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VANDAL: antes de VANGUARDAH, já existia VERDADEH

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • há 1 dia
  • 17 min de leitura
Antes da Orquestra Afrosinfônica, dos sinos, da pesquisa ancestral e de VANGUARDAH, havia um pivete de Cidade Nova atravessado por discos, grafite, festas de largo, pagode e grime. Em conversa com a Menó, VANDAL revisita as experiências que construíram sua identidade muito antes de ela receber o nome de vanguarda.


Existe uma versão bastante conhecida sobre como nasce um rapper. Primeiro aparecem as batalhas de rima, depois o microfone, os primeiros versos, algum instrumental baixado da internet e, talvez, em algum momento, um palco.


VANDAL faz questão de desmontar essa genealogia logo nos primeiros minutos da nossa conversa. Sua história não começa numa batalha e tampouco em uma família de músicos.


“Eu não venho de um seio familiar de músico”, diz. Filho de um mecânico e de uma mulher que trabalhava em uma empresa de turismo, sua primeira relação com a música veio de uma coleção de discos que existia dentro de casa.


“O VANDAL, na verdade, ele não vem da música. Eu não venho de um seio familiar de músico. Sou filho de um mecânico, minha mãe trabalhava numa empresa de turismo e tal. A minha relação com a música vem do meu avô, porque ele trabalhava na TV Itapuã, uma TV aqui da Bahia, e ele sempre ganhava discos. Ele tinha ali essa equipe da Tropicália e tal, ganhava discos desse pessoal e trazia esses discos para casa. Então ele tinha uma coleção de discos muito vasta, de presentes que ganhava. Minha relação inicial com a música vem disso.”
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

A coleção crescia enquanto um menino de Cidade Nova, em Salvador, começava a descobrir sons que ainda não sabia exatamente onde o levariam. Mas os discos conviviam com outra escola. Antes de VANDAL existir enquanto MC, existiam o grafite e a pichação.


Foi através deles que começou a entender aquilo que chama de universo “urbanoide”, uma relação com a cidade atravessada por imagem, contravenção e ocupação dos espaços.


“Minha relação inicial com a música vem disso. Só que eu venho do grafite e da pichação. Inicialmente, meu contato com esse lance urbano, urbanoide, de entender as coisas, as contravenções, vem da pichação e do grafite.”

Essa preocupação em localizar a própria história no lugar em que ela realmente aconteceu atravessa toda a entrevista. Quando fala da formação como MC, por exemplo, VANDAL não tenta reivindicar a tradição das batalhas de freestyle apenas porque esse é um caminho reconhecível dentro do rap.


Ele conhece esse universo, tem amigos que vieram dali e demonstra respeito por ele, mas sua formação aconteceu em outro lugar.



“A gente tem que ser honesto com a nossa história”, afirma antes de explicar de onde veio.


“Eu não venho do seio das batalhas de freestyle como os MCs convencionais. Por isso que eu acho que o meu trabalho é tão diferente. Então eu venho desse lance das festas de largo. Eu sou oriundo das festas de largo.

Em Salvador, a expressão não significa apenas uma festa realizada em uma praça. Historicamente, as festas de largo se constituíram justamente nessa fronteira entre o religioso e o profano.


A pesquisadora Cleidiana Ramos explica que o próprio nome vem da capacidade da celebração “vazar” da igreja para o entorno. Missa, comida, rua, bebida, percussão, samba e devoção passam a ocupar simultaneamente o mesmo território.


A pesquisadora também destaca a forte ancestralidade negra presente nessas festas e sua importância como espaços de resistência diante de tentativas históricas de apagamento cultural promovidas pela Igreja Católica.


Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

Na memória de VANDAL, essas festas começavam durante a tarde e atravessavam a madrugada. Havia barracas, música, bebida e um bairro inteiro reorganizado em torno daquele acontecimento.


Ele compara a dinâmica, para quem não conhece a tradição baiana, às quermesses, embora a experiência das festas de largo tenha suas próprias características históricas e culturais.


