top of page
  • Instagram
  • Facebook
  • Twitter
  • YouTube

Vírus Carinhoso fala de luto, paternidade, território e Karkara

há 12 horas
11 min de leitura

Por Pivete



Conheci o trabalho de Vírus Carinhoso por Carta aos Ancestrais. Primeiro veio o visual, depois a música, depois os conceitos. Tinha muita coisa ali que conversa diretamente com o que a gente busca registrar na Menó: memória, identidade, território, negritude, arte e as maneiras que a gente encontra para continuar.


Quando a gente sentou para trocar ideia, comecei de onde sempre gosto de começar. Antes do lançamento, antes do disco, antes dos números, quem é o artista e de onde vem sua música?

Vírus é cria do Subúrbio Ferroviário de Salvador e sua relação com a arte começa cedo, principalmente pela influência dos irmãos.


“Eu sou filho mais novo, de uma mãe solteira, e a influência musical e artística que eu tive sempre foram meus irmãos. Eles faziam teatro na adolescência, aí eu entrei no teatro também, na infância, que foi a primeira linguagem artística que eu comecei a fazer.”

Na adolescência, o caminho chega nas batalhas de rima.


“Tinha uns amigos meus que já batalhavam e eu sempre fiquei naquela, tipo, pô, quero também fazer isso. Até o momento que eu tive coragem, fui, batalhei, tomei gosto.”

Depois veio a poesia.


“Eu escrevi a minha primeira poesia já tarde, tinha 17 anos quando escrevi. Comecei a trabalhar esse lance da poesia na rua, de slam, de batalha de poesia também, de recitar. Meio que juntei a linguagem do teatro, que eu já fazia, com o rolê da poesia e comecei a interpretar meus poemas nos lugares que davam.”

Essa mistura foi parar na música quando ele criou, ao lado de outros jovens de Salvador, o coletivo Roupa Suja.


“Foi quando eu gravei a minha primeira música. Peguei o meu primeiro poema e coloquei em uma base de rap, em um boom bap, e entendi que a minha poesia também poderia se encaixar nesse lugar musicalmente. Desde então comecei a elaborar cada vez mais a minha poesia para a música. Também comecei a experimentar minha voz no canto e comecei a estudar produção musical.”

Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Só que falar de Vírus sem falar de território deixa metade da história de fora.

Quando perguntei como foi crescer no Subúrbio Ferroviário, ele chamou o lugar de uma faca de dois gumes.


“O Subúrbio Ferroviário é aquela onda, aquela faca de dois gumes. Porque é um território muito privilegiado geograficamente. É perto de uma praia, é um lugar bem tropical, bem massa de se viver. Na minha infância eu ia pra praia sozinho. Minha mãe ficava bolada, mas isso era sempre um lugar de escape.”

Mas a mesma infância também foi atravessada pela violência.


“O lugar onde eu morava era praticamente em frente à biqueira. Então o pesar da vivência do subúrbio é esse, o que a violência meio que faz com a gente.”

Ainda assim, quando ele fala sobre o território, não resume sua história a isso.


“A minha raiz tá lá de qualquer forma. Morar no subúrbio foi o que me proporcionou, inclusive, fazer teatro. Foi onde eu comecei a fazer teatro, no Centro Cultural Plataforma. Então é um lugar muito rico culturalmente também.”

E uma das primeiras memórias de palco também está ali.


“A minha primeira apresentação foi nesse centro cultural e eu lembro muito da sensação de ver minha mãe na plateia, me assistindo. Então o subúrbio me proporcionou esse tipo de coisa também, para além da violência que a gente sabe que existe em territórios periféricos.”

A família aparece o tempo inteiro na conversa.


Quando fala da mãe, Vírus lembra que ela sempre apoiou a arte porque entendia que, dentro daquele contexto, ser artista poderia ser uma possibilidade de existência.


“Minha mãe sempre foi uma pessoa que me apoiou bastante. Ela sempre me engajou bastante em relação à arte. Porque eu entendi que dentro do contexto da região onde a gente morava, eu ser artista era a melhor condição de existência que eu poderia ter.”

A arte também aparecia nos irmãos.


“Eu via o olho do meu irmão brilhar quando ele tava apresentando uma peça. Eu via o olho do meu irmão brilhar quando ele tava fazendo um grafite. Ver a arte transformando a vida dessas pessoas que estavam em volta de mim me fez perceber também como ela me afeta.”

E completa:


“A forma que eu escolho as palavras pra escrever uma poesia, tudo isso tá vinculado ao poder da arte na minha vida.”

É daí que a conversa chega no tal “gênero Vírus”.


Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Eu tinha visto ele definir sua música assim e perguntei se os gêneros tradicionais já não davam conta de explicar o que estava fazendo.


