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niLL: imaginar outros mundos também é uma forma de transformar o nosso

há 2 horas
9 min de leitura

Em entrevista exclusiva ao Pivete, para a Revista Menó, o rapper fala sobre seu novo álbum, a influência dos animes e videogames em sua formação, a liberdade criativa de artistas negros e periféricos e a importância de construir uma arte que dialogue com as próximas gerações.

Quem disse que o rap precisa falar apenas da realidade que conhecemos? E quem determinou que artistas negros e periféricos devem limitar suas produções às narrativas de violência, pobreza e sofrimento?



A periferia também imagina, inventa personagens, constrói universos e sonha com futuros que ainda não existem. Talvez seja justamente nessa capacidade de imaginar outras possibilidades que esteja uma das maiores forças da nossa arte.


O rapper e produtor niLL parece compreender muito bem esse caminho. Entre referências aos videogames, mangás, animes e à cultura hip-hop, o artista construiu uma identidade musical que não se contenta em apenas contar histórias. Ele também cria os mundos onde essas histórias acontecem.



Seu novo álbum, Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo, lançado em 22 de setembro de 2026, dá continuidade a esse processo. Com 13 faixas, o projeto expande o universo de Maestro, apresentado em 2023, e introduz Mountalk, um personagem fascinado por super-heróis que, mesmo sem possuir poderes, acaba embarcando em uma viagem por diferentes períodos da humanidade.


O trabalho reúne participações de Clara Lima, Alt Niss, Maui, Fleezus e Callister, entre outros colaboradores. Com direção artística e musical do próprio niLL, responsável pela produção de dez faixas, o disco representa mais um passo na construção de uma obra que ultrapassa os limites da música.



Mas foi justamente para além do lançamento que nossa conversa caminhou.

Durante quase quarenta minutos, troquei uma ideia com niLL sobre criação artística, infância, desigualdade, responsabilidade social e o futuro.


E, entre tantos assuntos, uma questão permaneceu atravessando o diálogo: qual é o papel da imaginação na construção de uma realidade diferente daquela que nos foi apresentada?


A periferia também tem o direito de imaginar


Existe uma expectativa bastante limitada sobre aquilo que artistas negros e periféricos devem produzir. Muitas vezes, parece que nossas histórias precisam necessariamente apresentar a violência que sofremos, as dificuldades que enfrentamos ou as ausências que marcaram nossas trajetórias.


Não que essas narrativas sejam menos importantes. Pelo contrário, contar nossas próprias histórias é também disputar a memória de um país que insiste em nos apagar. O problema começa quando a sociedade transforma nossas dores na única linguagem que considera legítima para representar nossas experiências.



Durante a entrevista, provoquei niLL justamente sobre essa questão. Queria compreender como ele enxergava a liberdade de imaginar outros mundos, criar fantasias e construir narrativas que não estivessem exclusivamente presas às representações mais explícitas da desigualdade.



A resposta revelou uma preocupação que atravessa boa parte de seu trabalho: a formação das próximas gerações.


"Eu vejo que a gente precisa achar uma maneira de conversar com as crianças, principalmente. A gente precisa achar uma maneira de conversar com os jovens, que a minha maior preocupação acho que é essa, conversar com essa galera nova, com essa próxima geração, que a chance de mudar as coisas daqui pra frente vai ser eles, né?"

Para niLL, a fantasia não representa necessariamente uma fuga da realidade. Ela pode ser justamente uma maneira de aproximar o público de questões que, apresentadas diretamente, talvez não despertassem o mesmo interesse.



Em Maestro, por exemplo, uma cidade fictícia é marcada por uma divisão evidente entre riqueza e pobreza. O cenário não nasceu apenas da imaginação. Foi inspirado em uma experiência do artista durante uma viagem a Teresina, quando observou o contraste entre ruas bem estruturadas e áreas próximas marcadas pela precariedade.


Aquela imagem permaneceu em sua memória e acabou incorporada à construção de seu universo.


É interessante pensar nisso. Afinal, quantas vezes precisamos criar outros mundos para conseguir explicar o nosso?



O rap sempre foi uma ferramenta poderosa de denúncia, mas também precisa continuar sendo um espaço de experimentação. Uma criança negra pode se reconhecer em uma música sobre racismo, mas também pode encontrar referências em um personagem fantástico, em um herói ou em uma história que permita imaginar possibilidades para além das limitações impostas pelo lugar onde nasceu.


A periferia não precisa abandonar sua realidade para produzir fantasia. Ela pode transformar essa realidade em matéria para criar aquilo que ainda não existe.



Entre videogames, animes e a infância


A relação de niLL com a cultura pop começou muito antes de seus personagens ganharem vida nas capas dos discos.


Durante a conversa, perguntei sobre a influência dos animes, videogames e quadrinhos em sua formação. Durante muito tempo, esses elementos não eram associados à imagem tradicional do hip-hop, embora fizessem parte da infância e da juventude de muitos daqueles que cresceram ouvindo rap.



Ao recordar esse período, niLL falou sobre sua mãe e o esforço que ela fazia para proporcionar experiências que, naquele momento, talvez parecessem apenas entretenimento.


