AS FRONTEIRAS DA COPA DO MUNDO DE 2026
- Ryan Augusto

- há 9 minutos
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Como a Política Migratória dos Estados Unidos representa uma fratura na Promessa Cosmopolita do Futebol
Autores: Ryan Augusto e João Vitor Nunes (@otojaum)
A Copa do Mundo de 2026, embora sediada pela América do Norte como um todo, foi realizada majoritariamente nos Estados Unidos da América.
Dos 104 jogos previstos, 78 ocorreram em solo estadunidense, o que confere ao país uma centralidade incontornável na organização do torneio. Essa centralidade, contudo, revela uma contradição profunda com o simbolismo do futebol.

O futebol é indiscutivelmente o esporte mais popular do mundo, dominando com folga o cenário global quando comparado a qualquer outra modalidade.

Isso se deve a diversos fatores, que vão desde seu caráter inclusivo — afinal, basta uma bola e algum espaço livre para o jogo acontecer —, até sua relevância na formação cultural de nações periféricas em geral, e do Brasil em particular.
Trata-se, por óbvio, também de um fenômeno econômico-midiático capaz de movimentar bilhões de dólares por meio de ligas, patrocínios e eventos como a Copa do Mundo, que segue quebrando recordes sucessivos de audiência.
A Copa do Mundo, nesse sentido, apresenta-se como o apogeu do mundo futebolístico, a apoteose do universo da bola e a expressão máxima da universalidade própria ao esporte.

Mais do que uma competição entre seleções, o torneio representa o encontro entre os melhores jogadores do planeta e as nações, culturas e imaginários que eles carregam consigo.
Em cada partida, não se enfrentam apenas esquemas táticos ou capacidades técnicas, mas também tradições esportivas, histórias nacionais, formas de torcer e modos distintos de compreender o próprio futebol.
É um acontecimento que condensa a promessa de que é possível reunir diferenças sob um mesmo código, ainda que atravessado por disputas e ambivalências.

Não seria exagero dizer que a Copa do Mundo se apresenta como uma das mais expressivas representações contemporâneas da união entre os povos e de uma certa pretensão cosmopolita.
Em sentido próximo ao horizonte kantiano, o torneio projeta a ideia de uma comunidade universal fundada no encontro entre nações distintas, não pela dissolução de suas diferenças, mas pela possibilidade de convivência, reconhecimento e participação em um mesmo espaço simbólico.

A Copa encena, ainda que de modo provisório e imperfeito, a promessa de um mundo no qual a pluralidade dos povos pode ser reunida sob regras compartilhadas, em torno de uma linguagem comum e de uma experiência coletiva que ultrapassa fronteiras — o futebol.
Porém, todo o ideal parece ter se esvaziado ao se materializar em solo estadunidense. Qual o sentido de realizar a Copa do Mundo em um país sob o (des)governo de um grupo político avesso ao estrangeiro? Ainda restará algo dessa promessa cosmopolita do futebol?
Os EUA, a nação do American Dream, receberam o maior evento esportivo do planeta justamente no momento em que esse imaginário se encontra corroído por uma política de fechamento, suspeição indiscriminada e perseguição migratória.

Essa corrosão aparece, sobretudo, na centralidade conferida ao ICE, sigla para U.S. Immigration and Customs Enforcement, agência federal responsável pela aplicação das leis de fronteira, alfândega, comércio e imigração nos Estados Unidos.
Em tese, trata-se de um órgão administrativo de controle do fluxo migratório.

Na prática política do trumpismo, entretanto, o ICE passou a funcionar como instrumento ostensivo de intimidação social, vigilância territorial e produção de medo entre comunidades migrantes, assumindo aquilo que seus críticos poderiam chamar, sem grande exagero retórico, de uma espécie de gestapo trumpista.
Assim, a política migratória deixa de se limitar à gestão de fronteiras e passa a operar como técnica de governo que busca converter o imigrante em inimigo interno e a diferença nacional em ameaça à segurança pública.
A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa que essa política não se restringe ao discurso.

Desde o retorno de Trump ao poder, houve intensificação das prisões, ampliação das operações de enforcement, aumento expressivo de detenções de pessoas sem acusações ou condenações criminais e tentativa de retirar status legal de centenas de milhares de imigrantes, inclusive por meio da revisão de programas humanitários e de proteção temporária.
O mesmo país que sediou a maior parte de uma Copa fundada na circulação de seleções, torcedores, línguas, bandeiras e culturas, reforça internamente um aparato de contenção, expulsão e criminalização da mobilidade humana.

Nesse sentido, a Copa de 2026 não só celebrava a promessa cosmopolita do futebol, como expôs a fratura entre o universalismo simbólico do espetáculo e a política concreta de exclusão que marca o presente estadunidense.
O caso do árbitro somali Omar Abdulkadir Artan tornou-se um dos emblemas mais evidentes dessa fratura.
Escolhido para atuar na Copa do Mundo, Artan poderia se tornar o primeiro somali a apitar no maior torneio do futebol mundial, inserindo sua trajetória pessoal e nacional na narrativa de universalidade que o próprio evento pretende representar.
No entanto, foi impedido de entrar nos Estados Unidos sob a justificativa genérica de preocupações relacionadas à segurança nacional.
A Federação Somali afirmou não ter recebido explicação oficial suficiente, enquanto a FIFA limitou-se a declarar que não controla os processos migratórios do país anfitrião.
O episódio é revelador porque desloca a contradição do plano abstrato para uma cena concreta.
Não se trata apenas de discutir, em tese, a tensão entre futebol, cosmopolitismo e política migratória, mas de observar um agente do próprio jogo ser barrado antes mesmo de chegar ao campo.
Um torneio que se apresenta como celebração da união entre povos, da circulação de culturas e da convivência entre diferenças, encontrou na política migratória do país-sede um limite material e burocrático à sua promessa universalista.
Aquele que deveria integrar o espetáculo global como representante da arbitragem africana e somali foi convertido, na fronteira, em mero objeto de suspeita.

A Copa que pretende reunir o mundo viu um de seus personagens ser excluído justamente no ponto de entrada do país que se anunciava como anfitrião.
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