“Desde quando eu comecei a fazer música eu sempre tive uma dificuldade de nomenclatura. De enquadrar em nomenclatura. Ah, eu faço rap, faço trap, faço isso, faço aquilo. Eu sempre fui tipo, mano, não, eu quero fazer música, só que eu quero me experienciar na música.”

Karkara, segundo ele, leva essa ideia adiante.


“Esse disco mesmo que eu tô fazendo agora é um retrato fiel disso. Tem uma música que tem um violão que parece um flamenco, enquanto tem uma música que é um pagodão.”

Mas então o que faz tudo isso continuar sendo Vírus?


“É como eu interpreto a música dentro desse ritmo. É uma coisa muito característica minha. Eu consigo fazer com que o gênero se transforme ao meu jeito.”

Ele dá o exemplo.


“Eu vou fazer um piseiro aqui, mas esse piseiro vai ter a cara de Vírus. Não vai ser um piseiro clássico, tradicional. Vai ser uma coisa que eu vou fazer no piseiro. O que vai ser essa coisa? Fica aberto à minha criatividade.”

E resume:


“A minha música não tá em um lugar só, não tá apenas em um gênero. A forma que eu interpreto a música dentro desse gênero é o que vai dar a identidade da música.”

Só que Carta aos Ancestrais leva essa identidade para um lugar ainda mais íntimo.



A música atravessa luto, nascimento, paternidade e memória.


Quando perguntei como uma experiência pessoal daquele tamanho se transforma em música, a resposta veio rápida.


“Rapaz, é um processo necessário. Tinha que ir pra algum lugar isso, sabe? Tinha que ser canalizado de alguma forma. E a poesia, a música, é esse lugar pra mim.”

Ele continua.

“Canalizar esse tipo de sentimento que muitas vezes nem eu consigo elaborar em fala. Se fosse pra conversar sobre, muitas das vezes eu me perco entre as palavras. Mas a música tem esse lugar pra mim.”

Carta aos Ancestrais também não nasceu de uma vez.


“É uma música que nasceu em um intervalo de tempo muito longo, o que não é comum comigo. Eu comecei a escrever quando meu filho ainda tava na barriga, ainda na experiência do luto. Só depois que ele nasceu, quando ele fez um ano, um ano e pouco, eu escrevi a segunda parte, que é dedicada a ele.”

Para Vírus, a faixa também explica sua própria relação com o fazer artístico.


“É muito sobre a minha vivência, muito sobre o que eu passei, muito sobre o que eu senti. Mas é uma coisa coletiva também, porque o luto é uma coisa inerente a todo mundo.”

É quando uma experiência particular deixa de pertencer somente a quem escreveu.


“Todo mundo nesse exato momento está vivendo um luto. Que seja de uma situação, de uma pessoa, de um lugar. Trazer esse assunto pra minha música é uma tentativa de deixar minhas reflexões sobre isso públicas, para que outras pessoas que estejam vivenciando coisas parecidas consigam se identificar.”

Ele define o processo como transformação.


“Parte de um processo de dor também. De um processo de transformação. De ressignificação dessa dor.”

Esse processo não termina em Carta aos Ancestrais.


Na verdade, ele atravessa todo Karkara.


“O próprio disco Karkara nasceu dessa inquietação, dessa necessidade de falar sobre esse luto do meu irmão. Meu irmão morreu em 2020. Em 2021 eu comecei a pensar o Karkara.”

Só que o projeto mudou muito de lá pra cá.


“A primeira versão dele era uma versão totalmente triste. Medonha de triste, de melancolia.”

Aos poucos, Vírus percebeu que não queria continuar reproduzindo o mesmo estado.


“Eu entendi que não era isso. Não era isso que eu queria. Fui pensando, reformulando, reformulando. Aí meu filho nasceu dentro desse processo.”

O resultado ainda é um trabalho pesado.


“É um disco ainda denso. É um disco que não é fácil de digerir. Eu tenho essa noção. Mas isso precisava sair por algum lugar, por algum canal. E esse disco foi o lugar que eu encontrei de jogar isso para o mundo.”

A chegada de Joia também mudou a maneira como Vírus passou a entender ancestralidade.


Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Ele conta que uma conversa antes do nascimento do filho ficou marcada.


“Ele falou exatamente isso pra mim, que quando a criança nasce é um ancestral que volta pra gente.”

A ideia ajudou a construir a própria faixa.


“Essa conversa foi o que me fez pensar a ancestralidade, que me fez pensar Carta aos Ancestrais também. E me trouxe essa noção de que a ancestralidade é um processo contínuo.”

Não é só olhar para trás.