"Mano, eu enchi o saco da minha mãe, mano. Nossa! [...] pra me dar videogame. Nossa, pra me comprar um jogo de Dragon Ball. Nossa, eu enchi o saco dela."

A lembrança veio acompanhada do reconhecimento de que sua mãe, mesmo enfrentando dificuldades financeiras, encontrava maneiras de realizar aqueles desejos.



O que poderia parecer apenas um jogo acabou se tornando parte fundamental de sua formação.


"Acho que esse foi uma válvula de escape. E acabou virando meio que uma luz do fim do túnel também, mano."

A declaração diz muito sobre o papel que a cultura pode desempenhar na vida de uma criança.


Nem sempre conseguimos dimensionar o impacto de um videogame, de um livro ou de um desenho animado na construção de nossas referências. Muitas vezes, é justamente nesses encontros aparentemente simples que começamos a imaginar aquilo que gostaríamos de fazer quando crescemos.


Para niLL, a relação com essas obras também amadureceu. Com o passar dos anos, percebeu que as histórias carregavam reflexões sobre a existência, a sociedade e os comportamentos humanos.


O que antes era apenas diversão passou a ser também uma maneira de compreender o mundo.



Hoje, essa influência aparece diretamente em sua produção artística. A faixa Vamos Pro Mar, por exemplo, homenageia Monkey D. Luffy, protagonista de One Piece. Já Mais Alto busca reproduzir a atmosfera das aberturas de animes dos anos 1980.



As referências não aparecem como simples elementos decorativos. Elas fazem parte da linguagem que niLL desenvolveu para contar suas próprias histórias.


Afinal, o que faz de alguém um herói?


Um dos elementos mais interessantes de Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo é justamente seu novo protagonista.


Mountalk é um admirador de super-heróis, mas não possui os poderes extraordinários que normalmente associamos a essas figuras. Ainda assim, sua trajetória será marcada por situações que exigem escolhas, atitudes e posicionamentos.


Durante a entrevista, perguntei a niLL o que significava ser um herói.


"Cara, para mim, esse sentido de você ser um herói não chega nem no âmbito dos poderes, né? Eu acho que ele chega mais na esfera da atitude, da vontade, né, mano? De você olhar alguma coisa que não está certa e você falar: pô, eu legitimamente vejo que não está certo, então eu vou fazer algo por isso, tá ligado?"

Talvez essa seja uma das reflexões mais bonitas do álbum.


Estamos acostumados a reconhecer o heroísmo nas grandes conquistas, nos personagens extraordinários e nas figuras que parecem capazes de resolver problemas impossíveis.


Mas existe também o heroísmo cotidiano.


Ele aparece nas pessoas que enfrentam injustiças, que se responsabilizam por transformar alguma coisa ao seu redor e que encontram coragem para agir mesmo sem possuir grandes recursos.


É nesse sentido que o novo protagonista de niLL se aproxima das pessoas comuns.



O artista também leva essa discussão para a faixa Guia do Herói, que aborda a importância de reconhecer a própria capacidade de transformação, sem necessariamente esperar que outra pessoa apareça para resolver nossos problemas.


No fim das contas, talvez não seja preciso viajar no tempo ou possuir superpoderes para mudar alguma coisa. Às vezes, o primeiro passo é simplesmente reconhecer que determinada realidade não deveria continuar como está.


Quando a música já não é suficiente para contar uma história


O novo trabalho também representa um avanço na maneira como niLL organiza sua produção artística.


Desde seus projetos anteriores, o rapper vem construindo personagens e elementos visuais que dialogam entre si. Com o desenvolvimento de Maestro, essa proposta ganhou uma dimensão ainda maior, especialmente com a criação de um mangá que reúne diferentes figuras de seu universo.


Na entrevista, niLL explicou que o projeto começou a ganhar forma após uma conversa com Lucas, seu editor, que sugeriu desenvolver uma história em quadrinhos a partir do personagem Maestro.


A proposta acabou crescendo. Em vez de trabalhar com apenas um personagem, o artista decidiu conectar diferentes criações e desenvolver um universo compartilhado.


O processo começou em 2024, com o lançamento do mangá em janeiro de 2026.


A mudança não foi apenas estética. Para niLL, a nova linguagem permite desenvolver assuntos que nem sempre encontram espaço dentro das limitações de uma composição musical.


"Tem algumas coisas que gostaria muito de falar no rap, mas só que é muito complexo e não dá para falar, porque não dá tempo. [...] É melhor utilizar outra plataforma. E aí dentro do mangá vai dar para fazer isso, sabe?"

A decisão revela uma compreensão interessante sobre as possibilidades da arte.


Nem toda história precisa terminar quando a música acaba. Algumas ideias pedem imagens, outras precisam de personagens, diálogos ou narrativas mais longas.



Criar também é resistir à lógica do descartável


Além da construção narrativa, Sobre Heróis, Castelos e Viagens no Tempo apresenta mudanças importantes na sonoridade de niLL.


