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MEMÓRIAS SUBTERRÂNEAS: A Ditadura Militar e as Redes de Resistência em São João de Meriti


A história da Ditadura Civil-Militar no Brasil (1964-1985), frequentemente contada a partir dos grandes centros de poder, é um campo permeado por disputas na construção da memória coletiva brasileira.


E a Baixada Fluminense, embora tenha suas histórias muitas vezes marginalizadas, também foi palco de intensos conflitos políticos, vigilância e lutas populares. Investigar essas vozes dissidentes – mais especificamente, no município de São João de Meriti – é uma tarefa que pode contribuir para a reflexão sobre a identidade coletiva e o legado do regime nos debates contemporâneos.



Nesse sentido, será adotada uma metodologia baseada na história oral temática com cinco entrevistados anônimos da Baixada Fluminense nascidos até 1950 (funcionário público, militar e trabalhadoras do lar), tendo como objetivo revisitar esse acontecimento a partir de memórias subterrâneas, comparando com a historiografia sobre a Ditadura Militar em um contexto nacional.


Os relatos revelam a pluralidade de percepções sobre o regime. Resgatar essas lembranças é fundamental para desconstruir a narrativa hegemônica que tentou apagar o protagonismo da população meritiense.


O Dia do Golpe nas Ruas de Meriti


O dia 31 de março de 1964 – ora chamado de “revolução” por apoiadores, ora de “golpe” por opositores – representa um fato histórico em constante disputa narrativa na memória coletiva brasileira. O regime autoritário tentou impor uma fachada de “normalidade” em São João de Meriti. Mas o período foi, na verdade, atravessado por profundas perseguições e por uma corajosa articulação de movimentos sociais.



Longe dos gabinetes de Brasília, o impacto nas ruas de São João de Meriti foi de imediata agitação social. A memória de uma moradora da cidade revela que o anúncio militar coincidiu com um cenário caótico no município: houve atos de vandalismo e saques a estabelecimentos comerciais, lojas foram destruídas em meio à confusão. Ademais, uma grande aglomeração de pessoas tomou conta do centro da cidade, refletindo a instabilidade e a tensão daquele momento histórico. Além disso, um funcionário da prefeitura afirma que foi marcado por deposições, dessa forma, a memória que predominava para tal era o silêncio.


A Máquina de Vigilância e o Cotidiano do Medo


Com a consolidação do regime e a instauração do bipartidarismo (ARENA e MDB), o governo militar tratou de tutelar a oposição e controlar a rede de poder local por toda a Baixada Fluminense. Para silenciar quem pensava diferente, o Estado mobilizou o Serviço Nacional de Informações (SNI) e o DOPS, que passaram a monitorar, classificar e neutralizar opositores na região.


A repressão não era uma realidade distante. O medo batia à porta dos meritienses.



Entrevistas com testemunhas contemporâneas revelam como o autoritarismo invadiu o cotidiano. Um funcionário público municipal relatou ter presenciado diversas prisões acontecendo no próprio ambiente de trabalho, dentro da prefeitura de São João de Meriti. Além disso, houve relatos de moradores que presenciaram a prisão de vizinhos apenas por manifestações políticas. Em um caso emblemático do silenciamento imposto pelo medo, uma vereadora de São João de Meriti foi presa pelo regime e, após o episódio traumático, abandonou definitivamente a vida política.