“Não é um processo que tá no passado apenas. A ancestralidade tá existindo agora. Joia é um ancestral que voltou. Eu sou um ancestral que voltou. Eu sou um ancestral que vou também.”

A paternidade também mexeu com o tempo de Vírus.


“A paternidade me veio muito pra esse lugar de assentamento. De falar, calma, respira fundo. O tempo das coisas é o tempo das coisas. Não adianta sofrer pelo tempo.”

Depois ele manda uma frase simples, mas que fica.


“É trabalhar com ele. É ser amigo dele. Não jogar contra o tempo.”

E existe ainda uma coincidência que atravessa toda essa história.


Vírus, Joia e Scank, seu irmão falecido, nasceram no mesmo dia.


“Eu, o Scank, meu irmão que faleceu, e Joia, meu filho, nascemos no mesmo dia. Isso foi uma coisa que eu fiquei tipo, tem alguma coisa acontecendo aqui que eu não tenho discernimento pra descobrir o que é. Isso não pode ser só coincidência.”

Depois do nascimento, outras prioridades simplesmente diminuíram.


“Tudo deixou de ser prioridade pra mim. Só Joia foi prioridade. Eu tô voltando a ter as outras prioridades da minha carreira agora. Mas esse primeiro ano dele foi praticamente só ele.”

Quando Carta aos Ancestrais ganha os tambores do Aguidavi do Jêje, tudo isso fica ainda mais evidente.


Vírus já tinha produzido uma primeira versão da música com Silas Barreto, com uma célula de percussão. Depois surgiu a possibilidade de convidar o grupo.


Só que a importância da participação vai muito além do arranjo.


“O Aguidavi do Jêje pra mim é uma referência máxima de trabalho comunitário. De trabalho de base. E de ancestralidade também. De ancestralidade em vida.”

Ele cita ainda a atuação social do grupo.


“Eles têm um projeto social, têm uma escola, dão aula pras crianças, têm oficina de percussão. Pra mim, estar junto com eles representa muito do posicionamento que eu quero pra minha carreira.”

E aí ele fala de maneira ainda mais direta sobre para quem quer fazer música.


“Eu não quero fazer música pra boy branco. Não quero fazer música pra boate. Eu quero fazer música pra base, mano. Pra galera, pra quem precisa escutar. Essa é a minha ânsia.”

Estar ao lado do Aguidavi, para ele, foi realizar um sonho.


“Foi um sonho realizado. Papo de sonho realizado mesmo.”

E musicalmente a presença dos tambores também mudou a faixa.


“Quando eles entram com os tambores na faixa, a faixa cresce de uma forma absurda. Se transformou. Pra mim foi grandioso.”

Esse lugar do tambor também aponta para onde Vírus quer levar sua estética.


“Esse lugar do experimental, do tambor, é o lugar onde eu miro pra minha estética sonora.”

A ancestralidade atravessa até a construção visual de Karkara.


Vírus já vinha pesquisando os símbolos adinkra desde o trabalho Sankofa.


“Fiz uma performance, fiz um curta metragem, rodei um show do Sankofa. E aí eu quis adotar esses símbolos pro disco.”

Cada música passa a conversar com um símbolo, enquanto a estética do projeto encontra outra referência importante da história de Vírus, a rua.


“A minha estética também vem muito da rua. Vem muito do grafite, da pichação. Desde criança, aqui em Salvador, a gente tem um alfabeto específico que é o letrado baiano.”

Foi novamente um irmão que abriu esse caminho.


“Desde criança eu já sabia ler isso na rua por conta do meu irmão. Aprendi a fazer também. Na adolescência comecei a pichar.”

Para o disco, ele decidiu aproximar essas duas linguagens.


“Minha sacada foi fazer uma interseção, uma mistura entre os adinkras e esses símbolos do letrado baiano. São símbolos que representam um povo, representam um local e representam uma filosofia.”

Crédito: Meneson Conceição
Crédito: Meneson Conceição

Daí também aparece o conceito de Karkara.


O disco terá 12 músicas e trabalha com os adinkras como parte da identidade conceitual. Vírus cria ainda um ideograma próprio para representar uma ideia central do projeto, que ele chama de “adeus ao karma”.


“A onda do disco é a criação de um ideograma que representa adeus ao karma.”

E explica o que está tentando deixar para trás.


“É meio que nessa intenção de dar adeus a tudo isso. A esse processo de dor que eu vivi, a esse processo de incerteza, essas mazelas que o povo preto já passa em si.”
“A onda conceitual do disco é meio que adeus a tudo isso.”

Só que Karkara também marca uma mudança prática na forma como Vírus consegue produzir.

O disco conta com patrocínio da Natura Musical e, para um artista que construiu parte importante da carreira de forma independente, isso significa ter acesso a estruturas que antes não estavam disponíveis.


