etiquetar, identificar… enfim, nos colocar em caixas pré-determinadas pela normatividade hegemônica, reduzindo e petrificando as possibilidades de experimentar outros estilos de vida.

Tá tudo um caos e minhas juntas tão doendo Já faz dias que eu não dou um sorriso, mas isso é o de menos [...] Minha relação com a coroa tá uma merda Tipo, eu só faço merda ou ela que não consegue me entender? Como explico que não quero mais ser homem Porque a maldade do homem que me fez me odiar tanto igual você? – Mania, IKU THE KID


Por último, em um esforço para superar os conflitos que lhe assombram, a melancolia e o ressentimento dão lugar ao seu “episódio de mania”.


Essa transição é marcada não só pela virada no beat, mas também por apresentar um outro ponto de vista em sua composição lírica: a força da esperança reluz para além do cansaço da sobrevivência cotidiana, expressando tanto a celebração de suas conquistas (passadas e porvir) quanto a solidariedade com aqueles que persistem na correria – nem que pela raiva.


É só um episódio de mania… [Transição] Vai ser obrigado a me ver vencendo Fazendo duas vezes mais que a renda da tua família É que ser esquisito hoje me dá dinheiro Mas antes só dava dor e eu chorava escondida […] Hoje tá um dia lindo, céu tá limpo Tudo que tu precisa vai buscar e trazer pra quem você ama Nem que seja pela raiva, levanta e muda tudo Tipo algo que te traga esperança Episódios de mania onde É impossível existir algo fora da minha conquista. – Mania, IKU THE KID

Além disso, ao empregar uma alternância entre pronomes masculino e feminino (“... chorava escondida”), a potência dessa expressividade político-estética tensiona os binarismos que ditam as normas que nos disciplinam, forçando-os até o limiar de sua saturação.


Os traços de negatividade e impulso de morte (Tânatos) que emergem das faixas de Olorogun, portanto, talvez possam ser reinterpretados como o motor para um momento necessário: a destruição das antigas máscaras e adereços para que, enfim, torne-se possível o surgimento do novo – a alegria de vislumbrar outro horizonte, outra perspectiva, outra maneira de ser para além do conformismo de uma vida controlada pela mesmice da normalidade.



Essa transição “maníaco-depressiva” aparece em outra música do álbum: Canto Feio, faixa que conta com a participação de D$ Luqi – rapper da Slasher Gang que recentemente também concedeu uma entrevista à Revista Menó [confira aqui].


Os versos da dupla se intercalam como uma simbiose, um organismo de naturezas diferentes (talvez nem tanto assim), onde a harmonia acontece pela revolta em comum.


[Verso 1: IKU THE KID] Foda-se Freud ou Lacan, Klein/ Como que conserta algo que não existe mais? Papo de maluco, maldade a si mesmo/ Eu tô me corroendo, mas eu quero mais Mais violência para com si mesmo/ Quero dizer sobre as mudanças Quero dizer que isso é um saco (...) [Transição] Nós merecemos a vida… [Verso 2: D$ Luqi] No meu espelho eu achei um inimigo/ Um menor fraco, bem antigo Aquele que só queria uma chance na vida e se contentaria com isso Nunca mais nós vai ter que comer resto/ Porque na minha mesa agora tem fartura [...] Eu vou morrer sendo mais um menor/ Que saiu da Baixada e agora não tem freio Nunca se esqueça da onde eu vim/ Eu sou sobrevivente, eu vim do canto feio – Canto Feio, IKU THE KID ft. D$ Luqi

Dando continuidade à nossa conversa, IKU THE KID relaciona o contexto da música Mania com a experiência pessoal do seu processo de transição de gênero. A Guilhotina faz da sua vulnerabilidade uma fonte de criatividade.


E, aqui, o conceito de guerra permanece operando como um eixo que orienta os movimentos da obra.


Sobre a questão da transição: eu me assumi recentemente como uma pessoa trans. E isso na comunidade de Rap, tá ligado? No underground brasileiro, onde tem um monte de homofóbico, LGBTfóbico pra caralho, racista… E isso acaba entrando no conceito de guerra também. Uma guerra que as pessoas transpassam para poder ocupar espaços, até mesmo num ambiente de trabalho. Sem trabalho não tem como sobreviver. Como é que essa pessoa vai fazer? Isso é uma guerra ainda, tá ligado? E esse bagulho também refletiu muito na minha postura; nas coisas que compartilho; nos livros que leio na minha vida. É uma transição. Acaba que você renasce para ser outro tipo de pessoa. Uma pessoa boa, né mano? A gente tem que aprender a respeitar os outros também.

Se a cena cultural do Rap (e a sociedade brasileira em geral) continua sendo atravessada por diversos tipos de preconceitos, somando-se a isso a crescente onda reacionária em escala global, em contrapartida, as batalhas travadas por IKU THE KID para ocupar espaços em ambientes hegemonicamente heteronormativos representam uma possibilidade de gerar ruídos e rasuras em uma sociedade predominantemente conservadora.



Um lembrete de que o fluxo da diferenciação – o ato produtivo que permite uma abertura para a afirmação de nossa diferença e singularidade – precede qualquer tentativa de rotular e fixar uma imagem idealizada sobre como deveríamos ser.


O que pode ser resumido no conceito muito bonito de liberdade, em seu sentido mais pleno, como nos lembra IKU:


E sempre foi isso na verdade. O Rap sempre foi um espaço para todas as pessoas. Só que aí a masculinidade, tudo que envolve dinheiro e como você tem que parecer para os outros, destruiu uma ideologia, um conceito muito bonito que era o da liberdade. O Rap pregou muito isso, né mano?

Mesmo fora dos grandes holofotes do mainstream, o rapper da Slasher Gang formou uma comunidade que parece se identificar com a estética e a composição poética de sua vasta produção artística.


Como diz IKU, tanto na faixa Mania quanto em um trecho da entrevista, ser esquisito (queer) hoje dá dinheiro. Porém, na verdade, acredito que seja algo mais potente que uma mera identificação.


O que de fato parece religar, por um lado, o artista – desenraizado e, mesmo na angústia, em busca de novas formas de experimentação – e, por outro, o público – cada vez mais fragmentado nas dinâmicas de interação digital – seria justamente a sensação compartilhada da relação de estranhamento consigo mesmo e com a mesmice do mundo.



IKU THE KID, mesmo estando sempre se reinventando e fugindo de rótulos fáceis, demonstra uma capacidade para mobilizar afetos de grupos distintos em torno de elementos dissonantes: não uma identidade imutável e absoluta, mas a própria diferença enquanto possibilidade de se reinventar incessantemente. Vestir outras máscaras, outras roupagens, por mais estranho que os outros possam considerar…


E essa inquietação artística – “mais um episódio de mania”, como diz IKU – reaparece ao final da entrevista, quando o rapper nos revela que está trabalhando em um novo álbum, inclusive já tendo escolhido o título. DPP: Dopamina Para Perturbados.


Embora ainda não haja previsões sobre a data de lançamento ou eventuais colaborações, ao menos podemos antecipar uma constante na curta (e extensa) trajetória profissional do rapper carioca: provavelmente será mais um ato de profanação, isto é, uma inversão das hierarquias sociais estratificadas (religiosidades, sexualidades, etc.).


Emergindo, portanto, um horizonte no qual a transformação não aparece como resolução definitiva dos conflitos – sejam internos ou externos –, mas como um desdobramento do próprio processo criativo.




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