O Berço da Resistência na Baixada


Apesar da censura, das cassações e do monitoramento constante, São João de Meriti não foi apenas um território de repressão. Foi um polo ativo de resistência política e cultural. Lideranças locais e a população se organizaram para lutar contra a rede de poder hegemônica e exigir direitos básicos, como políticas públicas de saneamento. Entre as principais forças que desafiaram a ditadura no município, destacam-se:



  1. A Igreja Católica Progressista – as dioceses e o clero progressista desempenharam um papel crucial, abrigando e escondendo perseguidos políticos, que acabaram se transformando em importantes atores de luta na cidade;


  2. Movimentos Operários e Sociais – a Juventude Operária Católica (JOC), a Pastoral Operária e associações comunitárias, como os Amigos do Bairro de Meriti (ABM), foram agentes políticos essenciais na mobilização popular;


  3. iii) Militância de Esquerda – militantes comunistas e grupos como a Ala Vermelha (PCdoB-AV) e o Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) atuaram fortemente na região. Em 1970, o SNI chegou a registrar o desmantelamento de um núcleo do PCBR operando dentro de Meriti.


Essas memórias, ao mesmo tempo em que são registros históricos, também são fabricadas pelo tempo, pelas narrativas dominantes e pelas interpretações culturais do período. Nesse sentido, lembrar desses movimentos que lutaram contra o regime na cidade é um resgate essencial para a resistência.


Portanto, compreender essas diferentes perspectivas é essencial para refletir sobre a formação da identidade coletiva brasileira e sobre como a história oficial convive com memórias individuais e conflitantes. A ditadura militar não é apenas um evento histórico, mas um legado cujas interpretações continuam a influenciar debates sobre democracia, justiça e cidadania no Brasil contemporâneo. Desse modo, é necessário lembrar que ainda resistimos contra a estrutura e lastro do regime militar que estão presentes na Polícia Militar, Barões do Extermínio (Milícias) e a estrutura política dominante na cidade.


Por que Lembrar?


A ditadura tentou enraizar seu domínio transmitindo uma falsa perspectiva de tranquilidade enquanto perseguia seus opositores. Hoje, as “memórias subterrâneas”, aquelas guardadas por trabalhadores do lar, funcionários públicos e militantes da Baixada, vêm à tona para disputar a história oficial.


Lembrar das lutas travadas em São João de Meriti é reivindicar a dignidade de quem não se calou e mostrar que a resistência, mesmo nos anos de chumbo, pulsava forte nas esquinas da Baixada Fluminense.



REFERÊNCIAS


A BAIXADA Fluminense na ditadura. In: NASCIMENTO, Álvaro Pereira do; BEZERRA, Nielson Rosa (org.). De Iguassú à Baixada Fluminense: história de um território. Curitiba: Appris, 2019.


BASTOS, Gabriel Souza. Memória e resistência camponesa em tempos de repressão na Baixada Fluminense. 2022. 372 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade) – Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2022.


LARA, Jéssica Roberta. Crítica Social através das charges no Jornal da Baixada (1979 – 1980) e o papel dos comunistas neste contexto. 2017. 48 f. Trabalho de Conclusão de Curso (Licenciatura em História) – Instituto Multidisciplinar, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, 2017.


LEITE, Valéria et al. Experiências de pesquisa com trabalhadoras e trabalhadores por meio de fontes orais na História Social: caminhos e possibilidades. História Oral, [S. l.], v. 23, n. 2, p. 243-258, 2020.


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MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Em guarda contra o perigo vermelho: o anticomunismo no Brasil (1917-1964). São Paulo: Perspectiva, 2002.


NEVES, Lucilia de Almeida. Memória, História e sujeito: substratos da identidade. História Oral, [S. l.], v. 3, p. 109-116, 2000.


POLLAK, Michael. Memória e identidade social. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, 1992.


POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos, Rio de Janeiro, v. 2, n. 3, 1989.


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SALES, Jean Rodrigues; SILVA, Lucia Helena Pereira da (org.). A Baixada Fluminense e suas cidades: uma contribuição para a pesquisa e o ensino de história da região. Cachoeirinha: Fi, 2025. v. 1.


SALES, Jean Rodrigues; SILVA, Lucia Helena Pereira da (org.). A Baixada Fluminense e suas cidades: uma contribuição para a pesquisa e o ensino de história da região. Cachoeirinha: Fi, 2025. v. 2.

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