“É um disco novo pra mim em relação à produção. É um disco que tá tendo patrocínio da Natura Musical. Então já começa por aí, de ter recurso pra fazer. Ter esse recurso é uma coisa atípica.”

Ele fala das mudanças pequenas que acabam fazendo uma diferença enorme.


“Nesse disco eu tive uma preparadora vocal, que é uma coisa que eu nunca tive e nunca nem pensei em me preocupar. A diferença que isso fez na minha voz, na gravação da voz, foi mil anos à frente.”

Também há estúdio, instrumentos e gravações orgânicas.


“Estou gravando baixo acústico, gravando percussão orgânica. Então tá sendo uma experiência totalmente nova pra mim.”

A liberdade, porém, continua sendo central.


“Eu entendi que o disco que eu estava fazendo era o que eu queria fazer. Então falei, velho, vou fazer o que eu quero mesmo.”

Ele decidiu não construir o trabalho pensando primeiro no resultado.


“Me desprendi de ‘será que vai bater?’. Falei, vou fazer aqui o que eu quero, o que eu acredito que eu gosto. E o que vier disso é resultado, é consequência.”

Essa discussão aparece de novo quando entramos no assunto da independência.

Vírus atualmente segue independente e fala sem romantizar o corre.


“Quem é independente tem que fazer tudo. Tem que meter as caras em tudo. É difícil porque muitas vezes a gente não vai conseguir fazer tudo. A gente precisa de outras pessoas, precisa de pessoas com conhecimentos específicos pra cada coisa.”

Ao mesmo tempo, ele percebe uma valorização crescente da estética independente e underground.


“Até os artistas que são mainstream querem ser independentes agora. Querem ser underground. Há uma tendência de valorização desses artistas.”

Mas tem uma diferença entre valorizar a estética e fazer o dinheiro chegar.


“Em paralelo a isso, a grana ainda não gira na mão dessa galera. Da gente, no caso.”

O patrocínio de Karkara também não caiu do céu.


“Eu já tinha escrito pra Natura quatro vezes antes. E aí essa vez eu passei.”

A resposta dele pra isso é bem de quem já conhece a pista.


“É não desistir mesmo. É botar a cara a tapa sempre. Sempre, sempre, sempre. Que uma hora vai.”

Mesmo com toda essa caminhada individual, Vírus insiste que nenhum trabalho independente acontece sozinho.


“Todo trabalho independente tem essa coletividade que faz acontecer. Todos esses meus trabalhos anteriores, visuais e tudo mais, são trabalhos coletivos. Colando com gente foda, que gosta também do meu trabalho. Você tem uma ideia aí, eu tenho uma ideia de cá, vamos juntar as forças pra realizar.”

E talvez isso também explique a Carta aos Ancestrais.


Uma música que nasce de uma história muito particular, mas vai encontrando outras pessoas, outros tambores, outras memórias.


Perto do fim da conversa, perguntei uma coisa que pra mim talvez seja uma das perguntas mais importantes de toda entrevista.


Daqui a 20 anos, quando Joia escutar Carta aos Ancestrais, o que Vírus gostaria que ele entendesse sobre o homem que seu pai era quando escreveu aquilo?


Vírus riu.


“Ele pode achar uma coisa muito brega. Tipo, meu Deus, meu pai fez um disco sobre mim. Uma coisa bem cringe.”

Ou pode ser o contrário.


“Ele pode ter uma coisa com orgulho também. Tipo, velho, olha isso aqui. Eu tinha um ano e olha o que meu pai fez.”

No final, ele sabe que não tem como decidir o que o filho vai sentir.


“O futuro a gente não consegue mensurar.”

Mas imagina uma cena simples.


Alguém pergunta a Joia qual é sua música preferida. Ele cita os artistas de sua própria geração e, talvez depois de pensar um pouco, lembre.


“Ah, tem essa aqui que meu pai fez também. Isso pra mim.”

Acho que é aí que Carta aos Ancestrais fecha o ciclo.


Uma carta para quem veio antes.


Uma música feita enquanto se aprende a conviver com quem partiu.


Uma música escrita para um filho que acabou de chegar.


E talvez uma memória deixada para um futuro que Vírus sabe que não controla.


Karkara vem depois.


Experimental, misturado, denso e, nas palavras do próprio Vírus:

“É a minha cara. Quem conhece sabe. Quem tá ligado, tá ligado.”

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
logo.png
  • Branca Ícone Instagram
  • Branco Facebook Ícone
  • Branco Twitter Ícone
  • Branca ícone do YouTube

Todos os Direitos Reservados | Revista Menó | ISSN 2764-5649 

bottom of page