O que importa na lembrança dele é a capacidade daquele espaço de reunir diferentes sons, pessoas e possibilidades.


Foi olhando para aqueles palcos que começou a se imaginar sobre um deles.


“Dentro dessas brincadeiras, dessas aspirações, eu já me vi ali nos palcos das festas de largo.”

Na adolescência, a escrita começou a ocupar mais espaço. VANDAL já desenhava e percebeu que tinha facilidade com palavras. Escrevia refrões para bandas de amigos ligadas ao pagode e, durante algum tempo, imaginou que sua entrada possível na música seria como backing vocal.


A perspectiva ainda estava distante daquela imagem convencional do rapper que descobre a própria vocação segurando um microfone numa batalha.


“Se a gente for fazer alguma coisa com a música, vai ser backing vocal de pagode, que era o mais fácil. Você só dobrava o refrão do cara que estava cantando ali e tal.”

Depois desse “banho nas festas de largo”, como define, VANDAL encontrou outros músicos e passou a receber novas referências.


“Após esse banho nas festas de largo, eu encontrei ali o Ministério Público, que é de onde vem Russo, de onde vêm vários outros nomes daqui. E dentro do Ministério Público eu comecei a ser agraciado com informações musicais que eu achei que eu nunca ia ter.”

Uma dessas informações chegou pela internet. VANDAL pesquisava grafite em blogs e sites quando acabou encontrando o grime. A descoberta não aconteceu porque estivesse procurando especificamente um novo gênero musical.


Uma pesquisa levou à outra. Foi assim que apareceram nomes como Lady Sovereign, as rádios piratas britânicas e outras formas de fazer a música circular.



“Eu me deparei com o grime mais pelo lance de pesquisar o grafite nas redes, pesquisando os blogs, os sites. A pesquisa que eu tinha de grafite me levou para o grime. Aí eu comecei a ver os nomes do grime, Lady Sovereign. Eu vi como ela viralizou, mandando trechos de músicas para os e-mails das pessoas. Ela pegava os e-mails da escola, de vários outros locais e mandava pequenos trechos de música. Eu vi que ela viralizou nisso. Já ficava: ‘Rapaz, Lady Sovereign... que forma aí de fazer música.’ Tinha as rádios piratas de lá também.”

Outro encontro foi decisivo. Dimec, MC e tatuador, lhe deu Boy in da Corner, de Dizzee Rascal. O disco virou obsessão. Antes de ir para a escola, VANDAL o escutava repetidamente, a ponto de a família começar a perguntar por que ele não ouvia outra coisa.



“E ali foi minha... eu acho que eu precisava daquilo. Então, antes de ir para a escola, eu ouvia mais de cinquenta vezes o mesmo disco. Virou uma maluquice em casa. As pessoas: ‘O que é isso? Você só ouve isso, só ouve isso.’”

Mas havia algo além da música naquele universo que o atraía. VANDAL conta que um dos momentos em que decidiu realmente mergulhar no grime aconteceu ao assistir a uma apresentação em que viu o DJ Sentex, que não tinha um dos braços.


A imagem contrariava aquilo que muita gente esperava encontrar sobre um palco e foi justamente esse estranhamento que chamou sua atenção.


“O que me levou mesmo a me encantar pelo grime em si foi quando o Dizzee Rascal fez o Free Jazz. Eu vi o DJ dele, o Sentex, e ele não tinha um braço. Aquilo ali eu falei: ‘Caralho, é isso aqui que eu quero. É esse estilo de música que eu vou mergulhar, que eu vou abraçar.’ Porque era contra tudo, até estética.”

Para VANDAL, a força daquele momento estava justamente no que fugia ao convencional.


“O que me encantou foi justamente a diferença desse processo todo. Eu sempre me encantei por coisas que as pessoas odiavam, que não fossem convencionais. Minha história da música vem dentro disso.”

Descobrir o grime, no entanto, nunca significou simplesmente reproduzir Londres em Salvador. VANDAL começou a aproximar aquela informação musical daquilo que já carregava da Bahia.


