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Akira Presidente: do corre à herança, do Fa7her ao Big Fa7her

  • Foto do escritor: Pivete
    Pivete
  • 18 de set
  • 6 min de leitura
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No dia 27 de agosto, fim de tarde, cheguei em casa depois de dar aula pra uma turma de sétimo ano. Liguei o Meet às cinco, e do outro lado da tela, na própria casa, estava Akira Presidente.

Entre nós, a ponte era simples: da sala de aula às margens da Grande Vitória para o rapper carioca que atravessou mais de uma década transformando a vida pela música. A atmosfera era íntima, quase familiar. De um lado, eu ainda com a cabeça de sala de aula; do outro, ele falando de um disco que é mais que música – é herança, resistência e permanência.



BIG FA7HER nasce de uma dívida com o passado, mas também de um compromisso com o presente. Akira me disse direto:


“Cara, então, Pivete, eu acho que assim... Eu sou muito grato à geração, como eu falo assim, à geração de 2016, sabe qual é? (...) Demorei para ser mais entendido, tá ligado? Então, quando eu parei para pensar nesse próximo passo, na produção do Big Father, no caso, tá ligado? (...) Esse disco tem que ser um obrigado, tá ligado? (...) Não diria o resgate, porque as pessoas que me abraçaram estão comigo até hoje. Então é isso: eu nunca deixei de ser ouvido depois que eu comecei a ser ouvido, tá ligado? Acho que é um luxo que pouquíssimos artistas podem se dar.”

Esse “obrigado” se materializa em dez faixas que transitam entre boombap e trap, costurando perdas e conquistas, fé e luta. Mas antes de falar de música, Akira insiste em falar da vida – porque nesse corre a biografia é parte da obra. Ele recorda:


“Ele foi um disco que caminhou muito comigo desde o final da pirâmide, tá ligado? Ele em 2020... aí entra a pandemia, aí perdi meus pais, sabe qual é? Me mudei, vim morar em Búzios com a minha mulher e com a minha filha. Nós por nós. Tu sai da tua área, caralho, é um salto de fé, tá ligado? No escuro ainda, de venda. Que tu não sabe onde tu vai parar, mano.”

Scanner: 35mm @eon.bill
Scanner: 35mm @eon.bill

O que Akira chama de salto de fé, eu leio como resistência.


 No meio do luto e da mudança, o disco não foi só um processo criativo, mas sobrevivência. A Intro é a ferida aberta:


“É um lado meu mais vulnerável, tá ligado? É um lado meu que eu... porra, mano, nem acesso tanto. Eu precisei ter uma faixa que eu deixasse sangrar, tá ligado? Deixar mostrar que tem sangue aqui. (...) Só que foi onde eu também pude fechar a porta. Não deixei de sofrer o que eu sofro, o que eu perdi é uma perda.”


E logo depois vem a contradição, a celebração em First Class:


“Calma aí, tá ligado? O bagulho do lado da praia, porra, churrasco de fumaça todo dia, na minha casa. Consegui comprar um terreno, consegui levantar a minha casa, tá ligado? É minha. Pô, tem uma piscina. Sonhei a minha vida inteira. Tem uma piscina pequena, mas é minha.”

Esse contraste é o coração do disco: a favela que chora e brinda ao mesmo tempo. O preto que perde e reconstrói.



Mas o que mais atravessa BIG FA7HER é a família. Em Éramos Reis, Akira canta junto com a esposa Ainá e a filha Nandi. Quando fala disso, o tom é de descoberta:


“Eu só fui entender o quanto é ser gangsta em casa, tá ligado? Muito mais do que na rua. Porque, mano, é ser leal. A gente fala que mata e morre pelos nossos irmãos... mas, mano, em casa é onde você mais precisa estar forte, ativo, protegendo os outros. (...) Eu aprendi a ser respeitado sem ser agressivo, a ser ouvido às vezes sem ter que gritar.

O rap, nesse caso, não é só arma de denúncia, mas também berço de afeto. A filha, Nandi, o move a pensar em herança de outra forma:


“Eu acho que uma criança, uma mulher, uma menina negra, tá ligado? Tá num lugar caro e se sentir à vontade... essa é a real mensagem do bagulho. Nós éramos reis, eles tentaram apagar essa herança. Então, assim, a gente até como rap demorou a abraçar a riqueza, tá ligado? Como conquista pessoal. De não ter vergonha de ser feliz ou de dar algo melhor pros nossos filhos.”

Scanner: 35mm @eon.bill
Scanner: 35mm @eon.bill

É nessa linha que ele bate contra a lógica neoliberal do “vencer sozinho”:


“Eu não rimo pra dizer que eu sou invicto, tá ligado? A minha rima diz sobre perder. Tem algumas derrotas no cartel e alguns nocautes, tá ligado? Derrubando outros, sabe? Então, como eu falei, é perder e ganhar.”

