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Mateus Fazeno Rock: Há mais para querer da vida

há 2 horas
5 min de leitura

Em conversa, Mateus Fazeno Rock revisita sua trajetória, fala sobre território, referências e os caminhos que ainda quer construir



Uma casa onde caiba a própria vida, algum sossego, tempo para estar com quem se ama, um pedaço de terra para cultivar plantas, envelhecer com tranquilidade. Desejos tão comuns que parecem pequenos, até que se perceba o quanto podem estar distantes.


E, se tais pretensões beiram o impossível, talvez seja porque aprendemos a naturalizar uma vida marcada por privações e escassez.


Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

Uma geração que precisa cedo negociar sua força de trabalho em troca de algum dinheiro e logo percebe que essa troca não é justa, que vive entre jornadas que consomem quase todo o dia, escala 6x1, horas extras e contas que não param de chegar, o descanso vira uma sobra e as vontades intrínsecas vão sendo empurradas para um “quando der” que parece nunca chegar.


Trabalha-se cansado, descansa-se pensando no trabalho e até o tempo livre parece precisar de justificativa.


Larissa Ribeiro. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Larissa Ribeiro. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

Por isso, desejar o ordinário também é reivindicar aquilo que deveria ser acessível a todos, e é nesse espaço entre o que parece simples e o que se tornou difícil de alcançar que Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem (2025), terceiro álbum de Mateus Fazeno Rock, constrói sua ideia de prosperidade a partir de desejos palpáveis.



Mas LNZTQVB não chega a essas questões abandonando o que veio antes. Ao falar sobre a relação entre os três discos, Mateus apresenta a ideia de uma “sobreposição de camadas”.


Rolê nas Ruínas (2020), Jesus Ñ Voltará (2023) e Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem (2025) não formam uma sequência em que um sofrimento é finalmente superado para dar lugar a uma suposta felicidade, são diferentes maneiras de olhar para um território que nunca foi uma coisa só.


A força de Mateus está também em não permitir que sua obra seja resumida a uma única imagem da periferia, ao lado das ruínas existem celebrações, referências, memória, criação e desejo.


Ser artista custa caro, mais caro ainda é não sê-lo


Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Durante o bate-papo, Mateus fala sobre os desafios de construir uma vida como artista e define esse caminho como uma faca de dois gumes: a arte é, ao mesmo tempo, exercício de autoconhecimento, necessidade espiritual e exercício político, mas exige sustentar materialmente uma vida que nem sempre oferece garantias.

Quando questionado sobre as dificuldades de seguir uma carreira artística, Mateus fala da audácia necessária para escolher esse caminho, especialmente para quem vem de um território periférico e racializado.


O desejo de viver de arte, assim como o desejo de viver bem, precisa enfrentar as condições concretas que existem ao redor.


“Que coisa linda, a vida não é justa”, trecho da faixa “Mercado das Miudezas”, uma das que ganhou mais força nas apresentações ao vivo, parece condensar uma das contradições centrais de LNZTQVB, reconhecer as durezas da vida sem deixar que elas eliminem a possibilidade de imaginar e acreditar em novos horizontes.


Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

O trecho não aparece como uma conclusão pessimista, muito pelo contrário.


Se a vida não é justa, visualizar outras perspectivas dentro dela passa a ser uma forma de não aceitar que a falta seja o único destino possível, e o disco consegue sustentar essa contradição sem resolvê-la, o que talvez seja uma de suas características mais interessantes.


Jocasta. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Jocasta. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

O que se aprende ao redor


Ao falar sobre seu despertar artístico, Mateus fala sobre a influência de vizinhos músicos e a participação crucial nos saraus organizados pela Célula de Resistência Popular, da Brigada Antônio Conselheiro, no bairro Sapiranga. Suas referências passam por Luiz Gonzaga, Gilberto Gil, Mateus Aleluia, Racionais MC’s, Facção Central, Criolo, Emicida e o rock, especialmente o grunge e a poesia metafórica do Nirvana.


O artista também cita o poeta Talles Azigon e a cantora Má Dame, seus conterrâneos, como nomes fundamentais no início de sua carreira. Mateus nos mostra que a formação de um artista não acontece apenas pela descoberta de grandes obras ou nomes consagrados, mas também pelas pessoas que estão produzindo ao redor, compartilhando espaços, ideias e possibilidades.

Tais referências não aparecem como fronteiras rígidas, elas se misturam e encontram novas formas quando chegam à música de Mateus.


E essa circulação continua acontecendo, em apresentações de LNZTQVB, o artista levou consigo nomes da cena local, como Mumutante e o DJ Viúva Negra, que abrilhantaram diferentes performances ao vivo do álbum.


Mumutante. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Mumutante. Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

É a partir dessa movimentação que falar sobre território ganha outra dimensão, para Mateus, dar visibilidade a esses espaços é uma forma de enfrentar processos de apagamento cultural, mantendo vivas as memórias, gírias, costumes e saberes da comunidade através da arte.


Quem pode fazer rock?


É dessa partilha que surge a ideia de rock de favela, não como uma adaptação de um gênero que viria de outro lugar, mas como uma forma própria de fazer rock a partir do território e das experiências dos artistas que integram o FZNRCK.


Grunge, punk, rap, reggae, dub, R&B e funk se encontram nessa mistura, formando uma sonoridade que não precisa seguir fronteiras rígidas para se afirmar como rock.


Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

Essa ideia desloca o lugar de onde o gênero costuma ser pensado, a questão passa menos por caber no que já foi definido como rock e mais por ampliar quem pode produzi-lo, transformá-lo e dizer o que ele pode ser.


A favela deixa de ocupar o lugar de quem recebe uma cultura construída em outros espaços e passa a ser também um lugar de criação, invenção e definição dos caminhos do rock.


Uma nova camada


Agora, um novo disco começa a tomar forma, Mateus conta que o próximo trabalho, com previsão de lançamento para 2027, vem sendo construído a partir de oito meses de ensaios com outros músicos no Ceará.

Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

O artista destaca que, diferentemente da produção de LNZTQVB esse novo processo busca focar na construção coletiva, com músicos tocando juntos e priorizando arranjos instrumentais.


Mateus conta que o objetivo é ser livre para explorar diferentes influências, sem que o público espere algo específico, mantendo a versatilidade na criação.


Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)
Foto por Jorge Silvestre (@jorgesilvestr)

Depois de três trabalhos que encontraram maneiras diferentes de falar sobre o mesmo território sem esgotá-lo, a expectativa pelo próximo disco também nasce dessa capacidade de Mateus de não se repetir. Rolê nas Ruínas, Jesus Ñ Voltará e Lá Na Zárea Todos Querem Viver Bem construíram, cada um à sua maneira, obras marcantes e cheias de personalidade.


Agora, uma nova formação, novos arranjos e outras possibilidades sonoras começam a se desenhar. Se cada disco adicionou uma camada à trajetória, fica a curiosidade, e a vontade, de descobrir o que Mateus Fazeno Rock vai acrescentar à sua obra.





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