Tentava colocar samba-reggae no meio do grime, juntar referências jamaicanas às coisas que conhecia na cidade e produzir uma linguagem que não precisava escolher entre um lado ou outro.


Foi justamente aí que começaram os olhares tortos.


“Eu subia para cantar, as pessoas olhavam para o lado. Olhavam torto, diziam que era maluquice, porque eu já estava tentando encaixar o samba-reggae no meio do grime, no meio das referências da Jamaica, nas coisas da Bahia mesmo. Então, naquele tempo, eu estava meio que contra o que todo mundo queria ouvir.”

Aquilo que hoje pode ser lido retrospectivamente como pesquisa ou pioneirismo apareceu primeiro como inadequação. As pessoas não entendiam exatamente o que ele queria fazer.


Em vários momentos da entrevista, VANDAL retorna à forma como era tratado naquele período. Diz que foi apontado, xingado, menosprezado e chamado de maluco. Também ouviu que não sabia rimar e que era feio.



A decisão de continuar com a música ganhou outro peso depois de um episódio de violência. Durante um Carnaval no centro de Salvador, alguns amigos que estavam com ele foram baleados. Um deles, conhecido como Negão, morreu.


Era dia 9 de fevereiro. O aniversário de VANDAL seria no dia seguinte.


“Foi quando eu perdi um amigo no Carnaval mesmo. Foi no centro da cidade. Estavam começando as explosões das facções em Salvador aqui. E aí, num conflito daquele de Carnaval, alguns amigos que foram comigo foram baleados. Nesse dia, que foi no dia 9. E o meu aniversário era no dia 10 de fevereiro. Então esses amigos que foram comigo, na mesma situação que eu estava, foram baleados e tal. E um chegou a falecer, que foi o Negão.”

No dia seguinte, VANDAL saiu em um trio em Salvador. Estourou um champanhe com os amigos e fez um pedido que, até hoje, não sabe explicar exatamente para quem foi dirigido. Queria uma resposta sobre a música, alguma indicação de que deveria ou não continuar.


“Eu pedi que me desse um direcionamento, se era aquilo mesmo, se eu podia mergulhar nisso e tal. Porque eu também tinha esse medo. As pessoas me diziam que eu era maluco, que eu não sabia rimar, que era feio. As coisas que eu queria entregar nunca agradavam e tal. E aí, depois desse acontecimento, eu fiz esse pedido e acabei mergulhando.”

“Mergulhei de corpo e alma”, diz. Até então, muita coisa acontecia nos palcos e nos sound systems, no esforço de disputar o microfone e fazer a música chegar às pessoas. Gravar não era a principal preocupação.


A identidade começou a ser construída antes mesmo de existir uma discografia capaz de organizá-la.


É nesse ponto que uma palavra começa a atravessar a conversa com mais frequência: honestidade.


Honestidade com a origem, com as referências e com a própria trajetória. Essa mesma preocupação aparece quando VANDAL fala sobre mercado e sobre artistas que, em sua percepção, abandonaram aquilo que os tornava particulares para seguir uma fórmula que parecia funcionar.


“Eu observei muitos artistas que são bons, ou que eram bons, mas que se entregaram a essa rodagem, essas especulações, essas imposições mercadológicas e tal, e acabaram abandonando sua arte. Essas pessoas abandonaram o senso artístico e foram fazer o que o mercado queria.”

A crítica não é exatamente à ideia de alcançar público. O problema aparece quando a busca por uma música viral começa a apagar o artista que existia antes dela.


Para VANDAL, o objetivo era produzir o efeito contrário: construir uma assinatura forte o suficiente para que a música fosse reconhecida antes mesmo de alguém precisar anunciar seu nome.


“E aí viralizaram uma música e acabou, sabe? Sumiram. Então eu sempre quis fincar para as pessoas: quando você ouvisse minha música, você ia dizer que era o VANDAL. O jeito de cantar, a forma de escrever, a forma de se vestir, a forma de se portar. Tem todo um contexto dentro disso.”