Na conversa, senti que Akira não vende ilusões. Ele não alimenta o sonho de riqueza instantânea, não joga a quebrada numa corrida sem fim. O que ele propõe é permanência, consciência, chão firme. 


BIG FA7HER não é só música, é rito de passagem – do Father para o Big Father, do corre para o legado.


Akira fala de compromisso. Em vários momentos da conversa, ele voltava à ideia de não se descolar da base, de não vender ilusão pra quem acompanha sua trajetória:


“Eu sinto que eu tenho essa obrigação, tá ligado? De criar minha filha à vontade, com uma vida melhor do que ela tem. Mas eu não quero que ela fique presa na vida que eu tive. Eu não quero que ela se preocupe com a conta. Mas também não quero criar uma pessoa que acha que tudo o que é caro é o melhor, tá ligado? (...) Eu quero falar não pra ela por educação, não por falta de grana.”

Scanner: 35mm @eon.bill
Scanner: 35mm @eon.bill

A fala carrega uma denúncia implícita: a precariedade que marca as vidas negras e faveladas, mas também o risco de cair na armadilha de um luxo sem consciência. Akira não romantiza a miséria, mas também não glamouriza a ostentação.


Ele amplia essa crítica quando fala da cena do rap e dos discursos que se perderam no individualismo:


“A gente rima sobre estar bem, tá ligado? Sobre ter. Mas não sobre ser um idiota porque virou milionário, tá ligado? Ou descolar da realidade de quem te ouve. (...) A gente tem que parar de correr atrás, a gente tem que estar mais à vontade em novos lugares, valorizar o que a gente conquista, não banalizar as nossas vitórias.”

O rapper sabe que sua rima é também gesto político.


Num país onde a felicidade preta é frequentemente criminalizada, cantar sobre estar bem já é resistência. Mas ele não deixa de lembrar o peso de cada conquista:


“Eu não sou uma pessoa perfeita, tá ligado? (...) A gente não pode se permitir não querer estar bem, mas também não pode largar de lado o quanto é lutar pra estar bem. Então a minha herança é isso: minha rima é sobre perder, é ganhar, é continuar ganhando simplesmente pra não perder de novo.”


No fim, o que fica é que BIG FA7HER não é só o nome de um disco, mas uma filosofia de vida. Um jeito de dizer que a luta não termina no corre da rua, mas segue em casa, na educação da filha, no respeito à companheira, no compromisso com a comunidade.


“Quanto mais a gente puder estar à vontade em novos lugares, melhor. Representatividade, tá ligado? A gente não ser só o garçom, não ser só o cara que estaciona o carro. Eu vou em lugares que, mano, eu dou boa noite e o cara quase cai, porque ninguém fala com a rapaziada. Isso é bizarro. E se eu não preparar a minha filha, vão querer transformar ela em uma pessoa invisível também.”

Esse relato carrega a denúncia do racismo estrutural: a normalização da invisibilidade preta em espaços de consumo e luxo. Mas ao mesmo tempo afirma uma contra-herança: educar a filha para não se sentir deslocada, para entender que também pertence a esses lugares.


A crítica de Akira vai além da vivência pessoal.


Ele cutuca o modelo de felicidade vendida como mercadoria, essa lógica que faz da festa um fim em si mesmo:


“Eu acho cruel a gente criar um nível de preço, precificar a felicidade. O moleque tem que dar um jeito de gastar dois contos num baile. Isso não existe, mano. Eu falo pros caras: pega e compra a passagem, viaja. Eu te pego um hotel foda, mano. Não faz sentido. Só que é parte da propaganda, é parte do estar bem, tá ligado?”

Scanner: 35mm @eon.bill
Scanner: 35mm @eon.bill

No rap, essa postura é escolha política.


Não vender sonho inalcançável, não transformar a quebrada em público-alvo descartável. Akira não quer ser ícone de invencibilidade, mas testemunha de quem perdeu, caiu e levantou.


“Minha herança é isso: um artista que perdeu muito, seguiu lutando pra continuar ganhando também o que teve.”

Escutar de BIG FA7HER é como voltar pra rua depois de uma conversa longa: você sai atravessado, mas também fortalecido. O disco costura luto, gratidão e sobrevivência. Mais do que beats, é memória viva, memória preta.



Quando desliguei o Meet naquele fim de tarde de agosto, ficou a sensação de que Akira tinha me dado mais que respostas tinha me entregue um espelho. BIG FA7HER é exatamente isso: um reflexo da vida preta no Brasil, entre a dor e a festa, entre a rua e a casa, entre o pai e o big father.


A entrevista que começou como papo sobre música terminou como aula sobre política cotidiana — essa que se vive na pista, nas famílias pretas, nos improvisos da sobrevivência. Akira, no fim das contas, reafirma o que disse logo no começo: o álbum é um “obrigado”. 


Mas não é um obrigado vazio. É um chamado para lembrar que, mesmo no meio da dor, ainda há quem construa legado.




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