O artista destaca a presença de instrumentos gravados em estúdio, uma experiência que descreveu como especial para sua trajetória. O álbum reúne contribuições de músicos como Luiz Skin, Thiago Ticana e Mbeattz, além de produtores convidados.


Embora tenha assumido grande parte da produção e direção musical, niLL reconhece a importância das pessoas que colaboram com seus projetos.


A conversa também passou pela indústria musical e pela necessidade de preservar a identidade artística em um mercado marcado pela velocidade dos lançamentos.


Ao recordar a produção de Manual para Não Desaparecer, trabalho colaborativo com Rodrigo Ogi, discutimos como a inteligência artificial e as músicas produzidas para alcançar resultados imediatos provocam questionamentos sobre o futuro da criação.



Para niLL, existe algo que não deveria ser perdido nesse processo.


"O bagulho, o que separa o ser humano da máquina é o sentimento, velho. A gente poder fazer bagulho bom, a gente poder errar, a gente poder desafinar, tá ligado? É isso que separa, sabe?"

Sua reflexão coloca em discussão uma característica fundamental da produção artística: a humanidade presente nas imperfeições.


Em um mercado que frequentemente valoriza números, tendências e resultados rápidos, niLL demonstra interesse em desenvolver obras que possam ser revisitadas e compreendidas de diferentes maneiras ao longo do tempo.


Talvez por isso sua discografia funcione como uma construção contínua, na qual personagens, experiências e referências anteriores reaparecem sob novas perspectivas.


O artista, a política e a responsabilidade com seu tempo


A entrevista também tomou um caminho político.


Ao comentar a recepção do novo álbum, niLL revelou que decidiu diminuir temporariamente sua divulgação em razão do cenário eleitoral brasileiro.



O artista demonstrou preocupação com a polarização política e com a circulação de informações equivocadas, especialmente entre os jovens.


Segundo ele, diante da situação do país, continuar promovendo seu trabalho como se nada estivesse acontecendo não parecia fazer sentido.


"Então acho que é o momento da gente tentar conversar, conversar sobre o país."

A declaração ajuda a compreender como niLL enxerga sua posição enquanto artista.


Sua preocupação não está limitada ao alcance de suas músicas ou ao crescimento de sua carreira. Existe também um interesse em participar das discussões que atravessam a sociedade.



Durante a conversa, o rapper contou que procura manter uma relação próxima com seus ouvintes e que não deseja ser colocado em uma posição distante das pessoas que acompanham seu trabalho.


Ao refletir sobre sua trajetória e sobre os artistas mais jovens que passaram a utilizá-lo como referência, falou sobre a importância de continuar sendo acessível.


"Então, a gente faz parte do povo, mano. A gente tá ali no meio do povo, tá ligado?"

Essa compreensão aproxima sua visão artística de uma tradição histórica do próprio hip-hop, que nasceu das experiências coletivas e da necessidade de produzir cultura a partir de territórios frequentemente excluídos dos grandes espaços de circulação.


A arte pode alcançar lugares distantes, mas isso não significa que o artista precise se afastar de suas origens.


Que mundo queremos encontrar no futuro?


Para encerrar nossa conversa, resolvi trazer o tema central do álbum para uma reflexão sobre a vida real.



Se niLL pudesse deixar uma mensagem para sua versão do futuro, o que diria? E, principalmente, que mundo gostaria de encontrar quando chegasse lá?


Depois de conversarmos sobre heróis, viagens no tempo, desigualdade e transformação social, sua resposta não poderia ser mais significativa.


"Cara, eu espero encontrar um mundo que as pessoas estejam comendo o quanto elas quiserem, assim, sem se preocupar com nada [...] Mas eu gostaria de encontrar um mundo que fosse balanceado, né, mano? Que não tivesse pessoas com um milhão e pessoas com zero."

O artista também expressou o desejo de encontrar um planeta onde ainda fosse possível respirar livremente e onde as guerras tivessem chegado ao fim.


Aos 33 anos, niLL reconhece que sua geração cresceu atravessada por diferentes formas de conflito, sejam elas sociais, políticas ou territoriais.



E talvez por isso seu desejo para o futuro seja, antes de qualquer outra coisa, encontrar um momento de tranquilidade.


"A gente precisa do momento de paz. Depois dessa chuva aí, a gente precisa de sol."

É interessante perceber como uma conversa que começou com personagens fantásticos termina com desejos tão concretos.


No fundo, talvez seja exatamente essa a força da imaginação.


Podemos construir castelos, viajar por diferentes períodos da humanidade, inventar robôs e personagens extraordinários. Mas, quando pensamos no futuro que realmente queremos, continuamos falando sobre questões fundamentais: comida, dignidade, liberdade e paz.


A obra de niLL nos lembra que imaginar outros mundos não significa abandonar aquele em que vivemos.


Pelo contrário, pode ser uma maneira de compreender suas contradições e reconhecer que a realidade não precisa permanecer como está.


Porque, antes de transformar o mundo, alguém precisa acreditar que ele pode ser diferente. E a periferia, meu parceiro, nunca deixou de imaginar.




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