Talvez essa seja uma das melhores chaves para entender VANGUARDAH. O disco não marca o instante em que VANDAL decidiu possuir uma identidade. Ele aparece depois de anos tentando impedir que essa identidade fosse engolida pelo que esperavam de um rapper.


Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
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Esse processo também atravessou a aparência e as expectativas sobre masculinidade dentro do rap. VANDAL lembra das críticas às roupas, às cores que usava e às acusações homofóbicas dirigidas a escolhas estéticas que algumas pessoas diziam não combinar com um MC.


Ao mesmo tempo, nunca pareceu particularmente interessado em responder a esse policiamento transformando a própria carreira numa competição de masculinidade ou ego.


“Os artistas dizem que eu tenho um melhor flow, eu tenho uma melhor discografia, eu sou o melhor isso, eu sou o melhor... Eu nunca toquei nesse assunto, eu nem quero isso. Não faz parte. Eu não estou numa competição de ego. Não é isso.”
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

O foco está na obra. E é justamente por isso que, quando VANGUARDAH finalmente aparece, fica difícil enxergá-lo como uma ruptura completa com aquilo que veio antes.


O disco amplia uma maneira de trabalhar que já estava presente desde o momento em que VANDAL pesquisava grafite e chegava ao grime por acidente, ou quando tentava fazer samba-reggae conversar com uma música inglesa que as pessoas ao redor ainda estranhavam.


Em determinado ponto da entrevista, ele próprio oferece uma chave para essa relação entre passado e futuro.


“Quando o VANGUARDAH veio, as pessoas entenderam: ‘Ó, gente, calma. Eles fizeram uma pesquisa, existe um cuidado, existe um trabalho.’ Porque, na verdade, a tecnologia era ancestral. Se a gente for analisar o mundo antigo, o mundo antigo foi tecnológico.”

A ideia aparece enquanto VANDAL fala de arquitetura.


Ele observa construções antigas, as técnicas envolvidas nelas e contrasta essa diversidade com a sensação de que hoje todo mundo reproduz o mesmo “caixote quadrado”.


A comparação rapidamente chega à música, à fotografia e à arte. Para ele, olhar para trás não significa recusar tecnologia ou inovação. O ancestral também foi tecnológico em seu próprio tempo.


“Eu sou muito fã de arquitetura, então eu observo muito como a arquitetura abanhava a gente antigamente e como hoje em dia todo mundo está fazendo suas casas com um caixote quadrado ali. E todo mundo replica a mesma coisa. Então, na música é isso também.”

A crítica se estende ao presente. “Você não estuda mais a arte, você estuda o prompt”, diz, ao falar de um processo em que a ferramenta pode acabar substituindo a pesquisa que deveria existir antes dela.


VANGUARDAH nasce justamente dessa preocupação com pesquisa e cuidado. É nessa etapa que a trajetória de VANDAL encontra o maestro Ubiratan Marques e a Orquestra Afrosinfônica.


Mas ele faz questão de afastar qualquer leitura de que os arranjos entraram no disco para dar ao rap um selo externo de sofisticação.


“Eu não tô ali buscando validações europeias, ou então validações do jazz, ou do blues norte-americano, pra dizer que tem uma profundidade. Não. Eu continuei trazendo o que é meu ali.”

O que ele encontrou no maestro foi uma relação de convivência e escuta. Ubiratan conhecia VANDAL como pessoa antes de organizar musicalmente suas letras. Por isso, segundo o rapper, conseguia entender o que aquelas músicas precisavam.


“E eu tive a sorte do maestro Biratão Marques. Ele, por ter esse olhar diferente, entendeu o que as letras precisavam. Ele entendeu quem era o VANDAL por me conhecer como pessoa antes.”

Não houve, segundo ele, uma tentativa de chamar alguém depois que tudo estava pronto apenas para tornar o disco mais “erudito”.


“Não foi dado a ele e dito: ‘Maestro, aqui, dá um banho aqui que a gente vai fazer uma enganação pro povo.’ Então, o maestro e eu, a gente se falava muito. Ele me perguntava sobre as letras. Ele me contava histórias. Me contava do bairro de Pernambués, onde ele morou, que a família dele ainda mora, de como ele saía andando do Pelourinho pra Pernambués.”

