Os Debutantes: a infância que o Estado não quer proteger
- Pivete

- 26 de mai.
- 3 min de leitura

Debutantes nasce no extremo da Zona Norte de São Paulo, mas não tenta vender a quebrada como cartão-postal da miséria. O curta olha pra favela de dentro, sem exotizar, sem transformar trauma em espetáculo.
E talvez seja justamente aí que mora a força do filme de Vanderlei Junior, o Deley - cria do Jardim Fontalis que resolveu animar aquilo que quase nunca ganha espaço nas animações brasileiras: infância preta, periférica e atravessada pela pressa de sobreviver.

Tité e DiMenó são os moleques centrais dessa caminhada. Dois menós que ainda brincam na rua, mas já carregam nas costas o peso que muita gente adulta não aguentaria. Enquanto um tenta imaginar alguma saída possível, o outro já entendeu cedo demais como o mundo costuma tratar corpos negros e periféricos.
“Debutantes” não tenta responder tudo. O filme prefere incomodar. E faz isso sem precisar cair naquela estética cansada da violência explícita. Deley fala sobre isso durante a entrevista, quase como quem tá cansado de ver a favela sempre retratada da mesma forma:

“Nós já estamos cansados de ver violência, o fetiche da violência ligado à favela, mano. Porque não é só isso. Não é só violência, não é só escassez, não é só tristeza. Nós temos muita coisa rica, muita coisa feliz, muita coisa mágica na quebrada.”
O mais pesado é perceber que o filme fala sobre infância justamente mostrando como ela vai sendo roubada cedo. As conversas dos personagens parecem conversa de homem velho preso num corpo de criança. Futuro, dinheiro, crime, responsabilidade, medo. Tudo chegando antes do tempo.
E o Deley bate muito nessa tecla durante a conversa. Pra ele, a adultização das crianças de favela é uma parada estrutural, quase automática.
“As crianças de quebrada assumem responsabilidades muito cedo.”
Em outro momento, ele aprofunda ainda mais:
“Eu comecei a trabalhar muito cedo. Isso me privou muito da minha infância. Até hoje eu sinto resquícios disso.”
Tem uma parte muito forte quando ele fala que a sociedade simplesmente para de enxergar crianças periféricas como crianças. Vira “menor”, “cria”, “pivete”, qualquer coisa - menos criança.
E talvez por isso “Debutantes” seja tão subversivo. Não porque quer chocar. Mas porque insiste em humanizar quem normalmente aparece só como estatística, suspeito ou cenário.

O próprio Deley entende o filme assim:
“É subversivo pro mercado, pro público e pra minha quebrada também.”
Pro mercado porque desafia a lógica da animação infantil plastificada. Pro público porque quebra a expectativa de quem espera só violência quando vê favela na tela. E pra quebrada porque mostra nuances que muitas vezes nem os próprios moradores percebem no cotidiano.
“Eu vi na cara de vários manos que assistiram: ‘caralho, eu nunca vi minha quebrada dessa forma’.”
A estética do filme também nasce dessa intenção de respeito. Tudo ali foi pensado pra não transformar trauma em consumo visual. A sequência da perseguição policial, por exemplo, foi uma das partes mais difíceis emocionalmente pra equipe.

“A gente teve cuidado de não enquadrar os menor e o policial no mesmo quadro.”
Mesmo sem mostrar arma, sangue ou morte explícita, o peso continua ali. Porque quem vive essa realidade não precisa que expliquem demais. O corpo já reconhece a tensão.
E isso atravessa até a discussão sobre classificação indicativa. O filme recebeu +16, algo que incomoda profundamente o diretor.
“Debutantes não tem nada que as crianças já não vejam na rua.”
Essa talvez seja uma das frases mais brutais da entrevista inteira.
Porque no fundo o Brasil aceita que crianças periféricas convivam diariamente com violência real, mas estranha quando elas aparecem refletindo sobre isso numa obra artística.

A produtora MandaBusca surge justamente desse incômodo. Criada por jovens periféricos, a ideia sempre foi produzir narrativas que falassem da quebrada sem maquiagem e sem caricatura. Não por acaso, Deley insiste que quase toda a equipe vinha de contextos parecidos.
“99% das pessoas que estavam trampando eram do contexto de favela.”
E isso muda tudo. Muda o olhar. Muda a sensibilidade. Muda até o jeito de construir personagem.
Pra Deley, falta justamente isso no cinema tradicional:
“Tem que ter pessoas que vivem essa realidade trampando nessas produções.”
Senão vira só mais uma obra olhando a favela de fora pra dentro.
O pósfácio com Emicida fecha o curta quase como um abraço entre gerações do Jardim Fontalis. Não é participação jogada pra marketing. Existe pertencimento ali. Emicida cresceu no mesmo território, reconheceu aquelas vivências e decidiu somar.
“O estúdio fica a poucos metros do primeiro palco que subi na vida”, disse o rapper sobre o projeto.
No fim, “Debutantes” parece muito menos preocupado em ensinar alguma lição e muito mais interessado em deixar uma pergunta atravessada na cabeça de quem assiste: quantas infâncias pretas e periféricas o Brasil continua enterrando antes mesmo delas começarem direito?

E o filme faz isso do jeito mais quebrada possível: sem pedir licença, sem romantizar dor e sem transformar pivete em metáfora bonitinha pra festival europeu aplaudir e esquecer depois.
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