As experiências de um começaram a atravessar as do outro. Histórias de bairros de Salvador, viagens, religiosidade e referências musicais entraram naturalmente nas conversas que davam forma ao álbum.


“Então, a construção do disco foi baseada em fatos reais. Eu acho que, quando ele foi entregando as ideias pra se banhar ali com a Afro-Sinfônica, ele foi pavimentando coisas da vida dele e fazendo em paralelo com a minha vida e com a forma que eu tenho de entrega de letras.”

O processo não acontecia apenas em reuniões formais. VANDAL lembra de conversas de camarim, de histórias contadas pelo maestro sobre viagens, África, Oriente Médio e experiências religiosas. O disco foi sendo construído enquanto a vida continuava.


“As entregas foram batendo com o dia a dia nosso. Quando eu ia fazer um show com Baiana, a gente parava ali no camarim e começava a falar do VANGUARDAH. E aí o maestro já contava uma história de quando ele viajou pro lado de África, Oriente Médio e tal.”

Essa convivência ajuda a entender por que a fé ocupa tanto espaço em VANGUARDAH.


Fé em movimento

A dimensão espiritual do disco não nasce como uma escolha estética pensada apenas para o projeto.


Quando VANDAL fala de fé, ele fala de algo que atravessa sua infância, sua avó, sua relação com Salvador e, principalmente, uma experiência de cuidado que mudou a forma como passou a olhar para as pessoas.


Sua relação com religião nunca foi linear. Ele conta que passou por diferentes experiências religiosas ao longo da vida.


Foi Testemunha de Jeová, frequentou os mórmons, esteve em igrejas e também em terreiros. Na Cidade Nova, lembra das festas de boiadeiro, dos carurus e de uma convivência cotidiana com diferentes formas de espiritualidade.


“Eu sempre tive meus mergulhos de fé. Eu fui Testemunha de Jeová, frequentei os mórmons, ia nas igrejas, frequentei os terreiros. Na Cidade Nova sempre teve os terreiros, sempre teve as festas de boiadeiro, os carurus e tal. Então a gente sempre foi mergulhado nesse lance sincrético.”
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

Mas a fé que aparece em VANGUARDAH ganha um sentido diferente quando a história chega à sua avó.


VANDAL foi criado por ela. Quando fala dessa relação, não aparece apenas uma figura familiar importante, mas alguém que ajudou a construir sua maneira de olhar para o mundo. Ele lembra de lavar roupa com a avó, carregar trouxas e acompanhar sua rotina. Até o gosto por moda ele relaciona a ela.


“Minha avó é a maior referência da minha vida. Eu fui menino criado com vó. Eu lavava roupa com minha avó. Esse gosto meu por moda vem da minha avó. A gente carregava trouxa de roupa e tal. É todo um contexto.”


É durante o adoecimento dela que a espiritualidade deixa de ser apenas uma tradição vivida ao redor e ganha uma dimensão concreta. VANDAL conta que passou por UPAs, discussões com médicos, seguranças e tentativas de conseguir uma regulação para a avó.


A situação começou a consumir também sua própria saúde. Sua pressão subia, ele tomava medicação e, aos poucos, diz ter perdido a paciência com as pessoas.


“Eu já não tinha mais esse amor. Eu tava perdendo o amor. Até as próprias pessoas. Eu não tinha paciência com as pessoas mais.”

A frase é importante porque ajuda a entender o que ele quer dizer quando fala depois de uma “fé palpável”. Não se trata de alguém chegando a um hospital já convertido por uma certeza religiosa. O que ele descreve é quase o contrário.


Estava cansado, revoltado e, nas palavras dele, “desgostoso da vida”.


A mudança acontece quando sua avó consegue uma regulação para as Obras Sociais Irmã Dulce, no Hospital Santo Antônio.


“Eu só consegui rever esse lance de fé e olhar as pessoas com outros olhos depois que minha avó teve a regulação para as Obras Sociais Irmã Dulce, ali pro Hospital Santo Antônio. Chegando lá eu consegui ver o que era essa fé palpável, essa fé em movimento que eu falo que tem no VANGUARDAH.”

A expressão “fé em movimento” talvez seja uma das chaves mais importantes para compreender a presença de Santa Dulce no disco. 


VANDAL não parece interessado numa espiritualidade sustentada apenas pela palavra ou pelo símbolo. O que o impressionou foi encontrar uma obra funcionando, gente sendo atendida e uma estrutura construída a partir de uma ideia de cuidado.


Durante o período em que acompanhou a avó, viveu aquele espaço de maneira intensa. Comia ali, passava dias no hospital e revezava os cuidados com a mãe. Não era uma visita rápida suficiente para transformar o lugar em imagem romântica. Ele estava dentro da rotina.


Eu comia lá. Eu vivia lá. Eu ia render a minha mãe. Aí ficava lá dois, três dias sem tomar banho, vivendo aquele processo ali. Então você acaba percebendo tudo o que está acontecendo ali. Ouvia as histórias.”

Essas histórias, segundo ele, começaram a alterar alguma coisa por dentro. A raiva foi dando espaço a outro tipo de percepção.


“Todas aquelas informações ali foram meio que entrando na minha cabeça, entrando em meu coração. E aí eu fui me amolecendo. Eu acho que também me preparando até o dia que eu perdi a minha avó.”

VANDAL chega a dizer que não sabe como teria reagido à morte dela se tivesse atravessado aquele processo em outro contexto. 


Estava num estado de revolta muito grande. A experiência nas Obras, segundo ele, produziu uma espécie de acolhimento que mudou esse caminho.


“Eu estava num senso de ódio mesmo, de revolta, de tudo ali. Só que quando eu entrei ali, eu falei: ‘Rapaz, eu tive um abraço ali, sabe?’ Eu criei um lance dentro de mim de dizer: existe um outro mundo dentro disso.”

Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)
Foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

É dessa experiência que Santa Dulce entra definitivamente na construção artística.


VANDAL conta que passou a sentir a necessidade de propagar aquela obra através daquilo que sabia fazer. Não se tornou médico, enfermeiro ou profissional daquela instituição. Sua ferramenta continuava sendo a música.


“Eu prometi que eu ia propagar a obra da Santa Dulce de alguma forma. Como é que eu vou fazer isso? Então, já que Deus me deu esse dom, essa dádiva de fazer arte, eu precisava entregar isso.”

A fé, portanto, entra em VANGUARDAH menos como ornamentação religiosa e mais como consequência dessa promessa. VANDAL deseja que o disco também possa criar momentos de oração fora de qualquer igreja.


“Essa fé vem ali dentro do disco. E ela vem também para entregar às pessoas, para as pessoas terem um momento de reza, de oração em casa. Esse disco vai pegar as pessoas assim também. Então essa fé vem comigo, vem da minha avó, vem desse estilo de vida que eu tive ali.”

Quando insiste na palavra “palpável”, ele volta ao mesmo ponto: a obra existe.


Para VANDAL, Santa Dulce não representa apenas uma figura venerada. Existe um hospital, existem pessoas atendidas, existe uma estrutura que permanece funcionando. A fé ganha materialidade porque produz alguma coisa no mundo.


“Quando eu digo essa fé palpável, é porque a obra está lá. Eu fui mudado por aquela obra. Eu tive lá, eu vivi aquilo. E está lá, a obra ajuda as pessoas. Ainda está lá, de pé, e ela se reinventa.”

Essa relação ajuda também a entender a escolha de celebrar o lançamento do disco no dia 13 junto às Obras de Santa Dulce. Ele conta ter ido para lá e percebido mais gente na procissão luminosa do que no ano anterior.


Também começou a receber mensagens de pessoas interessadas nas camisas de Santa Dulce que costuma usar. Para ele, se o álbum fizer alguém olhar para aquela história com mais atenção, parte da promessa já estará sendo cumprida.


“As pessoas vão ter um cuidado em olhar para essa coisa. Entender por que essa fé em movimento, por que essa fé palpável, por que esse milagre palpável. Então eu acredito que o VANGUARDAH também serve para isso. É eu pagando esse dízimo para esse conforto e essa paz que a Santa Dulce me deu.”

“Pagar o dízimo” aparece aqui sem a lógica tradicional de entregar dinheiro a uma instituição religiosa. O dízimo de VANDAL é a própria obra. É transformar aquilo que recebeu em música, imagem e memória.


Isso também aproxima a fé da mesma palavra que acompanha toda a entrevista: honestidade. 


A espiritualidade de VANGUARDAH não surge separada do menino criado pela avó, do jovem que frequentou igrejas e terreiros, do homem que perdeu amigos, da pessoa que se viu revoltada dentro de hospitais ou do artista que decidiu que sua música precisava carregar algo além de uma boa métrica.


Tudo se mistura porque, para ele, a construção do disco não parece existir separada daquilo que aconteceu na vida.


Talvez por isso a presença de Santa Dulce faça mais sentido quando colocada ao lado da história da avó do que quando lida apenas como referência religiosa. Uma conduz à outra.


Foi tentando cuidar da pessoa que chama de maior referência de sua vida que VANDAL encontrou uma obra que o fez reconsiderar a própria relação com o cuidado.


E isso muda também a leitura de VANGUARDAH. O disco não está apenas interessado em ancestralidade como passado ou em fé como símbolo. Está interessado em coisas que deixam marcas concretas.


Música tocada por gente, histórias transformadas em arranjos, uma obra social que continua atendendo pessoas e uma avó cuja presença continua atravessando a forma como um homem escreve, se veste e entende o mundo.


No fim, “fé em movimento” e a própria ideia de VANGUARDAH parecem se encontrar no mesmo lugar: não basta acreditar em alguma coisa. É preciso fazer essa coisa existir.


Essa lógica também ajuda a compreender a dimensão artesanal que VANDAL reivindica para o disco. A parte gráfica precisava conversar com o som. A fotografia precisava carregar intenção. Samples precisavam ter memória. Instrumentos não poderiam ser apenas ornamento.


Como ele próprio resume:


“É uma ode à arte feita com a mão, ao manual, ao cuidado, ao carinho, ao suor.”

Quando chegamos a VANGUARDAH, portanto, já havia muita coisa antes dele.


Havia os discos que o avô levava para casa, a pichação, o grafite, as festas de largo, os refrões pensados para bandas de pagode, o grime descoberto enquanto pesquisava outra coisa, os experimentos que faziam as pessoas olharem torto, a perda de um amigo e a decisão de mergulhar de corpo e alma na música.


Havia também uma insistência antiga em construir algo que não pudesse ser confundido com qualquer outra coisa.


Por isso talvez seja impreciso tratar VANGUARDAH como o momento em que VANDAL se tornou outro artista. O próprio rapper rejeita essa separação entre uma versão antiga e uma nova de si.


“É o mesmo VANDAL. É as mesmas letras. É o mesmo jeito de rimar, a mesma entonação. É a mesma urgência. É o mesmo peso de entrega.”

O que mudou foi até onde essa urgência conseguiu chegar.


Antes da Orquestra Afrosinfônica, ela já existia nas festas de largo. Antes da pesquisa ganhar o tamanho de um álbum, já existia no menino que procurava grafite na internet e acabou descobrindo o grime. Antes da fé se transformar em conceito dentro do disco, ela já atravessava a relação com a avó, as igrejas, os terreiros, o luto e o encontro com a obra de Santa Dulce.


Antes de alguém olhar para VANGUARDAH e dizer que havia ali conceito, VANDAL já insistia que sua música precisava carregar uma assinatura própria.


Quando alguém ouvisse, ele queria que soubesse.


Era VANDAL.


A VANGUARDAH veio depois.


A VERDADEH já estava lá.



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